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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSAD Dol RI S 


ÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 


IV 


HISTÓRIA DAS GRANDES IDEIAS 
DO MUNDO OCIDENTAL 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


e COPYRIGHT MUNDIAL 1972 — ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL 
caixa postal 2372 — SÃO PAULO — BRASIL 


Composto e impresso em oficinas próprias da 
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL 
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“arilena de Souza Chauí Berlinck — Husserl 
Merleau - 
Ponty 
Sartre 
Heidegger 
Lévi-Strauss 

rablo Ruben Mariconda — Willham 
Ja 

| Dewey 

*aulo Eduardo Arantes — Benjamin 
Horkheimer 
Adorno 
Habermas 

-*auio Israel Singer — Keynes 
Kalecki 
Sraffa 
Robinson 

- Solpho Azzi — Skinner 

- «a Maria Stefanini Macedo — Piaget 


SUMÁRIO 


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OS PENSADORES 


s filósofos norte-americanos fize- 
ram alguma contribuição origi- 
nal para a história da filosofia? 

Essa pergunta é feita por Paul Kurtz, 
um dos mais categorizados historia- 
dores das idéias na América do Norte, 
como questão preliminar de toda a visão 
geral do pensamento no Novo Mundo. 
Desenvolvendo o tema, Kurtz afirma que 
nenhuma generalização pode dar conta 
do problema, pois o pensamento norte- 
americano tem sido pluralístico, isto é, 
receptivo a uma grande variedade de 
temas e movimentos, desde o purita- 
nismo e idealismo dos primeiros coloni- 
zadores até o naturalismo e o positi- 
vismo dos séculos XIX e XX. Qualquer 
fórmula que pretendesse reduzir esses 
diversos elementos a uma tradição uni- 
forme correria o risco de envolver 
simplificação extremada. 

Herbert W. Schneider, outro especia- 
lista em história da filosofia norte-ame- 
ricana, afirma: “Nossas mais airosas 
tradições recendem a inspiração estran- 
geira”. Ainda segundo Schneider, “fran- 
ciscanos espanhóis, jesuítas franceses, 
puritanos ingleses, pietistas holandeses, 
calvinistas escoceses, philosophes cos- 
mopolitas, transcendentalistas alemães, 
revolucionários russos e teósofos orien- 
tais, de comum acordo, contribuiram 
para dotar a filosofia norte-americana 
de continuidade e também provocaram- 
lhe algumas sacudidelas”. 

Não obstante toda essa diversidade e 
flutuações ao sabor das correntes do 
pensamento estrangeiro, parece haver 
uma tendência constante na tradição 
norte-americana, constituída pelo fato 
de que todas as idéias têm do avalia- 
das pragmaticamente e sua importância 
determinada pela referência a possíveis 
aplicações práticas. 

Esse traço característico veio a se 
manifestar explicitamente como dou- 
trina somente a partir das últimas déca- 
das do século XIX, quando se configurou 
a chamada idade de ouro da filosofia 
norte-americana. O periodo, iniciado por 
volta de 1880, viu nascer um profundo e 


Na página anterior: retrato do 
filósofo William James; óleo de 
E. E. Rand. (Bettmann Archive, Inc.) 


186 


criativo interesse pela filosofia que con- 
tinua ativo no século XX, acompanhando 
a projeção internacional dos Estados 
Unidos nos domínios econômico e politi- 
co. Surgiram então os maiores represen- 
tantes da filosofia norte-americana, 
entre os quais as duas mais conhecidas 
expressões da tendência pragmatista 
foram William James e John Dewey. 


Uma família de intelectuais 


William James nasceu a 11 de janeiro 
de 1842, em Nova York, filho de Ienry 
James, sênior, e Mary Robertson Walsh. 
A família era muito rica e vivia numa 
atmosfera altamente intelectual. O pai 
fazia parte do grupo dos transcendenta- 
listas, formado por Ralph Waldo Emer- 
son (1803-1889), Henry David Thoreau 
(1817-1862), William Ellery Channing 
(1780-1842) e Theodore Parker 
(1810-1860). Os transcendentalistas 
reagiram contra o pessimismo e morbi- 
dez do calvinismo. Acreditavam na bon- 
dade natural do homem e em suas possi- 
bilidades de alcançar o conhecimento de 
Deus e de praticar as virtudes morais, 
independentemente da graça divina. Re- 
Jeitavam, contudo, a possibilidade de 
uma religião puramente racionalista, à 
maneira dos deistas do século XVIII. Os 
transcendentalistas eram poetas e misti- 
cos que acreditavam na verdade atingida 

ela intuição subjetiva. Esposando um 
idealismo moral, desejavam libertar os 
individuos da cega adesão às convenções 
e normas sociais. Thoreau, por exemplo, 
sustentava a liberdade individual de 
consciência, a ponto de considerar a 
desobediência civil como a mais alta 
obrigação do indivíduo, se a sociedade 
interferisse em suas profundas convic- 
ções pessoais. Os transcendentalistas 
foram ainda progressistas politica- 
mente, defendendo os direitos naturais, 
a igualdade social e a abolição da 
escravatura. 

A família de Henry James, sênior, foi 
assim criada dentro de uma atmosfera 
de idéias que propiciavam o floresci- 
mento intelectual livre de preconceitos e 
permitiam a expansão da criatividade 
interior e da reflexão filosófica. A 
criatividade interior manifestou-se com 
toda força no filho mais novo, o famoso 


capas, 


JAMES 


Ae EM drro 


Para muitos historiadores, a filosofia pragmatista liga-se intimamente às 

características da soctedade norte-americana. Segundo esses intérpretes, a 
burguesia nos Estados Unidos sempre foi muito mais ativa e realista do que a 

burguesia européia, eo pragmatismo expressaria esse traço no plano das 
idéias. (Max Klepper: “Passeio de Carruagem pela Quinta Avenida”, 1900.) 


novelista Henry James, júnior, que reno- 
vou técnicas tradicionais de narrativa e 
se tornou um dos maiores romancistas 
dos fins do século XIX e começo do sécu- 
lo XX. A reflexão filosófica, aliada ao 
espírito cientifico, teve sua expressão no 
filho mais velho, William James. 

A educação de William James fez-se 
de maneira irregular. Frequentou, dos 
treze aos dezoito anos de idade, diversas 
escolas na Inglaterra, Suiça, França e 
Alemanha. Em 1861, ingressou na Uni- 
versidade de Harvard: estudando ini- 
cialmente quimica e depois anatomia e 
fisiologia. Em 1864 começou a estudar 
medicina e no ano seguinte, na quali- 
dade de assistente do naturalista Louis 
Agassiz (1807-1873), acompanhou-o 
numa famosa expedição científica à flo- 
resta amazônica (Brasil), onde contraiu 
varíola e teve afetada sua sensibilidade 
visual. 


Uma nova psicologia 


Em 1867, William James encontrava- 
se na Alemanha, estudando fisiologia 


experimental. Da Alemanha deslocou-se 
para Cambridge, para graduar- se em 
medicina, e em 1873 iniciou a carreira 
de professor universitário, lecionando 
anatomia e fisiologia em Harvard. A 
partir dessa época deu inicio à linha de 
desenvolvimento inovadora que o levaria 
à formulação da filosofia pragmatista. 
Sua primeira contribuição foi a cons- 
tituição de uma nova corrente de psico- 
logia que, ao lado de outras, marcaria o 
nascimento da psicologia científica. Até 
então, o estudo dos fenômenos psíquicos 
constituia uma disciplina de caráter 
metafísico, ocupada com a essência últi- 
ma do homem, isto é, com a alma, enten- 
dida como algo substancial. William 
James foi o primeiro norte-americano a 
organizar um laboratório de psicologia 
experimental, muito embora ele mesmo 
não se sentisse capacitado para o traba- 
lho experimental. Apesar disso, defendia 
o estudo dos fatos psíquicos como inti- 
mamente relacionados “com os fatos 
estabelecidos pela fisiologia nervosa”. A 
estes dever-se-iam aliar a teoria da evo- 
lução biológica e os dados fornecidos 


7187 


FABBRI 


OS PENSADORES 


O pai de William James foi um teólogo da corrente do místico sueco 


Sweden perdi 


ao mesmo tempo, esposava idéias políticas 


liberais por considerar a democracia como um regime ita possibilita o 


aperfeiçoamento moral do homem. (Fotografia do sécu 


XIX mostra, à 


esquerda, Henry James sênior e, à direita, William James aos 26 anos.) 


pela arqueologia, para que se pudesse 
alcançar “uma verdadeira ciência do 
homem”. Ao mesmo tempo, William 
James exigia que se aliasse ao espírito 
cientifico-natural “uma familiaridade 
concomitante com escritores de estilo 
mais mtrospectivo”, a fim de preservar o 
investigador de “certas cruezas de ra- 
ciocínio, tão comuns no homem de labo- 
ratório puro e simples” 

Esse projeto metodológico de constru- 
ção de uma nova psicologia levou Wil- 
liam James a algumas contribuições 
fundamentais no domínio dessa disci- 
plina. Entre as principais, encontram-se 
seu célebre conceito de “fluxo de cons- 
ciência” e sua teoria das emoções. 

James defendeu a idéia de que a cons- 
ciência não constitui uma estrutura fixa, 
possuidora de certas faculdades: seria, 
ao contrário, um fluxo permanente, isto 
é, um processo dinâmico que se organiza 
em vista de um fim. Sua teoria das emo- 
ções — formulada também, independen- 
temente, pelo fisiologista dinamarquês 
Carl Lange (1834-1900) — afirma que 


188 


as emoções não são mais que um produ- 
to da reverberação de certas modifica- 
ções fisiológicas. Assim, de acordo com 
a teoria James-Lange, não teria sentido 
dizer-se, por exemplo. “perdemos nossa 
fortuna. ficamos tristes e choramos”: 
não se chora porque se fica triste, pois 
chorar e entristecer-se constituem uma 
só coisa. 


A verdade e a vida 


O método cientifico de James não se 
limitou ao estudo dos fatos fisiológicos e 
psíquicos. Pouco depois de ter passado 
para a cadeira de psicologia da Univer- 
sidade de Harvard, James orientou seu 
empirismo experimental. isto é, sua 
combinação de evolução, psicologia e 
introspecção, para as próprias crenças 
filosóficas. 

Essa nova orientação dos estudos de 
James vinculava-se em parte, aos pro- 


blemas filosóficos levantados pelos 
membros da Sociedade Metafísica de 


Cambridge, entre os quais figuravam o 


BETTMANN ARCHIVE INC 


JAMES 


BETTMANN ARCHIVE INC 


A família de William James sempre viveu numa atmosfera intelectual. O pai 
escreveu vários ensaios filosóficos e religiosos e o irmão mais moço, Henry 
James Jr., foi um dos maiores escritores da época. Seus romances e novelas 
caracterizam-se por inovações na técnica narrativa, posteriormente 
desenvolvidas pelos ficcionistas do século XX. (Retrato de Henry James Jr.) 


7189 


OS PENSADORES 


Na passugem dos séculos XIX e XX, a sociedade norte-americana deixou de ser 
predominantemente agrária para transformar-se numa sociedade tipicamente 
urbana. Em 1910, quase 50% da população havia se transferido do campo para os 
grandes centros urbanos, acompanhando o surto industrial. (Nova York, Quinta 
Avenida, vista da Rua 43; fotografia de 1916 da New York Historical Society.) 


190 


FABBRI 


JAMES 


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Ao lado do interesse científico despertado muito cedo, William James 
entusiasmou-se com as artes plásticas, na adplescência. Aos dezoito anos de 
idade, deixou a casa paterna a fim de estudar pintura com William M. Hunt, em 
Newport. À experiência não teve resultados positivos e um ano depois o futuro 
filósofo voltou aos estudos científicos. (Carta de William James, de 1861.) 


róprio James,  Chaunce Wright 
(1830-1875), John Fiske (1842-1901) e 
Charles Sanders Peirce (1839-1914). 
Tentando resolver complexas questões 
de teoria do conhecimento, esse grupo 
lançou as bases do que viria a ser a file 
sofia pragmatista. Entre eles salientou- 
se Peirce, em geral considerado o verda- 
deiro criador do pragmatismo. 

Para Peirce, o pragmatismo é funda- 
mentalmente um método de esclareci- 
mento de conceitos; em outras palavras, 
trata-se de uma teoria da significação e 
situa-se nos terrenos da lógica. Em 
James, o pragmatismo é muito mais 
amplo e transformou-se a tal ponto que 
os dois filósofos romperiam relações e 
Peirce passaria a designar suas teorias 
pela expressão “pragmaticismo”. 

Willam James entende o pragma- 


tismo não apenas como um método de 
determinação de significados, mas tam- 
bém como uma nova teoria da verdade, 
que supunha estivesse implícita nas 
idéias de Peirce. O primeiro escrito no 
qual William James sistematizou suas 
idéias e introduziu o termo pragmatismo 
para designar a doutrina foi o ensaio 
Concepções Filosóficas e Resultados 
Práticos (1898). Nesse trabalho declara 
que o princípio do pragmatismo deveria 
ser tomado em sentido muito mais 
amplo do que o formulado por Peirce. 
“A prova última do que significa uma 
verdade”, .escreve, “é, sem dúvida, a 
conduta que essa mesma verdade dita ou 
inspira. Mas inspira semelhante conduta 
porque, sobretudo, prediz uma certa 
orientação particular de nossa experiên- 
cia, que extrairá de nós tal conduta.” 


191 


FABBRI 


OS PENSADORES 


Quando William James faleceu, em 1910, seu irmão Henry James declarou: 
“Sinto-me pesadamente ferido e no escuro, pois, de muito atrás, da mais 
recôndita infância, ele havia sido meu ideal irmão mais velho (.. .) via nele 
(...)omeu protetor, meu amparo, meu chefe e meu orgulho”. (Os dois James 
em fotografia de 1900, o novelista à esquerda e o filósofo à direita.) 


Essa idéia reafirma uma tese anterior de 
James que se encontra no escrito A Von- 
tade de Crer (1897), no qual defende 
“métodos empíricos” para a filosofia, 
contra os “métodos absolutistas e aprio- 
ristas” cujo principal representante 
seria o filósofo Hegel (1770-1831). 
Segundo James, a filosofia deveria imi- 
tar os procedimentos das ciências natu- 
rais e ser indutiva e empírica como elas: 
para atingir esse objetivo, o filósofo 
deveria adotar hipóteses de trabalho e 
substituí-las quando necessário. O crité- 
rio de manutenção ou substituição das 
hipóteses seria a capacidade das mes- 
mas para satisfazer o filósofo na solução 
do problema em questão. Em outros ter- 
mos, James defende as hipóteses filosó- 
ficas na medida em que possam “funcio- 
nar” e não por serem “verdadeiras”. A 


192 


verdade, portanto, deixa de ser conce- 
bida como adequação entre o pensa- 
mento e o pensado, a mente e a realidade 
exterior, ou então como coerência de 
idéias entre si, para tornar-se funcional. 
Nessa ordem de idéias, uma proposição 
é considerada verdadeira na medida em 
que possa orientar o homem na reali- 
dade circundante e conduzi-lo de uma 
experiência até outra. À verdade — para 
James — não é algo meios e permanente: 
pelo contrário, modifica-se e expande- 
se sempre. 

Nesse processo de modificações e 
crescimento, a verdade deve satisfazer a 
duas condições diferentes. Em primeiro 
lugar, o pragmatismo de James salienta 
a necessidade de as proposições exigi- 
rem comprovação para serem admitidas 
como verdadeiras. Nesse sentido, a ver- 


JAMES 


Apesar de não se ter tornado grande pintor como desejara, William James 
aproveitou os estudos de pintura que fez na adolescência. Durante toda a sua 
carreira científica e filosófica, sempre Pa capaz de ver o 
aspecto estético das coisas e seus escritos revelam constante preocupação 
estilística. (Auto-retrato a lápis, executado por William James em 1866.) 


dade seria a verificabilidade:; caso em 
que não se poderia identificar a verdade 
pura e simplesmente com as conse- 
quências benéficas de uma proposição. 
Em outras palavras, essa primeira con- 
dição da verdade, estabelecida pelo 
pragmatismo, entende ““consequência 
prática” como um modo de “conse- 
úência teórica”. A segunda condição 
estabelecida por James para a identifi- 
cação de uma verdade consiste no seu 
valor para a vida concreta. Esses dois 
modos de conceber a verdade unem-se na 
concepção da verdade como algo essen- 
cialmente “aberto” e em constante movi- 
mento. Em sintese, para William James, 
a verdade não é algo feito ou dado; é 
algo que “se faz” dentro de uma totali- 
dade também em constante processo de 
“fazer-se” 


Essa concepção de verdade foi am- 
pliada por William James, de modo a 
abranger não apenas a esfera das ciên- 
cias, mas também o terreno da moral e 
da religião. Para James, a crença reli- 
giosa pode ter tanto valor de verdade 
quanto o conhecimento científico. Em 
sintese, sua teoria afirma que uma cren- 
ca deve ser considerada verdadeira, 
desde que possa satisfazer o desejo de 
compr censão global das coisas e consti- 
tuir um bem vital para, determinado 
individuo. A crença, porém, deve ser 
viva, indispensável e inevitável. 

O próprio William James sentiu-a 
como indispensável em várias crises mo- 
rais e físicas que experimentou durante 
a vida, particularmente depois de 1870, 
pouco antes de se tornar professor na 
Universidade de Harvard. Ai, James 


193 


FABBRI 


OS PENSADORES 


permaneceria até 1907, ocupando suces- 
sivamente as cadeiras de anatomia, 
fisiologia, psicologia e filosofia. Além 
do ensino, dedicou-se à redação de inú- 
meras obras, até o fim da vida, em 1910. 
Entre seus principais livros, encontram- 
se: Princípios de Psicologia (1855), As 
Variedades da Experiência Religiosa 


(1902), Pragmatismo:" Um *Nome Novo 

ara alguns Velhos Modos de Pensar 
(1907), O Significado da Verdade: Uma 
Continuação do Pragmatismo (1909), 
Um Universo Pluralístico (1909), Al- 
guns Problemas de Filosofia (1911) e 
Ensaios sobre o Empirismo Radical 
(1912). 


18422 — 4 Il de janeiro, 
nasce William James, na ci- 
dade de Nova York. 

1843 — Nasce o romancis- 
ta Henry James. 

1848 — Marx e Engels lan- 
çam o Manifesto do Partido 
Comunista. 

1859 — Darwin publica 4 
Origem das Espécies por 
Meio da Seleção Natural. 
1860 — Lincoln obtém 
maioria nas eleições presi- 
denciais. presidenciais. 

1863 — É proclamada, por 
Lincoln, a emancipação dos 
escravos. 

1865 — Lincoln é assassi- 
nado em abril. 


CRONOLOGIA 


1873 — William James tor- 
na-se professor da cadeira 
de fisiologia de Harvard. 
1875 — Henry James redi- 
ge o romance O Americano. 
1876 —  Publicam-se As 
Aventuras de Tom Sawyer, 
de Mark Twain. Wilhelm 
Wundt cria o primeiro labo- 
ratório de psicologia experi- 
mental em Leipzig, na Ale- 
manha. 

1878 — Peirce, figura cen- 
tral do pragmatismo ameri- 
cano, publica How to Make 
our Ideas Clear na revista 
Popular Science Monthly. 
William James casa-se com 
Alice H. Gibbens. 


BIBLIOGRAFIA 


1879 — James torna-se pro- 
fessor de filosofia na Uni- 
versidade de Harvard. 

1890 — Publica Os Princi- 
pios de Psicologia. 

1897 — Publica A Vontade 
de Crer. 

1902 — Editam-se As Va- 
riedades de Experiência Re- 
ligiosa, de William James. 
1907 — William James pu- 
blica Pragmatismo: Um No- 
vo Nome para Velhos Mo- 
dos de Pensar. 

1909 — Publica Um Uni- 
verso Pluralístico. 

1910 — Morre em Choco- 
rua, New Hampshire, a 26 
de agosto. 


THAYER, H. S.: Pragmatism in A Critical History of Western Philosophy, editado por D. J. 
O'Connor, The Free Press of Glencoe, Nova York, 1964. 
WIENER, P. P.: Evolution and the Founders of Pragmatism, Cambrigde, Massachusetts, 1949. 
Moore, E. C.: William James, Washington Square Press, Nova York, 1965. 

Morris, L.: William James: The Message of a Modern Mind, Scribner's, Nova York, 1950. 
PERRY, R. P.: In the Spirit of William James, Indiana University Press, Bloomington, 1958. 
PerRY, R. P.: The Thought and Character of William James, Harper Torchbooks, Nova 


York, 1964. 


BourRroUx, É.: William James y su Filosofia, 1943. 
Lovejoy, A. O.: The Thirteen Pragmatisms and Other Essays, Baltimore, Maryland, 1963. 
RussEL, B.: William James' Conception of Truth e Pragmatism in Philosophical Essays, Lon- 


dres e Nova York, 1910. 


BLAU, J.: Men and Movements in American Philosophy, Nova York, 1952. 
Bercson, H.: Sur le Pragmatisme de William James in La Pensée et le Mouvant, Presses 


Universitaires de France, 1934. 


794 


OS PENSADORES 


oucos filósofos terão sido tão 
P influentes junto ao grande público 

quanto John Dewey. Suas idéias 
implantaram-se firmemente no solo da 
pda norte-americana, estendendo-se 
também para quase todo o mundo. A 
chamada aa nova” de pedagogia 
deve a John Dewey parte essencial de 
seus fundamentos teóricos. 

Dewey nasceu em Burlington, Ver- 
mont, a 20 de outubro de 1859. Depois 
de cursar as escolas primária e secun- 
dária de sua cidade, ingressou na 
Universidade de Vermont, onde se inte- 
ressou, sobretudo, pela filosofia e pelo 
pensamento social e graduou-se em 
1879. Dois anos depois, ingressou na 
Universidade John Hopkins, recém- 
fundada e centro de grande efervescência 
intelectual. Ali Dewey doutorou-se com 
tese sobre a psicologia de Kant, em 
1884. Em seguida passou a trabalhar na 
Universidade de Michigan, onde perma- 
neceria dez anos. Em Michigan, indis- 

ôs-se cada vez mais com a pura especu- 
ação e procurou novas vias que 
situassem o pensamento filosófico mais 
próximo dos problemas práticos. 

Essa orientação de seu pensamento 
tornou-se ainda mais sensível e produziu 
os primeiros frutos na Universidade de 
Chicago, para a qual se transferiu em 
1894. Em Chicago, Dewey participou 
ativamente dos trabalhos da Hull 
House, onde teve oportunidade de co- 
nhecer diretamente os problemas sociais 
e econômicos causados pela urbaniza- 
ção, pelo rápido progresso tecnológico e 
pelo crescente afluxo de imigrantes; 
assim teve amplo contato com operários, 
sindicatos, Rolnieds de esquerda e radi- 
cais de diferentes orientações. Por outro 
lado, suas atividades na própria univer- 
sidade levaram-no a reunir um grupo de 
amigos preocupados com problemas 
filosóficos; disso resultou a publicação, 
em 1903, de uma obra coletiva, intitu- 
lada Teoria Lógica, na qual se encon- 
tram trabalhos de todos os membros do 
grupo. Mas de maior ressonância foi a 
criação da Escola Elementar da Univer- 


Na página anterior: retrato do 
flósari e educador John Dewey, tela 
de E. B. Child (Bettmanh Archive) 


796 


sidade (também conhecida como Esco- 
la-Laboratório), a primeira escola expe- 
rimental da história da educação. 
Dirigindo essa instituição e escrevendo 
incessantemente sobre teoria educacio- 
nal, Dewey tornou-se um dos maiores 
nomes de toda a pedagogia. 

Entre os principais escritos de Dewey, 
datam dessa época 4 Escola e a Socie- 
dade e A Criança e o Curriculum. 

Em 1904, Dewey deixou Chicago, 
transferindo-se para Colúmbia, em vir- 
tude de conflitos com a direção da 
universidade, relativos à escola experi- 
mental. Já era, contudo, um educador 
reputado em todo o país e o período 
seguinte de sua vida seria marcado pela 
difusão internacional de suas idéias 
pedagógicas e filosóficas. Essa difusão 
se fez, sobretudo, através dos alunos de 
todos os paises do mundo que se diri- 
giam ao Teachers College da Universi- 
dade de Colúmbia, a fim de conhecer 
seus métodos pedagógicos. Por outro 
lado, Dewey também difundiu suas | 
idéias, proferindo conferências e cursos 
em Tóquio, Pequim, Nanquim, México, 
Rússia e Turquia. 

Em 1930, Dewey deixou a Universi- 
dade de Colúmbia. Continuou, porém, 
trabalhando intensamente, sobretudo na 
redação de inúmeros escritos. Ao lado 
da atividade teórica, manteve intensa 
vida pública, sempre defendendo causas 
progressistas. Em 1937, presidiu a 
comissão pública que deveria investigar 
a veracidade das acusações contra o 
líder comunista Leon Trotsky, con- 
cluindo por sua inocência. Em 1941, já 
com 82 anos de idade, revoltou-se contra 
a proibição de Bertrand Russell 
(1872-1970) lecionar no City College de 
Nova York. 


Pensamento e ação 


Ao falecer, em 1952, com 92 anos de 
idade, Dewey deixou extensa obra na 
qual se destacam: Psicologia (1887), 
Meu Credo Pedagógico (1897), Como 
Pensamos (1910), Democracia e Educa- 
ção (1916), Reconstrução em Filosofia 
(1920), Natureza Humana e Conduta 
(1925), Experiência e Natureza (1925), 
Arte enquanto Experiência (1937) e Teo- 
ria da Investigação (1938). 


DEWEY 


O centro de todo o pensamento de 
Dewey é a concepção que ele mesmo 
chamou “instrumentalismo”, para dife- 
renciar-se dos pragmatismos de Peirce € 
William James, dos quais partira. Da 
mesma forma que James, Dewey opôs-se 
às tradicionais teorias sobre a verdade 
que a consideram como correspondência 
entre pensamento e pensado ou coerên- 
cia das idéias entre si; afastou-se, contu- 
do, de James, rejeitando sua visão subje- 
tivista do problema da verdade e sua 
justificação da crença religiosa. Com 
relação a Peirce, Dewey achava seu 
pragmatismo por demais restrito e pre- 
tendia ampliar seu campo de ação. Ape- 
sar dessa discordância, o ponto de parti- 
da de Dewey foi também uma crítica das 
filosofias especulativas. Os sistemas 
idealistas e abstratos — pensava Dewey 
— teriam buscado em vão encontrar a 
unidade entre os fragmentos de um uni- 
verso que o próprio pensamento especu- 
lativo dividiu. 

As dualidades matéria-espírito, exte- 
rior-interior, pensado-pensamento cons- 
tituem falsos problemas para Dewey. 
Todos esses falsos problemas decorre- 
riam de considerar-se a consciência 
como contemplação. A tal modo de con- 
ceber a consciência, Dewey opõe seu 
“instrumentalismo” ou “funcionalismo”. 
segundo o qual o conhecimento não é 
mais do que atividade dirigida e parte 
funcional da experiência. O pensamento 
— diz Dewey — não tem fim em si 
mesmo, é uma fase da vida, um aconteci- 
mento que se produz num ser vivo, em 
certas condições configuradoras de uma 
situação de conflito para o homem. O 
pensamento seria o esforço para recons- 
truir a atividade do individuo e colocá-lo 
-em condições de se adaptar à nova situa- 
ção. Nesse sentido, as idéias funciona- 
riam como hipóteses de ação referentes 
exclusivamente ao futuro e verdadeiras 
na medida em que pudessem funcionar 
como guias para a ação. Assim, diz 
Dewey que a racionalidade da natureza, 
afirmada pelos cientistas naturais, não 
constitui um postulado teórico, mas uma 


FABBRI 


Para Dewey, unir modéstia e coragem crença que propicia à atividade inteli- 
na defesa das próprias idéias é o Ra a possibilidade de intervir nos 
único caminho pelo qual “o filósofo enômenos, modificando-os na medida 
pode encarar seus semelhantes, de do necessário. Assim, o instrumenta- 
frente, com franqueza e humanidade”. lismo concebe a atividade inteligente 
7197 


OS PENSADORES 


A modéstia, exaltada por Dewey como virtude filosófica, levou-o a afastar-se 
das filosofias que pretendem a descoberta de verdades eternas e dedicar-se 
à formulação de uma pedagogia que procura valorizar a liberdade e a 
criatividade infantis. (Crianças trabalhando na Escola-Laboratório de Dewey; 
foto do livro The History of the Laboratory Schools, de Ida B. de Pensier.) 


não como algo que lhe vem de fora, mas 
como produto da “natureza que realiza 
suas próprias forças em busca de uma 
produção mais plena e mais rica em 
acontecimentos”. 

Da mesma forma que a atividade inte- 
ligente nas ciências naturais, a atividade 
moral do homem não é concebida pelo 


instrumentalismo como dirigida por 
uma prévia “idéia do bem”. A ação 
moral — afirma Dewey — é conduzida 


por três princípios de origens distintas: 
o bem, concebido como fim, a regra do 
dever e a apreciação do outro. À necessi- 
dade de conciliar esses três princípios 


198 


(que são fundamentalmente diferentes) é 
que originaria os problemas morais. 
Com o instrumentalismo, Dewey pre- 
tendeu contribuir para o restabeleci- 
mento de uma unidade espiritual que o 
pensamento contemporâneo teria des- 
truido. Para Dewey, o pensamento con- 
temporâneo | estabeleceu dicotomias 
entre o ideal e o real, entre o espirito e a 
natureza, e essas dicotomias manifes- 
tam-se claramente nas especializações 
irredutíveis do matemático e do historia- 
dor, dos humanistas e dos engenheiros. 
A pedagogia tradicional teria mantido 
essa oposição, formando, de um lado, 


DEWEY 


FABBRI 


À coragem, outra virtude filosófica exaltada por John Dewey, levou-o a 
ga as causas da liberdade universitária, do socialismo econômico, da 
emocracia política e da integração racial. Em seu pensamento, tudo isso 
depende da transformação do homem desde os seus primeiros anos. (Tela de P. 
Evergood: “O Futuro Pertence a Eles”; Coleção W. van den Henvel, Nova York.) 


499 


OS PENSADORES 


homens de ação, nos quais o pensamento 
é sacrifidado, e de outro os contempla- 
tivos, voltados exclusivamente para o 
pensamento abstrato. Dewey não pre- 
tende subordinar um pólo dessas oposi- 
ções ao outro, o pensamento à ação: pelo 
contrário, procura mostrar que o pensa- 
mento é uma fase indispensável da ação, 
quando esta é complexa e progressiva. 
Desse modo, seu pragmatismo instru- 
mentalista procura reabilitar a pensa- 


mento e não sacrificá-lo, mas sua con- 
cepção do pensamento leva-o a inverter 
os graus de inteligibilidade: o mais alto 
nível de inteligibilidade seria consti- 
tuído pelas ciências humanas e não pelas 
matemáticas. Para Dewey, a história e 
as demais ciências humanas tratam com 
objetos mais fáceis de serem compreen- 
didos porque eles são criados pelo pró- 
prio espírito em atividade incessante, 
tanto na natureza quanto na sociedade. 


18589 — Nasce John De- 
wey, em Burlington, a 20 de 
outubro. 

1884 — Dewey leciona na 
Universidade de Michigan, 
onde permanece até 1894. 
Nesse período edita um se- 
manário socialista, Thought 
News. 

1894 — Dewey torna-se 
chefe do departamento de 
psicologia, pedagogia e filo- 


sofia da Universidade de 
Chicago. 
1896 Cria a Escola-La- 


boratório, primeira institui- 
ção de pedagogia experi- 
mental da história. 

1899 — Publica A Escola e 
a Sociedade. 


CRONOLOGIA 


1904 — Passa a trabalhar 
na Universidade de Colúm- 
bia, onde permanecerá até 
1930. Em Colúmbia começa 
a colaborar na revista The 
Journal of Philosophy. 

1914 — O assassínio do ar- 
quiduque austríaco Francis- 
co Ferdinando desencadeia 
a Primeira Guerra Mundial. 
1916 — Dewey publica De- 
mocracia e Educação. 

1918 — Fim da Primeira 
Guerra Mundial. 

1919 — Dewey pronuncia 
conferências sobre educação 
e filosofia em Pequim. 

1920 — Edita-se a Recons- 
trução em Filosofia, de John 
Dewevy. 


BIBLIOGRAFIA 


1925 — Dewey publica Ex- 
periência e Natureza. 

1929 — A Bolsa de Nova 
York registra violento decli- 
nio nas cotações: é O início 
da grande crise econômica 
americana e mundial. 

1937 — Dewey preside a 
comissão de investigação 


das acusações contra 
Trotsky. 
1940 — Publicam-se os 


Problemas dos Homens e 
Lógica, a Teoria da Investi- 
gação, de Dewey. 

1941 — Dewey defende a li- 
berdade universitária, quan- 
do Russell é impedido de le- 
cionar em Nova York. 

1952 — John Dewey falece. 


GEIGER, G. R.: John Dewey in Perspective, Oxford University Press, Nova York, 1958. 


Hook, S.: John Dewey: An Intellectual Portrait, John Day, 1939. 


NATHANSON, J.: John Dewey: The Reconstruction of the Democratic Life, Scribner's, Nova 


York, 1951. 


THAYER, H.S.: The Logic of Pragmatism — An Examination of John Dewey 's Logic, 1952. 
HENDEL, €C. W.: John Dewey and the Experimental Spirit in Philosophy, 1959. 


ScHILPP, P. A.: The Philosophy of John Dewey, Chicago, 1939. 


BERSTEIN, R. J.: John Dewey, Nova York, 1916. 
RoTH, S.J., ROBERT, J.: John Dewey and Self-Realization, Englewood Cliffs, N. J., 1962. 
WHITE, M.: The Origins of Dewey 's Instrumentalism, Nova York, 1943. 

FELDMAN, W. T.: The Philosophy of John Dewey: a Critical Analysis, Baltimore, 1934. 
LEANDER, F.: The Philosophy of John Dewey: a Critical Study, Gotemburgo, 1939. 
SCHNEIDER, H. W.: 4 History of American Philosophy, Nova York, 1963. 

SMITH, J. E.: The Spirit of American Philosophy, Nova York, 1963. 


800 


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| 
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OS PENSADORES 


Thorstein Bunde Veblen nasceu no 

Estado de Wisconsm em 1857. 
Criança ainda, mudou-se com a família 
para uma comunidade rural em Minne- 
sota, onde predominavam a língua, a 
religião e os costumes escandinavos. 

Apesar de sua origem humilde, fre- 
quentou algumas das melhores universi- 
dades americanas. Esteve no Carleton 
College e na Universidade John Hop- 
kins, onde se graduou em filosofia. Em 
Yale doutorou-se em filosofia e na 
Universidade de Cornell estudou econo- 
mia. Recém-formado, foi para a Univer- 
sidade de Chicago, como instrutor na 
cadeira de economia, passando a profes- 
sor assistente em 1900. Pediu demissão 
em 1906, depois de ter realizado as pes- 
“quisas mais importantes de sua vida 
acadêmica. Já nessa época era conside- 
rado um pensador herético, visto com 
desconfiança e suspeita por seus colegas 
acadêmicos. 

Ainda em 1906, foi, como professor 
associado, para a Universidade de Stan- 
ford, passando em 1911 para a Universi- 
dade de Missouri, como professor titu- 
lar. Em 1919, transferiu-se para a New 
School for Social Research, onde perma- 
neceu até 1927. Ao lado das atividades 
como professor, Veblen escreveu inúme- 
ras obras, a mais famosa das quais inti- 
tula-se 4 Teoria da Classe Ociosa, publi- 
cada em 1899. A esse livro seguiram-se, 
entre os mais importantes: Teoria da 
Empresa (1904), O Status Bárbaro da 
Mulher (1914), A Alemanha Imperial e 
a Revolução Industrial (1915), Uma 
Investigação sobre a Natureza da Paz 
(1917), O Ensino Superior na América 
(1919) e O Lugar da Ciência na Civiliza- 
ção Moderna (1919). 


F lho de imigrantes noruegueses, 


A crítica do capitalismo 


A vocação de Veblen para a filosofia 
definiu-se numa época profundamente 
marcada pelos debates científicos e 
teológicos, que cercaram o apareci- 
mento das doutrinas evolucionistas, em 
particular a de Herbert Spencer. 


Na página anterior: retrato do 


sociólogo e pensador Thorstein Bunde 
Veblen. (Betim Archive Inc.) 


802 


Aluno do Carleton College, Veblen 
dedicou-se ao estudo das idéias de Spen- 
cer e, a seguir, dos filósofos do século 
XVIII, sobretudo David Hume 
(1711-1776) e Kant (1724-1804). 

Da mesma maneira, sua formação em 
economia sofreu o impacto das idéias de 
seu tempo. Veblen fez-se economista 
num período em que a ordem capitalista 
era submetida à crítica radical pelas 
tendências igualitárias e socialistas de 
todos os matizes. A ênfase nos antago- 
nismos de classe, a condenação do 
monopólio e do poder econômico, os ata- 
ques aos partidos e políticos corruptos, 
a denúncia das universidades, igrejas e 
jornais, considerados instrumentos de 
interesses econômicos, esses eram os 

andes temas que dividiam os meios 
intelectuais na Europa e nos Estados 
Unidos, nas três últimas décadas do sé- 
culo XIX. 

Nessas circunstâncias, a teoria econô- 
mica clássica não exerceu atração espe- 
cial sobre Veblen. Ele a considerava uma 
pseudociência social, pouco mais do que 
uma apologia da ordem dominante. 
Tampouco o marxismo lhe parecia uma 
alternativa teórica válida. Kantiano por 
formação, a dialética hegeliana — em 
sua forma original ou na versão materia- 
lista de Marx — não o estusiasmava. Em 
sua opinião, a antitese capitalista-prole- 
tários, definida por Marx (segundo 
Veblen) em termos puramente econômi- 
cos, ignorando as dimensões socioló- 
gicas e psicológicas das duas classes, 
era excessivamente simplista e abstrata 
ps ser de alguma utilidade. Assim Ve- 

len terminou por definir um caminho 
eminentemente pessoal de crítica à 
ordem econômica dominante na época. 
Em suas análises buscou reconstruir 
uma sequência histórica evolutiva, que 
iluminasse as principais características 
do objeto de sua crítica: o sistema eco- 
nômico moderno. A história da humani- 
dade ter-se-ia caracterizado sempre pelo 
conflito entre forças predatórias e cons- 
trutivas, inerentes aos seres humanos. 
Esse antagonismo, sempre presente, mu- 
daria. apenas de forma em cada época 
histórica, na medida em que a força 
bruta e a fraude sem rebuços iam dando 
ada a uma atitude predatória coberta 
pelo manto da legitimidade ética e da 


VEBLEN 


Veblen foi um pensador extremamente independente, sempre em conflito com as 
autoridades universitárias. Suas profundas análises do mundo contemporáneo 
são, ao mesmo tempo, críticas impiedosas do sistema empresarial capitalista, 
do nacionalismo e da religião. Na New School for Social Research, onde Veblen 
lecionou, encontra-se o afresco de Th. Benton “Atividades Citadinas e Metrô”. 


suposta representação dos interesses 
gerais. A crescente sofisticação da ativi- 
dade predatória dos homens seria o 
resultado da capacidade acrescida do 
sistema produtivo de gerar um exce- 
dente de proporções consideráveis. A 
magnitude do excedente, por sua vez, 
dependeria do nível de desenvolvimento 
das atividades industriais, resultado da 
ação das tendências construtivas. Assim 
o pirata do século XVI teria se transfor- 
mado no homem de negócios do capita- 
lismo moderno: o barão ladrão do 
mundo medieval teria assumido as fei- 
ções de um respeitável magnata finan- 
ceiro. Desse modo, enquanto a economia 
clássica considerava o lucro como a fun- 
ção da organização eficiente dos fatores 
produtivos e, para os marxistas, ele 
nada mais era do que trabalho humano 
não remunerado, Veblen via nele o fruto 
de uma técnica industrial versátil, de- 
senvolvida graças à ciência moderna. O 
capitalismo competitivo — que Veblen 


preferia chamar de sistema de preços ou 
economia pecuniária — era um momento 
desse processo movido pela contradição 
entre tendências construtivas e predató- 
rias. E, segundo Veblen, estava desti- 
nado a desaparecer em alguns anos, cor- 
roido pelas crises, que se repetiam com 
intensidade crescente, revelando uma 
falta de ajustamento inerente àquele sis- 
tema. Entretanto, se o diagnóstico era 
preciso, a previsão sobre a naturéza da 
organização econômica que deveria Su- 
ceder ao sistema de preços demorou a 
ser explicitada por Veblen. Somente em 
seus últimos escritos esboçou as linhas 
gerais de um sistema no qual a produção 
e distribuição estariam sob controle dos 
engenheiros, categoria ocupacional onde 
se incluiam todas as funções técnicas 
vinculadas à produção. 

Apesar de sua erudição prodigiosa e 
da profusão de idéias originais contidas 
em seus trabalhos, Veblen não obteve o 
reconhecimento de seus contemporá- 


803 


FABBRI 


OS PENSADORES 


neos. Poucos foram seus leitores e anda 
mais escassos os seguidores que teve em 
vida. Suas idéias causavam perplexi- 
dade entre seus colegas economistas e 
não faziam parte dos temas de debate 
correntes nos meios acadêmicos. 
Falecido a 3 de agosto de 1929, não 
presenciou a crise que havia previsto 
com grande antecedência e que, aba- 
lando profundamente o mundo capita- 
lista, arrastaria a doutrina economista 
clássica ao colapso e daria nova atuali- 
dade a sua obra. De seus últimos traba- 
lhos saíram as idéias mestras que ani- 


maram a Tecnocracia, movimento 
nascido sob o impacto da grande depres- 
são, apoiado em núcleos organizados 
nas universidades. Seu objetivo era 
implementar um novo modelo de organi- 
zação, econômica e social, baseada no 
planejamento e dirigida pelos engenhei- 
ros, em substituição aos falidos meca- 
nismos de mercado da era do libera- 
lismo. Da mesma forma, encontra-se a 
marca de Veblen nos programas de 
planificação e recuperação econômicas 
que caracterizaram a política do New 
Deal de Roosevelt. 


1857 — Nasce Thorstein 
Bunde Veblen, a 30 de ju- 
lho, numa fazenda em Ma- 
nitowoc County, Wisconsin. 
1880 — Veblen forma-se 
em Carleton College ,e 
transfere-se para a Universi- 
dade John Hopkins. 

1881 — Veblen recebe o 
título de Doutor em Filoso- 
fia pela Universidade de Ya- 
le. James Abraham Garfield 
é eleito presidente dos Esta- 
dos Unidos em março; em 
Julho sofre um atentado e fa- 
lece em setembro. 

1892- Veblen leciona na 


CRONOLOGIA 


Universidade de Chicago, 
onde permanece até 1906. 
Thomas Edson inventa o 
cinetoscópio. 

1899 — Veblen publica 
sua mais conhecida obra, A 
Teoria da Classe Ociosa. 
1906 — Veblen leciona na 
Universidade de Stanford. 
Upton Sinclair publica 4 
Floresta. 

1911 — Veblen transfere- 
se para a Universidade de 
Missouri. 

1919 — Veblen publica O 
Lugar da Ciência na Civili- 
zação Moderna e passa a 


BIBLIOGRAFIA 


trabalhar na New School for 
Social Research, onde per- 
manece por sete anos. 

1927 — Veblen deixa o 
trabalho universitário e pas- 
sa a viver solitariamente. 
1929 — Veblen falece nas 
proximidades de Menlo 
Park, Califórnia, a 3 de 
agosto. Herbert Hoover é 
eleito presidente dos Esta- 
dos Unidos. Começa uma 
grande crise econômica 
mundial com o “crack” da 
Bolsa de Nova York. O líder 
comunista Leon Trotsky é 
exilado. 


DORFMAN, J.: Thorstein Veblen and his America, Nova York, 1934. 
RIESMAN, D.: Thorstein Veblen, a Critical Interpretation, Nova York, 1953. 
Dowop, D.: Thorstein Veblen, Nova York, 1964. 
MircHELL, W. C.: What Veblen Taught, 1936. 
Durrus, R. L.: The Innocents at Cedro, a Memoir of Thorstein Veblen and some Others, 


Nova York, 1944. 


SCHNEIDER, H. W.: 4 History of American Philosophy, Nova York, 1963. 
KurTZz, P.: The American Philosophers, 2 vols., Nova York, 1965. 
WHrrE, M. G.: Social Thought in America, Boston, 1957. 


804 


MR ARLAI IRA LIDA NO TUR CLEL TAM IUGIULANNS 


mam ga e oa a q 


OS PENSADORES 


dia a converter-se na chave de 
explicação da teoria do conhecimento e 
da lógica, retirando essas disciplinas do 
campo da filosofia. Contra essa orienta- 
ção opôs-se o pensador Edmund Husserl, 
formulando o método fenomenológico e 
dando origem a um movimento, em torno 
do qual gravitaria considerável parcela 
da filosofia do século XX, cujas influên- 
cias se estenderam a todas as áreas das 
ciências humanas. 

Husserl nasceu a 8 de abril de 1859, 
na cidade de Prossnitz, Morávia, então 
pertencente ao Império Austro-Húngaro. 
Depois de estudar nas universidades de 
Leipzig, Berlim e Viena, iniciou sua car- 
reira como professor na Universidade de 
Berlim, em 1883, de onde se transferiria, 
sucessivamente, para as universidades 
de Viena (1884 a 1887), de Halle (1887 
a' 1900), de Góttingen (1900 a 1916) e, 
finalmente, de Freiburg-im-Breisgau, 
onde permaneceria até 1928, ano em que 
se retirou do magistério. No curso dessas 
atividades docentes, Husserl escreveu 
diversas obras, entre as quais se salien- 
tam Filosofia da Aritmética (1891), 
Investigações Lógicas (1901 e 1902), 
Idéias Diretrizes para uma Fenomeno- 
logia (1913), e Meditações Cartesianas 
(1929). Em 1933, com a tomada do 
poder pelo partido nazista, Husserl foi 
proibido de sair da Alemanha; no ano de 
sua morte (1938), seus amigos transfe- 
riram para Louvain, na Bélgica, inúme- 
ros escritos de sua autoria, que ficaram 
conhecidos como Arquivos Husserl. 


os fins do século XIX, a psicologia 
Ng de grande prestígio e ten- 


A crítica do psicologismo 


Nos prolegômenos das Investigações 
Lógicas, Husserl procurou mostrar que 
há uma diferença de direito entre a 
psicologia, ciência empírica dos fatos do 
conhecimento, e as ciências normativas 

uras, como a teoria do conhecimento e a 
ógica. A grande importância das Inves- 
tigações Lógicas consiste em mostrar 
que é impossível alcançar a apoditici- 
dade (necessidade e universalidade) da 
verdade, sem a idealidade das significa- 


Na página anterior: retrato do 
filósofo Edmund Husserl (Foto Fabbri). 


806 


ções lógicas e das significações em 
geral. Em outros termos, as leis lógicas, 
sustentáculos da unidade de toda ciên- 
cia, não podem, segundo Husserl, funda- 
mentar-se na psicologia, ciência empi- 
rica e, como tal, sem a precisão das 
regras lógicas. O psicologismo, diz Hus- 
serl, não consegue resolver o problema 
fundamental da teoria do conhecimento, 
ou seja, o problema de como é possivel 
alcançar a objetividade; ou, em outros 
termos, como é possível que o sujeito 
cognoscente alcance, com certeza e evi- 
dência, uma realidade que lhe é exterior 
e cuja existência é heterogênea à sua. 

A tendência do naturalismo, do qual o 
psicologismo é um caso particular, con- 
siste em resolver a questão anulando a 
dualidade ou a diferença entre sujeito e 
objeto, e afirmando que a única reali- 
dade é a Natureza. Em linhas gerais, as 
consequências do naturalismo podem ser 
reduzidas às seguintes: tudo é objeto 
natural ou físico; a consciência é uma 
expressão vaga que se costuma atribuir 
a eventos fisico-fisiológicos ocorridos no 
cérebro e no sistema nervoso; o conheci- 
mento é apenas o efeito da ação causal 
exercida pelos objetos fisicos exteriores 
sobre os mecanismos nervosos e cere- 
brais; os conceitos e leis científicos são 
generalizações abstratas que servem 
para o homem pensar mais economica- 
mente a multiplicidade dos objetos exte- 
riores; os conceitos de sujeito, objeto, 
consciência, coisa, princípio, causa, efei- 
to, etc., só têm sentido quando reduzidos 
a entidades empíricas observáveis; e, 
finalmente, a teoria do conhecimento é 
uma psicologia, isto é, uma descrição do 
comportamento do sujeito na atividade 
de conhecer. 

Husserl procurou mostrar que tais 
consequências redundam na impossibi- 
lidade de conhecimento científico, en- 
quanto conhecimento universal e neces- 
sário, visto que a universalidade se 
reduz à generalidade abstrata, e a neces- 
sidade à frequência e repetição dos even- 
tos observados. Essa impossibilidade 
tem sua origem na confusão estabelecida 
pelo naturalismo entre o físico e o psi- 
quico. Este diz Husserl, não é o conjunto 
dos mecanismos cerebrais e nervosos, 
mas uma região que possui especifi- 
cidade e peculiaridade; o psíquico é 


| EIS Ã 


HUSSERL 


Quando contava dezenove anos de idade, Husserl ingressou na Universidade de 
Berlim, onde estudou teoria dos números com Kronecker, f losofia com Paulsen 
e análise matemática com Weierstrass. Posteriormente Weierstrass o convidou 
para ser seu assistente, mas Husserl permaneceria pouco tempo exercendo essa 
função. (Palácio do Parlamento de Berlim, na época em que Husserl ali viveu.) 


fenômeno, não é coisa. Este é o físico, o 
fato exterior, empírico, governado por 
relações causais e mecânicas. O fenô- 
meno é a consciência, enquanto fluxo 
temporal de vivências e cuja peculiari- 
dade é a imanência e a capacidade de 
outorgar significado às coisas exterio- 
res. À consciência pode ser dita um fenô- 
meno empírico quando seu conhecimento 
é feito por uma ciência empírica como a 
psicologia, desde que esta não se curve à 
redução naturalista do psíquico ao fisi- 
co. Mas, e sobretudo, a consciência, ao 
ser estudada em sua estrutura imanente 
e especifica, revela-se como algo que 
ultrapassa o nível empírico e surge como 
a condição a priori de possibilidade do 
conhecimento, portanto, como Cons- 
ciência Transcendental. A fenomenologia 
é uma descrição da estrutura específica 
do fenômeno (fluxo imanente de vivên- 
cias que constitui a consciência) e, como 


RES sa 


descrição de estrutura da consciência 
enquanto constituinte, isto é, como con- 
dição a priori de possibilidade do conhe- 
cimento, o é na medida em que ela, 
enquanto Consciência Transcendental, 
constitui as significações e na medida em 
que conhecer é pura e simplesmente 
apreender (no nível empírico) ou consti- 
tuir (no nível transcendental) os sigmfi- 
cados dos acontecimentos naturais e psi- 
quicos. A fenomenologia aparece, assim, 
como filosofia transcendental. 

Para demonstrar que a filosofia (en- 
quanto fenomenologia transcendental) é 
uma ciência rigorosa, Husserl apresenta 
várias distinções. Em primeiro lugar 
distingue entre ciências empíricas dás 
fatos) e ciências puras (de idealidades a 
priori), como, por exemplo, a física e a 
matemática. Em seguida, distingue entre 
ciências exatas e ciências rigorosas. As 
primeiras vinculam-se ao caráter preciso 


807 


OS PENSADORES 


Fabbri 


Deixando Berkim em 1884, Husserl 
tranferiu-se para Viena, onde se 
ligou ao filósofo Franz Brentano 

acima), que exerceu profunda 
influência sobre seu pensamento. 


de suas medições e experimentações; as 
segundas, ao caráter necessário de seus 
princípios básicos. Finalmente, Husserl 
distingue entre ciências rigorosas e ciên- 
cias absolutamente rigorosas. As primei- 
ras possuem princípios fundamentados, 
mas seus fundamentos não são forneci- 
dos por elas próprias e sim por outras 
ciências, as absolutamente rigorosas. 
Estas são aquelas que se autofunda- 
mentam. A filosofia é, em todos os senti- 
dos e de pleno direito, a única ciência 
absolutamente rigorosa porque fornece a 
si própria os seus fundamentos e os de 
todas as outras ciências, sejam elas 
puras ou empíricas. 

O psicologismo surge, assim, como 
um engano teórico que pode compro- 
meter a possibilidade do próprio conhe- 
cimento cientifico, e o naturalismo, como 
um erro que deve ser combatido através 
da anádise fenomenológica da estrutura 
imanente da consciência, enquanto Irre- 
dutível a um fato natural e, mais do que 
isto, enquanto fonte do significado dos 


808 


próprios fatos naturais. Por outro lado, a 
lógica, enquanto disciplina filosófica, 
apresenta um caráter normativo e a prio- 
ri que impede sua confusão com a psico- 
logia, ciência empírica dos atos empiri- 
cos do conhecimento. A empiria não 
pode fornecer as condições da apoditici- 
dade. Estas devem ser encontradas numa 
região a priori, numa esfera de ideali- 
dades puras cujo caráter universal, 
necessário e normativo possam oferecer 
as leis do conhecimento verdadeiro. 


Ciência e consciência 


A compreensão do projeto fenomeno- 
lógico de Husserl depende de que se 
compreenda primeiro como o filósofo 
apresenta a estrutura da consciência 
enquanto intencionalidade. Este concel- 
to, oriundo da filosofia medieval, signifi- 
ca: dirigir-se para, visar alguma coisa. 
“A consciência é intencionalidade”, sig- 
nifica: toda consciência é “consciência 
de”. Portanto, a consciência não é uma 
substância (alma), mas uma atividade 
constituida por atos (percepção, imagi- 
nação, especulação, volição, paixão, 
etc.), com os quais visa algo. À esses 
atos Husserl chama noesis e aquilo que é 
visado pelos mesmos são os noemas. 
Esta distinção é fundamental para com- 
preender-se a crítica do psicologismo, 
pois este consiste em confundir noesis e 
noema, isto é, os atos pelos quais a cons- 
ciência visa um certo objeto de uma 
certa maneira, e o conteúdo ou signifi- 
cado desses objetos visados. Quando o 
psicologista considera que a idéia de um 
certo ic é formada pela associação 
de sensações, percepções e outras idéias, 
confunde os atos empíricos que o sujeito 
realiza para alcançar tal idéia, com a 
própria idéia, que, no entanto, é um con- 
teúdo ou significado não dependente dos 
atos empíricos do sujeito que procura 
alcançá-la. Justamente por causa disso, 
várias noesis diferentes podem estar 
referidas a um só e mesmo noema. No 
nível empírico as noesis são atos psicoló- 
gicos e individuais para conhecer um 
significado independente deles. No nível 
transcendental as noesis são os atos do 
sujeito constituinte que cria os noemas 
enquanto puras idealidades ou significa- 
ções. Nessa medida, as noesis empíricas 


SS O AM == — 


HUSSERL 


Fabbn 


Fabbri 


O método fenomenológieo elaborado por Husserl constitui o centro de gravidade 
de grande parcela do pensamento filosófico do século XX e suas influências 
estendem-se a todas as ciências humanas. Entre seus mais conhecidos 
seguidores, encontram-se Martin Heidegger, autor de Ser e 
Tempo, e Nicolai Hartmann, que desenvolveu uma ontologia fenomenológica. 


são passivas, pois visam uma significa- 
ção preexistente; as noesis transcen- 
dentais são ativas porque constituem as 
próprias significações ideais. 

Essas distinções permitem a Husserl 
elaborar a noção de Ciência como cone- 
xão objetiva e ideal de noesis e noemas 
puros. 

A ciência caracteriza-se, segundo 
Husserl, por centralizar-se na noção de 
unidade, pois é na medida em que existe 
uma unidade entre o ato de conhecer e 
seu correlato (aquilo que é conhecido) 
que se pode falar de ciência. Esta última 
seria, portanto, um conjunto de conexões 
objetivas e ideais. Essas conexões se dão 
em dois níveis: primeiro, o das coisas 
que são visadas pelo pensamento, ou 
ainda, pelos atos do pensamento; segun- 
do, o das verdades. Isso, contudo, não 
significa que exista umia distinção entre 
as verdades que dizem respeito às coisas 
e as verdades que se referem às próprias 
verdades. Se se aceitasse essa distinção, 
ficaria anulada a pretensão de estabe- 


lecer a unidade da ciência. Portanto, a 
ordem das verdades não é apenas a 
ordem do próprio pensamento, porém, na 
medida em que a ordem do pensamento é 
conhecida, a ordem da verdade é a ordem 
das próprias coisas. Isto significa que 
toda ciência, além das verdades empiri- 
cas que constata ou constrôi, e além das 
leis ps gerais que governam todo 
pensamento apolítico, pressupõe ainda a 
esfera das condições a priori de possibi- 
lidade de seus objetos e de seus métodos. 
Toda ciência pressupõe, portanto, a ca- 
mada noético-noemática transcendental, 
que determina as significações ideais de 
um certo campo de conhecimento e os 
atos de conhecimento (método) capazes 
de apreendê-las. Eis por que a diferença 
entre ciências da natureza e ciências do 
espírito é uma diferença absoluta, segun- 
do Hussérl. 

A unidade entre o ato de conhecer e o 
objeto que é conhecido encontra na 
fenomenologia, na ciência do fenômeno, 
isto é, da consciência enquanto manifes- 


809 


OS PENSADORES 


tação de si mesma e das significações 
objetivas, a possibilidade de instauração 
da “filosofia como uma ciência rigoro- 
sa”. Assim, a descrição do vivido, dos 
atos intencionais da consciência e das 
essências que eles visam, isto é, dos cor- 
relatos intencionais, — enfim, a disci- 
plina que poderá fundamentar a lógica 
—, é a fenomenologia. Esta não conside- 
ra, de maneira inseparável, o ato e o ob- 
jeto que ele visa, mas estabelece sua 
união mediante a estrutura básica da 
consciência, a intencionalidade, que re- 
vela a impossibilidade de um ato da 
consciência não ter um objeto, não visar 
um objeto. Isto não sigmifica, contudo, 
que a consciência vise seus objetos de 
uma mesma maneira, nem também que 
esses objetos se apresentem para a cons- 
ciência de um mesmo modo. É nesse 
ponto que o papel da femenologia se des- 
taca: cabe a ela distinguir, revelar o que 
há de essencial na percepção, na recor- 
dação, na imaginação. 


Ontologia regional 


Se a consciência, diz Husserl, “é sem- 
pre consciência de alguma coisa”, conse- 
quentemente o objeto é apreendido em 
sua relação com a consciência e, nesse 
sentido, ele supera a si mesmo. Uma vez 
que o traço essencial da consciência é a 
intencionalidade, o objeto pode ser con- 
siderado como escopo Fa mesma 
intencionalidade e, assim, transcende a 
si mesmo, pois, sendo um conteúdo da 
intencionalidade, ele transcende sua pró- 
pria existência real, enquanto existência 
empírica imediata. Por outro lado, se se 
considera que a intencionalidade pode 
ser polarizada em múltiplas essências, 
desde a percepção até a ideação, torna- 
se possível distinguir diversas “regiões” 
do ser. 

As essências ou significações (noe- 
mas) são objetos visados de uma certa 
maneira pelos atos intencionais da cons- 
ciência. Assim, por exemplo, um cubo 
pode ser visado pela percepção e, en- 
quanto essência perceptiva, é distinto do 
cubo qo visado pela idéia geomêé- 
trica de volume. Por outro lado, esse 
mesmo cubo pode ser visado por um ato 
de imaginação, encontrando-se, assim, 
uma terceira essência, distinta das 


810 


anteriores. A fenomenologia procura 
descrever a estrutura Pernas de cada 
um desses atos e de cada um de seus cor- 
relatos ou significações. Percepção-per- 
cebido, imaginação-imaginado, recorda- 
ção-recordado, ideação-ideado, etc., 
constituem o campo de trabalho das 
descrições e análises fenomenológicas. 
Cada um desses pares constitui uma 
certa região do Ser, isto é, um certo 
modo de um ente ser visado pela cons- 
ciência. Cada região se define, assim, 
pela estrutura do ato intencional e pela 
estrutura do correlato intencional; os 
pares formam uma estrutura unitária e é 
a unidade imanente existente entre os 
dois momentos (o ato de visar e a essên- 
cia ou significação visada) que permite 
falar na região da natureza fisica, na 
região dos objetos matemáticos, na 
ço dos valores morais, etc. A fenome- 
nologia é uma ontologia regional na me- 
dida em que se trata do Ser (do grego ón) 
enquanto estruturado com sentido dife- 
rente conforme seja visado pela cons- 
ciência. Cada região, estabelecendo a 
essência ou oniCadas do objeto pela 
modalidade da relação ato-correlato in- 
tencionais, é uma região eidética (do 
grego eidos: idéia ou essência). As essên- 
cias que regem conjuntos de fatos empi- 
ricos são ditas materiais, seja qual br 
sua região. As essências são materiais, e 
não meramente formais, porque possuem 
um conteúdo determinado pelo domínio 
circunscrito de uma certa maneira pela 
camada noético-noemática. Assim sendo, 
as essências configuram campos de obje- 
tividades que não podem ser extrapola- 
dos, o que seria possível se fossem pura- 
mente formais. Por isso a fenomenologia 
implica uma ontologia regional. 

Ciência das essências em geral, mas 
remetida da consideração do objeto para 
a da consciência, a fenomenologia estuda 
as essências da região “consciência”, 
suas estruturas e seus atos. Inicialmente, 
Husserl distingue a região “mundo” 
(exterior) e a região “consciência” (inte- 
rior). Contudo, no nível transcendental, 
na medida em que o sentido ou eidos da 
região “mundo”, ou das várias regiões 
dice da região “mundo”, é consti- 
tuído pela região “consciência”, esta se 
torna a região fundamental que produz o 
significado das demais. 


HUSSERL 


No período em que permaneceu em Viena, entre 1884 e 1887, Husserl renegou sua 
ascendência judaica, converteu-se ao luteranismo e casou-se com Malvine 
Steinschneider. Do ponto de vista intelectual, os anos passados em Viena foram 
extremamente fecundos:.as principais idéias que Husserl desenvolveu 
posteriormente foram esboçadas nessa época. (Universidade de Viena.) 


O mundo entre parênteses 


Para se compreender a passagem das 
várias regiões eidéticas, da região 
“mundo” para a região “consciência”, 
deve-se levar em conta uma operação 
muito especial que Husserl denomina de 
epoquê ou redução fenomenológica. A 
redução ou epoguê é a operação pela 
qual a existência efetiva do mundo exte- 
rior é “posta entre parênteses”, para que 
a investigação se ocupe apenas com as 
operações realizadas pela consciência, 
sem que se pergunte se as coisas visadas 
por ela existem ou não realmente. A 
redução, diz Husserl, suspende a “tese 
natural do mundo” (do grego thésis: 
posição, aceitação). A “atitude natural” 
é a atitude cotidiana de “tese do 
mundo”, ou seja: acredita-se esponta- 
neamente que as coisas exteriores exis- 
tem tais como se as vê; portanto, natural 


e espontaneamente, “põe-se” o mundo. 
Ora, quando se descobre que cada indivi- 
duo pode ter uma “posição” (tese) dife- 
rente da dos outros a “tese do mundo” 
torna-se confusa e problemática. A feno- 
menologia coloca a “tese natural” entre 
parênteses para indagar, primeiro, como 
a consciência funciona e como se estrutu- 
ra, para, no final, justificar essa “tese 
natural” exatamente enquanto atitude 
irrefletida, ingênua e que precisa ser 
fundamentada filosoficamente, já que é o 
modo de viver cotidiano. 

Husserl distingue dois níveis ou mo- 
mentos da redução. No primeiro, a redu- 
ção consiste em buscar o significado 
ideal e não empírico dos elementos empi- 
ricos. É uma redução eidética que procu- 
ra essências ou significados. Segundo 
Husserl, toda ciência (empírica ou pura) 
deve ser antecedida por uma investiga- 
ção eidética que defina a essência ou 


811 


Fabbri 


OS PENSADORES 


estrutura necessária do objeto a ser estu- 
dado. Assim, antes da psicologia deve 
vir uma psicologia eidética ou fenomeno- 
lógica que apresente a essência do psi- 
quico; antes da física, uma física eidética 
que faça a mesma descrição da essência 
do físico; e assim por diante. No segundo 
momento, porém, a redução é transcen- 
dental porque visa à essência da própria 
consciência enquanto constituidora ou 
produtora das essências ideais. É nesse 
nível que noesis e noemas se revelam 
como absolutamente a priori. 

A redução, contudo, não pode ser 
compreendida como uma negação ou 
uma limitação. Ela não nega o mundo, 
apenas o coloca entre parênteses. Torna- 
se um desvelamento do objeto, pois, 
enquanto procedimento de investigação, 
a redução torna exequível o mundo da 
experiência vivida. E, mediante sucessi- 
vas reduções, manifesta-se a Intenciona- 
lidade psicológica com seus objetos, a 
intencionalida transcendental, que 
pensa o mundo e o sentido do mundo, e, 
por fim, a intencionalidade criadora 
(idêntica ao movimento de redução), que 
faz o mundo aparecer. Por essa análise 
transcendental, os problemas da lógica 
se encontrarão Se em um “con- 
junto de atos de consciência, de atitudes 
da consciência em face do objeto, de 
modos sob os quais o objeto é dado à 
consciência” 


“Coisa”, “idéia”, “em” 

As coisas, segundo Husserl, caracteri- 
zam-se pelo seu perspectivismo, pelo seu 
inacabamento, pela possibilidade de 
sempre serem visadas por noesis novas 
que as enriquecem e as modificam. As 
idéias ou conceitos, ao contrário, carac- 
terizam-se por seu aspecto globalizador, 
total e acabado. Por exemplo: o cubo 
percebido pode ser objeto de infinitas 
percepções porque é apenas a multipli- 
cidade de perspectivas que o apreendem. 
O cubo pensado, por outro lado, é o obje- 
to geometricamente, definido de uma vez 
por todas. Basicamente, entre a percep- 
ção e a ideação encontra-se a diferença 
entre a transcendência da coisa, que a 
torna inesgotável, e a imanência da 
idéia, que a torna completamente defi- 
nida pela e para a consciência. Essa dife- 


812 


rença abre o campo para uma atividade 
fundamental da consciência, ampla- 
mente empregada pela fenomenologia: a 
imaginação transcendental, que procura, 
através da variação eidética, captar na 
multiplicidade infinita dos esboços e 
perspectivas a unidade de sentido que 
permite alcançar a idéia de uma coisa 
que, em si mesma, ê mesgotável, mas 
que pode ser “aprisionada” pelo seu con- 
ceito uno e total. A possibilidade de 
variação eidética (busca do núcleo essen- 
cial) pela imaginação transcendental 
decorre da natureza peculiar da cons- 
ciência. Embora em cada noesis e em 
cada noema a coisa transcendente pareça 
parcial e suscetível de novos desenvolvi- 
mentos e esboços, cada noesis e cada 
noema enquanto tais, isto é, enquanto 
atos e correlatos da consciência, são 
absolutamente totais e presentes. Cada 
um deles é completo em si mesmo e, 
assim, a cada passo a consciência se ofe- 
rece como integral e absoluta. A imanên- 
cia significa que cada vivido, embora 
forme um fluxo infinito com os demais, é 
em si mesmo completo e acabado. A 
imaginação transcendental consiste em 
atribuir à multiplicidade transcendente 
da coisa o caráter acabado que cada vi- 
vido possui. A idéia ou conceito é à supe- 
ração da infinidade das perspectivas 
transcendentes da coisa, pela unidade 
imanente do significado. 

Por outro lado, o eu parece estar na 
consciência constantemente, mas essa 
permanência não ê a de um vivido que se 
obstina estupidamente. 

O eu pertence antes a todo vivido que 
chega repentinamente e se escoa; seu 
“olhar” irige-se para o objeto através 
de todo o ER atual. Como diz o pró- 
prio Husserl, “(...) o eu puro parece ser 
um momento os a identidade 
absoluta que ele conserva através de 
todas às transformações reais e possíveis 
não permite considerá-lo em nenhum 
sentido como uma parte ou um momento 
real dos próprios vividos”. Esse eu surge 
como uma transcendência, contrapondo- 
se à imanência dos vividos; é esse eu que 
vive todos os modos do vido: 

Pode-se dizer, portanto, que o eu “na- 
tural” da psicologia se detém ante as 
coisas, que ele julga reais e transcen- 
dentes, no mundo; essa atitude, uma vez 


HUSSERL 


Desae 


, 


Rebrt Cud, 
fes pots de une 
anita rem | 


Embora tivesse deixado a religião judaica em 1886, Husserl foi um dos 
primeiros intelectuais alemães a sofrer com o anti-semitismo nazista. Em 
1933, foi proibido de ausentar-se da Alemanha sem autorização e suas obras 
foram impedidas de circular. (Em foto da Biblioteca Municipal de Milão, 

o alerta aos arianos: “Alemães! Defendam-se! Não cooperem com os judeus!) 


suspensa, aparece como tema ao eu 
“transcendental”, que pensa o mundo 
como transcendente ao eu empírico; 
enfim, última modificação do “olhar”, a 
redução transcendental completa-se ao 
descobrir no eu puro a origem do senti- 
do. Ao eu puro. que opera essa última 
significação, e que fica como simples 
espectador, aparece o eu que pensa o 
mundo com o conjunto de seus atos. 
Quando Husserl elogia Descartes e se 
considera um neocartesiano, ele o faz 
or duas razões: a primeira consiste no 
ato de Descartes ter imposto à filosofia 
algo que para Husserl é a pedra de toque 
do filosofar, isto é, ter imposto a ne- 
cessidade de um método que obrigue a 
uma reflexão radical sobre os procedi- 
mentos adequados para o pensamento 
filosófico; a segunda consiste no fato de 
Descartes ter encontrado o Cogito como 
primeira verdade indubitável para come- 


çar a pensar corretamente. O Cogito, isto 
é, a subjetividade, torna-se com Descar- 
tes o ponto de apoio necessário para o 
Saber, e Husserl lamenta que o filósofo 
francês, após ter demonstrado essa ne- 
cessidade capital, ainda tivesse recor- 
rido ao argumento teológico que coloca 
o Cogito na dependência da Inteligência 
e Vontade infinitas de Deus. O elogio do 
Cogito cartesiano significa que, para 
Husserl, o “Eu penso” apresenta aquele 
caráter a priori necessário e absoluto 
sem o qual a filosofia é impossível, pois 
ver-se-ja lançada na contingência das 
coisas empíricas e jamais poderia pen- 
sá-las como apoditicas. O Cogito é Res: 
luto na medida em que conserva aquilo 
: bm E 
que as coisas empíricas parecem não 
poder possuir: a permanência, a identi- 
dade consigo mesmo através de todos os 
seus vividos. O Cogito é o que permanece 
idêntico sob a multiplicidade das vivên- 


813 


cias. E é a identidade que lhe confere o 
poder de alcançar a identidade das coi- 
sas através do sentido que outorga a 
elas. Essa identidade revela, tam ém, 
que o Cog to não se confunde com o “eu 
psicoló gico”, , que é empírico, múltiplo e 
mutável. como toda empiria. 

Afirma-se dessa forma, a tese capi- 
tal do idealismo transcendental — feno- 
menológico de Husserl: é unicamente a 
subjetividade transcendental que possui 
um sentido e, quanto a seu ser, um ser 
absoluto; ao passo que o mundo real é 
relativo a ela. O Cogito reabre, porém, 
duas dificuldades peculiares a todo idea- 


lismo transcendental: como demonstrar 
que a relação entre a subjetividade soli- 
tária e o mundo objetivo é a mesma para 
todos os sujeitos? Como explicar que 
haja uma transformação das significa- 
ções ideais que, de direito, são intempo- 
rais? A primeira dificuldade é resolvida 
por Husserl, pela afirmação de que a 
subjetividade transcendental é intersub- 
Jetividade; a segunda, pela teoria da 
sedimentação e retomada das significa- 
ções pela Cultura. Esses dois problemas 
serão retomados por um dos continua- 
dores da fenomenologia, o filósofo fran- 
cês Maurice Merleau-Ponty. 


1859 — A 8 de abril, em 


Prossnitz, Morávia, nasce 
Edmund Husserl. 
1874 — Franz Brentano 


publica a Psicologia do Pon- 
to de Vista Empírico. 
1876-1878 — Husserl fre- 
quenta a Universidade de 
Leipzig. 

1882 — Doutora-se pela 
Universidade de Viena com a 
tese Sobre o Cálculo das 
Variações. 

1883 — Torna-se assisten- 
te, em Berlim, de Weiers- 
trass, seu ex-professor. 

1884 — Husserl retorna a 
Viena, filiando-se à filosofia 


CRONOLOGIA 


de Brentano. 

1886 — Renega sua ascen- 
dência judaica e converte-se 
ao luteranismo. 

1887 — Casa-se com Mal- 
vine Steinschneider. Torna- 
se livre-docente na Universi- 
dade de Halle. 

1891 — Husserl publica o 
primeiro volume da Filosofia 
da Aritmética, inacabada. 
1900-1901 — Publica as 
Investigações Lógicas. 

1906 — Husserl é nomea- 
do professor ordinário na 
Universidade de Gôóttingen. 
1907 — Em seu curso so- 
bre a Idéia da Fenomenolo- 


BIBLIOGRAFIA 


gia, surge a primeira idéia 
explícita de redução. 

1910 — Publica A Filoso- 
fia como Ciência Rigorosa. 
1913 — Publica Idéias pa- 
ra uma Fenomenologia Pura 
e para uma Filosofia Feno- 
menológica. 

1931 — Publicam-se, tra- 
duzidas para o francês, suas 
Meditações Cartesianas. 
1933 — Ascensão do na- 
cional-socialismo na Alema- 
nha. Husserl fica proibido de 
deixar o país sem autoriza- 
ção. 

1938 — Falece no dia 27 
de abril. 


BACHELARD, S.: La Logique de Husserl, Presses Universitaires de France, Paris, 1957. 
FARBER, M.: The Foundation of Fenomenology, Harvard University Press, Cambridge, 1941. 
KELKEL, L. e SCHERER, R.: Husserl, Sa Vie, Son Oeuvre, Presses Universitaires de France, 


Paris, 1964. 


MERLEAU-PONTY, M.: Le Philosophe et Son Ombre, in Signes, Gallimard, Paris, 1960. 


MUuRALT, A. de: L 'Idée de la Phénoménologie — L' Exemplarisme Husserlien, Presses Univer- 
sitaires de France, Paris, 1958. 

Paci, E.: 71 Problema del Tempo neila Fenomenologia di Husserl, La Goliardica, Milano, 
1960. 

THEVENAZ, P.: Qu est-ce que la Phénoménologie?, La Baconniére, Neuchâtel, 1966. 
TOouULEMONT, R.: L Essence de la Societé selon Husserl, Presses Universitaires de France, 
Paris, 1962. 

WAELHENS, A. de: Phénoménologie et Vérité, Presses Universitaires de France, Paris, 1953. 
TATARKIEWCZ, BIEMEL, KUYPERS, LEVINAS e outros: Husserl: Tercer Coloquio Filosofico de 
Royaumont in Cahiers de Royaumont, Editorial Paidós, Buenos Aires, 1968. 

LAuER, Q.: Phénoménologie de Husserl, Essai sur la Genêse de I'Intencionalité, Presses 
Universitaires de France, Paris, 1955. 


814 


OS PENSADORES 


aurice Merleau-Ponty nasceu a 4 
Ms março de 1908 em Rochefort- 

sur-Mer. Fez o curso secundário 
nos liceus parisienses Janson-le-Sally e 
Louis-le-Grand. De 1926 a 1930 foi 
aluno da École Normale Supérieure, oca- 
sião em que conheceu aqueles que com 
ele formariam a “geração existencia- 
lista” dos anos 40 e 50. 

De 1930 a 1935, Merleau-Ponty 
lecionou no curso secundário. Acabou 
sua tese complementar, La Structure du 
Comportement (A Estrutura do Compor- 
tamento), em 1938. Entre 1939-1940 foi 
mobilizado como oficial do 5.º Regi- 
mento de Infantaria. De 1940 a 1945, 
participando da Resistência, volta a 
lecionar no secundário. Em 1945 obtém 
o título de doutor em filosofia, após a de- 
fesa de sua “tese de Estado”, Phénomé- 
nologie de la Perception (Fenomenologia 
da Percepção). Em 1948 torna-se profes- 
sor da Universidade de Lyon. Nessa 
época, divide com Sartre a direção da 
revista Les Temps Modernes, criada logo 
apôs a Libertação. De 1949 a 1952 
ocupa o cargo de professor-titular da 
cadeira de Psicologia Infantil, na Sor- 
bonne. Em 1952 é eleito para a cátedra 
de Filosofia do Collêge de France, 
pronunciando como aula inaugural o en- 
saio Eloge de la Philosophie (Elogio da 
Filosofia). Nessa ocasião a amizade com 
Sartre e com Simone de Beauvoir passa 
por uma crise, ocasionada pela análise 
da posição de Sartre como “ultrabolche- 
vista” em Les Aventures de la Dialec- 
Ed Aventuras da Dialética). A aná- 
lise de Merleau-Ponty provocou uma 
polêmica que não cessou até a morte do 
filósofo, ocorrida subitamente a 3 de 
maio de 1961, vitima de embolia. 


As origens da reflexão 


Ao mesmo tempo que se dedicava ao 
ensino da filosofia, Merleau-Ponty pu- 
blicava livros de ensaios. Humanisme et 
Terreur (Humanismo e Terror) contém a 
análise dos processos de Moscou, o con- 
fronto entre stalinismo e trotskismo, a 
critica da guerra-fria e de suas implica- 
ções. Les Aventures de la Dialectique faz 


Na página anterior, foto de 
Merleau-Ponty. (Marcel Amson, Paris.) 


816 


o balanço crítico das diferentes linhas 
teóricas e políticas assumidas pelo mar- 
xismo após a revolução de 1917; con- 
fronta Weber e Luckacs; analisa as posi- 
ções de Moscou expressas através do 
Pravda; critica o voluntarismo de Sar- 
tre; problematiza a proposta de Trótski 
da necessidade de uma revolução perma- 
nente. O livro, em última instância, colo- 
ca os problemas teóricos para a consti- 
tuição de uma filosofia à luz dos 
problemas práticos da política. Sens et 
Non-Sens (Sentido e Não-Sentido) é uma 
coletânea de ensaios sobre arte (roman- 
ce, cinema, pintura e literatura); sobre 
as ciências humanas (significado da 
noção de estrutura como possibilidade 
de uma revolução cientifica que destrua 
o positivismo cientificista); sobre as 
relações entre a filosofia existencialista, 
o hegelianismo e o marxismo; e, por fim, 
alguns ensaios políticos sobre o pós- 
guerra, analisando a posição dos fascis- 
tas franceses, da igreja e dos heróis de 
guerra. Signes (Sinais) é a obra que 
marca a passagem gradual do filósofo de 
uma perspectiva fenomenológica para 
uma investigação ontológica. É também 
uma coletânea de ensaios sobre a arte, a 
história da filosofia, a nova epistemo- 
logia, que reflete sobre a contribuição do 
estruturalismo nas ciências e sobre a 
“crise da razão” decorrente da teoria da 
relatividade. O livro contém ainda en- 
saios monográficos sobre Husserl, Berg- 
son e Maquiavel, e um conjunto de pro- 
pos sobre a atualidade política européia. 

O prefácio de Signes pode se lido 
como uma autobiografia intelectual e 
política, como verdadeiro balanço que o 
filósofo apresenta de seu itinerário teó- 
rico e prático. Aparece aí a afirmação de 
que a filosofia precisa recuperar alguns 
truísmos fundamentais, como: o olho 
olha, a fala fala e o pensamento pensa. 
Essa afirmação marca o início de nova 
trajetória do pensamento de Merleau- 
Ponty. Suas primeiras obras estavam 
nitidamente vinculadas à fenomenologia 
husserliana, embora procurasse a cada 
passo minimizar o papel constituinte da 
consciência e outorgar à relação corpo 
sensivel-mundo sensivel o poder doador 
de significados que Husserl atribuíra ao 
Sujeito Transcendental. A partir de Sig- 
nes, Merleau-Ponty encaminha-se para a 


MERLEAU-PONTY 


O RR 


Eno Epa ie 


Ao “pensamento de sobrevõo”, 


típico da filosofia tradicional e da ciência, 


Merleau-Ponty contrapõe o retorno da reflexão ao subsolo pré-reflexivo. A 
visão do pintor — esse “nascimento continuado” — su gereo itinerário: como 
em Cézanne, que procurou fixar * “instantes do mundo” que suas telas continuam 
a nos doar. (Cézanne, A Montanha de Sainte-Victoire, coleção particular). 


ontologia como região pré-reflexiva, sel- 
vagem e bruta, de onde emergem as cate- 
gorias reflexivas. A filosofia — reflexão 
— deve voltar às origens da própria refle- 
xão e descobrir seu solo anterior à ativi- 
dade reflexiva e responsável por ela. 
Essa região ê o “logos do mundo estéti- 
co”, isto é, do mundo sensível, unidade 
divisa do corpo e das coisas, unidade 
que desconhece a ruptura reflexiva entre 
sujeito e objeto. Por outro lado, as refle- 
xões nascidas na região originária da 
aesthesis possuem dinamismo e simbo- 
lismo próprios, que se desenvolvem 


historicamente, constituindo a região do 
“logos do mundo cultural”, isto é, da 

rática nter-humana mediada. pelo tra- 
BalEo e, portanto, pelas relações sociais 
e pelas coisas aí produzidas. 


Sartre e Nizan 


O prefácio de Signes segue também 
outra vertente: a da posição política dos 
filósofós. Merleau- -Ponty acusa a “mania 
política dos filósofos”, uma certa manei- 
ra de fazer filosofia e de pensar a poli- 
tica que é má filosofia e má política. 


817 


OS PENSADORES 


Essa “mania” é a expressão da cons- 
ciência infeliz filosófica, que obriga o 
filósofo a assumir o papel pica 
de “político honorário” por honra da 
firma e para o bem da causa humana. O 
que acontece então é que a filosofia se 
dogmatiza e a política se voluntariza: 
consequências desastrosas para ambas, 
acarretando a impossibilidade real de 
uma filosofia da história e de uma prá- 
tica política efetiva. No percurso auto- 
biográfico Merleau-Ponty preocupa-se 
com o problema da “Rebeldia”, atitude 
Juvenil que pode ser um motor histórico, 
mas frequentemente se transforma em 
obstáculo político. Essa análise é feita 
como pano de fundo de uma rememori- 
zação cujo centro é a figura de Paul 
Nizan, amigo comum de Sartre e de 
Merleau-Ponty. A morte prematura de 
Nizan uniu os dois sobreviventes numa 
amizade fortificada pelos anos da Resis- 
tência e dilacerada, afinal, pela diver- 
ência profunda quanto aos princípios 
Elosófidos concernentes ao homem e à 
história. 

O que mais importa nessa reaproxi- 
mação de Merleau-Ponty e Sartre atra- 
vés do amigo morto é a redescoberta de 
um ponto dE contato que ambos supu- 
nham perdido: o reconhecimento de que 
a idéia de uma juventude revoltada é 
uma quimera porque a revolta não pode 
permanecer indefinidamente como revol- 
ta, e não pode, também, chegar à revolu- 
ção. É ainda o amigo perdido que leva os 
dois sobreviventes à meditação sobre a 
morte e sobre a fragilidade humana, 
encarnadas nos dois gestos fundamentais 
de Nizan: a ruptura do filho com a fami- 
lia e, mais tarde, a ruptura do militante 
com o partido. 

Por ocasião de sua morte, Merleau- 
Ponty preparava um livro sobre a ontolo- 
gia prê-reflexiva, mundo do ser bruto ou 
selvagem. O livro micialmente deveria 
intitular-se LºOrigine de la Vérité (A Ori- 
gem da Verdade). Nos manuscritos, 
porém, começou a surgir um novo título, 
Le Visible et "Invisible (O Visível e o 
Invisível). Será com este nome que o 
amigo de Merleau-Ponty, Claude Lefort, 
preparará a edição póstuma, contendo 
capítulos semi-acabados e as notas de 
trabalho. Também se deve a Lefort a 
publicação póstuma dos Résumes de 


818 


Cours, ministrados na Sorbonne e no 
Collége de France, e La Prose du Monde 
(A Prosa do Mundo), coletânea de 
ensaios sobre problemas de linguagem. 


O Pensamento de sobrevõo 


Em suas linhas gerais, a filosofia de 
Merleau-Ponty caracteriza-se pela cri- 
tica radical do humanismo. Este tem ori- 
gem no momento em que o pensamento 
reflexivo, colocado diante dos enigmas 
do realismo ingênuo — presente na sensa- 
ção e na percepção —, procura resolver 
os paradoxos perceptivos recorrendo à 
separação entre a consciência e o mundo, 
e reduzindo o real à dicotomia sujeito- 
objeto. A consciência, res cogitans, 
sujeito transcendental ou espírito, é defi- 
nida pela interioridade absoluta e pela 
identidade absoluta consigo mesma. A 
coisa, res extensa ou objeto, é definida 
pela exterioridade absoluta e pela im- 

ossibilidade de deter em si e por sia 
identidade consigo: mesma, a não ser que 
se converta numa representação, numa 
idéia. O pensamento ocidental, “pensa- 
mento de sobrevôõo”, procura dominar e 
controlar totalmente a si mesmo e esten- 
der a dominação e o controle à relidade 
exterior. A dicotomia sujeito-objeto, 
inaugurada pela metafísica idealista de 
Descartes, criou o espaço no qual é pos- 
stvel definir e determimar o ato do conhe- 
cimento e o conteúdo desse ato. Esse es- 
paço põe e respeita a cisão consciência- 
mundo, cisão que funda os dois enganos 
complementares que constituem aquilo 
que Merleau-Ponty denomina humanis- 
mo: o subjetivismo filosófico e o objeti- 
vismo científico. Em outros termos: dada 
a cisão, a filosofia outorga ao sujeito 
cognoscente o poder de se apropriar da 
realidade exterior e heterogênea a ele. 
As coisas se convertem em representa- 
ções constituídas pelo sujeito. O pensa- 
mento sobrevoa o mundo, transfor- 
mando-o em idéia ou conceito do mundo. 
No pólo oposto, a ciência outorga ao ob- 
jeto o poder de recriar a relação com o 
sujeito, exercendo sobre este último uma 
influência de tipo causal, cujo resultado 
é a presença do exterior na consciência 
por meio das sensações. O subjetivismo 
encaminha a filosofia para o idealismo: 
pouco a pouco as coisas exteriores vão 


E 


MERLEAU-PONTY 


se convertendo em realidades cada vez 
menos reais, vão se tornando sombras da 
verdadeira realidade, e esta se reduz, 
finalmente, à realidade do sujeito cog- 
noscente e de suas operações. O objeti- 
vismo científico, por sua vez, seguindo o 
caminho inverso, vai reduzindo a cons- 
ciência a uma realidade cada vez mais 
fugaz, atê que se converta num mero 
epifenômeno de acontecimentos fisico-fi- 
siológicos observáveis e objetivos. O 
pensamento de sobrevõo na filosofia con- 
verte o mundo em representação do 
mundo. O pensamento de sobrevôõo na 
ciência converte a consciência num re- 
sultado aparente de “fenômenos na ter- 
ceira pessoa”, isto é, de acontecimentos 
que pertencem à esfera dos. objetos 
naturais. 

Seria errôneo, contudo, julgar que a 
tendência idealista se confina à filosofia 
e que a tendência empirista se confina à 
ciência. Essa primeira direção, exami- 
nada por Merleau-Ponty em sua obra La 
Structure du Comportement, encontra 
uma contrapartida inversa e recíproca: 
idealismo cientifico e empirismo filosó- 
fico. Essa contrapartida é examinada na 
Phénomeénologie de la Perception, onde o 
problema da relação consciência-mundo 
é analisado primeiro do ponto de vista 
do empirismo científico, mas, em segui- 
da, também do ponto de vista do intelec- 
tualismo científico. Além dessas duas 
abordagens, Merleau-Ponty apresenta 
ainda as duas restantes: o empirismo e o 
idealismo filosóficos. Assim, subjeti- 
vismo e objetivismo, idealismo e empi- 
rismo, metafísica e positivismo são dico- 
tomias que possuem a mesma fonte: a 
separação sujeito-objeto, considerados 
como realidades heterogêneas, distintas 
e açambarcadoras, que tendem a reduzir 
seu oposto a uma aparência ilusória. As 
dicotomias são, portanto, as faces com- 
plementares de um engano comum e 
origmario. 


O corpo 


A separação sujeito-objeto, origem da 


Simone de Beauvoir, sua colega filosofia e da ciência modernas, desem- 
na Ecole Normale de Paris, escreve boca na necessidade de reunir os dois 
sobre o Merleau-Ponty estudante: termos, c a reunião operada consistirá 

“Ele, assim como eu, também sempre em tornar os dois termos absolu- 
procurava ansiosamente a verdade”. tamente coextensivos pela redução de 


819 


OS PENSADORES 


um deles ao outro: ou tudo é consciência, 
ou tudo é o objeto — e a consciência se 
reduz então a um epifenômeno de aconte- 
cimentos objetivos. 

A grande preocupação de Merleau- 
Ponty consiste em exigir que a ciência e 
a filosofia se questionem, questionando 

seus conceitos fundamentais (sujeito- -ob- 
jeto, fato-essência, - ser-consciência, 
real-aparência), conceitos usados sem 
que se perceba que já carregam uma 
interpretação da realidade, da expe- 
riência e do sentido. É preciso interrogar 
a ciência e a filosofia e propor-lhes um 
novo ponto de partida: a compreensão de 
suas origens. Isso significa, sobretudo, 
revelar que a vida representativa da 
consciência não é primeira, nem única, 
isto é, não é fundante nem definidora do 
que sejam a consciência e o mundo. Essa 
revelação, porém, segue uma trajetória 
peculiar no pensamento de Merleau- 
Ponty. No capítulo final de La Structure 
du Comportement, após ter feito a critica 
do objetivismo behaviorista e o do rea- 
lismo gestaltista, o filósofo indaga qual 
a relação entre a consciência perceptiva 
e a consciência representativa, e se a 
segunda não tende a anular a primeira. A 
resposta encontrada é a de que a cons- 
ciência perceptiva é fundante com rela- 
ção à representativa, de sorte que esta 
continua, no nível puramente intelectual, 
um conhecimento originado no nível sen- 
sivel. Essa resposta é desenvolvida na 
Phénomeénologie de la Perception, de- 
sembocando pouco a pouco na noção de 
uma consciência perceptiva solidária 
com o corpo, enquanto corpo próprio ou 
vivido, maneira pela qual nos mstalamos 
no mundo: anhando e doando significa- 
ção. À partir de Signes, porém, a noção 
de consciência perceptiva começa a apa- 
recer como “um rei em sua ilha deserta”, 
uma “semiverdade” que passa a Ser 
substituida pela de co e carne, Isto 
é, por uma Sds ds que não se 
reduz à imanência da RAR RR mas 
que não se explica pela exterioridade de 
mecanismos fisico-fisiológicos. O corpo 
apresenta aquilo que sempre foi o apaná- 
gio da consciência: a reflexividade. Mas 
apresenta também aquilo que sempre foi 
apanágio do objeto: a visibilidade. O 
corpo é o visível que se vê, um tocado 
que se toca, um sentido que se sente. 


820 


Quando a mão direita toca a mão esquer- 
da, há um acontecimento observável cuja 
peculiaridade é a ambiguidade: como 
determinar quem toca e quem é tocado? 
Como colocar uma das mãos como sujei- 
to e a outra como objeto? A descoberta 
do corpo reflexivo e observável leva 
Merleau-Ponty a mostrar que a expe- 
riência inicial do corpo consigo mesmo é 
uma experiência em propagação e que se 
repete na relação com as coisas e na rela- 
ção com os outros. À ciência e a filosofia 
não podem dar conta da relação peculiar 
do sujeito com o mundo sem destruir um 
dos termos; a mesma incapacidade surge 
também no tocante à relação com os 
outros. À intersubjetividade é impossível 
para a filosofia da consciência porque 
nesta a própria subjetividade é descar- 
tada, de modo que a relação inter-hu- 
mana pode ser explicada apenas em ter- 
mos de convenção, de condicionamento e 
de arbitrariedade. Ao tomar a expe- 
riência corporal como originária, Mer- 
leau-Ponty redescobre a unidade funda- 
mental do mundo como mundo sensível. 


O logos do mundo estético 


“Eis o enigma: meu corpo é simulta- 
neamente vidente e visivel. Ele, que olha 
todas as coisas, também pode olhar-se e 
reconhecer naquilo que então vê o “outro 
lado” de sua potência vidente. Ele se vê 
vendo, ele se toca tocando, é visivel e 
sensível para si mesmo. É um “si' não por 
transparência, como o pensamento, que 
pensa tudo assimilando-o, constituindo- 
o, transformando-o em pensamento — 
mas um “si” por confusão, narcisismo, 
inerência daquele que vê naquilo que vê, 
daquele que toca naquilo que toca, 
daquele que sente naquilo que é sentido 
(...). Esse primeiro paradoxo não ces- 
sará de produzir outros. Visível e móvel, 
meu corpo está no número das coisas, é 
uma delas, está preso no tecido do 
mundo é sua coesão é a de uma coisa. 
Mas, porque vê e se move, mantém as 
coisas em circulo à sua volta, as coisas 
são um anexo ou um prolongamento 
dele, estão incrustadas em sua carne, 
fazem parte de sua definição plena e o 
mundo é feito do mesmo estofo que o 
corpo. Essas reviravoltas, essas antino- 
mias são maneiras diferentes de dizer 


MERLEAU-PONTY 


Merleau-Ponty reconhece na ciência 
um pensamento ativo, engenhoso e 
desenvolto. Mas faz a crítica de seu 
artificialismo: “A ciência manipula 


e) 


as coisas e renuncia a habitá-las”. 


ue a visão é tomada ou feita lá no meio 

as coisas, ali onde persiste, como a 
água-mãe no cristal, a indivisão do sen- 
ciente e do sentido” (L'Oeilet PEsprit). 

A relação corpo-mundo é estesioló- 
gica: há a carne do corpo e a do mundo; 
há em cada um deles uma interioridade 
que se propaga para o outro numa rever- 
sibilidade permanente. “O mundo está 
todo dentro e eu estou todo fora”, escre- 
ve Merleau-Ponty em Signes. Corpo e 
mundo são um “campo de presença” 
onde emergem todas as relações da vida 
perceptiva e do mundo sensível. Há um 
logos do mundo estético, um campo de 
significações sensíveis constituintes do 
corpo e do mundo. É esse logos do 
mundo estético que torna possível a 
intersubjetividade como | intercorpo- 
reidade, e que, através da manifestação 
corporal na linguagem, permite o surgi- 
mento do logos cultural, isto é, do 
mundo humano da cultura e da história. 


Para Merleau-Ponty, a ciência e a filo- 
sofia da consciência são incapazes de 
demonstrar a possibilidade da relação 
intersubjetiva, na medida em que para a 
primeira cada um é um “amontoado de 
ossos, carne, sangue e pele” que se igua- 
la a um autômato, a uma “coisa” ou À 
matéria inerte, enquanto, para a segun- 
da, é um “eu penso” único e total, não 
havendo como sair de si e encontrar o 
outro. “Como o “eu penso” poderia emi- 
grar para fora de mim, se o outro sou eu 
mesmo?” (La Prose du Monde.) 


Palavra e significação 


Segundo Merleau-Ponty, a ciência e a 
filosofia, vítimas do objetivismo e do 
subjetivismo, nunca foram capazes de 
prestar contas da especificidade da lin- 
guagem e de seu modo de dar origem à 
comunidade cultural. Para a ciência, a 
linguagem se reduz à emissão de sons, 
objetos de uma ciência natural, a acústi- 
ca. Assim, a linguagem se reduz a um 
sistema a econômico de si- 
nais que permitem aos homens uma certa 
coexistência. Para a filosofia, a lingua- 
gem sempre foi uma tradução imperfeita 
do pensamento e os filósofos sempre se 
preocuparam em purificá-la para que 
pudessem “vestir” mais corretamente as 
idéias mudas e verdadeiras. Filosofia e 
ciência nunca alcançaram a dimensão 
expressiva da linguagem. A palavra não 
é tradução de um sentido mudo, mas 
criação de sentido. A linguagem não 
“veste” idéias — encarna significações, 
estabelece a mediação entre o eu e o 
outro e sedimenta os significados que 
constituem uma cultura. A palavra é « 
modulação de uma certa maneira de 
existir, que é originariamente sensível. 
“A linguagem não é mais a seiva das 
significações, mas o próprio ato de signi- 
ficar, e o homem falante ou o escritor 
não pode governá-la voluntariamente, 
assim como o homem vivente não pode 
premeditar o detalhe e os meios dos seus 
gestos. A única maneira para com- 
preender a linguagem é instalar-se nela e 
exercê-la” (Signes). 

Corpo, mundo, linguagem e intersub- 
jetividade encarnada levam Merleau- 
Ponty à crítica fundamental do “pensa- 
mento de sobrevõo” na filosofia e na 


821 


OS PENSADORES 


ciência. Corpo, mundo, linguagem, inter- 
corporeidade revelam que o real trans- 
borda sempre, que seu sentido ultra- 
passa os “dados” e os “conceitos”. A 
percepção revela o mundo como latenicia 
como transcendência. A pintura e a lin- 
guagem surgem como experiências reve- 
ladoras dessa latência e dessa transcen- 
dência do real, de um ser selvagem prê- 
reflexivo, sempre além e aquém dos fatos 
e das idéias. Qual o enigma da pintura? 
Quando contemplamos as figuras pinta- 
das nas cavernas, o que contemplamos? 
As figuras não são as cores ali fixadas; 
não são as marcas no calvário; não são 
cópias de animais e homens que já dei- 
xaram de existir; não são o material 
usado para criá-las. Os animais pintados 
nas paredes das cavernas são pintados 
porque só existem sob a condição ex- 
pressa de não se confundirem com a 
materialidade que os cristalizou nas 
paredes. O enigma da pintura consiste 
em fazer com que os objetos estejam na 
tela sob a condição expressa de não esta- 
rem ah, de transcenderem a materiali- 
dade, sem a qual, entretanto, não existi- 
riam, € rumarem para 0 sentido, sem o 
qual não seriam pintura. Qual o enigma 
da linguagem? É o de que nela a signifi- 
cação sempre ultrapassa o significante, e 
este sempre engendra novas significa- 
ções, de sorte que entre significação e 
significante nunca existe equilíbrio, mas 
ultrapassamento de um pelo outro gra- 
ças do outro. Esse ultrapassamento é o 
sentido. “A linguagem é, pois, este apa- 
relho singular que, como nosso corpo, 
nos dá mais do que pusemos nela, seja 
porque apreendemos nossos próprios 
pensamentos. quando falamos, seja por- 
que os apreendemos quando escutamos 
os outros. Quando escuto ou leio, as 
palavras não vêm sempre tocar significa- 
ções pré-existentes em mim. Têm o poder 
de lançar-me fora de meus pensamentos, 
criam no meu universo privado cesuras 

or onde outros pensamentos podem 
irromper” (Signes). 


A ontologia selvagem 


A trajetória merleau-pontyana ruma 
para a ontologia selvagem ou prê-refle- 
xiva. Le Visible et "Invisible procura o 
ser bruto, indiviso, latente, transcen- 


822 


dente, anterior a todas as separações e 
fixações que o pensamento filosófico ou 
científico lhe impõe. É essa ontologia 
que, partindo dos referenciais já explici- 
tados, exigirá a radicalidade da interro- 
gação filosófica. Radicalidade em duplo 
sentido: por um lado, como exigência de 
levantamento crítico de todos os conceil- 
tos filosóficos e científicos, como precon- 
ceitos que escondem uma metafísica 
dualista; por outro lado, como exigência 
da busca da raiz, da origem das relações 
corpo-mundo, corpo-linguagem, mundo 
sensíivel-mundo cultural. Essa radical- 
dade visa criticar as pretensões dos sis- 
temas conceituais, que aspiram a fechar 
aquelas relações num circulo determi- 

nado de pressupostos e absolutos. A des- 
coberta do ser selvagem é a descoberta 
de um “ser de abismo”, que não pode 
ficar encerrado, mas que se manifesta e 
se ultrapassa numa modificação infinita- 
mente aberta e nova. 

A última nota de trabalho de Le Visi- 
ble et PInvisible mdica o plano que o 
livro deveria seguir: “Meu plano: I o 
Visível; IL a Natureza; II o Logos. Deve 
ser apresentado sem nenhum compro- 
misso com o humanismo, nem, além 
disso, com o naturalismo, nem, enfim, 
com a teolo ii 

A filosofia não se compromete com um 
sistema conceitual que faça do homem, 
da matéria ou de Deus o cânone e o fun- 
damento do real e de seu conhecimento. 
Nem antropologia, nem naturalismo, 
nem teologia, mas ontologia do Ser 
Bruto, pré-reflexivo, que se manifesta 
através do homem e das coisas, mas que 
não se cristaliza neles. A filosofia deve 
combater os absolutos rivais: homem- 
natureza, Deus-Natureza, Natureza-His- 
tória, História-Deus. Nesse combate 
contra os absolutos, a filosofia recupera 
o valor da contingência e do aconteci- 
mento e, dessa maneira, o filósofo apare- 
ce como um homem entre outros homens 
e não como o detentor do Saber Absolu- 

. “Sua dialética ou sua ambiguidade é 
ReNera uma maneira de pôr em palavras 
aquilo que todo homem sabe muito bem: 
o valor dos momentos nos quais sua vida 
se renova continuando-se, se retoma e se 
compreende, passando além, ali onde seu 
mundo privado torna-se mundo comum” 
(Éloge de la Philosophie). A única dife- 


MERLEAU-PONTY 


“Como meu corpo, que entretanto é apenas um pedaço de matéria, se unifica 
em gestos que visam além dele, assim também as palavras da linguagem, que, 
consideradas uma a uma, são apenas signos inertes aos quais corresponde 
alguma idéia vaga ou banal, inflam-se subitamente com um sentido que 
extravasa no outro quando o ato de falar os ata em um único todo.” (Signes.) 


rença entre os homens e o filósofo reside 
na atenção que este dedica ao surgi- 
mento das coisas, dos homens e de suas 
relações recíprocas como surgimento de 
um sentido latente e novo que pré-existia 
como possibilidade e que chegou a ser 
explicitado. A ontologia de um mundo 
selvagem é a afirmação de que “este 
mundo barroco não é uma concessão do 
espirito à natureza, pois. se em toda 
parte o sentido está figurado, em toda 
parte se trata de sentido. À renovação do 


mundo é também renovação do espírito, 
redescoberta do espírito bruto que não 
está aprisionado por nenhuma cultura e 
ao qual se pede que crie novamente a 
cultura. O irrelativo, doravante, não é a 
natureza em si, nem o sistema das 
apreensões da consciência absoluta, 
nem, muito menos, o homem, mas a 
“teleologia” de que fala Husserl — escrita 
e pensada entre aspas —, juntura e mem- 
brana do Ser que se realiza através do 
homem” (Le Philosophie et Son Ombre). 


823 


1908 — 4 4 de março, em 
Rochefort-sur-Mer, nasce 
Maurice Merleau-Ponty. 

1917 — Os revolucionários 
comunistas tomam o poder 
na Rússia. Morre Durkheim. 
1919 — Publicação de 


LÉnergie Spirituelle, de 
Bergson. 
1926-1930 —  Merleau- 


Ponty estuda na École Nor- 
male Supérieure. 

1927 — Heidegger publica 
a primeira parte de Ser e 
Tempo. 

1929 — Thomas Mann re- 
cebe o Prêmio Nobel de 
literatura. 

1932 — Jaspers publica Fi- 
losofia. 


1937 — Morre Antonio 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


Gramsci. 

1938 — Publicação de A 
Náusea, de Sartre. 

1939-1940 —  Merleau- 
Ponty é mobilizado como 
oficial do 5.º Regimento de 
Infantaria. 

1941 — Arthur  Koestler 
publica Darkness at Noon. 
1942 — Publica-se La 
Structure du Comportement, 
de Merleau-Ponty. Camus 
publica O Estrangeiro e O 
Mito de Sísifo. 

1945 — Merleau-Ponty 
doutora-se em filosofia com 
Phénoménologie de la Per- 
ception. No mesmo ano, jun- 
tamente com Sartre, funda a 
revista Temps Modernes. 
1947 — Publica Humanis- 


BIBLIOGRAFIA 


me et Terreur. 
1948 — Publica Sens et 
Non-Sens. Torna-se profes- 


sor na Universidade de 
Lyon. 
1952 — Torna-se catedráti- 


co de filosofia no College de 
France; na aula inaugural, 
pronuncia seu ensaio Eloge 
de la Philosophie. 

1953 — Morre Stálin. 

1955 — Merleau-Ponty pu- 
blica Les Aventures de la 
Dialectique. Morre Einstein. 
1960 — Merleau-Ponty pu- 
blica Signes. Surge a Crítica 
da Razão Dialética, de Sar- 
tre. 

1961 — Em Paris, a 3 de 
maio, vitima de embolia, fa- 
lece Merleau-Ponty. 


CHAUÍ BERLINCK, M.: Merleau-Ponty e a Crítica do Humanismo, tese de mestrado, USP, 1967 


(inédito). 


WAELHENS, A. de: Une Philosophie de ['Ambiguité: L Existentialisme de Maurice Merleau- 
Ponty, Bibliothêque Philosophique de Louvain, 1951. 
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1115-1120. 


HyproLITE. J.: Existence et Dialectique dans la Philosophie de Merleau-Ponty, in Les Temps 
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LACAN, J.: Maurice Merleau-Ponty, ibid., pp. 245-254. 
LEFORT, C.: L Tdée d Étre Brut et d'Esprit Sauvage, ibid., pp. 255-286. 

PoNTALIS,J.-B.: Note sur le Probleme de | Tnconscient chez Merleau-Ponty, ibid., pp. 287-303. 
SARTRE, J.-P.: Merleau-Ponty Vivant, ibid., pp. 304-376. 
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WAHL, J.: Cette Pensée. . ., ibid., pp. 399-436. 
GANDILLAC, M. de: Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), in Revue Philosophique, n.º 1, 1962, 


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BAYER, R.: Merleau-Ponty et VExistentialisme, ibid., pp. 1079-117. 

DuFRENNE, M.: Maurice Merleau-Ponty, in Les Études Philosophiques, n.º 1, 1962, pp. 81-92. 
LerorT, C.: Posfácio, in O Visívele o Invisível, Editora Perspectiva, São Paulo, 1971. 

L 'Arc, n.º 46, dedicado a Merleau-Ponty. 


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(| 


OS PENSADORES 


uma das figuras mais importantes, 
olêmicas e contraditórias da filo- 
sofia do século XX. Pensador de múlti- 
plos interesses intelectuais, desenvolveu 
atividade de escritor extraordina- 
riamente fecunda e, desde 1896, quando 
publicou Democracia Social Alemã, não 
houve praticamente um ano, até 1946, 
em que não viesse à luz um livro seu, 
sem contar imúmeros artigos, publicados 
nas mais diversas revistas. Nesses 
escritos encontram-se tratados quase 
todos os assuntos filosóficos, além de 
problemas de interesse geral, como o 
uso militar da energia atômica ou a 
articipação norte-americana no con- 
Niio vietnamita. Até sua morte (1970), 
permaneceu um critico de instituições 
sociais opressoras, um pacifista ardo- 
roso e um militante infatigável em movi- 
mentos em defesa da liberdade humana. 
Devido a isso, foi muitas vezes atacado 
por círculos conservadores, tornou-se 
frequentemente manchete dos jornais, 
conheceu a prisão. 

Ao lado dessas atividades que o torna- 
ram conhecido de um amplo público em 
todo o mundo, Bertrand Russell desen- 
volveu, porém, uma série de trabalhos 
rigorosamente técnicos, ue o colocam 
como uma das principais figuras da filo- 
sofia contemporânea. 


B ertrand Russell é, sem dúvida, 


Do idealismo ao realismo 


A obra filosófica de Russell é consti- 
tuída, basicamente, por preocu ações 
lógicas, epistemológicas e metafisicas, 
mas não é possivel distinguir muito bem 
essas três ordens de problemas. A cone- 
xão entre elas pode ser formulada da 
seguinte maneira: pretendendo-se saber 
qual a natureza das coisas, é necessário 
procurar conhecê-las; a questão de saber 
o que as coisas são é, pois, inseparável 
da questão de saber como se conhecem 
as coisas como sendo o que são, e parti- 
cularmente da questão e saber qual a 
garantia de que as coisas são o que se 
diz que elas são ao se pretender conhe- 
cê-las. Em suma, o problema metafísico 


Na página anterior: retrato do 


filósofo Bertrand Russell; British 
Information Services (Foto Fabbri). 


826 


(o que as coisas são?) seria inseparável 
do problema epistemológico (o que 
garante a verdade de um suposto conhe- 
cimento das coisas e como um conheci- 
mento verdadeiro delas é possível?). 
Ora, nem o conhecimento das coisas nem 
o discurso que o exprime são dados 
simples, indecomponíveis, antes siste- 
mas estruturados de elementos de dife- 
rentes espécies. Nesse sentido, o exame 
do processo do conhecimento é insepa- 
rável da análise de sua estrutura, ou 
seja, o problema epistemológico é inse- 
parável do problema lógico (quais são 
os elementos que compõem nosso pensa- 
mento das coisas e como se articulam 
para produzir um discurso significativo 
sobre elas?). 

A filosofia russelliana aparece como o 
produto da imbricação dessas ordens 
distintas de problemas, e nela o privi- 
légio da lógica só é comparável à má 
fortuna da metafísica. A espantosa mu- 
tabilidade das posições filosóficas de 
Russell no decorrer de sua vida intelec- 
tual pode ser, em ande parte, enten- 
dida a partir das dificuldades impostas 
pela idéia de que toda tese metafísica 
pressupõe uma certa maneira de anali- 
sar a estrutura lógica da linguagem, 
pois, se a estrutura metafísica do mundo 
deve ser, em algum sentido, inferida da 
estrutura lógica da linguagem, a ques- 
tão de saber como efetuar essa infe- 
rência torna-se crucial. As diferentes 
respostas que Russell sucessivamente 
ofereceu e rechaçou correspondem às 
diferentes etapas de sua história filosó- 
fica individual. 

A primeira etapa caracterizou-se pela 
oposição ao idealismo, associado por 
Russell aos nomes de Kant 
(1724-1804), Hegel (1770-1831) e Bra- 
dley (1846-1924). O idealismo de Bra- 
ae principal alvo das críticas de Rus- 
sell e de quem este se confessa discípulo 
até 1898, quando dele teria se afastado, 
por influência de Moore, indavasse 
sobre a chamada teoria das relações 
internas. Segundo essa teoria, todo obje- 
to é de natureza mental, desde que se ad- 
mita que a natureza de um objeto é 
determinada pelo conjunto das proprie- 
dades que podem ser atribuídas a ele. 
Para Russell, a teoria das relações inter- 
nas pode ser inteiramente refutada na 


RUSSELL 


Russell estudou no Trinity College, 
Cambridge. A respeito dessa escola, 
escreveria: “O único hábito de 
pensamento de real valor que adquiri 
foio da honestidade intelectual”. 


Mame DO 


FABBRI 


base de considerações lógicas, pois a 
base dessa teoria é constituída por uma 
doutrina lógica incorreta: a de que toda 
proposição tem como componentes bási- 
cos um sujeito e um predicado. A idéia 
de que a relação com o espírito é uma 
propriedade determinante da natureza 
de todo objeto de conhecimento é deriva- 
da, diz Russell, da idéia de que a propo- 
sição “o objeto a mantém a relação R 
com b” decompõe-se em um sujeito (“o 
objeto a”) e um predicado (“mantém a 
relação R com b”), sendo que o predi- 
cado enuncia uma propriedade do sujei- 
to. A análise lógica das proposições 
matemáticas e o contato com as doutri- 
nas lógicas de Peano (1858-1932) e 
Frege (1848-1925) levaram Russell a 
reconhecer a irrelevância lógica das 
categorias de sujeito e predicado. e 
particularmente a incorreção da análise 
de proposições que enunciam relações 
entre da fundada sobre tais catego- 
rias. A proposição mencionada não 
comportaria dois, mas três elementos lô- 
gicos: “o objeto a”; “mantém a relação 
R com”; e “b”, Nada obrigaria nesse 
caso a inclurr “b” como elemento consti- 
tuinte de um predicado enunciado do 
sujeito, devendo-se antes considerá-lo no 
mesmo nível lógico que o sujeito, enten- 
dendo-se a proposição como a enuncia- 
ção de algo a respeito de a e b. À análise 
lógica correta de proposições dessa 
espécie sugere, pois, uma teoria das 
relações externas, isto é, a idéia de que 
as relações que um objeto mantém com 
outros em nada afeta sua natureza 
própria. 

Nesse periodo, que tem como ponto 
máximo Os Princípios da Matemática 
(The Principles of Mathematics) (1903), 
a inferência da lógica à metafísica foi 
feita por Russell de maneira radical: 
toda proposição sigmficativa remeteria 
a um fato no mundo, a estrutura desse 
fato espelharia a estrutura interna da 
proposição, de modo que a cada expres- 
são da proposição corresponderia algo 
no mundo, e a cada relação entre as 
expressões corresponderia uma relação 
entre os objetos por elas significados. 
Tais objetos existiriam, portanto, como 
garantia da significatividade das propo- 
sições e, contrariamente à tese defendida 
por Bradley, seriam independentes entre 


827% 


OS PENSADORES 


si e em relação ao ato de conhecer. 

Esse realismo extremo foi logo aban- 
donado por Russell. Além dos problemas 
mais imediatos colocados por ele (como 
o de reconhecer algo no mundo referido 
por palavras como “e”, “porém” e ou- 
tras da mesma SSnecie: “surgiram outros 
problemas que levaram Russell a aban- 
donar o realismo extremo. Um dos pri- 
meiros e mais importantes passos nessa 
direção foi dado, em 1905, no artigo 
Sobre a Denotação que, tratando da aná- 
lise do significado HE expressões deno- 
tativas, introduziu a teoria dos símbolos 
incompletos e a noção de significado em 
contexto. 


Construções lógicas 


Russell refutou o idealismo de Bra- 
dley, reconhecendo-o como conse- 
quência da tese infundada de que toda 
proposição deve ser analisada com base 
na distinção entre sujeito e predicado. A 
passagem do realismo extremo à teoria 
do signifi icado em contexto foi conse- 

iência da recusa em dotar de qualquer 
relevância lógica as categorias de sujei- 
to e predicado. Examinando-se as ex- 
pressões que aparecem como sujeitos de 
proposições, diz Russell, percebe-se que 
elas pretendem denotar um ou mais 
objetos, determinados ou indetermi- 
nados: “o atual rel da França”, “alguns 
reis”, “todos os reis”, etc. À luz da dou- 
trina do significado em contexto, tais 
expressões, chamadas denotativas, ape- 
nas poderiam comparecer em proposi- 
ções significativas se de fato denotassem 
objetos reais, visto que, na qualidade de 
SEO das proposições (elementos in- 

endentes da estrutura proposicio- 

Ea a elas deveriam corresponder ele- 
indi independentes da estrutura real 
dos fatos significados. A teoria do signi- 
ficado em contexto serve para revelar o 
caráter ilusório dessa necessidade de 
atribuir denotação às expressões deno- 
tativas, exibindo-as não como elementos 
independentes das proposições, mas 
como simbolos incompletos. 

O pressuposto de que toda expressão 
denotativa denota algo acarreta proble- 
mas insolúveis; torna impossível, por 
exemplo, a negação de existência. To- 
me-se por exemplo a proposição “O 


828 


atual rei da França não existe”; se ela 
for reconhecida como significativa, de- 
ver-se-ia reconhecer a existência de algo 
denotado por “o atual rei da França” e, 
portanto, a falsidade da proposição. 
Nenhuma negação de existência seria 
então verdadeira, pois sua significati- 
vidade implicaria necessariamente sua 
falsidade. Uma linha de solução, assu- 
mida entre outros por  Meinong 
(1853-1921), consiste em distinguir 
entre existência e subsistência e exigir 
que expressões denotativas denotem não 
entidades existentes mas simplesmente 
subsistentes. Sem falar na obscuridade 
da noção de subsitência, se essa distin- 
ção resolvesse o problema no que con- 
cerne a “o atual rei da França”, certa- 
mente não o resolveria no que concerne a 

“o círculo quadrado”, visto que o cará- 
ter contraditório das propriedades que a 
entidade supostamente denotada por 
essa expressão deveria possuir impede 
atê mesmo que seja admitida como 
subsistente, seja qual for o sentido que 
se dê a “subsistência”. Problemas seme- 
lhantes poderiam ser também levanta- 
dos com respeito a expressões como “um 
centauro”, “todos os anjos”, etc. 

Trata-se pois de mostrar como uma 
expressão denotativa pode ocorrer em 
proposições significativas sem que ne- 
cessariamente denote algo. A solução de 
Russell consistiu em reconhecer tais 
expressões como símbolos incompletos, 
isto é, expressões sem significado inde- 
pendente, mas apenas em contexto. Se 
elas aparecem como elementos inde- 
pendentes da estrutura gramatical da 
proposição, como seu sujeito, é porque 
essa estrutura gramatical não corres- 
ponde à sua estrutura lógica, e o que se 
chama sujeito da proposição não corres- 
ponde necessariamente a um elemento 
independente de seu significado. Anali- 
sando o significado de uma proposição 
onde aparece “o atual rei da França”, 
percebe- se que ele não contém necessa- 
riamente a afirmação de que algo corres- 
ponde a essa expressão como sua deno- 
tação, mais ainda, que na estrutura 
lógica da proposição nada corresponde a 

'o atual rei da França”. Segundo Rus- 
sell, a estrutura lógica de “o atual rei da 
França é calvo” encontra um correspon- 
dente gramatical adequado na proposi- 


RUSSELL 


A família de Russell pertencia à ala mais liberal da aristocracia inglesa: 

o avó paterno foi primeiro ministro e notabilizou-se pelas lutas em defesa da 
instrução popular e da emancipação dos judeus; o pai pretendeu educá-lo como 
agnóstico; a mãe foi líder de movimentos feministas e, “não raro, metia-se em 
maus lençóis”. (Paris em 1900: passeata pelo direito de voto às mulheres.) 


ção “algo é rei da França e é calvo, e 
nada mais é rei da França”. Vê-se clara- 
mente que nenhuma parte dessa proposi- 
ção apresenta-se como indicadora de um 
objeto determinado que seria o atual rei 
da França; isso evidencia pois que a 
expressão denotativa em questão é parte 
gramatical, mas não logicamente rele- 
vante da proposição inicial. Nesse senti- 
do, ela não contribui para o significado 
total da proposição com uma parcela 
isolável, mas o faz apenas no contexto 
global dessa proposição. Indicar a espe- 
cificidade dessa contribuição não é, por- 
tanto, especificar um significado inde- 
pendente, mas indicar como contextos 
contendo expressões denotativas podem 
ser parafraseados globalmente por con- 
textos onde elas não ocorrem, visto que, 
na qualidade de simbolos incompletos, 
elas significam apenas em contexto. 

A teoria dos simbolos incompletos 


constatui o núcleo da noção russelliana 
de construção lógica. Numa primeira 
fase de seu pensamento, Russell susten- 
tava que a estrutura dos fatos deveria 
ser inferida da estrutura das proposições 
de modo imediato. Problemas como os 
acima examinados levaram-no, não pro- 
priamente a abandonar esse princípio, 
mas a distinguir dois niveis na estrutura 
de uma proposição: o gramatical e o ló- 
gico, a estutura material e visível da 
proposição e a estrutura de seu signifi- 
cado. A superação do realismo extremo 
é, de fato, recusa da inferência que con- 
clui a estrutura material, mantendo-se 
contudo a possibilidade de tomar como 
premissa a estrutura lógica revelada 
pela análise lógica. De fato, nem tudo 
que a linguagem pretende denotar existe 
efetivamente, pois nem toda expressão 
denotativa efetivamente denota. Se uma 
proposição, que aparentemente se refere 


829 


FABBRI 


OS PENSADORES 


a certas entidades, puder ser parafra- 
seada de modo que a paráfrase não 
implique referência a tais entidades e 
tenha o mesmo valor de verdade que a 
proposição original, diz-se que a propo- 
sição é uma construção lógica a partir 
daquela oferecida como paráfrase, e que 
as supostas entidades são de fato cons- 
truções lógicas a partir dos elementos 
es Ra RÃ na paráfrase. À lógica 
caberia, pois, o caráter de reverso dessa 
construção, reduzindo o mundo aparente 
— imduzido pela interpretação imediata 
das proposições — ao mundo real dos 
elementos a partir dos quais aquele logi- 
camente se constrói. À análise lógica 
aparece, portanto, como instrumento 
essencial da filosofia, e até mesmo da 
metafísica. 


Construindo a ciência 
A noção de construção lógica mostra- 


se extremamente fecunda no dominio da 
epistemologia. “Desde muito jovem”, 


830 


1924, “desejei 
ardentemente acreditar que pudesse 
haver algo como o conhecimento, desejo 
combinado com grande dificuldade em 
aceitar muito do que passa por conheci- 
mento.” De fato, nem toda teoria cienti- 
fica exibe à plena luz as garantias de 
sua veracidade, em grande parte devido 
ao caráter problemático das entidades a 
que fazem referência. Ora, se fosse pos- 
sivel parafrasear as proposições de uma 
tal teoria, de modo a evitar qualquer 
referência a essas entidades, e portanto 
reduzi-las a construções lógicas, isso 
seria um passo importante no sentido de 
uma fundamentação satisfatória da ciên- 
cia. Russell foi, assim, levado a estabe- 
lecer o princípio: “Sempre que possível 
substituir inferências a entidades desco- 
nhecidas por construções a partir de 
entidades conhecidas”. É pena 
notar que, para Russell, isso não si 

fica necessariamente identificar entda 
des desconhecidas a outras conhecidas, 
pois é possível também, em certos casos, 


confessa Russell em 


O 


RUSSELL 


“Busquei, primeiro, o amor, porque 
ele produz êxtase — um êxtase tão 
grande que, não raro, eu sacrificava 
todo o resto da minha vida por umas 
poucas horas dessa alegria.” 

(A primeira esposa do filósofo, Alys 
Russell; a segunda, Dora Blair; 
Russell, em 1907; ea terceira 
esposa, Patricia Hellen Spence.) 


FABBRI 


entender as expressões que pretendem 
denotar entidades desconhecidas como 
simbolos incompletos, de modo a não 
encontrarem correspondente algum nas 
paráfrases obtidas. 

Dentro da perspectiva desse princípio, 
pode-se encarar o trabalho epistemo- 
lógico de Russell como tentativa de 
reduzir os corpos constituídos de ciência 
a construções lógicas a partir dos ele- 
mentos mais primitivos, obtendo assim 
uma economia de entidades a serem 
tomadas por irredutíveis. O momento 
mais célebre e bem sucedido desse tra- 
balho foi, sem dúvida, a construção da 
teoria aritmética a partir de elementos 
exclusivamente lógicos, momento ex- 
presso com perfeição nos Principia 
Mathematica. Além da matemática tam- 
bém a fisica e a psicologia mereceram a 
atenção de Russell, respectivamente em 
Análise da Matéria e Análise de Espíri- 
to. Nesses livros, Russell advogou a 
idéia de que toda proposição a respeito 
de corpos poderia ser parafraseada em 


831 


OS PENSADORES 


“O anseio de amor, a busca do 
conhecimento e a dolorosa piedade 
pelo sofrimento da humanidade” foram 
as paixões do filósofo. (Russell, por 
Woodmansterne; Nat. Portrait Gall.) 


termos de dados dos sentidos e de que 
toda proposição a respeito da mente 
poderia ser parafraseada em termos de 
sensações. Corpos e mentes não seriam, 
pois, entidades irredutíveis, mas cons- 
truções lógicas a partir de entidades 
mais primitivas, dados dos sentidos e 
sensações. Não se trata de identificar 
corpos a dados dos sentidos, mentes a 
sensações, mas entender toda proposi- 
ção a respeito de corpos como uma “ma- 
neira de dizer algo” a respeito de dados 
dos sentidos, sem que deva haver neces- 
sariamente paralelismo entre a estrutura 
da paráfrase e a da proposição parafra- 
seada. Em outros termos, expressões 
aparentemente denotando corpos pode- 
riam ser encaradas como simbolos in- 
completos, significativos apenas no con- 
texto de uma proposição, analogamente 
a “o atual rei da França”. Ao contrário 
do que ocorre no caso da aritmética, 
porém, o projeto construcionista apli- 
cado à física e à psicologia não conse- 
guiu jamais ultrapassar o nivel da inten- 
ção e do esboço. 


832 


FABBRI 


Matemática e lógica 


As concepções epistemológicas de 
Russell acerca da matemática são gover- 
nadas pela idéia nuclear de que a mate- 
mática não é mais que um desenvolvi- 
mento da lógica, toda proposição 
matemática podendo ser parafraseada 
em termos exclusivamente lógicos. Essa 
paráfrase far-se-iia em duas etapas. 
Mostrar-se-ia em primeiro lugar como 
parafrasear a aritmética em termos lógi- 
cos, em seguida como parafrasear todo o 
campo tradicionalmente atribuído à ma- 
temática pura. 

A fim de levar a cabo esse projeto, 
Russell foi obrigado a efetuar uma 
reestruturação radical da lógica clássi- 
ca. Em primeiro lugar, a paráfrase das 
proposições aritméticas em termos lógi- 
cos pressupõe a possibilidade de discri- 
minar as partes logicamente relevantes 
dessas proposições, pois ela assume 
necessariamente a forma de um inven- 
tário de regras indicando como traduzir 
logicamente uma proposição a partir do 
conhecimento das partes que a com- 
põem, dado o número potencialmente 
infinito de proposições a parafrasear, 
bem como o número finito de expressões 
logicamente simples a partir dos quais 
podem ser construidas. Ora, as catego- 
rias da lógica clássica são inadequadas 
para uma análise lógica precisa, princi- 
palmente as de sujeito e predicado. Além 
disso, as proposições da lógica que se 
devem oferecer como paráfrase para as 
aritméticas são de tal modo complexas 
que não poderiam ser formuladas con- 
tando-se apenas com o vocabulário 
disponível na lógica clássica. Enfim, se a 
redução da aritmética à lógica não pode 
consistir simplesmente em uma tal pará- 
frase, mas também na demonstração de 
que a proposição lógica que traduz uma 
lei aritmética é sempre logicamente 
dedutível de leis lógicas gerais, a lógica 
clássica não se mostra capaz de oferecer 
uma teoria da dedução à altura dessa 
tarefa. 

A reestruturação da lógica levada a 
cabo por Russell é idêntica em espírito à 
efetuada por Frege (1848-1925). As 
categorias de sujeito e predicado cedem 
lugar às de argumento e função proposi- 
cional; a oposição entre juízos univer- 


RUSSELL 


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FABbBRI 


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FABBRI] 


Ardente defensor do pacifismo, Bertrand Russell trabalhou ativamente para que 
a Inglaterra permanecesse neutra, durante a Primeira Guerra Mundial; por 
causa disso chegou a ser encarcerado. (Cartaz inglês exorta as mulheres a 
ngressar no Serviço Rural Feminino, e um jornal norte-americano anuncia a 
entrada dos Estados Unidos no conflito; Fototeca Histórica Nacional, Roma.) 


sais, particulares e singulares é formu- 
lada em termos de uma teoria da 
quantificação; a oposição entre afirma- 
ção e negação é abarcada por uma teoria 
mais ampla das funções de verdade. A 
noção de função proposicional foi obtida 
por Russell por extensão da noção mate- 
mática de função: “Por uma “função 
proposicional” entendemos algo que con- 
tém uma variável x e exprime uma 
proposição quando um valor é atribuído 
a x. Isto é, difere de uma proposição 
somente pelo fato de ser ambígua: con- 
têm uma variável cujo valor não é atri- 
buído. Concorda com as funções ordiná- 
rias da matemática no fato de conter 
uma variável não atribuida; difere delas 
pelo fato de serem os valores da função 
proposições. São funções proposicio- 
nais, por RA tr é homem”, “x é 
menor que yº 'x não é ímpar”. Um 
valor para a amáde que converta a fun- 
ção em proposição é chamado argu- 
mento da função. e a proposição resul- 
tante é chamada valor da função para 
aquele argumento. Toda proposição ele- 


mentar, isto é, toda proposição que não 
contém outras como partes, pode ser 
encarada ou como o valor de certa fun- 
ção para um ou mais argumentos, ou 
como a afirmação de que todo argu- 
mento converte uma função em proposi- 
ção verdadeira, ou ainda como a de que 
algum argumento converte certa função 
em proposição verdadeira. Diz-se que as 
duas últimas espécies de proposição são 
obtidas a partir de tunções proposi- 
cionais por operações de generalização, 
termo substituído, depois de Russell, 
por quantificação. À partir de proposi- 
ções elementares podem ser obtidas 
proposições moleculares mediante cer- 
tas operações hoje conhecidas como fun- 
ções de verdade. Essas operações carac- 
terizam-se pelo fato de ser o valor de 
verdade da proposição complexa univo- 
camente determinado pelos valores de 
verdade das proposições elementares 
componentes. À negação, a disjunção, a 
implicação, entre outras, são encaradas 
como funções de verdade, visto que o 
valor de verdade da negação de uma 


833 


OS PENSADORES 


Alfred North Whitehead, autor de uma 
obra original, como matemático e 
Roso pa ho também o colaborador 
o principal livro de 
Russell, os Principia Mathematica. 


proposição, por exemplo, é univoca- 
mente determinado pelo valor de verda- 
de da proposição negada, isto é, como 
seu inverso. 

As categorias inadequadas da lógica 
clássica mostram-se tão solidárias com 
a natureza das linguagens ordinárias 
que dificilmente a formulação de propo- 
sições da lógica em termos das novas 
categorias poderia ser acomodada nes- 
sas linguagens. Surgiu assim a necessi- 
dade de conduzir o trabalho de redução 
da aritmética à lógica, mediante uma 
linguagem simbólica artificial, cuja gra- 
mática fosse construida de acordo com 
essas novas categorias. Além disso, a 
posse de um simbolismo adequado per- 
mitiu a especificação de um conjunto 
bem determinado de regras de dedução, 
indicando como passar de certas sequên- 
cias simbólicas a outras logicamente 
deriváveis daquelas, o que permite a 


834 


FABBRI 


constituição de uma teoria precisa da 
dedução. A operação de de pode 
então ser efetuada mecanicamente, como 
uma operação sobre simbolos, dispon- 
do-se, portanto, de um cálculo lógico, no 
sentido do projeto leibniziano de uma 
característica universal. 


Um paradoxo decisivo 


As proposições aritméticas enunciam 
propriedades e relações numéricas. O 
primeiro passo da redução da aritmética 
à lógica consiste, pois, em exibir o con- 
ceito de número como uma construção 
lógica a partir de materiais lógicos. Isso 
se faz em duas etapas. Em primeiro 
lugar, proposições acerca de números 
são reduzidas a proposições acerca de 
classes de objetos, e em seguida proposi- 
ções acerca de classes são reduzidas a 
proposições acerca de funções proposi- 
cionais. A primeira etapa desse projeto 
foi cumprida por Russell na mesma 
linha seguida por Frege em sua obra 
Leis Fundamentais da Aritmética 
(1903), tendo os dois grandes lógicos 
chegado a resuldados praticamente 
idênticos de modo independente. Em 
comparação com Frege, o trabalho de 
Russell é menos rigoroso no manejo do 
simbolismo e na condução das demons- 
trações, representando, do ponto de 
vista da sintaxe lógica, um passo atrás. 
Por outro lado, enquanto Frege nem che- 
gou a examinar as operações aritméticas 
elementares dos números cardinais, 
Russell ofereceu definições para os car- 
dmais e ordinais, Inteiros e RacionaRoa 
positivos e negativos, racionais e irra- 
cronais, chegando a esboçar uma teoria 
lógica da operação de medir grandezas 
concretas. 

Do seguinte modo Russell apreende 
números cardinais enquanto classes: Um 
cardinal n pode ser encarado como algo 
que certas classes de objetos têm em 
comum, precisamente as classes de n 
objetos; esse “algo em comum” pode ser 
nada mais que o fato de pertencerem 
todas a uma certa classe, a classe das 
classes que têm n elementos. Russell de- 
fine então o número cardinal que convém 
a uma classe como sendo a classe de 
todas as classes que têm o mesmo núme- 
ro de elementos que ela. Russell evitou a 


- q 


as - 


RUSSELL 


“À satisfação que então sentíamos em ser companheiros oi crescendo e parece 
continuar crescendo sem limites, convertendo-se numa felicidade duradoura e 


estável que é a base de nossa vida." 


* Assim o filósofo refere-se a Edith 


Finch, sua quarta esposa, com quem se casou aos oitenta anos de idade. 


(Bertrand Russelle Edith Finch, em foto de 1953; Staatsbibliothek, Berlim.) 


flagrante circularidade dessa definição, 
definindo a relação “ter o mesmo núme- 
ro de elementos que” em termos pura- 
mente lógicos: uma classe tem o mesmo 
número de elementos que outra sea cada 
elemento da primeira se pode fazer 
corresponder um único da segunda e 
vice-versa, ou seja, se existe entre elas 
uma correspondência biunivoca. Enfim, 
define-se o conceito de número da 
seguinte maneira: algo é um número se e 
somente se existe uma classe da qual 
esse algo seja o número. Os cardinais 
finitos são definidos, em seguida, de 
modo recursivo: em primeiro lugar defi- 
ne-se O como o número da classe vazia; 
depois define-se o 1 como o número de 
uma classe não vazia, de modo tal que, 
dados quaisquer elementos a e b, a é 
considerado igual a b; finalmente, indi- 
ca-se como ohter o número n+l a partir 
da definição do número n. Reduzidos os 


cardinais a classes, consequentemente 
as propriedades, relações e operações 
numéricas são reduzidas, em seguida, a 
propriedades, relações e operações no 
domínio das classes, obtendo-se, pois, 
um método para reduzir proposições 
sobre cardinais a proposições sobre 
classes. 

Russell, contudo, não considerou in- 
teiramente satisfatória a redução dos 
números a classes, por dois motivos. Em 
primeiro lugar, a vantagem epistemo- 
lógica dessa redução ficava comprome- 
tida pelo caráter problemático das su- 
postas entidades que seriam as classes. 
Russell resolveu essa dificuldade mos- 
trando como tudo o que se pretende com 
a noção de classe pode ser também obti- 
do com a noção de função proposicional. 
Além disso, definiu contextualmente o 
conceito de classe, indicando como para- 
frasear proposições contendo nomes e 


835 


FABBRI 


OS PENSADORES 


variáveis para classes, em termos exclu- 
sivamente de funções proposicionais. 
Essa passagem deixa claro por que, para 
Russell, proposições sobre classes são 
proposições da lógica. 

Outro aspecto torna problemática a 
redução de números a classes. Se cabe 
demonstrar as proposições artiméticas 
reduzidas a partir de leis lógicas gerais, 
uma dessas leis deve especificar a natu- 
reza geral das classes. Os primeiros ló- 
gicos e matemáticos que se aprovei- 
taram da fecundidade da noção de 
classe, como Frege, Cantor (1845-1918) 
e Dedekind (1831-1916), julgaram evi- 
dente que essa lei devesse tornar possi- 
vel afirmar a existência de uma classe 
correspondendo a toda função proposi- 
cional, precisamente a classe de todos os 
objetos que satisfizessem essa função, 
ou seja, que a convertessem em proposi- 
ção verdadeira. Mas, em 1903, Russell 
descobriu uma contradição implicada 
em tal afirmação, contradição conhecida 
como o paradoxo das classes: tome-se a 
função proposicional “x é uma classe 
que não é membro de x” e chame-se de k 
a classe por ela determinada; a classe k 
será membro de k, se e somente se satis- 
fizer a função que determina k, isto é, se 
e somente se k não for membro de k, o 
que é uma contradição. Em sua Autobio- 
grafia, Russell refere-se ao paradoxo de 
maneira mais simples: “Burali-Forti já 
haviam descoberto uma contradição se- 
melhante e, através da análise lógica, 
verificou-se que havia entre ela afini- 
dade com a contradição grega antiga a 
respeito de Epimênides, o Cretense, que 
disse que todos os cretenses são mentiro- 
sos. Uma contradição essencialmente 
semelhante à de Epimênides pode ser 
produzida dando-se a uma pessoa um 
pedaço de papel em que esteja escrito: 
“A afirmação existente no verso deste 
papel é falsa”. A pessoa vira o papel e lê, 
no verso: “A afirmação existente no 
outro lado deste papel é falsa”. Parecia 
indigno de um homem já adulto perder 
seu tempo com tais trivialidades, mas 
que é que eu poderia fazer? Havia algo 
errado, já que tais contradições eram 
mevitáveis em premissas ordinárias. 
Trivial ou não, a questão constituía um 
desafio”. 

A crise provocada pela descoberta do 


836 


paradoxo é de tal ordem que levou Frege 
a abandonar a crença na possibilidade 
de reduzir a aritmética à lógica. 

A construção das classes a partir de 
funções proposicionais não altera em 
nada a situação, visto que o paradoxo 
pode ser reproduzido para funções pro- 
posicionais: basta indagar se a função 
“F é uma função proposicional que não 
satisfaz a si própria” satisfaz a si pró- 
pria. Russell contudo não desesperou, e 
ofereceu como remédio a chamada teoria 
dos tipos. 

O paradoxo é inevitável quando se ad- 
mite a possibilidade de toda função 
proposicional ser tomada como argu- 
mento de toda função proposicional, e 
particularmente de uma função ser to- 
mada como argumento de si própria. 
Essa possibilidade não pode, por outro 
lado, ser inteiramente abolida, pois os 
números devem ser apreendidos como 
classes de classes, o que equivale, após a 
redução de classes a funções, à exis- 
tência de funções satisfeitas por funções. 
Além disso, se essa possibilidade há que 
ser de algum modo restrita, isso deve ser 
feito por bons motivos lógicos, se as pre- 
missas das deduções aritméticas devem 
ser leis lógicas gerais. É o que Russell 
pretendeu com a teoria dos tipos. Ela 
consiste em ordenar os objetos em uma 
hierarquia de tipos mutuamente exclusi- 
vos, e em limitar os argumentos de toda 
função aos objetos de um sô tipo. Assim, 
objetos que não são funções seriam de 
tipo 1, funções cujos argumentos são de 
tipo 1 seriam de tipo 2, e assim por dian- 
te, de modo que uma função de tipo n+1 
apenas pudesse tomar como argumentos 
objetos de tipo n. Desse modo, uma 
expressão que pressupusesse o contrário 
não deveria ser tomada como falsa, mas 
como não significativa, gramaticalmente 
incorreta. Em particular, não seria sig- 
nificativa a expressão “F não satisfaz 
F”, pois implica tomar como argumento 
de F uma função de mesmo tipo, a pró- 
pria F. 

Russell encarou a teoria dos tipos 
como logicamente admissível na medida 
em que é simplesmente a generalização 
de um fato lógico inconteste: o fato de 
nem sempre ser possivel a uma expres- 
são ocupar no contexto de uma proposi- 
ção qualquer posição lógica. Uma ex- 


RUSSELL 


Por volta de 1955, Bertrand Russell empreendeu grandes esforços pela 
utilização pacífica da energia nuclear e contra a bomba atômica. Para isso, 
entrou em contato com os mais eminentes cientistas e intelectuais de todo o 


mundo e organizou a conferência de Pugwash, na Índia. (O 


ilósofo e Albert 


Schweitzer, 1955; foto do livro Russell, de autoria de Philip Devane.) 


ressão que denote um objeto que não é 
funcao não pode evidentemente ocupar a 
posição reservada a expressões de fun- 
ção. Do mesmo modo, dada uma função 
F, nem todo objeto pode aparecer na 
posição de seu argumento, surgindo o 
paradoxo como evidência de que, em 
especial, a própria função F não o pode. 
Essa impossibilidade seria requerida 
ainda por um princípio que Russell en- 
cara como lógico, o princípio do círculo 
vicioso: “Tudo aquilo que implica a 
totalidade de uma coleção não deve ser 


membro da coleção”. Se uma coleção é 
formada a partir de seus membros, estes 
devem estar disponíveis no momento de 
formá-la, nenhum deles podendo impli- 
car, portanto, a existência prévia da 
coleção. Ora, uma função proposicional 
determina-se pelo conjunto de seus valo- 
res possíveis, não sendo possivel, sem 
incorrer em círculo vicioso, admitir que 
alguns desses valoes dependam da 
disponibilidade prévia da própria fun- 
ção como argumento possível. 

A adoção do princípio do círculo 


837 


FABBRI 


OS PENSADORES 


! 


Quase centenário, Bertrand Russell 
liderou um movimento contra a 
di dos norte-americanos no 


conflito vietnamita, e instituiu um 
tribunal para julgar crimes de guerra. 


vicioso levou Russell a complicar a hie- 
rarquia dos tipos, acrescentando uma 
hierarquia de ordens, de modo que fun- 
ções do mesmo Al an pertencer 
a diferentes ordens, de acordo com o tipo 
das funções que aparecem como partes 
de suas expressões. Essa hierarquia de 
ordens complica muito a manipulação 
do simbolismo e, principalmente, torna 
necessário acrescentar um novo axioma 
ao sistema, a fim de que ele comporte a 
redução da aritmética à lógica; trata-se 
do axioma da redutibilidade, que garan- 
te a pessibi doa ae de encontrar, para 
toda função de tipo n, outra função de 
mesmo tipo, satisfeita pelos mesmos 
argumentos e da menor ordem compa- 
tivel com o tipo n, o que praticamente 
equivale à possibilidade de manipular o 
simbolismo independentemente de consi- 
derações acerca das ordens de funções; 
Na verdade, a hierarquia de ordens ape- 
nas é relevante quando se trata de afas- 


838 


FABBRI 


tar paradoxos semânticos, surgidos no 
momento em que são admitidas na lin- 
guagem expressões que denotam expres- 
sões da própria linguagem. Na medida 
em que a qe que deve servir ao 
projeto de redução da aritmética à lógi- 
ca prescinde de tais expressões, pode-se 
construí-la de modo que os paradoxos 
semânticos não apareçam; a hierarquia 
de ordens, assim, torna-se supérflua. 

Embora outras soluções tenham sido 
propostas para os paradoxos em ques- 
tão, a teoria dos tipos não perdeu sua 
atualidade na moderna teoria dos con- 
Juntos, inspirando, entre outros, o siste- 
ma exposto pelo lógico W. Quine 
(1908- ) em seu conhecido e impor- 
tante artigo Novos Fundamentos de Ló- 
gica Matemática. 


Os átomos da lógica 


O método de análise lógica das teorias 
científicas e do discurso sobre as coisas 
ocupa lugar central na filosofia de Rus- 
sell, articulando facetas epistemológicas 
e metafísicas. Para Russell, tudo o que 
se conhece é obtido ou a partir de um 
contato direto (acquaintance) com obje- 
tos, ou por construções lógicas redutí- 
veis, em última instância, a elementos 
dados diretamente. A análise lógica das 
teorias é, pois, ao mesmo tempo, o 
discernimento das etapas e procedi- 
mentos que possibilitam a edificação de 
um sistema de conhecimentos, e um 1ns- 
trumento indispensável a toda investiga- 
ção epistemológica. Essa maneira de 
encarar o conhecimento foi posta por 
Russell a serviço do empirismo. À noção 
de “contato direto” tende a confundir-se 
com a de “experiência direta”, de modo 
que a análise lógica de uma teoria deve 
poder apresentar todo o conjunto de suas 
proposições como formulado em termos 
de expressões simples, denotando enti- 
dades simples e diretamente acessíveis à 
experiência. O empirismo russelliano 
afasta-se, porém, do empirismo tradicio- 
nal, ou ao menos daquilo que Russell 
Julgava ser o empirismo tradicional, no 
sentido de reconhecer a necessidade de 
princípios de inferência não empirica- 
mente fundamentados, para tornar pos- 


RUSSELL 


Analisando os fundamentos lógicos da matemática, Bertrand Russell abriu novos 
rumos para a filosofia nos terrenos da mais alta abstração, mas manteve-se 
sempre interessado pelos problemas concretos da humanidade e liderou diversos 
movimentos populares. Na foto acima, em Trafalgar Square, Londres, o filósofo 
dirige-se a encrme público, abordando o problema do desarmamento nuclear. 


sível a construção do corpo geral de 
conhecimentos, a partir da experiência 
imediata. Em particular, as leis lógicas 
e matemáticas não seriam SeneraliZaÉ 
ções da experiência, como acreditava 
Stuart Mill (1806-1873), mas princípios 
diretores de construções lógicas, inde- 
pendentes da experiência. Russell apro- 
xima-se, assim, do empirismo lógico do 
Circulo de Viena, do qual diverge, 
porém, ao abandonar a idéia, inicial- 
mente professada, de que a lógica e a 
matemática dispõem de evidência ime- 
diata, por serem construídas a partir de 
meras definições. Segundo Russell, em- 
bora não deriváveis da experiência, os 
princípios lógicos e matemáticos devem 
poder ser confirmados em suas aplica- 
ções empíricas, dai retirando seu valor 
de conhecimento. 

Do mesmo modo que o primeiro Rus- 
sell inferia a estrutura metafísica do 
mundo a partir da estrutura lógica da 


linguagem, não distinguindo entre estru- 
tura amatical e estrutura lógica, o 
Russell construcionista chegou a crer na 
possibilidade de inferir essa estrutura 
metafísica a partir da estrutura última 
das teorias, revelada pelo procedimento 
de análise. Essa inferência, influenci- 
ada em muito por um seu antigo aluno, 
Ludwig Wittgenstein (1889-1951), le- 
vou-o ao atomismo lógico, expresso 
como teoria metafísica em 1918, numa 
série de conferências intitulada 4 Filo- 
sofia do Atomismo Lógico, e logo aban- 
donado. Assim como toda teoria cienti- 
fica deveria poder ser formulada em 
termos de expressões simples para obje- 
tos, propriedades e relações, o mundo 
seria redutível a objetos, propriedades e 
relações simples. A posse de uma pro- 
priedade simples por um objeto simples, 
ou uma relação simples entre objetos 
simples seriam fatos atômicos, o mundo 
real nada mais sendo que a totalidade 


839 


FABBRI 


OS PENSADORES 


dos fatos atômicos que realmente ocor- 
rem. Toda descrição do mundo seria 
redutível à expressão de fatos atômicos 
ou de um complexo de tais fatos, indi- 
cado por uma proposição molecular 
construida mediante o uso de funções de 
verdade. O atomismo lógico aparece em 
Russell inseparável do empirismo, visto 
que os elementos simples do mundo se- 
riam imediatamente acessíveis à nossa 
experiência. 

Contudo, duas espécies de problemas 
levaram Russell a abandonar o ato- 
mismo como tese metafísica e a descrer 
da possibilidade de efetuar a inferência 
da linguagem ao mundo. O atomismo 
deixa sem correspondente metafísico as 
proposições gerais, que exprimem as 
leis cientificas mais importantes, visto 
que não remetem a fatos atômicos nem, 
se o universo de objetos for infinito, 


podem ser reduzidas a compostos fun- 
cionais-veritativos de pro osições expri- 
mindo fatos atômicos. Além disso, de- 
pendendo a estrutura metafísica do 
mundo do tipo de linguagem adotada 
como última e irredutível, a possibili- 
dade, cada vez mais presente para Rus- 
sell, de encontrar várias linguagens 
divergindo quanto aos elementos a 
serem encarados como simples — e todas 
igualmente adequadas — introduz na 
metafísica uma relatividade insupor- 
tável. O atomismo lógico tende, pouco a 
pouco, ao estatuto de simples máxima 
de análise lógica, retirando-se paralela- 
mente da filosofia todo direito a pronun- 
ciar-se sobre a natureza do real, direito 
que caberia com exclusividade à ciência. 
Um problema de filosofia, afirma Rus- 
sell, ou é um problema de lógica ou não 
é um problema de filosofia. 


1872 — A 10 de maio, em 
Trellek, País de Gales, nas- 
ce Bertrand Arthur William 
Russell. 

1874 — Morre sua mãe. 
1875 — Perde seu pai. 

1890 — Russell ingressa no 
Trinity College. 

1894 — Gradua-se em filo- 
sofia. Casa-se com Alys 
Pearsall Smith. 

1896 — Viaja para a Ale- 
manha. Publica a Democra- 
cia Social Alema. 

1897 — Publica Um Ensaio 
sobre os Fundamentos da 
Geometria. 

1903 — Escreve The Princi- 
ples of Mathematics 

1910 - 1913 — Russell, jun- 
tamente com Whitehead, 


CRONOLOGIA 


publica os Principia Mathe- 
matica. 

1920 — Já divorciado de 
Alys, casa-se com Dora 
Black. 

1929 — Publica Casamento 
e Moral. 

1932 — Publica Educação 
e Ordem Social. 

1935 — Divorcia-se de Do- 
ra, casando-se com Patricia 
Helen Spence. 

1940 — E convidado a inte- 
grar o departamento de filo- 
sofia da Universidade da Ci- 
dade de Nova York. Sua in- 
dicação é rejeitada devido a 
suas concepções morais. 
Torna-se conferencista da 
Fundação Barnes, em Me- 
rion, Filadélfia. 


BIBLIOGRAFIA 


1943 — Em janeiro, é des- 
pedido da Fundação. 

1950 — Recebe o Prêmio 
Nobel de Literatura. 

1952 — Divorcia-se de Pa- 
tricia e casa-se com Edith 
Finch. 

1957 — Patrocina a primei- 
ra conferência de Pugwash 
(contra a corrida armamen- 
tista). » 

1961 — E preso devido a 
sua campanha pelo desar- 
mamento nuclear. 

1963 — Cria a Fundação 
de Paz Bertrand Russell. 
1967 - 1969 — Publica sua 
Autobiografia. 

1970 — Morre em Penrhyn- 
deudracth, País de Gales, a 
2 de fevereiro. 


Frirz, €. A.: Bertrand Russell's Construction of the External World, Londres, 1952. 
GórtTuinD, E.: Bertrand Russell's Theories of Causation, Uppsala, 1952. 

QuinE, W. V.: From a Logical Point of View, Cambridge, Massachusetts, 1953. 

CLark, C. H. D.: Christianity and Bertrand Russell, Londres, 1958. 

MontTGoMERY, G. S.: Why Bertrand Russell is not a Christian, Nova York, 1959. 

EDWARDS, P. e outros: Russell, Bertrand Arthur William, in The Encyclopedia of Philosophy, 
8 vols., The Macmillan Company & The Free Press Nova York, 1967. 

Urmson, J. O.: Philosophical Analysis, its Development between the two World Wars 


Oxford, 1956. 


WARNOCK, G. J.: English Philosophy Since 1900, Londres, 1958. 


840 


CAPÍTULO 65 


OS PENSADORES 


os fins de século XIX, o idealismo 
era a filosofia dominante na Ingla- 
terra. A tradicional corrente empi- 
rista, que caracterizara por séculos a 
filosofia britânica, esteve quase total- 
mente extinta, salvo a ética de Sidgwick 
e o pensamento de John Stuart Mill 
(1806-1873); este era visto apenas 
como um mau exemplo dessa tradição. 
Triunfante através do estilo incompa- 
ravelmente gracioso e claro de Mac Tag- 
gart (1866-1927), da teoria do “eu 
ativo” de James Ward (1843-1925), do 
neoberkelianismo de Hastings Rashdall 
(1858-1924) e do pragmatismo huma- 
nista de F. C. S. Shiller (1864-1937), 
cedo, no entanto, o idealismo viu conta- 
dos os seus dias. 
Nesse sentido, o ano de 1903, com 
recisão fora do comum em matéria de 
história das idéias, foi o divisor de 
águas entre duas épocas bem marcadas. 
Em 1903, vieram à luz The Principles of 
Mathematics, primeira das grandes 
obras de Bertrand Russell (1872-1970), 
e dois livros de George Edward Moore 
(1873-1958), Principia Ethica e Refuta- 
ção do Idealismo. Eos obras marca- 
ram o surgimento de uma nova corrente 
de pensamento, que teria profundas 
consequências no desenvolvimento pos- 
terior da filosofia britânica, particular- 
mente no período compreendido entre as 
duas guerras mundiais de 1914 e 1939. 
As idéias desenvolvidas pelo novo 
movimento poderiam ser caracterizadas, 
em primeiro lugar, exprimindo uma 
espécie de realismo. Russell e Moore, a 
despeito de suas diferenças, susten- 
tavam que o mundo consiste em uma 
vasta pluralidade de coisas, de espécies 
radicalmente diferentes, independentes e 
logicamente distintas. Em segundo 
lugar, os dois filósofos retomaram o 
tradicional empirismo inglês, levando-o 
a refinamentos originais, em conexão 
com o desenvolvimento das ciências no 
século XX e com a lógica matemática. 
Em terceiro lugar, Russell e Moore, 
ambos criticando a teoria das relações 
internas, definida pelos idealistas, che- 


Pág. anterior: George Edward Moore; 
desenho do acervo Galeria Nacional 
de Retratos, Londres (Susan Pinkus). 


842 


aram à conclusão de que a tarefa do 

Elósofo deve ser, sobretudo, analítica; 
assim, não haveria lugar na filosofia 
para as grandes sínteses das metafisicas 
tradicionais que pretendiam explicar a 
totalidade das coisas. 

O principal centro do neo-realismo e 
da filosofia analítica inglesa foi a 
Universidade de Cambridge, onde Geor- 

e Edward Moore passou a maior parte 
dé sua vida acadêmica e formou toda 
uma geração de pensadores. Além da 
influência sobre esses filósofos, muitas 
das idéias de Moore ressurgem em Witt- 
genstein (1889-1951) e no grupo dos 
neopositivistas. 


A análise filosófica 


Moore dedicou-se sobretudo à análise 
da significação de expressões emprega- 
das na linguagem corrente e à investiga- 
ção das principais proposições dos filó- 
sofos. Esses dois tipos de análise são 
distintos: no caso da linguagem corren- 
te, Moore aceita seus significados como 
verdadeiros e os acha suficientemente 
claros; no caso da linguagem dos filóso- 
fos (sobretudo dos idealistas) o mesmo 
não ocorreria, sendo necessário, por 
um lado, investigar o significado das 
proposições e, por outro, inquirir sobre 
sua verdade ou falsidade. Embora as 
proposições do senso comum, diz 
Moore, não possam ser provadas ou 
contestadas, e melhor aceitá-las como 
verdadeiras, pois, caso contrário, che- 
ga-se a muitos paradoxos. 

Por essa razão, muitos críticos viam 
em Moore apenas um filósofo do senso 
comum. No entanto, essa opinião só deve 
ser aceita na medida em que se tenha em 
conta o fato de ele ter utilizado o senso 
comum não apehas para elucidar os 
significados encontrados nas proposi- 
ções dos filósofos, como também para 
distinguir o que essas proposições conte- 
nham, por ventura, de verdadeiro. Em 
suma, sua defesa do senso comum tem 
um significado sobretudo metodológico. 

O método analítico de Moore consiste 
mais numa prática metodológica do que 
propriamente num método rigorosa- 
mente elaborado. Isso não significa que 
não se possa averiguar O que seja seu 
método, mas é necessário aceitar o fato 


MOORE 


SUSAN PINKUS 


Embora sem maior ressonância junto a um público mais amplo, as obras de Moore 
e suas atividades na Universidade de Cambridge tiveram profunda influência 

na filosofia inglesa e moldaram toda uma geração. “Homenagem a Maret”, tela 

de Orpen William, mostra Moore, o primeiro sentado à esquerda, e W. Steer, H. 
Tonks, H. Lane, D.S. Mac Colle W. Sickert. (City Art Gallery, Manchester.) 


843 


Ee CS SESSS: 


OS PENSADORES 


de que ele não é constituido por uma 
série de regras, como o método baconia- 
no, por exemplo. Como consegiência, 
toda exposição do pensamento de Moore 
exige que se siga sua prática. Em outros 
termos, é mais fácil seguir do que expor 
o método de Moore. 

O interesse mostrado por Moore no 
sentido de pôr em prática o seu método 
analítico não significa, no entanto, que 
ele tenha se desinteressado de toda 


proposição filosófica acerca da realida- 


de, nem, tampouco, que seu método seja 
destituído de pressupostos filosóficos. O 
próprio Moore afirma, numa de suas 
obras, que a filosofia tem por missão 
“dar uma descrição geral de todo o 
universo”: por outro lado, ao fazer a 
análise das significações, Moore pressu- 
põe a existência de um universo de signi- 
ficações manifestado nas expressões da 
linguagem. 

Uma das mais interessantes aplica- 
ções do método analítico de Moore 
encontra-se em seu livro Principia Ethi- 
ca, no qual elabora uma doutrina objeti- 


vista da natureza da moral. Primeira- 
mente, Moore analisa as “coisas boas”; 
em seguida investiga o significado da 
palavra “bom”. Esta última parte é de 
especial importância; nela, Moore chega 
à conclusão de que “bom” é um predi- 
cado básico, já que não se pode decom- 
por a significação desse termo em outras 
significações mais primárias. Os filóso- 
fos que tentaram realizar essa decompo- 
sição, diz Moore, foram levados a isso 
por uma “falácia naturalista”. O fato de 
tratar-se de um predicado básico, no 
entanto, não faz de “bom” uma quali- 
dade misteriosa; para Moore trata-se 
apenas da expressão que designa uma 
qualidade irredutível, da mesma forma 
como “amarelo” também é irredutível. 
Posteriormente, Moore admitiu que 
“bom” pudesse ser uma palavra para 
designar a atitude de “aprovação”, não 
concebendo, no entanto, a “aprovação” 
como uma atitude “natural”, mas, antes, 
como resultado de um “uso linguístico”, 
tomada esta expressão no seu mais 
amplo sentido. 


1873 — Em Londres, a 4 
de novembro, nasce George 
Edward Moore. 

1879 — Nasce Albert 
Einstein. 

1892 — Moore 
no Trinity College. 
1899 — Publica The Na- 
ture of Judgement. 

1903 — Moore publica, A 
Refutação do Idealismo e os 
Principia Ethica. 


ingressa 


CRONOLOGIA 


1904 — Surge a Psicopa- 
tologia da Vida Cotidiana, 
de Freud. 

1907 — Bergson publica a 
Evolução Criadora. 

1910 — Início da publica- 
ção dos Principia Mathema- 
tica, de Russell e White- 
head. 

1913 — Publicação de 
Idéias para uma Fenomeno- 
logia Pura e para uma Filo- 


BIBLIOGRAFIA 


sofia Fenomenológica, de 
Husserl. 

1916 — Moore casa-se 
com Dorothy Ely, com 
quem terá dois filhos. 

1922 — Moore publica os 
Estudos Filosóficos. 

1953 — Publica Some 
Main Problems in Philo- 
sophy. 

1958 — Morre em Cam- 
bridge, a 24 de outubro. 


MaALCOLM, N.: Knowledge and Certainty, Englewood Cliffs, Nova Jersey, 1963. 
PASsMORE, J.: Moore and Russell, in A Hundred Years of Philosophy, Londres, 1957. 
UrMmson, J. O.: Philosophical Analysis, its Development between the tuo World Wars, 


Oxford, 1956. 


WARNOK, G. J.: G. E. Moore, in English Philosophy Since 1900, Londres, 1958. 


WHITE, À. R.: G. E. Moore, A Critical Exposition, Oxford, 1958. 


NELSON, J. O.: Moore, George Edward, in The Encyclopedia of Philosophy, 8 vols., The 
Macmillan Company & The Free Press, Nova York, 1967. 
WHrrE, A, R.: G. E. Moore, in A Critical History of Western Philosophy, editado por D. J. 
O'Connor, The Free Press of Glencoe, Nova York, 1964. 
MORA, J. F.: Moore, George Edward, in Diccionario de Filosofia, 2 vols., Editorial Sudameri- 


cana, Buenos Aires, 1969. 


844 


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CAPÍTULO 66 


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OS PENSADORES 


om a publicação, em 1922, de Os 

Argonautas do Pacífico Ocidental, 

Malinowski não realizou apenas 
uma adição, embora substancial, à etno- 
grafia da Melanésia, mas procedeu a 
uma verdadeira revolução na lhteratura 
antropológica. 

O caráter inovador da obra de Mali- 
nowski, exemplificado nessa monografia 
e nos trabalhos que a sucederam, ultra- 
passou de muito o circulo restrito dos es- 
pecialistas em antropologia. Talvez ape- 
nas Morgan (1818-1881), antes dele, e 
Lévi- São (1908- ), depois, tenham 
logrado uma repercussão tão ampla de 
seus trabalhos, inclusive entre o público 
leigo. 

No caso de Malinowski, como no dos 
outros dois, a popularidade da obra e 
seu significado movador repousam na 
apresentação de uma nova visão do ho- 
mem e na indicação de uma nova ma- 
neira de compreender o comportamento 
humano. Com os Argonautas, desfaz-se 
definitivamente a visão das sociedades 
tribais como fósseis vivos do passado do 
homem, equivalentes humanos das pe- 
cas de museu, aglomerados de crenças e 
costumes irracionais e desconexos. Os 
costumes e as crenças de um povo exó- 
tico adquirem agora plenitude de signifi- 
cado e o comportamento nativo aparece 
como ação coerente e integrada. A etno- 
grafia adquiriu a capacidade de recons- 
truir e transmitir uma experiência, de 
vida diversa da nossa, mas nem por isso 
menos rica, ou menos humana. 

Essa inovação não resulta simples- 
mente de uma intuição feliz, mas é, sem 
dúvida alguma, o produto de uma refle- 
xão laboriosa, que arquitetou novas téc- 
nicas de investigação e novos métodos de 
interpretação, tão candidamente expos- 
tos na Introdução de Os Argonautas. A 
singular mistura de objetividade cienti- 
fica e vivência pessoal, de humildade e 
jactância que transparece nessa Introdu- 
ção, revela muito da personalidade de 
Bronislaw Kaspar Malmnowski. 

Professor rilhante, conferencista 
magnífico, polemicista apaixonado, Ma- 


Foto de Bronislaw Kaspar Malinowski 
em Yale, pouco tempo antes 
de sua morte, ocorrida em 1942. 


(John Phillips — Time Life) 


846 


linowski possuía simultaneamente a ca- 
pacidade de simpatia e a intolerância 
que coexistem tão frequentemente nas 
pessoas muito afetivas. Por isso mesmo, 
criou discípulos fervorosos e adversários 
ferrenhos. O próprio caráter polêmico, 
complexo e muitas vezes contraditório 
de sua obra provoca a admiração sincera 
e a crítica impiedosa que têm marcado 
todas as avaliações de sua contribuição 
científica. A extraordinária vivacidade e 
penetração da análise etnográfica colo- 
cam problemas teóricos da maior rele- 
vância, que permanecem hoje tão atuais 
como no passado. Por outro lado, as ten- 
tativas de sistematização CE Grica espe- 
cialmente como aparecem nos poucos en- 
saios que publicou sobre o método 
funcionalista, dois dos quais póstumos, 
estão eivadas de contradições insolúveis 
e generalizações apressadas, que obscu- 
recem o alcance e a importância das 
questões levantadas nos trabalhos etno- 
gráficos. Por isso, a apreciação do que 
existe de vivo e provocante na sua obra 
só pode ser feita através da leitura de 
uma de suas monografias, como Os Ar- 
gonautas do Pacífico Ocidental. 


As novas bases 
da antropologia 


Malinowski chegou à antropologia 
por caminhos transversos. Sua formação 
inicial foi no campo das ciências exatas, 
tendo obtido em 1908 o doutoramento 
em fisica e matemática pela Universi- 
dade de Cracóvia, sua cidade natal. 
Nessa época, tinha apenas 24 anos de 
idade, pois nascera nessa antiga cidade 
polonesa, a 16 de maio de 1884. 

De constituição franzina, teve que in- 
terromper sua carreira cenulica logo 
depois de formado, por motivos de 
saúde. Impedido de gaba lhar: leu, como 
distração, a famosa obra de Sir James 
Frazer, The Golden Bough, que o atraiu 
defini isamende para a antropologia e 
que exerceu influência profunda em sua 
formação. Dirigiu-se então para Leipzig 
onde, em breve permanência, iniciou-se 
em sua nova vocação sob a orientação de 
Karl Búcher e Wilhelm Wundt. Em 1910 


Já estava na Inglaterra, tendo sido admi- 


tido na London School of Economics 
como aluno de pós-graduação. 


MALINOWSKI 


Cortesia do Consulado da Polônia 


Natural de Cracóvia, Polônia, Malinowski cedo deixou seu país, passando a 
realizar inúmeras viagens de estudos e pesquisas. Iniciou-se na antropologia 
em Leipzig (Alemanha); a partir de 1910 estudou em Londres; em 1914 organizou 
uma expedição à Nova Guiné, a primeira de uma série ligada ao trabalho de 
campo em várias regiões do Pacífico. (Acima, vista da cidade de Cracóvia.) 


847 


OS PENSADORES 


Cpm 


A formação inicial de Malinowski foi no campo das ciências exatas: em 1908 
doutorou-se em fisica e matemática pela universidade de Cracóvia (acima). 
A leitura do livro de Sir James Frazer, The Golden Bough, marcou o início 

de seu interesse pela antropologia. O começo da carreira de Malinowski, como 

antropólogo, coincidiu com o desenvolvimento de novas técnicas de pesquisa. 


848 


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Cortesia do Consulado da Polônia 


MALINOWSKI 


Em menos de três anos, Malinowski já 
era reconhecido como antropólogo pro- 
missor e de grandes qualidades intelec- 
tuais, tendo publicado três artigos e um 
bvyro. Em 1913, começou sua carreira 
docente, tendo ministrado, entre esse ano 
e o seguinte, dois cursos na London 
School of Economics, como Lecturer on 
Special Subjects. Nesse mesmo período 
travou relações com os maiores antropó- 
“logos da época como Seligman, Haddon, 
. Rivers, Frazer e Marett. Com Seligman, 
particularmente, mantinha contato 
muito estreito, o mesmo acontecendo 
também com Westermarck, que prefa- 
ciou seu primeiro livro, The Family 
Among | the Australian Aborigines. 

O início da carreira de Malinowski 
coincide com um periodo de grande efer- 
vescência na antropologia, caracteri- 
zado pelo desenvolvimento de novas téc- 
nicas de pesquisa e pela critica aos 
métodos de interpretação vigentes. 

Até o fim do século XIX, a quase tota- 
lidade dos antropólogos jamais havia se- 
quer visto um representante dos chama- 
dos povos primitivos sobre os quais 
escreviam. Seus trabalhos baseavam-se 
em material histórico e arqueológico so- 
bre as civilizações clássicas e orientais 
e em informações sobre sociedades tri- 
bais contidas em relatos de viajantes, co- 
lonos, missionários e funcionários dos 
governos coloniais. Havia, é claro, algu- 
mas exceções, principalmente na Amé- 
rica: Morgan imabalhara com informan- 
tes iroqueses, Cushing vivera cinco anos 
entre os indios Zuni. Com Boas 
(1858-1942), a tradição do trabalho de 
campo estabeleceu-se definitivamente 
nos Estados Unidos: já em 1883-1884, 
realizara uma pesquisa entre os esqui- 
mós e depois disso promoveu um traba- 
lho de pesquisas de campo sistemáticas 
entre os indios da costa noroeste. 

No final do século, começaram a mul- 
tiplicar-se também na Europa os traba- 
lhos de antropólogos ou estudiosos e 
missionários com formação antropoló- 
gica, contendo observações feitas direta- 
mente sobre populações tribais. 

A publicação, em 1899, das extensas 
investigações desenvolvidas por Spencer 
e Gillen entre os aborígines australianos 
demonstrou definitivamente as grandes 
potencialidades do trabalho de campo e 


A saúde precária obrigou Malinowskt 
a abandonar sua carreira no setor das 
ciências exatas. E ele acabou como 
um dos maiores nomes da antropologia. 
(Malinowski ao se formar em Cracóvia.) 


a importância das informações obtidas 
por meio de observação direta para a re- 
solução dos problemas teóricos coloca- 
dos pela antropologia. Só essa obra ins- 
pirou pelo menos três grandes trabalhos, 
cada um dos quais constituía uma refle- 
xão movadora em seu próprio campo: Às 
ormas elementares da vida religiosa, de 
Durkheim (1858-1917), Totem e Tabu, 
de Freud (1856-1939), e A família entre 
os aborigines australianos, o primeiro 
livro de Malinowski, todos publicados 
em 1913. 

A publicação da obra de Spencer e Gil- 
len coincide com a realização (em 
1888-1889) da famosa Expedição Cam- 
bridge ao estreito de Torres (entre Aus- 
trália e Nova Guiné), organizada por 
Haddon e da qual participaram, entre 
outros, Seligman e Rivers (1864-1922). 
Tratava-se pois de uma equipe de reno- 
mados especialistas, realizando simulta- 
neamente uma série de investigações 
científicas na mesma região. 

Em 1901, Rivers trabalhou entre os 
Todda. Seligman, em 1904, empreendeu 


849 


OS PENSADORES 


um survey monumental de toda a Nova 
Guiné Britânica e, nos anos seguintes, es- 
teve, com sua mulher, entre os Vedda do 
Ceilão e as tribos do Sudão britânico. 
Quando Malinowski chegou à Ingla- 
terra, todos esses pioneiros já estavam 
formando a primeira geração de investi- 
adores de campo e Radcliffe-Brown 
(1881-1954) havia acabado de concluir 
sua pesquisa entre os Andamaneses, rea- 
lizada entre os anos de 1906 e 1908 
(embora só publicada em 1922). 


O funcionalismo 


O desenvolvimento do trabalho de 
campo sistemático produziu uma 
enorme quantidade de novos conheci- 
mentos e colocou em xeque o modo tra- 
dicional de manipular os dados empiri- 
cos. A nova geração de antropólogos 
britânicos, cujos expoentes são justa- 
mente Radcliffe-Brown e Malmnowski, 
promoveu a crítica radical dos postula- 
dos evolucionistas e difusionistas que 
dominavam a antropologia clássica, es- 
tabelecendo um novo método de investi- 
gação e interpretação que ficou conhe- 
cido como “escola funcionalista”. O 
funcionalismo, na antropologia, desen- 
volve-se em três linhas, algo distintas: a 
dos discípulos de Boas, nos Estados Uni- 
dos; a de Malinowski e a de Radcliffe- 
Brown, na Inglaterra. 

Em qualquer uma de suas formas, o 
funcionalismo está estreitamente vincu- 
lado ao trabalho de campo. Isso não 
quer dizer, entretanto, que o funciona- 
lismo se reduza a uma técnica de pes- 
quisa. Mesmo em Malinowski, que é o 
etnógrafo por excelência, a crítica à an- 
tropologia clássica e a formulação de no- 
vos problemas teóricos precedem seu 
trabalho de campo. Já no seu primeiro 
livro, 4 família entre os aborígines aus- 
tralianos, baseado exclusivamente em 
material bibliográfico,  Malinowski 
aponta com muita exatidão a deficiência 
das categorias de análise e dos conceitos 
evolucionistas difusionistas e propõe 
um novo método de ordenação e inter- 
pretação da evidência empírica. 

Os primeiros trabalhos de Mali- 
nowski, assim como os de Radcliffe- 
Brown, acusam uma forte influência de 
Durkheim, que forneceu a ambos a for- 


850 


mulação inicial dos conceitos de função 
e de integração funcional, com os quais 
essa nova geração de antropólogos pro- 
curou contruir um método próprio e che- 
gar a uma nova teoria antropológica. 

A crítica fundamental que Malinowski 
e os demais funcionalistas dirigem à an- 
tropologia clássica refere-se à arbitra- 
riedade das categorias utilizadas. A 
comparação entre sociedades diversas é 
feita através de um desmembramento 
inicial da realidade em itens culturais 
tomados como elementos autônomos; 
com os fragmentos assim obtidos os au- 
tores procedem a um rearranjo arbitrá- 
rio, agrupando-os de acordo com catego- 
rias tomadas de sua própria cultura e 
fabricando com isso intituições, comple- 
xos culturais e estágios xo luLINDE que 
não encontram correspondência em qual- 
quer sociedade real. 

A preocupação com a adequação das 
categorias à realidade estudada está es- 
treitamente associada ao empenho em 
reconhecer e preservar a especificidade e 
particularidade de cada cultura. Para 
os funcionalistas, os elementos culturais 
não podem ser manipulados e compostos 
arbitrariamente porque fazem parte de 
sistemas definidos, próprios de cada cul- 
tura e que cabe ao investigador descobri- 
dor. Essa noção se expressa no postu- 
lado da integração funcional, que 
assume importância fundamental em 
toda análise funcionalista. O conceito de 
função aparece como o instrumento que 
permite reconstruir, a partir dos dados 
aparentemente caóticos que se oferecem 
à observação de um pesquisador de ou- 
tra cultura, os sistemas que ordenam e 
dão sentido aos costumes nos quais se 
cristaliza o comportamento dos homens. 

São essas preocupações, já aparentes 
em 4 vida familial dos aborígines aus- 
tralianos, que orientam Malinowski 
quando parte para o trabalho de campo. 

A oportunidade de realizar uma inves- 
tigação de campo surge em 1914. Gra- 
ças ao apoio e aos esforços de Seligman, 
Malinowski obtém duas bolsas, a Robert 
Mond Travelling Studentship, da Uni- 
versidade de Londres, e a Constance 
Hutchinson Scholarship, da London 
Schooll of Economics, que lhe permitem 
organizar uma expedição à Nova Guiné. 
A escolha da área prende-se, obvia- 


MALINOWSKI 


A publicação, em 1899, das extensas investigações feitas por Spencer e Gillen 
sobre os aborígines australianos mostrou que o trabalho de campo podia 
fornecer dados decisivos para a resolução e problemas teóricos colocados 
pela antropologia. Essa publicação inspirou o primeiro livro de Malinowski: 
A família entre os aborígines australianos. (Malinowski ainda estudante.) 


Routledge & Kegan Paul, London 


OS PENSADORES 


Até o fim do século XIX, os antropólogos em geral teorizavam com base em 
relatos de sas missionários e funcionários de governos coloniais que 


escreviam sobre os chamados povos primitivos. O trabalho de campo como 
sustentação das teorias antropológicas firmou-se definitivamente nos Estados 
Unidos com Franz Boas (acima), grande figura da linguística e da antropologia. 


892 


MALINOWSKI 


mente, à influência de Seligman, que já 
havia então publicado seu trabalho mo- 
numental sobre essa região. 


A observação participante 


Malinowski chegou a Port Monesby 
depois de passar pela Austrália já em 
pleno início da Segunda Guerra Mun- 
dial, o que lhe causou dificuldades adi- 
cionais, visto ser então tecnicamente sú- 
dito austriaco e, portanto, cidadão 
inimigo. Na verdade, só voltou à Ingla- 
terra depois de terminado o conflito; a 
longa duração de sua permanência em 
campo — que lhe permitiu realizar um 
trabalho de investigação tão intenso e 
minucioso — talvez se deva, pelo menos 
em parte, a essas dificuldades políticas. 

De início passou alguns meses — de se- 
tembro de 1914 a março de 1915 — entre 
os Mailu, habitantes da ilha de Tulon, 
sobre os quais publicou, no mesmo ano, 
uma pequena monografia. 

Retornando à Austrália em 1915 e ob- 
tendo recursos adicionais através da in- 
fatigável boa vontade de Seligman, diri- 
giu-se novamente para o campo, desta 
vez para os arquipélagos que se esten- 
dem a nordeste do extremo oriental da 
Nova Guiné. Tendo encontrado dificulda- 
des em seguir seus planos iniciais, que 
compreendiam permanência em diversas 
has, acabou fixando-se nas Ilhas Tro- 
briand, onde permaneceu de junho de 
1915 a maio do ano seguinte. De volta 
à Austrália, dedicou-se durante um ano 
e meio à ordenação e interpretação ini- 
cial do material coletado. Nessa época, 
recebe, de Londres, o título de Doutor 
em Ciências, que lhe é outorgado pelos 
seus dois trabalhos já publicados: o re- 
lativo aos aborígines australianos e a 
monografia sobre os Mailu. Além disso, 
apronta e envia para publicação o ensaio 
intitulado Baloma: Spirits of the dead in 
the Trobriand Islands, que aparece no 
mesmo ano. Um artigo sobre a pesca nas 
ilhas trobriandesas, publicado na revista 
Man, em 1918, data também provavel- 
mente dessa época. Em outubro de 1917. 
parte para novo período de trabalho de 
campo, voltando mais uma vez às ilhas 
trobriandesas, onde permanece todo um 
ano, até outubro de 1918. 

Planejado ou não, esse interregno en- 


tre duas extensas permanências em 
campo revelou-se extrenlamente fruti- 
fero para Malinowski. Sem uma elabora- 
ção preliminar do material é impossível 
determinar suas insuficiências e, em- 
bora nem sempre possível. esse procedi- 
mento constitui ainda hoje o ideal da 
prática da investigação etnográfica. tal 
como a prescreveu Malinowski a partir 
dessa época 

A grande inovação de Malinowski no 
trabalho de campo consistiu na prática 
do que é chamado hoje em dia observa- 
cão participante. Os princípios funda- 
mentais dessa prática e o desenvolvi- 
mento dessa experiência estão 
minuciosamente relatados na Introdução 
dos Argonautas. 

As pesquisas de campo anteriores de- 
pendiarh quase inteiramente de inquéri- 
tos realizados com uns poucos informan- 
tes bilingies ou de questionários 
aplicados com o auxílio de tradutores. A 
observação direta do comportamento era 
necessariamente breve e superficial, pois 
realizada durante visitas de curta dura- 
ção às aldeias indígenas. Através dessas 
técnicas de investigação “é possível acu- 
mular grande número de informações e, 
inclusive, testar a veracidade dos infor- 
mes utilizando informantes diferentes. 
No entanto, é impossível captar, com 
esse trabalho, toda a riqueza de signifi- 
cados que permeia a vida social — e a 
cultura aparece, necessariamente, como 
o conjunto de itens independentes que fi- 
guram nos inquéritos. Além disso, a or- 
denação das questões apresentadas é 
feita a frequentemente em termos de cate- 
gorias alheias ao universo cultural in- 
vestigado, introduzindo assim pequenas 
ou grandes distorções no próprio mate- 
rial etnográfico. 

Malinowski alterou radicalmente essa 
prática, passando a viver permanente- 
mente na aldeia, afastado do convivio de 
outros homens brancos e aprendendo a 
lingua nativa, tarefa para a qual, ahás, 
era extremamente dotado. Desse modo, 
embora não dispensando o uso de infor- 
mantes, substituiu-o em grande parte 
pela observação direta, que só é possível 
através da convivência diária, da capaci- 
dade de entender o que está sendo dito 
e de participar das conversas e aconteci- 
mentos da vida da aldeia. 


853 


OS PENSADORES 


Malinowski preconizou e praticou a observação participante: sem dispensar os 
informantes, substituiu-os em parte pela observação direta do comportamento 
dos indígenas. O antropólogo deve conviver prolongadamente com os nativos em 
suas aldeias e aprender-lhes a língua, assimilando categorias inconscientes 
que ordenam o universo cultural investigado. (Papuas — nativos da Nova Guiné.) 


É importante ressaltar que o funda- 
mento dessa técnica reside num processo 
de “aculturação” do observador que con- 
siste na assimilação das categorias in- 
conscientes que ordenam o universo cul- 
tural investigado. Através desse 
processo, que é análogo ao do aprendi- 
zado de uma língua estranha e, como 
este, também em parte inconsciente, o 
observador apreende uma “totalidade in- 
tegrada” de significados que é anterior 
ao processo sistemático da coleta e orde- 
nação das informações etnográficas. Isto 
é, a apreensão inconsciente da totalidade 
prece de e permite o procedimento analí- 
tico consciente da investigação da reali- 
dade cultural. 

Dessa maneira, a totalidade e a inte- 
gração da cultura, que consistiam em 
pressupostos teóricos decorrentes da cri- 
tica à antropologia clássica, transfor- 
mam-se agora numa realidade que é 
atingida intuitivamente pelo investiga- 


dor por meio de sua vivência da situação 
de pesquisa. 

Se a observação participante recoloca 
para Malinowski o problema da totali- 
dade, ela obviamente não o resolve. A fa- 
miliaridade com o nativo, a capacidade 
de participar de seu universo constituem 
condições prévias para o investigação, 
mas não eliminam o laborioso trabalho 
da coleta sistemática de dados, nem a in- 
terpretação e integração da evidência 
empírica de modo a recriar a totalidade 
vivida pelo nativo e apreendida pela in- 
tuição do pesquisador. Essa tarefa devia 
ser resolvida na elaboração das mono- 
grafias sobre os trobriandeses, tarefa à 
qual Malinowski se dedicou com o má- 
ximo empenho durante o resto de vida. 


A instituição 


Após sua extraordinária experiência 
de trabalho de campo, Malinowski vol- 


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Os trabalhos de Malinowski sobre a vida sexuale a família de aborígines da 
Melanésia tornaram-se suas obras mais populares. Numa época ainda marcada 
pelo puritanismo vitoriano, faz descrições bastante explícitas da vida sexual 


dos indígenas, e mostra dE A a de uma sociedade matrilinear — 
o inverso da sociedade ocidental de então. (Nova Guiné: família de nativos.) 


E | 


OS PENSADORES 


tou à Austrália, onde se casou com Elsie 
Masson, filha de um professor de qui- 
miça da Universidade de Melboure. Sua 
saúde, sempre frágil, estava bastante 
abalada e, logo após seu regresso à In- 
glaterra. a ameaça de tuberculose for- 
cou-o a retirar-se para Tenerife, nas 
ilhas Canárias. Foi aí que em abril de 
1921 terminou sua primeira monografia 
sobre os trobriandeses, à qual deu o 
nome romântico de Argonautas do Pací- 
fico Ocidental. No ano seguinte, a obra 
era publicada na Inglaterra, para onde 
Malinowski já havia voltado. 

O trabalho difere bastante das mono- 
grafias tradicionais. Não é uma descri- 
ção de toda a cultura trobriandesa. Não 
é também uma análise especializada de 
um dos aspectos nos quais os antropólo- 
gos normalmente decompõem a cultura: 
economia, parentesco e organização so- 
cial, religião, ritual e mitologia, cultura 
material. Consiste, na verdade, de todos 
esses aspectos vistos da perspectiva de 
uma única instituição, o Kula. A escolha 
da análise institucional constitui, por- 
tanto, a solução encontrada por Mali- 
nowski para reconstituir, na descrição 
etnográfica, a integração e a coerência 
ou, em outras palavras, a totalidade 1n- 
tegrada que a técnica de investigação lhe 
havia permitido captar no trabalho de 
campo. 

Se, para Malinowski, a cultura consti- 
tui uma totalidade integrada, não é, en- 
tretanto, um todo indiferenciado, mas 
apresenta núcleos de ordenação e corre- 
lação que são as instituições. As institui- 
ções se apresentam portanto como limi- 
tes “naturais”, isto é, estabelecidos pela 
própria cultura, que permitem evitar o 
perigo de transformar a análise funcio- 
nalista no estabelecimento infindável de 
correlações. O conceito de instituição 
permite a Malinowski resolver o pro- 
blema da adequação entre as categorias 
da análise e a realidade empírica, esta- 
belecendo um isolado teórico que corres- 
ponde às unidades observadas na pró- 
pria realidade e que dela emergem. 

Para Malinowski, a instituição é 
sempre uma unidade multidimensional. 
Conforme a formulação elaborada anos 
mais tarde, no seu ensaio Uma Teoria 
Científica da Cultura, ela compreende 
uma constituição ou código, que consiste 


856 


no sistema de valores em vista dos quais 
os seres humanos se associam; isto é, 
corresponde à idéia da instituição tal 
como é concebida pelos membros da pró- 
pria sociedade. Compreende também um 
grupo humano organizado, cujas ativi- 
dades realizam a instituição. Essas ati- 
vidades se processam de acordo com 
normas e regras, que constituem mais 
um elemento dessa totalidade. Fimal- 
mente, compreende um equipamento ma- 
terial que o grupo manipula no 
desempenho de suas atividades. Esses 
diferentes elementos definem o que Mali- 
nowski chama estrutura da instituição. 

O aspecto mais importante dessa con- 
ceituação consiste na preservação da 
multidimensionalidade do real, reprodu- 
zindo, em cada unidade de análise, as di- 
mensões do processo cultural em sua to- 
talidade. Com efeito, o processo 
cultural, isto é, a própria vida social, em 
qualquer de suas manifestações concre- 
tas, envolve sempre, para Malinowski, 
seres humanos em relações sociais defi- 
nidas, pessoas que manipulam artefatos 
e se comunicam através da linguagem e 
de outras variadas formas de simbo- 
lismo. O equipamento material, a orga- 
nização social e o simbolismo consti- 
tuem três dimensões  mtimamente 
vinculadas e a realidade jamais pode ser 
compreendida integralmente se não se 
apreender a simultaneidade de todas as 
suas dimensões. 

Na interpretação de Malinowski, a 
instituição não deve ser concebida como 
a simples soma dos aspectos de sua es- 
trutura, mas verdadeiramente como sua 
sintese. A integração das diferentes di- 
mensões da cultura é a referência cons- 
tante de toda a investigação. Por outro 
lado, é necessário não confundir a sin- 
tese construida pelo antropólogo com a 
idéia que dela fazem seus portadores. 
Note-se que Malinowski sempre insiste 
na diferença entre o código e as normas 
da instituição, de um lado, e, de outro, 
as atividades efetivamente desempenha- 
das pelos membros do grupo. É através 
da análise das atividades e de seus resul- 
tados que o investigador encontra instru- 
mentos para superar a consciência res- 
trita e deformada que os membros de 
uma sociedade possuem de sua própria 
cultura. 


MALINOWSKI 


Desse modo, verifica-se que os dife- 
rentes aspectos da instituição não pos- 
suem todos a mesma relevância explica- 
tiva, pois é nas atividades, isto é, no 
comportamento humano real, que se en- 
contra o elemento verdadeiramente sin- 
tético que fornece a chave para a apreen- 
são da instituição na totalidade de seus 
aspectos. 

A sintese que Malinowski se esforça 
por construir na descrição etnográfica 
não se reduz pois ao estabelecimento de 
interdependências entre sistemas analiíti- 
cos diversos (legais, econômicos, técni- 
cos, religiosos), tomados em sua inde- 
pendência. Para ele, esse tipo de sintese 
não pode ser atingido a posteriori, pela 
justaposição e correlação de aspectos 
descontinuos, mas deve estar presente de 
início e em todos os momentos da inves- 
tigação. Por isso é que os temas que 
isola como focos de análise, isto é, as 
instituições, como o Kula. são escolhi- 
dos de modo a preservar, na unidade de 
investigação, essas totalidades comple- 
xas que incluem a multiplicidade do real 
e, ao contrário das monografias tradicio- 
nais, jamais se encontra em Malinowski 
uma análise de sistema econômico, poli- 
tico, religioso, etc., em si mesmos. 

A instituição aparece pois como uma 
projeção parcial da totalidade da cul- 
tura, não como um de seus aspectos ou 
partes. A descrição sempre as desenvolve 
no sentido de mostrar, simultaneamente, 
como a instituição em apreço permeia 
toda a cultura e, inversamente, como 
toda a cultura está presente na institui- 
ção. Muitos autores já apontaram um 
aparente paradoxo: Malinowski. que 
tanto se preocupou com a noção da tota- 
lidade da cultura, jamais apresentou 
uma descrição integrada de todos os as- 
pectos da cultura trobriandesa. É que o 
estudo do todo não se confunde com o es- 
tudo de tudo e a totalidade só pode ser 
apreendida concretamente através de 
realizações parciais, projetada no com- 
portamento dos homens. 


Harcount, Brace & World, Inc. 


Viagens e trabalhos 


Para Malinowski o conceito de função 


é que permite, a partir de dados Após a publicação dos Argonautas, 
aparentemente caóticos, reconstruir com a qual formula as linhas gerais de 
os sistemas que ordenam e dão seu método, abre-se um período muito 

sentido aos comportamentos e costumes. fértil na carreira de Malinowski. 
891 


OS PENSADORES 


Tendo retornado a Londres em 1921, 
retoma a atividade didática que iniciara 
antes do trabalho de campo, no começo 
novamente como Occasional Lecturer na 
London School of Economics e, a partir 
de 1922, como Lecturer in Social An- 
thropology na mesma instituição. Em 
1924, assume o cargo de Reader in An- 
tropology pela Universidade de Londres, 
cargo que entretanto é exercido na Lon- 
don School. Em 1927, é indicado para a 
primeira Cadeira de Antropologia, 
criada para ele naquela universidade. 

Com sua reputação estabelecida nos 
meios científicos, Malinowski dedica-se 
a defender sua nova visão da antropolo- 
gia, atacando vigorosamente as coloca- 
ções evolucionistas e principalmente di- 
fusionistas, generalizadas no mundo 
acadêmico britânico. Exemplo dessa po- 
lêmica é otrabalho “*The Life of Culture”, 
parte da publicação Culture — The diffu- 
sion controversy, em que figuram traba- 
lhos de seus opositores, G. Elliot Smith, 
H. S. Spinden, A. Goldenweiser. A rigi- 
dez de muitas de suas formulações pren- 
de-se inegavelmente ao caráter polêmico 
de grande parte dos trabalhos que escre- 
veu nessa época. 

Malinowski também viajou muito, 
tendo ministrado cursos e conferências 
em Genebra, Viena e Oslo, visitando 
muitas outras capitais e mantendo con- 
tatos pessoais com antropólogos de todo 
o mundo. Visitou os Estados Unidos em 
1926, 1933 e 1936 quando recebeu o 

au de Doutor Honorário pela Universi- 
dade de Harvard. Em 1934, percorreu 
também a África Meridional e Oriental, 
visitando então muitos de seus discípu- 
los que estavam realizando trabalhos de 
campo, pois Malinowski foi o responsá- 
vel pelo primeiro programa de treina- 
mento em pesquisa de campo do Interna- 
tional African Institute. Certamente sua 
capacidade de falar diversas línguas e 
sua origem polonesa contribuiram muito 
para esse contato tão amplo com insti- 
tuições e pesquisadores de diferentes 
países, duebrado o relativo isolamento 
que caracterizava a comunidade de an- 
tropólogos britânicos. 

Sua vida pessoal, entretanto, conti- 
nuava marcada pela doença. Sua pri- 
meira mulher, com quem teve três filhas, 
foi acometida de uma doença incurável 


858 


que afetou a coluna vertebral, tendo fale- 
cido em 1935, após dez longos anos de 
sofrimento. 

Além de toda essa intensa atividade e 
de sua enorme dedicação às tarefas didá- 
ticas, Malinowski manteve, durante todo 
esse período, uma constante produção de 
artigos, ensaios e livros. 

Após a publicação dos Argonautas, o 
interesse de Malinowski — até então con- 
centrado em grande parte em questões 
econômicas — volta-se para outros te- 
mas. Até 1929 publicou, além de inúme- 
ros trabalhos menores, alguns ensaios 
muito importantes, além de mais uma 
monografia sobre os trobriandeses. 

Sobre religião, magia e mitologia, pu- 
blica, em 1925, o ensaio Magic, Science 
and Religion e, em 1926, Myth in Primi- 
tive Psychology. Em 1926 aparece ainda 
o primeiro trabalho no qual formula, de 
modo sistemático, embora resumido, sua 
visão própria do trabalho antropológico. 
Trata-se do verbete Anthropology, publi- 
cado na 13.º edição da Encyclopaedia 
Britannica. Data ainda desse mesmo ano 
Crime and Custom in Sarage Society, 
onde explora a nação de reciprocidade 
como princípio de ordenação social. 

São entretanto os temas referentes ao 
sexo e à vida familiar que parecem cons- 
tituir a preocupação central de Mali- 
nowski até o fim da década de 20, exem- 
plificada através de inúmeros pequenos 
trabalhos, reunidos em parte no livro 
Sex and Repression in Savage Society, 
de 1927. Essa fase culmina, em 1929, 
com a publicação de sua segunda grande 
monografia sobre os trobriandeses, The 
Sexual Life of Savages in North Western 
Melanesia. 


Sexo e cultura 


Os trabalhos referentes à vida sexual 
e à familia certamente foram — e talvez 
ainda sejam — os mais populares de toda 
a obra de Malinowski. Do ponto de vista 
antropológico, assim como do público 
científico e leigo em geral, o fascínio 
desses trabalhos reside na capacidade de 
Malinowski de retratar o funcionamento 
de uma sociedade matrilinear que cons- 
titui, pelo menos sob esse aspecto, prati- 
camente o inverso da sociedade ociden- 
tal da época Além disso, pode-se bem 


MALINOWSKI 


Fabhri 


Para Malinowski o processo cultural, em todas as suas manifestações concretas, 
envolve sempre seres humanos em relações sociais definidas e que man pulam 
artefatos e se comunicam utravés da linguagem e outras formas de simbolismo. 
Equipamento material, organização sociale simbolismo estariam intimamente 
vinculados. (Imagem e máscara da região do Golfo de Papua, Nova Guiné.) 


imaginar o sucesso de trabalhos em que 
figuram descrições bastante explícitas 


da vida sexual numa época ainda mar-.. 


“ada por muitos resquícios de purita- 
nismo vitoriano. 

Do ponto de vista europeu, a primeira 
grande peculiaridade trobriandesa resi- 
dia justamente na ampla liberdade se- 
xual. Com efeito, entre eles, não só a 
castidade pré-nupcial era totalmente 
desconhecida, como também a fidelidade 
conjugal não era observada com muito 
rigor. A segunda peculiaridade refe- 
ria-se ao fato de que os trobriandeses, 
além da negarem a paternidade social, 
apresentando-se como sociedade estrita- 
mente matrilinear, ignoravam inclusive 
a paternidade fisiológica, acreditando 
que as fêmeas (tanto humanas, quanto 
animais) procriavam independentemente 
das relações sexuais. A descrição de uma 
sociedade desse tipo não podia deixar de 
fascinar um público muito mais amplo 
que o círculo restrito dos antropólogos 
profissionais. 

O problema básico que Malinowski se 
propunha não era analisar a estrutura do 


sistema de parentesco, tema tradicional 
da antropologia, mas estudar a dinâmica 
específica da ordenação das condutas 
dentro desse quadro institucional, Isto é, 
como “funcionava”, na verdade, uma so- 
ciedade matrilinear. 

A ordenação dos dados, nesses traba- 
lhos, não se faz tanto em termos da imsti- 
tuição da família, mas em termos de um 
aspecto universal do comportamento hu- 
mano, presente em todas as culturas: o 
impulso sexual. 

A análise da vida sexual é feita em ter- 
mos de uma dupla referência: os impul- 
sos biológicos e sua regulamentação so- 
cial. A importância desse tema, para 
Malinowski, está justamente em que 
consiste no tipo de atividade, por exce- 
lência. na qual se integram, de modo o 
mais explícito, impulsos naturais e im- 
perativos sociais, apresentando-se por- 
tanto como ponto central da reflexão so- 
bre a própria natureza da cultura. Essa 
integração, entretanto, só pode ser 
apreendida ao nível individual e a refe- 
rência básica ao impulso sexual implica 
numa abordagem que localiza no indiví- 


859 


Fabbri 


OS PENSADORES 


duo (e não na sociedade) todos os pro- 
cessos significativos e todas as explica- 
ções formuladas. Aparecem assim nesse 
tema, com grande nitidez, o biologismo 
e o psicologismo que estão latentes em 
quase toda a obra de Malinowski. 

É necessário reconhecer que, apesar 
das deficiências desse tipo de aborda- 
gem, ela permite a Malinowski, como 
talvez em nenhum outro trabalho, fazer 
emergir, com extraordinária nitidez, a 
visão do nativo “em carne e osso”. Foca- 
lizando quase que exclusivamente as atl- 
tudes e a motivação do comportamento 
— isto é, o arranjo particular trobrian- 
dês de aspectos universais do compor- 
tamento humano —, torna-se aparente, 
através da peculiaridade do costume, a 
qualidade humana da conduta. 

Malinowski demonstra que o compor- 
tamento do trobriandês não é nem irra- 
cional nem imoral, mas coerente e com- 
preensível dentro das premissas da 
cultura trobriandesa. Para demonstrar 
isso, é necessário apreender as premis- 
sas, mas não é necessário analisá-las 
como sistema. Por isso mesmo, nesses 
trabalhos  evidenciam-se claramente 
tanto a riqueza como as limitações desse 
tipo de abordagem. Dê um lado, ela nos 
aproxima da vida real, mas, de outro, 
abandona uma problemática de enorme 
relevância, muito mais presente nas duas 
outras monografias, que consiste na aná- 
lise das forças sociais que explicam a 
emergência e a força das atitudes pró- 
prias das situações investigadas: a natu- 
reza das relações entre os grupos e a 
oposição entre segmentos sociais, estru- 
turadas através do parentesco. 

Na verdade, a ausência de uma análise 
sistemática do parentesco, frequente- 
mente impede o esclarecimento de aspec- 
tos fundamentais da organização social, 
constituindo uma deficiência que tem 
sido apontada por todos os críticos de 
Malinowski. 

O biologismo tantas vezes criticado 
em Malinowski relaciona-se diretamente 
com sua concepção de cultura, que é 
sempre referida à capacidade de satisfa- 
zer necessidades humanas. A instrumen- 
talidade da cultura é que assegura, do 
ponto de vista de Malinowski, sua racio- 
nalidade inerente. 

A relação entre as instituições e a sa- 


860 


tisfação das necessidades humanas apa- 
rece constantemente em suas tentativas 
de elaboração teórica e constitui um pro- 
blema que ele jamais conseguiu resolver 
de modo satisfatório. Nas elaborações 
posteriores, especialmente tal como apa- 
rece em 4 Scientific Theory of Culture, 
Malinowski postula toda uma gama de 
tipos de necessidade. Inicialmente, há a 
considerar as necessidades biológicas do 
organismo, denominadas básicas (nutri- 
ção, procriação, proteção, etc.). Como o 
homem, entretanto, só pode satisfazer 
essas necessidades básicas através da 
cultura, surgem necessidades derivadas, 
relacionadas à manutenção, reprodução 
e transmissão do próprio equipamento 
cultural. Estas, Malinowski subdivide 
em imperativos instrumentais (que inclui 
a organização econômica, legal e educa- 
cional da sociedade) e imperativos inte- 
grativos (como a magia, a religião, a 
ciência e as artes). A dificuldade funda- 
mental que encontra é a de relacionar, de 
um lado, as necessidades derivadas às 
necessidades básicas e, de outro, as ins- 
tituições às necessidades. 

Caberia exatamente ao conceito de 
função superar esta última dificuldade. 
Dentro dessa formulação, Malinowski 
define o conceito em termos da corres- 
pondência entre a instituição e as neces- 
sidades que ela satisfaz. Obviamente, tal 
definição distancia-se enormemente da 
aplicação efetiva do conceito à análise 
etnográfica. 

Na verdade, a posição de Malinowski 
nessa questão é bastante ambígua, pois 
elaborou diferentes conceitos de função, 
definindo-a também, em oposição aa có- 
digo ou carta de uma instituição, como 
seu papel no esquema geral da cultura, 
tal como é definido pelo investigador. 
Verifica-se facilmente que essa definição 
é diferente da anterior e muito mais pró- 
xima do método de interpretação usado 
no tratamento dos dados empíricos, onde 
é a análise da função que permite a pas- 
sagem da consciência dos agentes para 
as conexões gerais, constituídas pelo ob- 
servador e que definem a natureza da 
instituição (como ocorre, por exemplo, 
na análise do Kula). 

Questões teóricas e metodológicas 
permeiam toda a obra de Malinowski. 
Após 1930 aparecem mais alguns en- 


MALINOWSKI 


saios, verbetes e artigos nos quais pro- 
cura explicitar e sintetizar sua posição 
teórica. Datam dessa época, por exem- 
plo, o verbete Culture da RR a 
of Social Sciences (1931), verbete 
Anthropology, do Book of hê Year de 
1938 da Encyclopaedia Britannica cas 
diferentes versões do artigo “Culture as 
determinant of Behavior” (1937, 1937, 
1938). É também a partir dessa época 
que sua posição começa a ser criticada 
pelos antropólogos mais jovens, sobre os 
quais aumenta a influência do funciona- 
lismo estrutural de Radcliffe-Brown. 


A última grande obra 


Entretanto, não se pode dizer que di- 
minua o prestígio de Malinowski. Seus 
próprios alunos começam a atingir a ma- 
turidade cientifica; muitos deles. Já 
tendo terminado o trabalho de campo 
sob sua orientação, começam a publicar 
obras originais. Malinowski prefaciou 
muitas dessas monografias: em 1932, 
escreveu a introdução do livro de Reo 
Fortune, Sorcerers of Dobu e de Audrey 
Richarde: Hunger and Work ina Savage 
Tribe; em 1934, prefaciou o trabalho de 
lan Hogbin, Law and Order in Polyne- 
sia; em 1936, o de Raymond Firt. We, 
The Tikopia; no ano seguinte, o de Ash- 
ley- Montagu, Coming of Age in Samoa; 
em 1938, aparece, com prefácio de Mali- 
nowski, o livro de Jomo Kenyata, Facing 
Mount Kenya, a primeira monografia 
antropológica escrita por um membro da 
sociedade tribal. 

Com tantos discípulos fazendo traba- 
lhos de campo, aumenta também seu in- 
teresse pelos problemas da transforma- 
ção cultural induzida pela dinâmica da 
situação colonial, interesse que cresce 
depois de sua visita à África. Em 1936, 
aparece seu primeiro artigo sobre esse 
problema, “Native Education and Cul- 
ture Contact”. Data de 1938 um ensaio 
intitulado “Introductory Essay on the 
Anthropology of Changing African Cul- 
tures”, incorporado mais tarde em Dyna- 
mics of Culture Change. Além desses, há 


Leslie A. White 


Malinowski foi um dos expoentes do inúmeros trabalhos menores sobre o 

co em antropologia. mesmo assunto, a respeito do qual pas- 
Malinowski no Encontro Anual da sou a conduzir seminários regulares. 

Associação Antropológica Americana, Apesar das dificuldades que encontra 

realizado no ano de 1939.) em formular de modo satisfatório os 

861 


OS PENSADORES 


princípios da abordagem funcionalista, o 
grande trabalho que publica em 1935, a 
monografia Coral Gardens and Their 
Magic indica um grande progresso em 
relação às anteriores, tanto no que diz 
respeito à formulação das questões teó- 
ricas quanto à integração do material 
empírico. 

Retomando os problemas relativos à 
economia primitiva, volta-se agora para 
o estudo do trabalho agricola e da pro- 
priedade da terra nas Ilhas Trobriand. 
Apesar de incluir muito material já ana- 
lisado em trabalhos anteriores — espe- 
cialmente nos Argonautas — Coral Gar- 
dens é uma obra original, um esforço 
novo e produtivo para resolver os proble- 
mas relativos à integração da cultura. 
Nota-se também uma nova preocupação 
com as questões relativas à estrutura so- 
cial: encontram-se ainda nesse trabalho 
não apenas uma apresentação muito 
mais clara da estrutura social trobrian- 
desa como, e pela primeira vez, um tra- 
tamento adequado, embora parcial, da 
estrutura do sistema de parentesco. 

Nesse trabalho, Malinowski aborda, 
com inigualável maestria, a relação en- 
tre o trabalho, a magia, a mitologia e a 
propriedade da terra. Demonstra como 
as atividades relacionadas à produção, 
distribuição e consumo do alimento — 
atividades que compreendem trabalho e 
magia, técnica e crença, uso e signifi- 
cado, ação e representação — simulta- 
neamente expressam e produzem a pró- 
pria sociedade. 

Desaparece, nesse trabalho, o 
psicologismo que permeara as monogra- 
fias anteriores. A relação entre o social 
e o individual não é mais direta e ime- 
diata, embora a análise realize constan- 
temente a passagem de um nível a outro. 
Mas agora os aspectos psicológicos apa- 
recem como sintese, ao nível do compor- 
tamento, dos aspectos culturais e sociais 
revelados pela análise etnográfica. 

Nos capítulos finais, Malinowski 
aborda a questão da propriedade da 
terra. levantando, de modo extrema- 
mente rico e original, a questão básica 
da relação entre o processo produtivo e 
sua regulamentação juridica, política e 
mitológica. Com Coral Gardens, encer- 
ra-se o ciclo das suas grandes produções 
etnográficas. 


862 


Publicações póstumas 


Em 1938, Malinowski volta nova- 
mente à América para uma permanência 
mais prolongada. Com a saúde outra vez 
abalada, estabelece-se por algum tempo 
em Tucson, Arizona, onde o clima se 
mostra benéfico para suas complicações 
pulmonares. 

O início da guerra na Europa leva-o a 
prolongar a permanência nos Estados 
Unidos, sendo contratado como profes- 
sor visitante pela Universidade de Yale 
em outubro de 1939. Permanece nessa 
Universidade até 1942, através de uma 
subvenção do Bernice P. Bishop Mu- 
seum, de Honolulu, tendo encontrado 
tempo e energia para iniciar novo traba- 
lho de campo entre os Zapotec, no Mé- 
xico. No início de 1942 foi nomeado pro- 
fessor permanente da Universidade de 
Yale, mas faleceu a 16 de maio desse 
mesmo ano, em New Haven, antes de as- 
sumir seu novo posto. 

Nesses últimos anos reconstituiu sua 
vida familiar, tendo se casado com a ar- 
tista Valetta Swann. A crise deflagrada 
pela ascensão do nazismo e o início da 
Segunda Guerra Mundial, entretanto, 
perturbaram- no profundamente. Via na 
emergência do totalitarismo uma 
ameaça à própria civilização, com a des- 
truição de todos os valores nos quais 
realmente acreditava. 

Embora tivesse se naturalizado cida- 
dão britânico há muitos anos e não se 
identificasse politicamente com a Polô- 
nia, a invasão de seu pais pelos alemães 
levou-o a solidarizar-se com o povo po- 
lonês, tendo ajudado a fundar, nos Esta- 
dos Unidos, o Polish Institute of Arts 
and Sciences, do qual foi presidente, 
através do qual se empenhou em auxiliar 
os refugiados poloneses. 

Nesse período final de sua vida, Mali- 
nowski não produziu nenhuma obra de 
grande relevância. Os trabalhos dessa 
época, em reral pequenos, estão quase 
todos voltados para as questões que o vi- 
nham preocupando desde o início da dé- 
cada de 30, especialmente aquelas rela- 
tivas à transformação das sociedades 
tribais e à fundamentação teórica do fun- 
cionalismo. Sobre esta última questão 
publicou, em 1939, The Group and the 
individual in functional analysis. 


MALINOWSKI 


AND OTHER 
ESSAYS 


ROBERT 
REDFIELD 


Harcoun, Brace & World, Inc. 


es 


ao cds 
o os. 


Re 
Cuenca 


A cultura, para Malinowski, não é um todo indiferenciado, mas uma totalidade 
integrada que apresenta núcleos de ordenação e correlação — as instituições. 
A instituição é uma unidade multidimensional que compr -cende: uma constituição 
ou código, um grupo humano organizado e um equipamento material manipulado 
pelo grupo na realização de suas atividades. (Capas de obras de Malinows E 


Após sua morte,e entretanto, a viúva, 
auxiliada por amigos e discípulos de 
Malinowski, empreendeu a publicação 
dos manuscritos que ele havia deixado. 
Em 1944 aparece 4 Scientific Theory of 
Culture — and other essays, com refácio 
da Huntington Cairns que preparou o 
manuscrito para publicação. 

Esse trabalho consiste numa tentativa 
de conciliar e integrar a abordagem ba- 
seada na análise das instituições com a 
concepção instrumental da cultura; nele 
Malinowski elabora a teoria das necessi- 
dades básicas e dos imperativos cultu- 
rais. Apesar de incompleto e contraditó- 
rio, O livro teve grande aceitação, sendo 
traduzido para inúmeras línguas. 

Em 1945 é publicado The Dynamics 
of Culture Change, ednado por Phyllis 
M. Kaberry e uma de suas obras mais 
discutíveis — que incorpora trabalhos 
que publicara anteriormente e as discus- 
sões que promovera durante os seminá- 


rios que conduziu em Yale em 1941. Tal 
como é apresentada nesse trabalho, a 
análise da transformação cultural as- 
sume a forma extremamente rígida de 
relações entre instituições de três reali- 
dades ou culturas distintas: a do coloni- 
zador, a tribal e a nova cultura que 
emerge da interação entre as duas. 

No conjunto, essas duas obras póstu- 

mas, apesar de sua ampla divulgação e 
aceitação, guardam um caráter de im- 
provisação e estão cheias de generaliza- 
ções apressadas e de contradições. Mui- 
tas das críticas dirigidas a Malinowski 
e à fragilidade de sua teoria da cultura 
baseiam-se exatamente nesses traba- 
lhos, que se prestam facilmente à crítica 
e, com isso, obscurecem o alcance da sua 
contribuição à antropologia moderna e 
às ciências humanas em geral. 
; Muito discutível foi também a utili- 
dade ou o interesse da publicação, em 
1967, da tradução de seu diário intimo 


863 


Harcourt. Brace & World, Inc. 


OS PENSADORES 


— redigido em polonês durante o traba- 
lho de campo nas ilhas Trobriand — e 
que Malinowski certamente jamais pre- 
tendeu publicar. De pouco valor cienti- 
fico ou literário, demonstra apenas sua 
constante preocupação com a saúde 
(aliás, não sem motivo) e as frequentes 
crises de angústia, mal humor e hostili- 


dade para com os nativos que acometem, 
mevitavelmente, todo pesquisador de 
campo na situação de ab seRtaças parti- 
cipante” preconizada por Malinowski. 

Na verdade, o significado e a profun- 
didade da obra de Malinowski estão con- 
tidas, com toda sua riqueza, nas 
monografias etnográficas. 


1858 — Franz Boas nasce 
em Minden, Alemanha. 

1881 —  Radcliffe-Brown 
nasce em Birmingham, In- 
glaterra. 

1883/84 — Boas realiza ob- 
servações entre os esquimós. 


1884 — Nasce Bronislaw 
Malinowski em Cracóvia, 
Polônia. 

1906/08 | — | Radcliffe- 


Brown faz pesquisas entre 
os andamaneses. 

1910 — Malinowski é ad- 
mitido na London School 
of Economics. 

1911 — Boas publica Chan- 
ges in Bodily Form of Des- 
cendents of Immigrantes. 
1913 — Publicação de As 
formas elementares da vida 
religiosa, de Durkheim: 


CRONOLOGIA 


Totem e Tabu, de Freud; e 
de A família entre os abori- 
gines australianos, de Mali- 
nowski. 

1922 — Malinowski pu- 
blica Argonautas do 
Pacífico Ocidental; publica- 
ção de The Andaman Islan- 
ders, de Radcliffe-Brown. 


1925 — Malinowski pu- 
blica Magic, Science and 
Religion. 


1926 — Publica o verbete 
Antropologia, na Enciclopé- 
dia Britânica, e as obras 
Crime and Custom in Sa- 
vage Society e Myth in 
Primitive Psychology. 
1927 — Publica Sex and 
Repression in Savage So- 
ciety. 

1929 — Publica The Se- 


BIBLIOGRAFIA 


xual Life of Savages in 
North-Western Melanesia. 

1930 —  Radcliffe-Brown 
publica The Social Organi- 
zation of Australian Tribes. 


1932 — Malinowski pu- 
blica The Sexual Life of Sa- 
vages. 

1935 — Publica Coral 


Gardens and Their Magic. 
1942 — Morre Malino wski. 
Morre Franz Boas. 

1944 — Publicação de A 
Scientific Theory of Culture. 
1945 — Publicação de The 


Dynamics of Culture 
Change. 
1947 — Publicação de 


Freedom and Civilization. 
1948 — Publicação de Ma- 
gic, Science and Religion 
and Other Essays. 


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Wis., 1943. 


PanorF, M.: Bronislaw Malinowski, Payot, Paris, 1972. 
RICHARDS, À.: Bronislaw Kaspar Malinowski in Man, n.º 1, London, 1943. 


864 


OS PENSADORES 


o economista Otto  Neurath 

(1882-1945) e o fisico Philip 
Frank começaram a reunir-se informal- 
mente, em Viena, para discutir proble- 
mas de filosofia da ciência. O intuito 
fundamental era o de conciliar uma con- 
cepção essencialmente empirista da ciên- 
cia, sob influência das doutrinas de 
Ernst Mach (1838-1916), e o reconheci- 
mento da importância inegável da lógi- 
ca, matemática e física teórica na cons- 
trução de teorias. Esse projeto, 
inicialmente vago, antecipava contudo o 
que seria uma das principais preocupa- 
ções filosóficas do Circulo de Viena, 
grupo de filósofos e cientistas preocu- 
pados com a filosofia da ciência, consti- 
tuído a partir daquele núcleo inicial, sob 
a orientação intelectual do filósofo ale- 
mão Moritz Schlick. 

Schlick nasceu em Berlim em 1882. 
Após quatro anos de estudo de fisica na 
Universidade de Berlim, sob a orienta- 
ção de Max Planck (1858-1947), apre- 
sentou em 1904, uma dissertação sobre 
a reflexão da luz em meios não homogê- 
neos, que lhe valeu o título de doutor. 
Interessado em filosofia e descontente 
com as correntes de inspiração neokan- 
tiana e fenomenológica, então dominan- 
tes no cenário filosófico alemão, Schlick 
começou a refletir sobre o que é o conhe- 
cimento científico e por que a filosofia 
tradicional não constituiu um corpo de 
conhecimentos admissíveis. Essas refle- 
xões orientaram boa parte de suas ativi- 
dades no período de 1911 a 1917, resul- 
tando na publicação, em 1918, de uma 
Teoria Geral do Conhecimento. Entre- 
tanto, já em uma obra dedicada a ques- 
tões de física, Espaço e Tempo na Física 
Presente, Schlick voltava-se contra a 
tese kantiana de que as leis relativas ao 
espaço e tempo são ao mesmo tempo 
sintéticas e a priori, referentes ao domi- 
nio da experiência mas não deriváveis de 
nenhuma experiência. Essa crítica da 
noção de proposição sintética a priori 
prenunciava um dos temas dominantes 
de seu pensamento posterior, a ponto de 
Schlick afirmar que as doutrinas do Cir- 


E m 1907 o matemático Hans Hahn, 


Na página anterior: retrato do filósofo e 
professor austríaco 
Karl Popper (Associated Press). 


866 


culo de Viena poderiam resumir-se a um 
empirismo que nega a possibilidade de 
Juízos sintéticos a priori. E foi feita sob 
influência do convencionalismo de Poin- 
caré (1854-1912), que afirmava que as 
leis mais gerais da natureza, como as 
leis gerais do espaço e do tempo, não são 
deriváveis da experiência nem verdades 
lógicas, mas convenções usadas na siste- 
matização dos dados empíricos. 

Na Teoria Geral do Conhecimento a 
crítica de Schlick ultrapassa os limites 
da física, generalizando-se em termos da 
noção geral de conhecimento. Exami- 
nando todas as espécies de proposições a 
que Kant (1724-1804) conferira caráter 
sintético a priori, Schlick concluia que 
cada uma delas poderia ser precisamente 
formulada, ou como uma verdade logica- 
mente necessária, e portanto analítica e 
não sintética, ou como dotada de con- 
teúdo empírico determinante de seu 
valor de verdade, e portanto a posteriori 
e não a priori. Proposições admitidas 
por convenção não deveriam ser encara- 
das como leis em sentido próprio, mas 
como regras de organização dos dados 
empíricos. Todo conhecimento indepen- 
dente de quaisquer fatos particulares 
seria simplesmente lógico e todo conhe- 
cimento fatual seria simplesmente empi- 
rico, não restando lugar algum para um 
conhecimento fatual a priori, projeto que 
Schlick descobriu na essência da filoso- 
fia tradicional. Se a metafísica, alvo 
principal de suas objeções, mantém uma 
aparência de relevância teórica, é por- 
que, diz Schlick, a linguagem garante a 
possibilidade de usos não científicos de 
suas expressões, nem sempre nitida- 
mente distintos dos usos propriamente 
científicos. Proposições científicas se- 
riam as univocamente verdadeiras ou 
falsas, opondo-se, por exemplo, a propo- 
sições que aparecem em um texto poeti- 
co, para as quais não se colocaria a 
questão da verdade. As regras da gramá- 
tica não seriam, pois, suficientes para se 
fazer distinção entre, de um lado, se- 
quências de expressões que constituem 
proposições científicas e, de outro, se- 
quências despidas de relevância para o 
conhecimento. Seria necessário comple- 
tar a gramática, acrescentando-lhe um 
inventário de regras lógicas, capazes de 
determinar com rigor os limites do con- 


FASBRI 


SCHLICK 


Viena, capital da Áustria, foi sede de uma das mais importantes orientações 
do pensamento filosófico do século XX. Ali, formou-se o chamado “Círculo de 


Viena”, do qual participaram inúmeros filósofos e cientistas, 


reocupados, 


sobretudo, com a análise da estrutura da linguagem científica. (Viena: 
edifício do Parlamento Austríaco, obra do arquiteto Th. Edward Hansen.) 


Junto de proposições cientificamente re- 


levantes. Schlick concebia a natureza 
dessas regras a partir da idéia de que 
todo conhecimento é descrição de rela- 
ções entre elementos dados empirica- 
mente, sendo ilusório o projeto de conhe- 
cer o conteúdo dos fenômenos. Esse 
conteúdo seria acessivel não teorica- 
mente, mas por meio de uma experiência 
intuitiva e emocional. A pretensão meta- 
fisica de conhecer o conteúdo, a essência 
das coisas reais, envolveria, pois, uma 
contradição. Para Schlick, a grande 
parte das teses que compõem sistemas 
metafísicos seriam simplesmente propo- 
sições sem significado de conhecimento, 
sequências de expressões construídas em 
desacordo com as regras lógicas da lin- 
guagem, e, portanto, nem verdadeiras 


nem falsas, mas, do ponto de vista do 
conhecimento, não significativas. A apa- 
rência de cientificidade de que elas se 
revestem, diz Schlick, exprimiria tanto a 
inadequação da gramática como critério 
para a edificação da linguagem da ciên- 
cia, quanto a possibilidade de conferir à 
metafísica um significado emotivo, aná- 
logo ao que cabe ao discurso poético. 
Nessa primeira fase do pensamento de 
Schlick, estão presentes muitos dos pon- 
tos que caracterizarão mais tarde as 
doutrinas do Circulo de Viena. Em pri- 
meiro lugar, a convicção de que a lógica, 
a matemática e as ciências empíricas 
esgotam o domínio do conhecimento pos- 
sivel, salientando-se a estreita relação 
entre matemática e lógica enquanto for- 
mas de conhecimento analítico, sem con- 


867 


OS PENSADORES 


teúdo fatual. Nesse sentido, Schlick par- 
tilhava da convicção de Mach, segundo a 
qual, todo conhecimento deve poder 
reduzir-se, em última análise, à descri- 
ção da experiência, descrição que, entre- 
tanto, requer instrumentos analíticos, 
investigados pela lógica e pela matemá- 
tica. Outro ponto que, posteriormente, 
ressurgiria no Círculo de Viena, diz res- 
peito ao estatuto da filosofia. Mais do 

ue um projeto fracassado, Schlick ten- 
dia a encontrar na filosofia tradicional 
um projeto impossível, e, nos sistemas 
metafisicos, mais do que teses falsas, 
teses sem sentido. A esse Re 
porém, a primeira posição de Sch ick é 
ainda mais amena que a assumida em 


Viena, alguns anos depois. Ela não . 


implica ainda na recusa em conceder à 
filosofia qualquer relevância teórica, 
mas apenas na recusa em concedê-la nas 
condições requeridas pela filosofia tradi- 
cional. Schlick reconhece que algumas 
uestões filosóficas são de natureza 
atual, e, nessa medida, admitem solução 
satisfatória, a partir de uma análise dos 
resultados das ciências empíricas. Uma 
dessas questões exprime-se na contro- 
vérsia entre realismo e idealismo. Segun- 
do Schlick, a atitude cartesiana diante 
desse problema conduz necessariamente 
ao idealismo, se for coerentemente man- 
tida. De fato, se para encontrar-se um 
conhecimento absolutamente verdadeiro 
da realidade é necessário, de início, 
duvidar metodologicamente de tudo que 
aparentemente contenha algo de proble- 
mático, nada mais restará além de dados 
imediatos da experiência, a partir dos 
uais nenhuma realidade pode ser inferi- 
dE Nada autoriza, porém, a exigência 
de que conhecimentos adequados à su- 
posta realidade devam mostrar-se como 
tais, de modo imediato. A realidade de 
um conhecimento, pelo contrário, mos- 
tra-se apenas no final de uma investiga- 
ção, como o resultado de uma reflexão 
crítica. Responder à questão “O que é 
real?” consiste apenas em examinar 
criticamente o conjunto de proposições 
científicas, excluindo dele toda proposi- 
ção que se possa demonstrar falsa. O 
conjunto de proposições que resistirem 
ao exame exprimirá a realidade como 
ela é, não havendo nenhuma razão para 
não identificar os objetos de que tratam 


868 


tais proposições com as coisas reais em 
si mesmas. Essa posição, que consiste 
em admitir que o real pode ser conhecido 
em si mesmo, não de inicio, mas como o 
resíduo de uma depuração critica, rece- 
beu de Schlick o nome de realismo criti- 
co. A questão filosófica de saber se algo 
é real admite resposta derivada da res- 
posta que se dê à questão científica de 
saber se as hipóteses acerca de fenôme- 
nos PR podem resistir a 
tentativas de refutação empírica. 


Empirismo lógico 


Em 1922, Schlick aceitou o convite 
para ocupar a cadeira de filosofia das 
ciências indutivas, na Universidade de 
Viena. Rapidamente reuniu um grupo de 
filósofos e cientistas, ligados pelo inte- 
resse comum por certos tipos E: proble- 
mas, bem como pela atitude francamente 
empirista assumida diante dos mesmos. 
Faziam parte do grupo inicial Neurath, 
Frank, Hahn, Herbert Feigl, Friedrich 
Waismann, Kurt Gódel, Karl Menger 
(1840-1921), Victor Kraft, entre outros. 
Concordando com o empirismo clássico, 
quanto ao caráter empírico de todo 
conhecimento fatual, os membros do Cir- 
culo de Viena, contudo, julgavam insa- 
tisfatória a concepção da matemática e 
da lógica como sistemas de proposições 
muito gerais, estabelecidas indutiva- 
mente a partir de fatos empíricos parti- 
culares. O progresso das duas ciências 
no início do século e o alargamento de 
seus limites, com o desenvolvimento da 
teoria dos conjuntos, pareciam obrigar 
os novos empiristas a encontrar outra 
maneira de fundamentar a cientificidade 
do domínio lógico-matemático. 

Dentro desse panorama crítico, foi 
decisivo para os membros do Círculo de 
Viena a leitura empirista que fizeram do 
Tractatus Logico-Philosophicus de Witt- 

enstein (1889-1951), uma das mais 
Importantes tentativas de extrair conse- 
quências filosóficas da nova lógica, 
publicado em 1921. Para Wittgenstein, 
o mundo é um conjunto de fatos simples, 
fatos atômicos, e o estado atual do 
mundo determina-se pelo conjunto de 
fatos atômicos que tamento ocor- 
rem, com a exclusão daqueles que não 
ocorrem. Assim, segundo Wittgenstein, 


SCHLICK 


FABBRI 


tm 1928, o Círculo de ct idas a Sociedade Ernst Mach, com a finalidade 
de “divulgar e desenvolver uma perspectiva científica” e “criar os 
instrumentos intelectuais do empirismo moderno”. O nome foi escolhido para 
homenagear o filósofo do século XIX que teve decisiva influência na formação 
das primeiras idéias do grupo. (Foto de Mach; Archiv Gerstenberg, Frankfurt.) 


869 


OS PENSADORES 


tia 


DO mass | 


ss ta 


FABBRI 


A teoria da relatividade, formulada por Albert Einstein, desempenhou papel 
relevante na constituição do pensamento do Círculo de Viena. A noção E 
“construção lógica do mundo”, elaborada por Carnap e que considera o universo 
como um conjunto de pontos-instante, utiliza a concepção einsteiniana de 
espaço-tempo. (Foto de Einstein em 1903; Biblioteca Politécnica, Zurique.) 


870 


SCHLICK 


toda proposição é significativa, fornece 
alguma informação acerca do estado 
atual do mundo, na medida em que afir- 
me a ocorrência de certos fatos atômicos 
e exclua a ocorrência de outros. O valor 
de verdade de uma proposição deve, 
pois, poder ser determinado a partir do 
conhecimento da ocorrência, ou não- 
ocorrência, dos fatos atômicos envolvi- 
dos. Imaginando-se uma linguagem 
capaz de exprimir cada fato atômico, 
toda proposição significativa poderia ser 
reduzida a uma combinação de proposi- 
ções atômicas mediante funções de ver- 
dade, de modo a ficar o valor de verdade 
da proposição complexa univocamente 
determinado pelos valores de verdade 
das proposições atômicas componentes. 
Segundo esse critério, três espécies de 
proposições deixariam de merecer o 
nome de significativas. A primeira espé- 
cie seria a das verdades lógicas, ou 
tautologias, e as contradições, cujo valor 
de verdade independe da ocorrência ou 
não de qualquer fato; por essa razão, 
elas nada diriam acerca do estado atual 
do mundo, sendo, pois, expressões va- 
zias. Tratar-se-ia, diz Wittgenstein, de 
proposições verdadeiras somente devido 
à natureza de sua construção gramati- 
cal. Um segundo tipo de proposições não 
significativas seria o das verdades mate- 
máticas, que Wittgenstein acredita 
serem identidades; elas também seriam 
vazias, na medida em que toda identi- 
dade não passaria de uma regra lingúis- 
tica que exprime o fato de dois simbolos 
poderem nomear a mesma entidade. A 
matemática e a lógica são reconhecidas 
como independentes dos fatos, mas por 
isso mesmo vazias de significado, sua 
aplicabilidade ao mundo devendo-se à 
sua derivabilidade da estrutura da lin- 
guagem, que é construída para falar do 
mundo. Finalmente, segundo Wittgens- 
tein, a terceira espécie de proposições 
não significativas é das proposições filo- 
sóficas que não pretendem ser meras 
consequências da maneira como se cons- 
titui à linguagem, visto que se apresen- 
tam como conhecimentos efetivos do 
mundo, mas que tampouco se deixam 
reduzir a um complexo de proposições 
atômicas. Essa pretensão, para ele, 
configura-se estritamente impossível, 
concluindo-se dai o caráter ilusório do 


suposto conhecimento filosófico. O co- 
nhecimento do mundo, para Wittgens- 
tein, é esgotado no nível das ciêneias 
naturais, não restando à filosofia nenhu- 
ma função teórica independente. 

Uma primeira lição aprendida no 
Tractatus — a identificação dos fatos 
atômicos a fatos empíricos — levou o Cir- 
culo de Viena a formular o princípio da 
verificabilidade: o significado de uma 
proposição reduz-se ao conjunto de 
dados empíricos imediatos, cuja ocor- 
rência confere veracidade à proposição .e 
cuja não-ocorrência a falsifica; o signifi- 
cado de uma proposição são suas condi- 
ções empíricas de verdade. Em termos 
lingúísticos, uma proposição fatual será 
significativa se for possível reduzi-la a 
uma combinação de proposições que 
exprimam fatos da experiência imediata. 
proposições protocolares, mediante fun- 
ções de verdade. A segunda lição condu- 
ziu os pensadores de Viena analoga- 
mente a Wittgenstein, a retirar 
significado fatual das proposições lógi- 
cas e MATEMÁTICA, que são entendidas 
como tautologias, ou seja, verdades 
independentes do significado das expres- 
sões componentes e inteiramente deter- 
minadas, enquanto verdades, por sua 
estrutura sintática particular. Final- 
mente, uma terceira lição impôs a irrele- 
vância teórica da filosofia, na qualidade 
de suposto conhecimento não cientifico. 
isto é, não empírico, do mundo. 


A ampliação do movimento 


Para o Círculo de Viena, se cabe a uma 
disciplina função teórica distinta das 
funções próprias das ciências empíricas, 
da matemática e da lógica, essa função 
reduz-se à análise e clarificação do dis- 
curso propriamente científico, bem como 
ao estabelecimento de suas condições de 
legitimidade. — Enquanto proposições 
acerca do mundo, porém, as teses filosó- 
ficas não passariam de sequências de si- 
nais despidas de qualquer sentido, visto 
que, por definição, esse sentido não se 
reduz a um conjunto de experiências 
particulares. A possibilidade ou não de 
conferir à filosofia um novo estatuto teô- 
rico, contudo, constituiu um dos pomos 
de discórdia no interior do Circulo de 
Viena. 


OS PENSADORES ' 


A influência de Wittgenstein na for- 
mação das doutrinas do empirismo lógi- 
co só é comparável em importância ao 
papel desempenhado pelo alemão Rudolf 
Carnap. Nascido em Ronsdorf, em 1891, 
Carnap estudou matemática, fisica e filo- 
sofia na Universidade de Jena, onde foi 
aluno de Frege (1848-1925), que, junta- 
mente com Russell (1872-1970), marcou 
profundamente sua formação intelectual. 
Em 1921, doutrinou-se em Jena com a 
dissertação O Espaço: uma Contribui- 
ção à Teoria da Ciência. Nesse trabalho 
que procura determinar diferenças lógi- 
cas entre os conceitos matemático, fisico 
e intuitivo de espaço, e remeter à igno- 
rância dessas diferenças alguns proble- 
mas filosóficos acerca do espaço, já se 
encontram alguns traços característicos. 
de seu pensamento maduro. Em particu- 
lar, surge claramente a tendência a 
tomar problemas filosóficos como frutos 
de mal-entendidos, que seriam resul- 
tantes de análises lógicas defeituosas, a 
serem corrigidas com o uso dos instru- 
mentos da lógica de Frege e Russell. Na 
dissertação, aparece, também, a tendên- 
cia no sentido de conciliar uma postura 
basicamente empirista com os modernos 
métodos lógicos e matemáticos. 

O trabalho de Carnap foi bem recebido 
no Circulo de Viena, a ponto de Schlick 
convidá-lo, em 1926, a assumir um 
cargo de professor-assistente na Univer- 
sidade de Viena. Carnap passou a parti- 
cipar ativamente das discussões do 
grupo, convertendo-se rapidamente em 
um de seus membros mais proeminentes. 
Alêm de inúmeros artigos, escreveu 
nesse período as duas obras que levaram 
mais adiante, de modo minucioso e pre- 
ciso, o projeto fundamental do empi- 
rismo lógico: 4 Construção Lógica do 
Mundo, (1928), e 4 Sintaxe Lógica da 
Linguagem, (1934). A primeira, apre- 
senta-se como parte da realização do 
projeto geral de mostrar como as leis 
científicas poderiam ser reformuladas 
em uma linguagem exprimindo direta- 
mente a experiência imediata, e que, 
portanto, exprimiria claramente seu sig- 
nificado efetivo. A segunda visa a deter- 
minar o verdadeiro estatuto teórico da 
filosofia, bem como demonstrar conclu- 
sivamente a impertinência dos projetos 
filosóficos tradicionais. 


872 


A participação de Carnap contribuiu 
em muito para dar ao Circulo o caráter 
de movimento organizado. Em 1928, 
formou-se a Sociedade Ernst Mach, com 
os objetivos de “propagar é ampliar uma 
atitude científica” e “criar os instru- 
mentos intelectuais do empirismo mo- 
derno”. Em 1929 Carnap, Hahn e Neu- 
rath preparam um manifesto sob o título 
A Concepção Científica do Mundo: o Cir- 
culo de Viena, onde procuram sistema- 
tizar as teses básicas do empirismo- 
lógico e traçar suas origens históricas. 
Sentindo-se ilhados no ambiente filosó- 
fico alemão, dominado pelo idealismo de 
filiação kantiana, o grupo vienense de- 
senvolveu intenso intercâmbio com gru- 
pos empiristas de outros países. En- 
quanto os contatos na Alemanha 
limitavam-se ao debate com Wittgens- 
tein, as doutrinas do Circulo encon- 
traram ampla ressonância na Inglaterra 
e Estados Unidos. O trabalho de divulga- 
ção incluiu a realização de congressos 
internacionais, o primeiro em Praga, em 
1929. 

A partir de 1930, o Circulo passou a 
dispor de publicações próprias para a 
comunicação de seus trabalhos. Em cola- 
boração com Reichenbach (1891-1953), 
Carnap passôóu a editar a revista Er- 
kenntnis, Neurath organizou uma cole- 
ção de monografias denominada Ciência 
Unificada, Schlick e Frank cuidaram de 
uma coleção de livros intitulada Escritos 
para uma Concepção Científica do 
Mundo. Mas, ao mesmo tempo, o grupo 
começou a desintegrar-se. Em 1931, 
Carnap mudou-se para Praga e, em 
1935, sob pressão do nazismo, resolveu 
fixar-se nos Estados Unidos, onde per- 
maneceria até sua morte, em 1970. Tam- 
bém Feigl estabeleceu-se nos Estados 
Unidos, em 1931, seguido por Menger e 
Góodel. Hahn faleceu em 1934 e final- 
mente, .em 1936, Schlick foi assassi- 
nado, a caminho da Universidade de 
Viena, por um estudante desequilibrado. 
Neurath fez uma última tentativa para 
manter vivo o movimento, transferindo, 
sob pressões políticas, a revista Erkennt- 
nis para Haia, com o novo título de The 
Journal of Unified Science. Em ot 
Carnap planejou uma série de opúsculos 
a serem reunidos numa Enciclopédia da 
Ciência Unificada, projetaram-se novos 


ss —— >>> 


CARNAP 


Como muitos outros intelectuais e artistas da época, os componentes do 
Círculo de Viena foram perseguidos pelo nazismo. Segundo o filósofo inglês 
Alfred Jules Ayer, o pensamento dos positivistas lógicos foi atacado pelos 
nazistas, em virtude da natureza essencialmente crítica de suas posições. 
(Foto da coleção Gerschein mostra a parada pela vitória de Hitler, em Viena.) 


congressos, mas a Segunda Guerra Mun- 
dial e a morte de Neurath retiraram do 
movimento sua coesão inicial. Curiosa- 
mente, essa desintegração coincidiu com 
o início de um processo de absorção do 
empirismo lógico por outras correntes de 
origem empirista, o que fez com que o 
grupo de Viena perdesse sua singulari- 
dade, e fosse conduzido a um ameniza- 
mento progressivo das rígidas posições 
iniciais. 


Construção lógica do mundo 


A tese de que o significado de uma 
proposição consiste no conjunto de suas 
condições empíricas de verificação, e a 
distinção entre ciência e metafísica na 
base da distinção entre proposições 
significativas e não significativas, impli- 
cam, necessariamente, a crença de que 
toda proposição científica pode, em RE 
ma análise, reduzir-se a uma combina- 
ção de enunciados protocolares. Em ou- 


tros termos, todas as leis científicas, 
expressas habitualmente em uma lingua- 
gem que admite expressões nem sempre 
diretamente ligadas a dados da expe- 
riência imediata, deixar-se-iam formular 
em uma linguagem comportando exclu- 
sivamente expressões dessa natureza. À 
Construção Lógica do Mundo, de Car- 
nap, constitui a tentativa mais sistemá- 
tica de justificar essa crença. 

O instrumento metodológico básico 
utilizado por Carnap para essa tarefa foi 
tomado por empréstimo a Bertrand Rus- 
sell: a noção de definição contextual. 
Para Russell, traduzir a linguagem nor- 
mal da ciência em uma linguagem da 
experiência imediata não significa, ne- 
cessariamente, definir cada expressão da 
primeira em termos da segunda, mas, 
simplesmente, formular um conjunto de 
regras que permitam reduzir toda propo- 
sição, contendo a expressão a ser defini- 
da, a uma proposição que não a-conte- 
nha, sem que deva haver entre ambas 


873 


E = SS 


OS PENSADORES 


qualquer analogia de estrutura lógica ou 
gramatical. O trabalho de Carnap con- 
sistiu em, primeiro, especificar um con- 
junto equeno de expressões primitivas 
referida as à experiência imediata, a base 
da linguagem; segundo, acrescentar-lhe 
o conjunto das expressões lógico-mate- 
máticas; e, terceiro, determinar um con- 
Junto de regras constitucionais, indi- 
cando como algumas expressões da 
linguagem notmal da ciência poderiam 
ser definidas, no sentido mencionado, em 
termos daquelas expressões iniciais. 

A base da linguagem construída por 
Carnap comporta expressões para expe- 
riências sensíveis e para uma relação 
primitiva que existe entre as experiên- 
cias T e y, tomadas nessa ordem e se, e 
somente se, x é lembrada como sendo 
semelhante a y. Na primeira parte de 4 
Construção Lógica do Mundo, algumas 
noções, como qualidade e sensação, 
entre outras, são introduzidas por regras 
constitucionais. Na segunda parte, de 
modo mais informal, Carnap indica 
como construir logicamente o mundo 
espaço-temporal, enquanto conjunto de 
pontos-instante, entendidos como quá- 
druplas (as três dimensões do espaço e o 
tempo) de números reais; além disso, 
Carnap argumenta em favor da idéia de 
que toda afirmação sobre o mundo pode- 
ria reduzir- se a atribuições de qualida- 
des sensíveis a tais pontos-instante, defi- 
nindo contextualmente expressões como 
“objeto visual” e “meu corpo”. Em 
seguida, focaliza o problema de como 
entender proposições tratando de outras 
mentes e de objetos culturais, de modo 
pouco mais que alusivo. 

A escolha de uma linguagem imedia- 
tamente ligada à experiência imediata, 
como linguagem básica da ciência, colo- 
cou, contudo, problemas no interior do 
empirismo lógico, problemas prove- 
nientes da ambiguidade da noção de 
proposição protocolar. Todos concor- 
davam em admitir como protocolares 
exclusivamente proposições empirica- 
mente verificáveis de modo imediato, o 
que não evitou discussões acerca do tipo 
de entidades a serem referidas por 
proposições empiricamente verificáveis 
de modo imediato. Schlick advogou fran- 
camente a tese de que tais proposições 
devem referir-se a dados sensíveis, nos 


874 5; 


moldes da linguagem especificada por 
Carnap em A Construção Lógica do 
Mundo. Neurath declarou ser insusten- 
tável essa posição, visto que conduziria 
a um solipsismo inconciliável com a 
objetividade e intersubjetividade carac- 
terísticas da ciência. As proposições bá- 
sicas da ciência deveriam, segundo Neu- 
rath, referir-se a objetos físicos, 
públicos, e a linguagem cientifica seria 
uma linguagem fisicalista, comum a 
todas as disciplinas, concretizando a 
ideal empirista da ciência unificada. 
Schlick procurou responder a essa obje- 
ção, retomando sua antiga distinção 
entre estrutura e conteúdo da experiên- 
cia. Segundo ele, uma linguagem refe- 
rida a dados sensíveis seria incomuni- 
cável quanto ao conteúdo desses dados, 
mas não quanto à sua estrutura e quanto 
à sua ordem e suas relações mútuas. 
Para Schlick, embora nada possa garan- 
tir que a impressão sensivel associada 
por uma pessoa à palavra “'vermelho” 
seja a mesma que outra pessoa associa à 
mesma palavra. pode-se constatar que a 
mesma palavra é usada nas mesmas 
situações, e que se reconhecem as mes- 
mas relações entre as impressões asso- 
ciadas às palavras “vermelho”, “verde” 
e “azul”, quaisquer que sejam essas 
impressões para cada indivíduo. Isso 
bastaria para assegurar a objetividade 
de proposições contendo tais palavras. 
Por influência de Neurath, Carnap 
aproximou- se progressivamente das po- 
sições fisicalistas, em artigos como A 
Linguagem Fisicalista como Linguagem 
Universal da Ciência e Psicologia em 
Linguagem Fisicalista, publicados res- 
pectivamente em 1931 e 1932. Neste 
segundo artigo, Carnap procurou mos- 
trar como a psicologia não se distingue 
qualitativamente, em objeto e método, 
das ciências naturais, a possibilidade de 
formulá-la em uma linguagem fisicalista 
refletindo a possibilidade de encará-la 
como a descrição de certos aconteci- 
mentos fisicos, no caso as condutas 
manifestas de homens e animais. Desde 
A Construção Lógica do Mundo, porém, 
Carnap evitou conceder à polêmica do 
fisicalismo relevância mais que metodo- 
lógica. Para ele essa polêmica tende a 
assumir contornos metafísicos, reduzin- 
do-se à polêmica entre positivistas e rea- 


CARNAP 


listas, entre os que negam a existência 
de objetos exteriores — reconhecendo 
apenas dados sensíveis como entidades — 
e os que afirmam a existência desses 
objetos além do que é dado na experiên- 
cia. À opção entre uma base solipsista e 
uma fisicalista aparece como uma opg ão 
metodológica, atendendo à conveniência 
ditada pelos objetivos propostos. Sua 
escolha de uma linguagem solipsista 
teria sido ditada pelo interesse epistemo- 
lógico de seu trabalho, entendido como a 
reconstrução racional do aparato concei- 
tual da ciência, isto é, como a determina- 
ção da maneira como os conceitos cienti- 
ficos mantêm conexões lógicas com a 

experiência, e não como a descrição da 
maneira como eles são psicologicamente 
obtidos por cada sujeito individual. Se o 
interesse for, por outro lado, sistemático 
— se está em questão a formulação de um 
sistema teórico intersubjetivo — a prefe- 
rência recai sobre uma linguagem fisica- 
lista. Na opinião de Carnap, porém, o 
conteúdo empírico de proposições fisica- 
listas fica garantido pela possibilidade 
de reduzi-las a proposições solipsistas, o 
que, por outro lado, não implica em 
negar a existência de objetos físicos. 
Sendo impossível determinar critérios 
empíricos de sua verdade, essa negação 
configura-se como uma pseudo-propo- 
sição metafísica. Nesse sentido, A Cons- 
trução Lógica do Mundo seria metafisi- 
camente neutra. 

A passagem de Carnap ao fisicalismo 
— caracterizada pela recusa do privi- 
légio de que ainda dispunha na Constru- 
ção a linguagem solipsista, enquanto lin- 
suagem básica da ciência —, não deixa 
de colocar problemas. A concepção de 
proposição protocolar, como algo refe- 
rido imediatamente às experiências ime- 
diatas do cientista, concedia a ela um 
grau de certeza máximo, tornando possi- 
vel dispor de um critério conclusivo para 
verificação de hipóteses. Por outro lado, 
converter as proposições protocolares 


FABBRI 


a e 
midia tn te 


Seo 


E em proposições acerca de objetos exte- 
É Pk riores ao sujeito retira-lhes esse grau de 
certeza. Coloca-se, assim, um problema: 

O economista Otto Neurath fem cuna) como determinar se um fato confirma 
foi um dos primeiros participantes do uma hipótese, se a própria proposição 
grupo dos positivistas lógicos de que afirma de modo mais imediato a 
Viena. O pensador Kurt Gódel foi ocorrência do fato deve, por sua vez, 
outra figura expressiva do movimento. submeter-se a confirmação, visto tratar- 


87 


q 


OS PENSADORES 


se apenas de uma expressão de dados 
sensíveis presentes imediatamente ao 
sujeito? As proposições protocolares dei- 
xam de ser incorrigíveis, sua verdade 
torna-se tão discutível quanto a de hipó- 
teses que, em princípio, ganhariam con- 
teúdo empírico por meio delas. Se uma 
proposição protocolar entrasse em con- 
flito com uma dessas hipóteses, nada 


obrigaria a abandonar a hipótese e não a 


proposição protocolar. No artigo Sobre o 
Fundamento do Conhecimento, Schhck 
Julga insustentável essa concepção do 
ponto de vista empirista, pois signifi- 
caria colocar a ciência fora do controle 
dos fatos. Esse argumento não impres- 
sionou Neurath e Carmnap, visto que o 
problema das relações entre enunciados 
e fatos aparecia-lhes como metafísico. 
Na medida em que enunciados e fatos 
são realidades de espécie diferente, não 
teria sentido falar em correspondência 
entre eles, mas apenas em correspon- 
dência entre certos enunciados e outros 
que são pesa no momento, por 
razões de conveniência. Constituiu-se 
assim a chamada teoria da coerência da 
verdade: do ponto de vista lógico, não se 
pode exigir de uma teoria mais que coe- 
rência interna, a decisão entre teorias 
coerentes opostas guiando-se por moti- 
vos de conveniência. Embora Carnap, 
posteriormente, tenha abandonado essa 
teoria, convencido pelos trabalhos se- 
mânticos de Alfred Tarski (1902- ). 
segundo os quais existe possibilidade de 
tratar a verdade como correspondência 
de maneira não metafísica, não abando- 
nou a postura pragmática, que faz inter- 
vir razões de conveniência no processo 
de aceitação de teorias, o que implica a 
insuficiência dos critérios simplesmente 
empíricos para dar conta da tarefa de 
verificar teorias científicas. 


Uma nova filosofia 


O princípio de verificabilidade, iden- 
tificando significado e condições empíri- 
cas de verdade, reduzia a filosofia tradi- 
cional a um conjunto de segiiências 
assignificativas de sinais, retirando da 
metafísica o direito de ocupar um lugar 
no domínio do conhecimento do real. 
Surgem dai duas questões. Em primeiro 
lugar, a assignificatividade da metafi- 


876 


=" - lan, gate 


— «2 > 


A fim de propagar suas idéias, 
Os positivistas organizaram 
diversos congressos internacionais. 
O primeiro foi realizado em Praga. 
(Uma rua do gueto judeu de Praga.) 


CARNAP 


sica não pode ser, evidentemente, da 
mesma espécie da assignificatividade de 
uma sequência desordenada de sinais 
combinados a esmo. Ela reveste-se de 
uma inegável aparência de correção 
linguistica, que cabe explicar. Além 
disso, se o dominio do conhecimento é 
esgotado pela lógica, pela matemática e 
pelas ciências empíricas, pode- se per- 
guntar: qual o estatuto do empirismo ló- 
gico enquanto sistema de aparentes afir- 
mações? qual o sentido da proposição 
que afirma a validade do próprio princí- 
pio de verificabilidade? 

A resposta de Schlick assemelha-se à 
de Wittgenstein: a filosofia dedica-se a 
esclarecer os conceitos propriamente 
científicos, o erro da metafísica consis- 
tindo em tomar esse esclarecimento por 
uma expressão. Para Schlick, se cabe 
explicitar o significado de uma proposi- 
ção, é óbvio que essa explicitação não 
pode ser feita exclusivamente em termos 
de outras proposições, pois seria sempre 
cabível, por sua vez, indagar pelos si 
ficados dessas proposições, o que ade 
garia a um regresso infinito. Se a tarefa 
de explicitação é realizável, deve-se em 
algum momento abandonar o nivel da 
expressão e recorrer a um ato que aponta 
em direção do que não se pode exprimir 
por nenhuma proposição. A filosofia não 
seria uma teoria exprimindo fatos, mas 
uma atividade de indicar o inexprimível. 
Em suma, segundo Schlick, o princípio 
de verificabilidade não remeteria a ne- 
nhum fato, mas seria a regra orientadora 
da atividade filosófica, na busca do 
significado das proposições da ciência, e 
a validade da filosofia tradicional seria 
reconhecível na atividade de explicita- 
ção oculta sob a roupagem de conheci- 
mento fatual. 

É outra a atitude de Carnap diante da 
filosofia. Segundo ele, não se justifica a 
afirmação de Wittgenstein de que as 
proposições do Tractatus carecem de 
sentido. Elas não seriam na verdade, 
proposições significativas sobre o 
mundo, mas proposições significativas 
sobre a linguagem utilizada para falar 
do mundo. Para Carnap, a filosofia teria 
duas funções, uma positiva e outra nega- 
tiva, ambas referindo-se à análise da lin- 
guagem. Se proposições sem sentido, 
como as da metafísica, podem ser gra- 


César é um número primo”, 


maticalmente corretas, é porque a gra- 
mática de uma linguagem ordinária não 
é adequada às exigências da lógica. Se a 
gramática nada tem a opor contra propo- 
sições como “o nada nadifica”, onde o 
uso substantivo da palavra “nada” reti- 
ra-lhe qualquer significado, ou “Júlio 
onde pro- 
priedades que convêm a objetos de um 
certo tipo lógico são atribuídas a um ob- 
Jeto de tipo diferente, é porque as lingua- 
gens comuns não se definem tendo em 
vista exclusivamente fins teóricos — o 
que exigiria adequação à lógica — mas 
comportam também outros fins, como 
por exemplo a expressão de uma atitude 
emotiva diante do mundo. É pois tarefa 
relevante construir linguagens regidas 
por uma sintaxe lógica, que permita 
identificar correção lógica a correção 
gramatical. A pas bidede de até 
mesmo formular a maior parte dos pro- 
blemas metafisicos em tais linguagens 
atesta seu caráter de pseudo-proble- 
mas. À filosofia, enquanto crítica, cabe 
pois o trabalho de revelar as transgres- 
sões lógicas, não espelhadas gramatical- 
mente e que sustentam a ilusão metafi- 
sica. À esse trabalho, Carnap se dedicou 
em dois artigos que se tornaram famo- 
sos: Superação da Metafísica pela Aná- 
lise Lógica da Linguagem e Pseudo-Pro- 
blemas em Fitosofin. 

Em Sintaxe Lógica da Linguagem 
Carnap desenvolveu o projeto a nova 
filosofia em sua função positiva, ou seja, 
como teoria da sintaxe lógica da lingua- 
gem da ciência. Toda linguagem logica- 
mente adequada poderia : ser especificada 
em termos de um conjunto de sinais 

rimitivos, que constituiriam, por um 
dedo um conjunto de regras de forma- 
ção, indicadoras de como obter expres- 
sões complexas por combinação de ex- 
pressões mais simples, exclusivamente 
na base de suas formas visíveis, e, por 
outro, um conjunto de regras de transfor- 
mação, também restritas à forma das 
expressões, capazes de refletir os modos 
válidos de inferência. As proposições da 
filosofia seriam significativas na medida 
em que descrevessem a estrutura sintá- 
tica de uma linguagem, resultante da 
escolha de certos sinais e “certas regras, 
ou na medida em que exprimissem certas 
prescrições para a construção de novas 


877 


ASSOCIATED PRESS 


OS PENSADORES 


! e 


“Ninguém duvida de que a investigação pragmática das lin uagens naturais é da 
maior importância para entender, tanto o comportamento dos indivíduos como o 
caráter e o desenvolvimento de culturas inteiras. (...) Parao propósito 
especial do desenvolvimento da lógica, é mais importante a construção e 
investigação semântica dos sistemas linguísticos.” (Texto de Carnap, acima.) 


878 


CARNAP 


linguagens, tendo em vista determinados 
fins teóricos. A partir dessa concepção 
de filosofia como metalinguagem (lin- 
guagem que cuida de linguagem), Car- 
nap acreditava poder recuperar o valor 
cognitivo de certas teses da filosofia 
tradicional, convertidas em teses meta- 
linguísticas. Dever-se-iam, assim, distin- 
guir duas espécies de proposições signi- 
ficativas, conforme tratem do mundo ou 
da linguagem: sentenças-objeto e senten- 
ças sintáticas. Quando a referência aq 
mundo ou à linguagem for explicita, dir- 
se-á que se trata, respectivamente, de 
sentenças em modo material ou em modo 
formal. Algumas proposições metafi- 
sicas poderiam ser reconhecidas como 
sentenças pseudo-objeto, isto é, senten- 
cas sintáticas formuladas no modo mate- 
rial: convertidas ao modo formal, passa- 
riam a exprimir verdadeiras afirmações, 
cabendo discuti-las de maneira significa- 
tiva. Exemplo típico desse procedimento 
encontra-se no artigo Empirismo, Se- 
mântica e Ontologia, onde arnap anali- 
sa o problema filosófico da existência. 

Embora  Carnap, posteriormente, 
tenha atenuado essa concepção, permi- 
tindo à filosofia referir-se não apenas 
aos aspectos sintáticos, simplesmente 
formais, da linguagem, mas também aos 
semânticos, nunca abandonou a idéia de 
que a relevância teórica da filosofia resi- 
de em seu caráter metalingúístico, e sua 
irrevelância teórica é proporcional à sua 
pretensão em competir com a ciência no 
conhecimento do mundo. 


Verificação e confirmação 


Ao formular o princípio de verificabi- 
lidade, os empiristas lógicos acredi- 
taram ter encontrado um critério capaz 
de distinguir entre ciência e filosofia 
tradicional, relegando as proposições 
metafisicas ao estatuto de sequências va- 
zias de sinais e reservando para as ciên- 
cias naturais o caráter de conhecimento 
fatual. Entretanto, logo se tornou apa- 
rente a inadequação do princípio de 
verificabilidade, enquanto critério satis- 
fatório de demarcação. Se um dos objeti- 
vos das ciências é a formulação de leis 
válidas em geral. a exigência de que 
toda proposição científica seja equiva- 
lente a uma combinação de proposições 


protocolares implica em admitir que 
esse objetivo é inatingível, visto que 
evidentemente nenhum conjunto finito de 
experiências pode conferir veracidade a 
uma lei geral. Schlick procurou contor- 
nar a dificuldade, sugerindo que tais leis 
são de fato regras que permitem passar 
de enunciados singulares a enunciados 
singulares, e não propriamente proposi- 
ções. Essa solução não satisfez a Carnap, 
a quem parecia claro serem as leis cienti- 
ficas usadas como proposições, pois, 
caso contrário, não teria sentido falar na 
falsidade de uma suposta lei. Cabia, por- 
tanto, reformular a noção empirista de 
significado, sob pena de abandonar a 
parte mais relevante das teorias cientifi- 
cas. Além disso, o exame de certos con- 
ceitos científicos, conhecidos como dis- 
posicionais, que servem para descrever 
fenômenos que ocorrem em certos corpos 
apenas quando lhes são impostas condi- 
ções particulares (caso da solubilidade 
em água), convenceu Carnap a abando- 
nar o princípio de que todo conceito cien- 
tífico pode ser definido contextualmente, 
em termos de uma linguagem protocolar. 

Em um artigo de 1936, Sobre a Lingua- 
gem Unificada da Ciência, ele admite 
que o sentido preciso de expressões 
como “solúvel em água” não pode ser 
reproduzido por nenhuma espécie de 
regra constitucional, mas apenas por for- 
mas redutivas, que não permitem elimi- 
nar proposições contendo tais expres- 
sões, em beneficio de proposições 
equivalentes de uma linguagem protoco- 
lar, mas formular nesta linguagem pro- 
posições implicadas pelas primeiras. 

Certamente, deve haver relação lógica 
entre uma proposição científica e propo- 
sições protocolares, mas. tal relação não 
é sempre a de mera equivalência. 

No artigo Testabilidade e Significado, 
publicado em 1936-37, Carnap substi- 
tulu O princípio da verificabili ade pelo 
princípio mais flexível da confirmabi- 
lidade. Aceitando que leis gerais nunca 
podem ser completamente verificadas, e 
que mesmo proposições protocolares, se 
entendidas em sentido fisicalista. são 
passíveis da mesma consideração, Car- 
nap propôs, como possível critério de 
significado, a possibilidade de confirma- 
ção gradual. Uma proposição científica 
seria mais ou menos confirmada pela 


879 


OS PENSADORES 


experiência, de acordo com a quantidade 
de evidência empírica disponível a seu 
favor, reconhecendo-se a impossibi- 
lidade de sempre elevar o grau de confir- 
mação ao absoluto. Quanto maior o nú- 
mero de proposições protocolares 
verdadeiras dedutíveis de uma hipótese, 
maior seu grau de confirmação, Rendo 
assim garantida sua pe A 
no corpo da teoria. Carnap definiu ainda 
a noção de testabilidade: uma proposi- 
ção dir-se-á testável, se for possivel rea- 
na experimentos capazes de confir- 
má-la. A partir dai, distinguiu quatro 
maneiras empiristas de entender a noção 
de significado: como testabilidade com- 
pleta, testabilidade parcial, confirmabi- 
lidade parcial e confirmabilidade com- 
pleta ou verificabilidade. Embora 
recomendando tolerância e atenção aos 
fins propostos por cada investi ação, 
Carnap manifestou preferência pelo cri- 
tério mais liberal da mera confirmabi- 
lidade parcial. Em Fundamentos Lógicos 
da Probabilidade (1950), Carnap fez 
uma análise lógica da noção de grau de 
confirmação de uma hipótese, lançando 
as bases de uma lógica indutiva. En- 
quanto a lógica dedutiva permitiria 
determinar cabalmente a verdade de uma 
proposição, a partir da verdade de ou- 
tras das quais é consequência lógica, a 
lógica indutiva permitiria estabelecer 
que a verdade de certas conseqiências 
lógicas de uma proposição determina 
para ela um grau de confirmação n. Do 
mesmo modo que a determinação dedu- 
tiva independeria do significado particu- 
lar das expressões não lógicas envolvi- 
das, a determinação indutiva decorreria 
simplesmente da forma lógica das pro- 
posições e do conceito lógico de grau de 
confirmação, Justificando-se assim cha- 
má-las ambas de lógica. 


Conjetura e refutações 


Na revisão crítica do princípio de 
verificabilidade, o filósofo vienense Karl 
Popper desempenhou papel importante. 
Nascido em 1902, estudante de matemá- 
tica, fisica e filosofia na Universidade de 
Viena, Popper manteve contatos estrei- 
tos com os membros do Circulo, sofrendo 
influência principalmente de Carnap, o 
que não impediu que recusasse muitas 


880 


das teses mais características do empi- 
rismo lógico. 

Em seu primeiro livro, Lógica da 
Investigação (1935), Popper criticou o 
projeto de estabelecer os limites entre 
ciência e pseudo-ciência (a metafísica em 
particular), na base da distinção entre 
proposições com e sem significado, bem 
como o estabelecimento a distinção 

or meio do princípio de verificabi- 
asd Segundo Popper, esse princípio 
não serve para delimitar precisamente o 
domínio da ciência, por ser demasiada- 
mente restritivo, 26 certos aspectos, 
demasiadamente amplo, sob outros. De 
fato, a aceitação do princípio equivale, 
por um lado, a excluir da ciência leis 
gerais, e, por outro, a admitir como ciên- 
cias formas de conhecimento que o empi- 
rismo não pode aceitar a não ser como 
pseudo-ciências: a astrologia, partes da 
metafísica tradicional, o historicismo 
marxista e a psicanálise, as quais con- 
têm inúmeras proposições empirica- 
mente verificáveis. Contra a idéia de que 
as leis científicas são meras abreviações 
de experiências singulares, Popper con- 
sidera-as criações livres da razão huma- 
na, mais do que reações passivas diante 
de observações. Para Popper, toda ob- 
servação pressupõe uma atividade seleta- 
va, que permite discernir certas irregula- 
ridades em prejuizo de outras, e essa . 
atividade, por sua vez, supõe uma teoria . 
prévia que a oriente nas seleções. Em ou- 
tros termos, não há observação pura, e 
mesmo que houvesse, mesmo que a indu- 
ção fosse responsável pela formação de 
teorias científicas, ainda assim ela per- 
maneceria incapaz de justificá-las. O 
que distingue teorias científicas de pseu- 
do-cientificas não é a verificabilidade 
empírica e sim a refutabilidade empiri- 
ca. O que defme a racionalidade cienti- 
fica não é o momento da obtenção das 
teorias, nem tampouco o de sua verifica- 
ção, que é impossível, mas o de sua críti- 
ca. Segundo Popper, uma teoria deve ser 
reconhecida como científica na medida 
em que for possível deduzir dela propo- 
sições observacionais singulares, cuja 
falsidade seria pois prova conclusiva da 
falsidade da teoria. Por outro lado, se 
uma teoria não provê meios para uma 
possível refutação empírica, se não há 
experiência capaz de refutá-la, deve ser 


FABBRI 


POPPER 


Lara dra a 1891 vão Tomado tear 
Damues, a Nom Ed, 


Deo (aaa 
rap parda 
pune da hds d uses “ dee, ez 


pe 


Geralmente considerado como o mais importante r epresentante no ositivismo 
lógico, Rudolph Carnap evoluiu de uma posição inicial 
neutralidade cética em relação à metafísica até a sua radical re E TCROs 
Suas críticas à filosofia tradicional influenciaram inúmeros filósofos 
do século XX. (Manuscrito da Autobiografia de Carnap, editada em 1957.) 


881 


OS PENSADORES 


reconhecida como um mito, explicação 
pseudo-científica do real. A atitude cien- 
tífica diante de uma hipótese não consis- 
te, pois, em procurar casos particulares 
que a confirmem, mas Rca casos 
que, se ocorressem, falsificariam a hipó- 
tese. A racionalidade da adoção provi- 
sória de uma teoria ou de sua rejeição 
deriva, portanto, da objetividade dos 
procedimentos dedutivos, que orientam o 
discernimento das possíveis experiências 
refutadoras. Popper conclui então pela 
total irrelevância das tentativas de ela- 
borar uma lógica indutiva como método 
de decisão em ciência. 

Em uma série de artigos posteriores, 
alguns deles reunidos no volume Conje- 
turas e Refutações, Popper mostrou 
como sua crítica ao princípio de verifica- 
bilidade atinge também o substitutivo 
proposto por Carnap, com base na noção 
mais fraca de confirmação, visto que 
toda proposição vérificâvel é também 
confirmável, e há proposições verificá- 
veis pseudo- científicas. Popper recusou 
também a interpretação de alguns empi- 
ristas, undo a qual o princípio da 
cefutabilidade empírica funcionaria 
como novo critério de significatividade. 
Popper acreditava que o problema da 
demarcação entre ciência e pseudo- 
ciência nada tem a ver com o problema 
do significado, que lhe parece de fato um 
pseudo- problema. Dizer “que uma propo- 
sição é significativa se é empiricamente 
refutável envolve, do mesmo modo que 
dizer que o é no caso de ser empirica- 
mente verificável, uma transgressão do 
uso comum da palavra “significado”, 
pois a negação de uma proposição refu- 
tável nem sempre é refutável, enquanto 
espera-se que a negação de uma proposi- 
ção significativa sempre seja significa- 
tiva. Além disso, muitas teorias cienti- 
ficas surgiram como o resultado de um 
desenvolvimento a partir de mitos, como 
foi o caso da teoria corpuscular da luz. 
Seria dificilmente compreensível que 
uma teoria carecesse de sentido em um 
estágio de seu desenvolvimento e, de 
repente, passasse a dispor de sentido 
completo. Mais conveniente seria reco- 
nhecer duas formas de conhecimento de 
valor desigual, uma científica, porque 
crítica, outra não científica, porque 
dogmática, inacessível ao tribunal da 


882 


experiência. Popper também não acom- 
panhou Carnap no estabelecimento de 
uma distinção rigorosa entre filosofia e 
ciência. Por um lado, a filosofia, para 
cle, não está restrita ao estudo de lingua- 
gens; por outro, ela apenas adquire esta- 
tuto científico, quando conduz sua inves- 
tigação sem perder de vista os 
problemas levantados pelas ciências par- 
ticulares. Se é possível estabelecer, em 
certa medida, diferenças metodológicas 
entre elas, tais diferenças não anulam o 
que deve haver de comum em seus proce- 
dimentos, ou seja, construção de hipóte- 
ses e tentativas de refutá-las. 

Em Conjeturas e Refutações, e espe- 
cialmente em seu livro posterior, Conhe- 
cimento Objetivo, Popper procurou mos-. 
trar a incorreção de certas 
interpretações, que encontram germes de 
relativismo e irracionalismo em suas 
doutrinas. Segundo essas interpretações, 
se é impossível, falar em verificação, e 
até mesmo em confirmação de teorias 
cientificas, parece ser também impos- 
sivel falar em verdade objetiva a que as 
leis científicas devessem responder. Para 
hd tal interpretação é viciada pela 
confusão entre certeza e verdade. A 
impossibilidade de verificação atesta 
simplesmente a impossibilidade de cer- 
teza absoluta no que concerne à verdade 
de uma teoria, isso em nada afetando o 
próprio conceito de verdade, enquanto 
correspondência entre teoria e mundo 
real. À própria noção de refutabilidade 
implica o reconhecimento de uma verda- 
de objetiva, visto que só tem sentido 
falar em teoria falsa pressupondo-se 
uma verdade da qual essa teoria ter-se-ia 
desviado. Se tal verdade nunca pode ser 
conclusivamente reconhecida por nós, 
isso não implica que ela não exista. A 
idéia de verdade funcionaria, de fato, 
como um ideal regulador da prática 
científica, entendida esta como processo 
de criação de hipóteses e tentativas para 
mostrar que elas não correspondem à 
verdade. Falsificada uma teoria, cumpre 
substituí-la por outra menos inadequada 
ao real; o progresso da ciência consisti- 
ria, assim, numa aproximação progres- 
siva em direção à verdade. 

Entretanto, como falar em aproxima- 
ção sucessiva à verdade, em graus de 
verdade, se mesmo uma confirmação 


POPPER 


parcial é impossível, e mais se não há 
observação pura, se os próprios enuncia- 
dos básicos da ciência — que suposta- 
mente remeteriam a fatos do mundo -—, 
são partes das teorias, e consequen- 
temente estão também sujeitos a testes 
de refutação? Em suma, como comparar 
duas teorias até agora refutadas, ou 
duas teorias já refutadas, a fim de esta- 
belecer seus lugares no progresso para a 
verdade? As concepções de Popper pare- 
cem conduzir a um irracionalismo, à 
impossibilidade de encontrar critérios 
objetivos para comparar duas teorias 
científicas conflitantes. Popper respon- 
deu a essa objeção, indicando alguns cri- 
térios objetivos admissíveis. O caráter 
hipotético dos enunciados básicos, pen- 
sava Popper, não impossibilita a opera- 
ção de SERIE empírica, pois podemos 
atribuir convencionalmente valores de 
verdade a certos enunciados básicos, de 
maneira provisória, sujeita a revisões 
possíveis na base da verdade ou falsi- 
dade de outros enunciados básicos dedu- 
tíveis dos primeiros, no contexto da teo- 
ria. Se, aparentemente, a possibilidade 
de convencionar valores de verdade im- 
pede a refutação conclusiva de qualquer 
teoria, de fato 1sso não ocorre, pois cer- 
tas convenções diminuiriam a onto a 
precisão, a simplicidade e o conteúdo 
empírico da teoria que a tornariam 
inaplicável à realidade que pretende 
explicar. Entre outros, surgem como cri- 
térios objetivos a verossimilhança (ou 

au de corroboração), entendida como 
unção do número de tentativas fracas- 
sadas de refutação; o conteúdo informa- 
tivo ou empírico, entendido como o con- 
junto de enunciados básicos que 
logicamente contradizem a teoria; a pre- 
cisão; a amplitude explicativa. Se a ava- 
liação de teorias não pode ser feita no 
nível puramente empírico — que aliás é 
uma ilusão —, isso não implica fazê-la no 
nível psicológico e subjetivo. Além do 
mundo real dos fatos e do mundo interior 
de cada um, há um terceiro mundo: o 
mundo lógico das teorias, onde elas se 
confrontam segundo critérios propria- 


FABBRI 


Moritz Schlick, um dos fundadores do mente racionais e objetivos, porque 
Círculo de Viena, concebia a puramente lógicos. Recusar a lógica da 
ilosofia como elucidação dos indução não significa recusar a lógica da 

fundamentos e da estrutura da ciência. investigação científica. 

(Biblioteca Nacional Austríaca.) Em 4 Sociedade Aberta e Seus Inimi- 
883 


OS PENSADORES 


gos e A Miséria do Historicismo, Popper 
tirou algumas consequências de sua teo- 
ria da ciência, no que concerne à ciência 
da história e das sociedades. Em A 
Sociedade Aberta examinou e criticou as 
teorias da história de Platão (427 a.C. - 
347 a.C.), Hegel (1770-1831), e Marx 
(1818-1883), enquanto formas de histo- 
ricismo: doutrina que reconhece leis ge- 
rais da evolução histórica,que a conver- 
tem em algo inteiramente determinado e 
predizível. Em A Miséria do Histori- 
cismo, Popper reconheceu no histori- 
cismo dois falsos pressupostos naturalis- 
tas: o de que a evolução histórica deve 
ser tão determinada quanto a biológica, 
o que é um erro também biológico, e o de 
que uma ciência da história deve recor- 


rer ao método das ciências naturais, que 
consistiria no estabelecimento de regula- 
ridades entre fenômenos, o que é uma má 
compreensão do método das ciências 
naturais. O método das ciências histó- 
ricas e sociais seria de fato o mesmo: 
criação de hipóteses relativas a aspectos 
particulares do real e tentativas de refu- 
tação empírica. Popper justifica, a partir 
dai, suas posições políticas: a ação poli- 
tica não deve ser revolucionária, não 
deve visar à reconstrução global da 
sociedade, visto não haver nenhuma 
ciência capaz de prever o resultado de 
tal reconstrução; deve antes consistir na 
reforma paulatina de setores particu- 
lares da sociedade, em termos de uma 
engenharia social. 


1882 — Em Berlim, a 14 
abril, nasce Moritz Schlick. 
1891 — 4 18 de maio, em 
Ronsdorf, Alemanha, nasce 
Rudolf Carnap. 

1902 — Nasce Karl Rai- 
mund Popper, em Viena. 
1910 — Publicação dos 
Fundamentos Lógicos das 
Ciências Exatas, de Natorp. 


1916 — Morre Ernst 
Mach. 
1918 — Schlick publica 


sua Teoria Geral do Conhe- 
cimento. 

1921 — Carnap doutora-se 
em Jena com a dissertação O 


CRONOLOGIA 


Espaço: uma Contribuição 
a Teoria da Ciência. Witt- 
genstein publica seu Tracta- 
tus Logico-Philosophicus. 
1922 — Schlick assume a 
cátedra de filosofia das ciên- 
cias indutivas, na universida- 
de de Jena. 

1926 — Carnap é convida- 
do por Schlick para o cargo 
de professor assistente na 
universidade de Viena. 

1928 — Carnap publica A 
Construção Lógica do Mun- 
do. Constitui-se a Sociedade 
Ernst Mach. 


1929 — Carnap, Hahn e 


BIBLIOGRAFIA 


Neurath preparam seu mani- 
festo: A Concepção Cientifi- 
ca do Mundo: o Círculo de 
Viena. 

1931 — Carnap publica A 
Linguagem Fisicalista como 
Linguagem Universal da 
Ciência. 

1934 — Carnap publica A 
Sintaxe Lógica da Lingua- 


gem. 

1935 — Publicação da Ló- 
gica da Investigação, de Pop- 
per. 

1936 — Schlick é assassi- 
nado por um estudante. 

1970 — Morre Carnap. 


AsHBy, R. w.: Logical Positivism, in A Critical History of Western Philosophy, editado 
por D. J. O'Connor, The Free Press of Glencoe, Nova York, 1964. 

GOODMAN, N.: The Structure of Appearance, Cambridge, Massachusetts, 1951 
JOERGENSEN,J.: The Development of Logical Empiricism, Chicago, 1951. 

Pap, A.: The Vienna Circle, Nova York, 1953. 
WEINBERS, J.: An Examination of Logical Positivism, Londres, 1963. 
LeviINsoN, R. B.: n Defense of Plato, Cambridge, Massachusetts, 1953. 


Poprer, K.: The Logical of Scientific Discovery, Londres, 1959. 


Rynin, D.: Remarks on Moritz Schlick 's Essay “Positivism and Realism”, in Synthese, vql. 1, 


1948/1949. 


Von Mises, R.: Positivism: A Study in Human Understanding, Cambridge, Ma., 1951. 
BERGMANN, G.: The Metaphysics of Logical Positivism, Londres, 1954. 


NAGEL, E.: Logic Without Metaphysics, Glencoe, Illinois, 1956. 


CoPLESTON, F. C.: Contemporary Philosophy, Londres, 1956. 


884 


OS PENS 


JADORES 


“.. as pessoas ávidas de escândalo e agitação voltam-se para esta filosofia lo 


existencialismo | , Que, a 


aliás, nada lhes pode trazer nesse domínio; na realidade, 


é a doutrina menos escandalosa e mais austera possivel); Flo é 


estritamente destinada aos técnicos e aos filósofos.” 


(Caffée Deux-Magots, 


Paris, frequentado por Sartre nos anos após a Segunda Guerra Mundial, época de 


grande difusão do existencialismo.) Pág. ant.: Sartre. 


a vá Filosofia aparece a alguns 
como um meio homogêneo: os 
pensamentos nascem nele, mor- 
rem nele, os sistemas nele se edificam 
para nele desmoronar. Outros conside- 
ram-na como certa atitude cuja adoção 
estaria sempre ao alcance de nossa liber- 
dade. Outros ainda, como um setor 
determinado da cultura. À nosso ver, a 
Filosofia não existe; sob qualquer forma 
que a consideremos, esta sombra da 
ciência, esta eminência parda da huma- 
nidade não passa de uma abstração 
hipostasiada.” 

O texto acima constitui as linhas ini- 
ciais do livro Questão de Método, escri- 
to. pare adoxalmente, por um homem que 
jamais deixou de fazer de todos os 
momentos de sua vida uma permanente 
reflexão sobre os problemas fundamen- 
tais da existência humana. 

Jean-Paul Sartre nasceu em Paris, no 


886 


(Keystone.) 


dia 21 de junho de 1905. O pai faleceu 
dois anos depois e a mãe, Anne-Marie 
Schweitzer, mudou-se para Meudon, nos 
arredores da capital, a fim de viver na 
casa de Charles Schweitzer, avô materno 
de Sartre. Sobre a morte do pai, escreve- 
rá mais tarde: “Fo: um mal, um bem? 
Não sei; mas subscrevo de bom grado o 
veredicto de um eminente psicanalista: 
não tenho Superego”. 

Seja como for, talvez a ausência da 
figura paterna em sua vida possa expli- 
car por que Sartre se tornou um homem 
radicalmente livre, tomada a expressão 
no sentido que ele lhe dará posterior- 
mente: não existe uma natureza huma- 
na, é o próprio homem, numa escolha 
livre porém “situada”, quem determina 
sua própria existência. 

Outro traço marcante na formação 
de Sartre foi a imaginação criativa, ali- 
mentada pela leitura precoce e intensi- 


O 


SARTRE 


“O homem é antes de mais nada um 
projeto que se vive subjetivamente, 
em vez de ser um creme, qualquer 
coisa podre ou uma couve-flor .. .o 
homem será antes de mais nada o que 


(Sartre.) 


tiver projetado ser”. 


va: “... por ter descoberto o mundo 
através da linguagem, tomei durante 
muito tempo a linguagem pelo mundo. 
Existir era possuir uma marca regis- 
trada, alguma porta nas tábuas infinitas 
do Verbo: escrever era gravar nela seres 
novos — foi a minha mais tenaz ilusão —, 
colher as coisas vivas nas armadilhas 
das frases...” Como consequência, aos 
dez anos de idade quis tornar-se escritor 
e ganhou uma máquina de escrever. 
Seria seu instrumento de trabalho por 
toda a vida. 

Em 1924. aos dezenove anos de idade, 
Sartre ingressou no curso de filosofia da 
Escola Normal Superior. onde não foi 
aluno brilhante. mas muito interessado, 
especialmente pelas aulas de Alain 
(1868-1951). que dedicava atenção par- 
ticular à discussão do problema da 
liberdade. Na Escola Normal, Sartre 
conheceu Simone de Beauvoir 


CULVER PICTURES INC 


(1908- ), “uma moça bem comporta- 
da” que lhe afirmou: “A partir de agora, 
eu tomo conta de você”. Desde então, 
nunca mais se separaram. 

Terminado o curso de filosofia. em 
1928, Sartre teve de prestar o serviço 
militar e o fez em Tours, na função de 
meteorologista. Depois disso obteve 
uma cadeira de filosofia numa escola 
secundária do Havre, cidade portuária. 
Nessa época escreveu um romance. À 
Lenda da Verdade, recusado pelos edito- 
res. Em 1933, passou um ano em Ber- 
lim, estudando a fenomenologia de Ed- 
mond Husserl (1859-1938). as teorias 
existencialistas de Heidegger e Karl 
Jaspers (1883-1969) e a filosofia de 
Max Scheller (1874-1928). A partir 
desses autores, Sartre foi levado à obras 
de Kierkegaard (1813-1855). A partir 
dessas referências principais. Sartre ela- 
borou sua própria versão da filosofia 
existencialista. 

Na Alemanha. Sartre iniciou a reda- 
cão de Melancolia, romance mais tarde 
concluído e intitutaldo 4 Náusea. De 
volta à França. publicou. em 1936. 4 
Imaginação e A Transcendência do Ego, 
trabalhos marcados por forte influência 
da fenomenologia. Em 1938, foi editada 
A Náusea. Um ano depois, uma coletã- 
nea de contos. O Muro, e o ensaio Esbo- 
co de uma Teoria das Emoções; em 
1940, mais um ensaio. O Imaginário, 
que. como o anterior, utilizava o método 
fenomenológico. 


Um homem engajado 


Ao estourar a Segunda Guerra Mun- 
dial. Sartre foi convocado para servir 
como meteorologista na Lorena. Em 


junho de 1940. caiu prisioneiro e foi 


encerrado no campo de concentração de 
Trier, Alemanha. Cerca “ue am ano mais 
tarde, conseguiu escapar e, na prima- 
vera de 1941, encontrou-se. em Paris. 
com Simone de Beauvoir. 

Em Paris, Sartre fundou o grupo 
Socialismo e Liberdade, a fim de colabo- 
rar com a Resistência. produzindo pau- 
fletos clandestinos contra a ocupação 
alemã e contra os colaboracionistas 
franceses. Em março de 1943. encenou 
sua primeira peça teatral, intitulada Às 
Moscas, uma lenda grega, segundo o 


887 


OS PENSADORES 


Unamuno é também representante da 
“filosofia da existência”. (Tela de D. V. 
Diaz; Museus Provinciais 


Espanhóis.) Gide defendeu a liberdade 


humana enquanto “ato gratuito”. (Tela 
de J. E. Blanche, Museu de Rudo.) 


888 


programa. Na verdade, todos os elemen- 
tos da peça funcionavam simbolica- 
mente: o reino de Agamenão era a Fran- 
ca ocupada; Egisto, o comando alemão 
que depusera as autoridades francesas; 
Clitemnestra, os colaboracionistas; a 
praga das moscas, o medo de setores 
cada vez mais amplos da população; o 
gesto final de Orestes, eliminando a 
praga das moscas, era uma exortação à 
luta contra os alemães. 


No mesmo ano, Sartre publicou um 
volumoso ensaio filosófico, iniciado em 
1939: O Ser e o Nada, obra fundamental 
da teoria existencialista. Em 1945, uma 
nova peça teatral, Entre Quatro Paredes, 
põe em cena personagens que vivem os 
dramas existenciais abordados por Sar- 
tre nas obras teóricas. Os romances que 
escreveu na mesma época fazem o 
mesmo: 4 Idade da Razão, Sursis, Com 
a Morte na Alma. 

Terminada a Segunda Guerra Mun- 
dial, em 1945, Sartre dissolveu o movi- 
mento Socialismo e Liberdade, por 
corresponder apenas a uma necessidade 
da resistência, ce fundou a revista Os 
Tempos Modernos, juntamente com 
Merleau-Ponty (1908-1961), Raymond 
Aron (1905- ) e outros intelectuais. 
Na revista apareceram os trabalhos 
mais diversos, colocando e analisando 
os principais problemas da época, sem 
qualquer espírito sectário. 

Em 1946, diante das críticas à sua 
filosofia existencialista, exposta em O 
Ser e o Nada, Sartre publica O Existen- 
cialismo é um Humanismo, onde mostra 
o significado ético do existencialismo. 
No mesmo ano, publica também duas 
pecas, Mortos sem Sepultura e 4 Prosti- 
tuta Respeitosa e o ensaio Reflexões 
sobre a Questão Judaica, onde defende a 
tese de que a emancipação dos judeus só 
será possível numa sociedade sem clas- 
ses. Em 1948, encena 4s Mãos Sugjas e, 
três anos depois, O Diabo e o Bom Deus. 
No plano da ação política, essa época 
marca a aproximação de Sartre do Par- 
tido Comunista, ao qual acaba por 
filiar-se, em 1952. A intervenção sovié- 
tica na Hungria, em 1956, leva-o, 
porém, a romper com o partido e escre- 
ver um artigo, O Fantasma de Stálin, no 
qual explica sua posição, em face dos 


SARTRE 


desvios do espírito do marxismo por 
parte das autoridades soviéticas. 

Nos anos seguintes, Sartre conti- 
nuaria sendo, ao mesmo tempo, um 
homem de ação e de pensamento. Em 

1960, publica um extenso trabalho, a 
Crítica da Razão Dialética, precedido 
pelo ensaio Questão de Método, nos 
quais se encontram reflexões no sentido 
de unir o existencialismo e o marxismo. 
A obra literária também não cessa e no 
mesmo ano é estreada a peça Segues- 
trados de Altona, cujo tema é o pro- 
blema do Rolonia ano francês na Argé- 
lia. embora a ação transcorra na 
Alemanha nazista. O interesse pelo pro- 
blema argelino liga-se, em Sartre, aos 
problemas mais gerais do Terceiro 
Mundo. Vi iaja para Cuba e para o Brasil 
(1961) e vê no conflito vietnamita um 
alargamento “do campo do possível” por 
parte dos revolucionários vietcongs. 

Em 1964, surpreende seus admira- 
dores com As Palavras, análise do signi- 
ficado psicológico e existencial de sua 
infância. No mesmo ano é-lhe atribuído 
o Prêmio Nobel de Literatura, mas ele o 
recusa. Receber a honraria significaria 
reconhecer a autoridade dos juízes, o 
que considera inadmissível concessão. 

A carreira literária de Sartre parecia 
a muitos ter-se encerrado com As Pala- 
vras. Em 1971, porém. Sartre sur- 
preende de novo seu público. com a pri- 
meira parte de um extenso estudo sobre 
Flaubert, L'Idiot de Famille. 


KEYSTONE 


O ser e o nada 


Do ponto de vista estritamente filosó- 
fico, o itinerário do pensamento de Sar- 
tre inicia-se com 4 Transcendência do 
Ego, À Imaginação, Esboço de uma Teo- 


º ria das Emoçõese O Imaginário, publica- 
E dos entre 1936 e 1940. Neles encon- 
Z tram-se aplicações do método 
& fenomenológico de Husserl, ao mesmo 
5 tempo que o autor se afasta do mestre e 
” chega a criticar algumas de suas posi- 
Albert Camus (em cima) e André ções. Mas a obra na qual se encontra a 
Malraux (embaixo) durante muito filosofia existencialista que celebrizou 

tempo caminharam juntos na defesa dos Sartre é O Sere o Nada. 

mesmos ideais de liberdade de Sartre. O Ser e o Nada subintitula-se ensaio 
Divergências políticas posteriores de ontologia fenomenológica, o que 
acabaram por separar os três amigos. desde o início define a perspectiva meto- 


889 


OS PENSADORES 


RE 


aa EPE e usa 


“Não cesso de me criar; sou o doador e a doação. Se meu pai ao eu 
conheceria meus direitos e meus deveres; ele está morto e eu os ignoro: não 


tenho direitos, pois o amor me cumula; não tenho dever, 


» 


ois dou por amor. 


Sartre e Simone de Beauvoir, em 1963, recebendo um prêmio romano por seus 
escritos. Eles se conheceram ainda estudantes e jamais se separaram. 


dológica adotada pelo autor. A aborda- 
gem proposta pretende não confundir o 
objetivo do livro com as metafiísicas 
tradicionais. Estas sempre contrastaram 
ser e aparência, essências subjacentes à 
realidade e fenômenos, o que estaria 
atrás das coisas e as próprias coisas, 
como suas manifestações. A ontologia 
fenomenológica superaria essa duali- 
dade pela descrição do ser como aquilo 
que se dá imediatamente, ou seja, não 
propondo explicar a experiência huma- 
na por referência a uma realidade extra- 
fenomenal. Nesse sentido, a ontologia 
fenomenológica seria idêntica a outras 
espécies de descrições fenomenológicas, 
como as que o próprio Sartre realizou 
com relação às emoções e ao imaginário. 
Para Sartre, o dualismo de ser e parecer 
não tem as “direito de cidadania na 
filosofia”. O ser de um existente qual- 
quer seria precisamente aquilo que 


890 


parece e não existiria outra realidade 
fora do fenômeno: “O fenômeno pode ser 
estudado e descrito enquanto tal, pois 
ele é absolutamente 
mesmo”. Isso não quer dizer que o fenô- 
meno não seja verdadeiramente um ser. 
Para Sartre, o ser do fenômeno é posto 
pela própria consciência e esta tem como 
caráter essencial a intencionalidade. Em 
outros termos, a consciência visa a um 
objeto transcendente, implicando, por- 
tanto, a existência de um ser não-cons- 
ciente. Poder-se-ia então concluir que 
existem dois tipos de ser: o ser-para-si 
(consciência) e o ser-em-si (fenômeno). 


indicativo de si 


FABBRI 


Do ser-em-si somente se pode dizer 


que ele “é aquilo que é”. Isso significa 
que o “ser-em-si & opaco para si 
mesmo”, nem ativo nem passivo, sem 
qualquer relação fora de si, não deri- 
vado de nada, nem de outro ser: o ser- 


em-si simplesmente é. Daí o caráter de 


SARTRE 


absurdo que o ser-em-si carrega como 
sua determinação fundamental. A densi- 
dade opaca, o absurdo do ser-em-si 
provocariam no homem o mal-estar, que 
Sartre denomina náusea. 

Para Sartre, o ser-para-si, a consciên- 
cia, é radicalmente diferente, definindo- 
se “como sendo aquilo que não é e não 
sendo aquilo que ele é”. Enquanto o ser- 
em-si é inteiramente preenchido por si 
mesmo e sem nenhum vazio, a cons- 
ciência é constituida por uma descom- 
pressão do ser. À consciência é presença 
para si mesma, o que supõe que uma fis- 
sura se instala dentro do ser. Essa fissu- 
ra, ou descolamento, é a marca do nada 
no interior da consciência. O nada é um 
“buraco” mediante o qual se constitui o 
ser-para-si, e o fundamento do nada é o 
próprio homem: “mediante o homem é 
que o nada irrompe no mundo” 


O ser-para-si conteria, portanto, uma 
abertura e seria precisamente essa aber- 
tura a responsável pela faculdade do 
para-si no sentido de sempre poder 
ultrapassar seus próprios limites. En- 
quanto o ser-em-si permaneceria fecha- 
do dentro de suas próprias fronteiras, o 
ser-para-si ultrapassar-se-ia perpetua- 
mente e esse poder de transcendência 
seria expresso através das formas do 
tempo. Em outros termos, o ser-para-si 
seria um ser para o futuro, seria espon- 
taneidade criadora. 


Segundo Sartre, o tempo é também 
expressão de mistura entre o em-si e o 
para-si e essa mistura constitui a exis- 
tência humana. Dentro dessa perspec- 
tiva, o passado não existe, a não ser 
enquanto ligado ao presente; todo indi- 
viíduo pode afirmar: eu sou meu passado 
e no momento de minha morte não serei 
mais do que o meu passado que, agora, é 
meu presente. O passado, pensa Sartre, é 
a marca do em-si. Enquanto o homem é 
consciente de si mesmo, no presente, ele 
vive segundo o modo do para-si; contu- 
do, o seu passado tem todas as caracte- 
rísticas do em-si: Da mesma forma como 


FARABOLA 


o corpo humano das sereias termina em “Comecei minha vida como hei de 

cauda de peixe, a existência humana acabá-la, sem dúvida: no meio dos 

constitui-se, sobretudo, pela esponta- livros.” Agraciado com o Prêmio Nobel 

neidade da consciência, mas encontra de Literatura, em 1964, Sartre, contudo, 

atrás de si um ser que tem toda a fixidez o recusou. (Entrevistado 

de uma coisa qualquer do mundo. sobre a recusa, explica suas razões.) 
891 


E 


=== TE SD e E E E e É 


OS PENSADORES 


Apesar disso, afirma Sartre, não é 
possivel ver na consciência algo distinto 
do corpo. Este não é uma coisa que se 
liga exteriormente à consciência; pelo 
contrário, é constitutivo da própria 
consciência. A consciência é, estrutural- 
mente, intencional e, portanto, relação 
com o mundo; o corpo exprime a imer- 
são no mundo, característica da exis- 
tência humana. O corpo é um centro, em 
relação ao qual se ordenam as coisas do 
mundo e, por isso, constitui uma estru- 
tura permancate que torna: possivel a 
consciência. Sartre vai mais longe em 
sua interpretação, dizendo que o corpo é 
a própria condição da liberdade. Não 
existe liberdade sem escolha e o corpo é 
precisamente a necessidade de que haja 
escolha, isto é, de que o homem não seja 
imediatamente a totalidade do ser. O 
corpo é, por conseguinte, tanto a condi- 
ção da consciência como consciência do 
mundo, quanto fundamento da cons- 
ciência enquanto liberdade. 


O drama da liberdade 


A teoria sartreana do ser-para-si con- 
duz a uma teoria da liberdade. O ser-pa- 
ra-si define-se como ação e a primeira 
condição da ação é a liberdade. O que 
está na base da existência humana é a 
livre escolha que cada homem faz de si 
mesmo e de sua maneira de ser. O em-si. 
sendo simplesmente aquilo que é, não 
pode ser livre. A liberdade provém do 
nada que obriga o homem a fazer-se, em 
lugar de apenas ser. Desse princípio 
decorre a doutrina de Sartre, segundo a 
qual o homem é inteiramente respon- 
sável por aquilo que é; não tem sentido 
as pessoas quererem atribuir suas falhas 
a fatores externos, como a heredita- 
riedade ou a ação do meio ambiente ou a 
influência de outras pessoas. Por outro 
lado, a autonomia da liberdade, en- 
quanto determinação fundamental e ra- 
dical do ser-para-si, vale dizer do 
homem, faz da doutrina existencialista 
uma filosofia que prescinde inteiramente 
da idéia de Deus. Sartre tira todas as 
consequências desse ateismo, elimi- 
nando qualquer fundamento sobrena- 
tural para os valores: é o homem que os 
cria. À vida não tem sentido algum antes 
c independentemente do fato de o homem 


892 


viver; o valor da vida é o sentido que 
cada homem escolhe para si mesmo. Em 
sintese, o existencialismo sartreano é 
uma radical forma de humanismo, supri- 
mindo a necessidade de Deus e colo- 
cando o próprio homem como criador de 
todos os valores. 

Ao lado das análises volumosas e 
rigorosamente técnicas de O Ser e o 
Nada, nas quais se encontra exposta a 
filosofia existencialista, Sartre expres- 
sou seu pensamento através de várias 
obras literárias, que o colocam como um 
dos maiores escritores do século XX. 
Nelas encontram-se todos os temas 
fundamentais de sua concepção do 
homem, realizados no Plano concreto 
das personagens, suas ações e suas 
situações existenciais. 

Antoine Roquentin, personagem prin- 
cipal de A Náusea (1938), vive sozinho, 
sem amigos, sem amante, nada lhe 
importando, nem os outros homens, nem 
ele mesmo; o mundo para ele não tem 
nenhuma razão de ser e é absurdo por- 
que composto de seres em-si: a cidade, o 


jardim, as árvores. 


Pablo Ibietta, republicano espanhol, 
personagem central de O Muro, vive 
uma das “situações-lmite” descritas 
por Sartre: momentos de intensificação 
de conflitos sociais e individuais, quan- 
do o homem é obrigado a fazer uma 
escolha e afirmar sua liberdade radical. 
Pablo Ibietta, preso e torturado pelos 
fascistas de Franco, vê postas à prova as 
virtudes da coragem, fidelidade e san- 
gue-frio. O próprio Sartre viveu uma 
dessas “situações-limite”, quando preso 
num campo de concentração nazista, em 

1940, do qual conseguiu fugir, fazendo 
sua escolha: participar da resistência ao 
invasor alemão. 

O problema da ação e da liberdade 
constitui o tema da trilogia de romances 
Os Caminhos da Liberdade. No primeiro 
da série, 4 Idade da Razão (1945), as 
questões individuais predominam, a his- 
tória e a política são panos de fundo. 
Mathieu Delorme, jovem professor de 
filosofia, procura a liberdade pura, sem 
compromisso de qualquer especie: Bru- 
net, ao contrário, personifica a renúncia 
da liberdade pessoal em favor do engaja- 
mento político; Daniel ilustra a tese 
gideana da liberdade como ato gratuito, 


SARTRE 


sem qualquer motivo; Jacques abandona 
os sonhos juvenis de liberdade para 
casar-se, ter um trabalho, viver uma 
vida “regular”. No segundo volume da 
trilogia, Sursis (1945), os aconteci- 
mentos políticos revelam que os projetos 
de vida individuais são, na verdade. 
determinados pelo curso da história. 
tornando-se ilusória a busca da liber- 
dade num plano puramente pessoal: a 
liberdade é sempre vivida “em situação” 
e realizada no engajamento de projetos 
voltados para interesses humanos comu- 
nitários. Apenas um compromisso com a 
história pode dar sentido à existência 
individual. Em Com a Morte na Alma 
(1949), último romance da trilogia, 
Mathieu ilustra a tese do engajamento 
gratuito: ele arrisca a própria vida ape- 
nas para retardar algumas horas a 
investida das tropas alemãs. 

Outras obras literárias de Sartre ilus- 
tram as teses existencialistas. Canoris. 
personagem da peça Mortos sem Sepul- 
tura (1946), é um homem de ação, pron- 
to para enfrentar a morte pela causa da 
liberdade. Hugo, nas Mãos Sujas 
(1948), é um intelectual da classe 
média, engajado no Partido Comunista, 
não por convicção mas para satisfazer 
sua necessidade de ação. Na peça O 


PARTI COMMUNISTE FRANÇAIS 


ALGÉRIE.. 


FABBR) 


Pierre Trotignon: “Sartre nos fez 
livres, no momento em que outros nos 
faziam escravos”. (O filósofo 
participando de manifestação 
pró-Argélia e cartaz pela pacificação.) 


893 


OS PENSADORES 


“O quietismo é a atitude das pessoas que dizem: os outros podem fazer aquilo 
que eu não posso fazer. A doutrina que vos apresento é justamente a oposta ao 
uletismo, visto que ela declara: só há realidade na ação.” Unindo a teoria a 
prática, Sartre participou ativamente da insurreição estudantil ocorrida em maio de 
1968, em Paris, e que ameaçou seriamente as autoridades francesas. 


Diabo e o Bom Deus (1951), Goetz é um 
nobre da Idade Média que abandona 
seus privilégios para fazer o bem aos 
camponeses. Inspirados nesse exemplo, 
os camponeses rebelam-se contra todos 
os senhores feudais e empregam a 
violência. Goetz acaba por concluir que, 
para transformar o mundo, a violência, 
às vezes, é necessária; é preciso “ter as 
mãos sujas”, para combater a opressão; 
o Bem abstrato e sobrenatural nada con- 
segue realizar, só o próprio homem é 
criador de sua liberdade. 


Existencialismo e marxismo 


O homem enquanto ser-em-situação, a 
necessidade de engajamento, a responsa- 
bilidade pessoal por todas as ações e 
projetos de vida e, sobretudo, a liber- 
dade como raiz fundamental da pessoa 
humana são as coordenadas do pensa- 
mento existencialista de Sartre. As 
obras puramente teóricas expõem seus 


894 


fundamentos filosóficos, ec o teatro, o 
romance e o conto revelam concreta- 
mente essas idéias. Por outro lado, a 
própria vida do autor, principalmente 
depois de 1940, quando passou a parti- 
cipar ativamente dos acontecimentos 
políticos de seu tempo, também é teste- 
munho de suas teses. 

As posições filosóficas iniciais de Sar- 
tre sofreram transformações, à medida 
que o filósofo buscou inserir o existen- 
cialismo numa concepção mais ampla. 
Essas transformações derivaram, por um 
lado, do próprio existencialismo sar- 
treano, que constitui uma filosofia 
“aberta”, e, por outro, do engajamento 
social e político do filósofo. Do ponto de 
vista da fundamentação teórica, essa 
nova concepção de Sartre encontra-se 
em Questão de Método e Crítica da 
Razão Dialética, publicadas em 1960. 

Nessas obras, o problema funda- 
mental colocado pelo autor é saber se é 
possível constituir uma antropologia ao 


FABBhH 


SARTRE 


mesmo tempo estrutural e histórica Em 
outros termos, o objetivo visado por Sar- 
tre é saber se há possibilidade de se 
reencontrar uma compreensão unitária 
do homem, para além das várias teorias. 
das várias técnicas, das várias ciências 
que o investigam. Sartre, contudo, não 
pretende inventar esse novo saber do 
homem. Não se trata de opor à tradição 
uma nova filosofia, capaz de fornecer 
soluções para os problemas que as anti- 
gas doutrinas sobre o homem não conse- 
guiram resolver. Esse novo saber Já 
existe — segundo Sartre — e circula 
anonimamente entre os homens: o mar- 
xismo. O marxismo, para Sartre, é a 
filosofia insuperável do século XX, “é o 
clima de nossas idéias, o meio no qual 
estas se nutrem... a totalização do 
saber contemporâneo”, porque reflete a 
praxis que a engendrou. Na mesma linha 
de idéias, Sartre afirma que, depois da 
morte do pensamento burguês, o mar- 
xismo é, por si só, “a cultura, pois é O 
único que permite compreender as 
obras, os homens e os acontecimentos”. 

Sartre, contudo, não quer se referir ao 
marxismo oficial, tampouco pretende 
revisar ou superar as obras de Marx. 
pois para ele o marxismo supera-se a si 
mesmo, sendo uma filosofia que, por 
conta própria, se adapta às transforma- 
ções sociais. Por outro lado, também 
não pretende voltar ao materialismo dia- 
lético puro e simples, pois este — pensa 
Sartre — não conseguiu dar conta das 
ciências, que permanecem ainda no está- 
gio positivista. Também não se trata do 
materialismo histórico exclusivamente. 
Separar o materialismo dialético do 
materialismo histórico constituiria uma 
divisão artificial dos domínios do saber 
e contrariaria o espírito do marxismo. 
que pretende ser um projeto de totaliza- 
ção do conhecimento. 

Dentro da concepção sartreana de que 
o marxismo constitui a “filosofia de 
nosso tempo”, o existencialismo é conce- 
bido como “um território encravado no 
próprio marxismo” que, ao mesmo 
tempo, o engendra e o recusa. O mar- 
xismo de Sartre é, assim, um marxismo 
existencialista, dentro do qual o existen- 
cialismo seria apenas uma ideologia. 
Um segundo aspecto de sua doutrina 
consistiria no modo pelo qual Sartre 


. 


Na revolta estudantil de 1968, Sartre 


vislumbrou a possibilidade da 
imaginação ascender ao poder. 


Cartazes dos insurretos: “O poder 


para o povo” e “Iremos até o fim 


Rd 


895 


FABBRI 


FABBRI 


OS PENSADORES 


procura resolver o problema das rela- 
ções materiais de produção, através do 
projeto existencial. O que não significa 
que se trate de um existencialismo tingi- 
do de marxismo, posto que o existencia- 
lismo esteja “encravado” no marxismo. 
Significa antes que, se o saber é marxis- 
ta. sua linguagem pode ser a linguagem 
do existencialismo. Ao afirmar que o 
marxismo “é a filosofia insuperável de 


nosso tempo”, Sartre não faz dela uma 
filosofia eterna. À rigor — afirma —, o 
marxismo deverá ser superado quando 
existir “para todos uma margem de 
liberdade real além da produção da 
vida”. Pode-se imaginar, no futuro, num 
universo de abundância, uma filosofia 
que seja apenas uma filosofia da liber- 
dade; mas a experiência atual não per- 
mite sequer imaginá-la. 


1905 — Jean-Paul Sartre 
nasce em Paris, a 21 de 
junho. 


1907 — Morte de seu pai. 
Muda-se para a casa do avô 
materno, em Meudon. 

1911 — Retorna a Paris. 
1917 — Em novembro, os 
revolucionários comunistas 
conquistam o poder na Rús- 
sia. 


1918 — Proclamação da 
República austriaca e da 
polonesa. 


1919 — Fundação do Parti- 
do Nacional-Socialista na 
Alemanha. É criada, em Pa- 
ris, a Liga das Nações. 

1922 — Morre o papa Be- 
nedito XV. A Câmara dos 
Deputados italianos conce- 
de plenos poderes ao gover- 


CRONOLOGIA 


no Mussolini. A Rússia as- 
sume a denominação de 
União das Repúblicas So- 
cialistas Soviéticas. Sir Fre- 
derick Benting descobre a 
insulina. 

1924 — Sartre matricula-se 
na Escola Normal Superior, 
em Paris. Conhece Simone 
de Beauvoir. Einthoven re- 
cebe o Prêmio Nobel de Me- 
dicina pela invenção do ele- 
trocardiógrafo. 

1931 Sartre é nomeado 
professor de filosofia no Ha- 
vre. 

1936 — Publica A Imagi- 
nação e A Transcendência 
do Ego. 

1938 — Sartre publica A 
Náusea. 

1940 — Servindo na guerra, 


BIBLIOGRAFIA 


é feito prisioneiro pelos ale- 
maes e enviado a um campo 
de concentração. 

[941 — Liberto, volta à 
França e entra para a Resis- 
tência. Funda o movimento 
Socialismo e Liberdade. 
1943 — Publica O Ser co 
Nada. 

1952 — Sartre ingressa no 
Partido Comunista. 

1953 — Morre Stálin. 
1956 — Sartre rompe com 
o Partido Comunista. Escre- 
ve O Fantasma de Stálin. 
1960 — Publica a Critica 
da Razão Dialética. 

1964 — Publica As Pala- 
vras. Recusa o Prêmio No- 
bel de Literatura. 

1971 — Publica LIdiot de 
Famille. 


JEANSON, F.: Le Problême Moral et la Pensée de Sartre, Éditions du Seuil, Paris, 1965. 


JEANSON, F.: Sartre par lui-même, Editions du Seuil, Paris, 1965. 


GARAUDY, R.: Perspectives de !' Homme, Presses Unisersitaires de France, Paris, 1961. 
AuUDRY, C.: Sartre, Editions Seghers, Paris, 1966. q 
MouniIER, E.: Malraux, Camus, Sartre, Bernanos: L 'Espoir des Désespérés, Editions du Seuil, 


Paris, 1953. 


ALBERES, R.-M.: Jean-Paul Sartre, Éditions Universitaires, Paris, 1960. 
L 'Arc, número 30, dedicado a Sartre. 
STERN, A.: Sartre: his Philosophy and Psychoanalysis, Liberal Arts Press, Nova York, 1953. 
MERLEAU-PONTY, M.: Les Aventures de la Dialectique, Gallimard, Paris, 1955. 

WAELHENS, A. DE: Jean-Paul Sartre, | Étre et le Néant in Erasmus, 1, 1947. 

DESAN, W.: The Tragic Finale, an Essay on the Philosophy of Jean-Paul Sartre, Harper and 


Brother, Nova York, 1960. 


Lewis, W.: The Writer and the Absolute, Methun, Londres, 1952. 


MURDOCH, I.: Sartre Romantic Rationalist, Bowes and Bowes, Cambridge, 1953. 
SIMON, P. H.: Témoins de "Homme, Colin, Paris, 1952. 
WERNER, €.: La Philosophie Moderne, Payot, Paris, 1954. 


896 


OS PENSADORES 


artn Heidegger, filósofo ale- 

mão, nasceu em  Messkirch 

(Grão-ducado de Baden), a 26 de 
“setembro de 1889. Sua formação filosó- 
fica foi adquirida na Universidade de 
Freiburg-im-Breisgau, onde estudou 
com Edmond Husserl (1859-1938), 
criador do método fenomenológico, e 
com Heinrich Rickert (1863-1936), cul- 
turalista neokantiano que se preocupava 
com a fundamentação metodológica da 
história. 


Doutorando-se em 1914, Heidegger 


publicou, nesse mesmo ano, um pequeno 
trabalho intitulado A Teoria do Juízo no 
Psicologismo — Contribuição Crítico- 
Positiva à Lógica. Dois anos depois, 
habilitou-se para o magistério na Uni- 
versidade de Freiburg, com uma aula 
sobre O Conceito de Tempo nas Ciências 
Históricas e publicou 4 Doutrina das 
Categorias e da Significação em Duns 
Scot. Em todos esses trabalhos, transpa- 
rece a influência do método fenomeno- 
lógico de Edmond Husserl. 

Em 1923, Heidegger assumiu uma 
das cátedras de filosofia da Universi- 
dade de Marburg e começou a projetar- 
se entre os especialistas, através de 
interpretações muito pessoais dos pen- 
sadores pré-socráticos, como Heráclito 
de Éfeso (séc. VI a.C.) e Parmênides de 
Eléia (séc. VIa. G.). 

Em 1927, publicou seu maior e mais 
conhecido trabalho (embora inacabado), 
intitulado Ser e Tempo. Essa obra proje- 
tou-o de imediato como o mais famoso 
representante da filosofia existencia- 
lista, qualificação que ele mais tarde 
repudiou. 

Em 1928, retornou à Universidade de 
Freiburg, sucedendo na cátedra ao anti- 
go mestre Husserl. Em 1929, publicou 
diversas obras: Que é a Metafísica? 
(lição inaugural na cátedra de Frei- 
burg), Kant e o Problema da Metafísica 
e Sobre a Essência do Fundamento. 

Em 1933, ano da ascensão de Adolf 
Hitler ao cargo de chanceler da Alema- 
nha, Heidegger ligou-se ao Partido 
Nacional-Socialista e foi elevado ao 
cargo de reitor da Universidade de Frei- 


Na página anterior: retrato de 
Martin Heidegger. (Foto Fabbri.) 


898 


burg. No discurso de posse — A Auto- 
Afirmação da Universidade Alemã — deu 
boas-vindas ao advento do nazismo, 
expressando suas esperanças numa 
“completa revolução da existência ger- 
mânica”. Sua passagem pela reitoria 
durou apenas quatro meses, durante os 
quais — diz Alasdair Maclntyre, um de 
seus intérpretes — não só aplaudiu, como 
participou da destruição da liberdade 
acadêmica e repudiou seu antigo mestre 
Husserl, que era judeu. 

Retornando ao magistério, Heidegger 
publicou, em 1936, Hólderlin e a Essên- 
cia da Poesia e, em 1943, Sobre a Essên- 
cia da Verdade. Antes do término da 
Segunda Guerra Mundial, passou a viver 
quase totalmente isolado em sua casa 
nas montanhas da Floresta Negra. De lá 
pouco saiu, depois de aposentado como 
professor emérito da Universidade de 
Freiburg em 1952, comunicando-se ape- 
nas com um restrito circulo de amigos e 
discípulos. Em 1947, publicou 4 Dou- 
trinã Platônica da Verdade, obra à qual 
se seguiram, entre outras: Sobre o 
Humanismo (1949), O Atalho, (cole- 
tânea de diversos trabalhos), O Caminho 
do Campo (1953), Introdução à Metafi- 
sica (1953), Que Significa Pensar 
(1954), Sobre a Experiência do Pensar 
(1954), Exposições e Notas (1954), Que 
é Isto — A Filosofia? (1956), Sobre a 
Questão do Ser (1956), Identidade e 
Diferença (1957), O Princípio do Funda- 
mento (1957), Serenidade (1959), Pelos 
Caminhos da Linguagem (1959), A 
Questão da Coisa (1962) e A Tese Kan- 
tiana sobre o Ser (1962). 


A existência mautêntica 


Em várias dessas obras, reaparecem 
claramente expressões do espírito nacio- 
nalista, manifestadas desde 1933, época 
de ascensão do nazismo ao poder. Na 
Introdução à Metafísica (1953), por 
exemplo, Heidegger convoca o povo ale- 
mão, que ele acredita estar esmagado 
entre duas gigantescas sociedades de 
massa — União Soviética e Estados Uni- 
dos —, a recriar o grande “começo” do 
pensamento ocidental. Em outros textos, 
Heidegger afirma que filosofar só é pos- 
sível em grego e alemão. 


HEIDEGGER 


4 
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A 


E 


Vista geral de Freiburg-im-Breisgau, em cuja universidade Heidegger fez toda 
sua carreira, desde os tempos de estudante até sua aposentadoria, em 1952. 
A Universidade de Freiburg também é conhecida pelos especialistas em 
filosofia porque nela lecionou Husserl, o criador da fenomenologia. Na obra 
de Husserl encontram-se os fundamentos metodológicos do existencialismo. 


. 

Sem se considerarem as primeiras 
obras escritas por Heidegger — simples 
teses acadêmicas sobre a teoria do juizo, 
o conceito de tempo na história e a filo- 
sofia de Duns Scot —, seu pensamento 
inicia-se através de Ser e Tempo, onde 
coloca como problema filosófico funda- 
mental o problema do ser, seu sentido, 
sua verdade. 

A abordagem do problema do ser, 
contudo, não é feita por Heidegger como 
sempre o fora pela metafísica tradicio- 
nal. A metafísica grega — pensa Heideg- 


ger — colocou corretamente a temática 
do ser e ensaiou respostas, lançando as 
sementes para a solução do problema. 
No entanto, o signiticado autêntico e as 
conquistas profundas dessas primeiras 
especulações teriam sido alterados, pos- 
teriormente, por razões diversas. Os 
principais responsáveis pela degenera- 
ção da problemática essencial da filoso- 
fia seriam os teólogos escolásticos, que 
teriam trivializado a ontologia, pas- 
sando a trabalhar com um conceito de 
ser vazio e abstrato, dentro dos quadros 


899 


| - ' ; = É 


FABBHI 


OS PENSADORES 


Considerado, em geral, um filósofo 
existencialista, Heidegger repudiou 
essa classificação. (Heidegger, alguns 
anos depois da publicação de Ser e 
Tempo; Biblioteca Alemã, Milão.) 


de abordagem sobre a lógica formal. 
Em Ser e Tempo, Heidegger aborda o 
problema do ser, ernpregando o método 
fenomenológico, formulado por seu mes- 
tre Edmond Husserl. A fenomenologia 
pretende abordar os objetos do conheci- 
mento tais como aparecem, isto é, tais 
como se apresentam imediatamente à 
consciência. Isso implicaria, portanto, 
deixar de lado, “colocar entre parênte- 
ses” como dizia Husserl — toda e 
qualquer pressuposição sobre a natu- 
reza desses objetos. Heidegger acha que 
as pressuposições, formadas por séculos 
de metafísica, distanciaram a filosofia 
do verdadeiro conhecimento do ser. 
Aplicado ao problema do ser, o méto- 
do fenomenológico utilizado por Hei- 
degger leva-o a colocar como ponto de 
partida de sua reflexão aquele ser que se 
dá a conhecer imediatamente, ou seja, O 
próprio homem. O caminho que leva ao 
ser — pensa Heidegger — passa pelo 
homem, na medida em que este está 
sozinho para interrogar-se sobre si 
mesmo, colocar-se em questão e refletir 


900 


FABBRI 


sobre seu próprio ser. O filósofo deve, 
portanto, partir da existência humana 
(na linguagem heideggeriana, dasein: 
“ser-ar), tal como se dá imediatamente 
à consciência, a fim de elevar-se até o 
desvendamento do ser em si mesmo, últi- 
mo objetivo de toda reflexão filosófica 
Nesse propósito, Heidegger distingue-se 
dos pensadores existencialistas, para os 
quais a reflexão filosófica restringe-se 
aos limites do próprio homem e exaure- 
se dentro de suas fronteiras. Heidegger 
recusou, repetidamente, ser incluído 
entre os filósofos existencialistas. 

Concebida apenas como via de acesso 
para a descoberta do ser, a análise da 
existência humana constitui o conteúdo 
da primeira parte (a única publicada) de 
Ser e Tempo. A primeira seção dessa 
parte | é dedicada à descrição da vida 
cotidiana do homem, considerada pelo 
autor como forma de existência inautên- 
tica. Esta seria constituida por três 
aspectos fundamentais: a facticidade, a 
existencialidade e a ruína. 

A facticidade consistiria no fato de o 
homem estar Jogado no mundo, sem que 
sua vontade tenha participado disso. 
Para Heidegger, mundo não significa o 
universo físico dos astrônomos, mas o 
conjunto de condições geográficas, his- 
tóricas, sociais e econômicas, em que 
cada pessoa está imersa. 

A existencialidade ou transcendência 
— na terminologia heideggeriana — é 
constituida pelos atos de apropriação 
das coisas do mundo, por parte de cada 
indivíduo. O termo “existencialidade” 
não é empregado no mesmo sentido em 
que se diz que uma pedra ou a Lua 
“existem”, mas designa a existência 
interior e pessoal. Nesse sentido, o ser 
humano existiria como antecipação de 
suas próprias possibilidades; existiria 
na frente de si mesmo e agarraria sua 
situação como desafio ao seu próprio 
poder de tornar-se o que deseja. Para 
Heidegger, o ser humano está sempre 
procurando algo além de si mesmo; seu 
verdadeiro ser consiste em objetivar 
aquilo que ainda não é. O homem seria, 
assim, um ser que se projeta para fora de 
s1 mesmo, mas jamais pode sair das 
fronteiras do mundo em que se encontra 
submerso. Trata-se de uma projeção no 
mundo, do mundo e com o mundo, de tal 


HEIDEGGER 


Parte da obra de Martin Heidegger foi concebida e realizada no periodo da 
história da Alemanha marcado pela ascensão, apogeu e queda do regime nazista. 
O conhecimento das características econômicas, sociais e politicas desse 
período permite uma compreensão mais completa do pensamento de Heidegger. 


(Tela de Magnus Zeller: “O Estado Hitlerista”; 


forma queoeueo mundo são totalmente 
inseparáveis 

O terceiro aspecto fundamental reve- 
lado pela análise da existência humana 
— a ruína — significa o desvio de cada 
indivíduo de seu projeto essencial, em 
favor das preocupações cotidianas, que 
o distraem e perturbam. confundindo-o 
com a massa coletiva. O eu mdividual 
seria sacrificado ao persistente e opres- 
sivo eles. O ser humano, em sua vida 
cotidiana. seria promiscuamente público 
e reduziria sua vida à vida com os outros 
e para os outros. alienando-se total- 
mente da principal tarefa que seria o tor- 
nar-se s-mesmo. 

Em suma, para Heidegger, a vida 
cotidiana faz do homem um ser pregui- 
Ccoso e cansado de st próprio, que. aco- 
vardado diante das pressões sociais, 


Markisches Museum, Berlim.) 


acaba preferindo vegetar na banalidade 
e no anonimato. pensando e vivendo por 
meio de idéias e sentimentos acabados e 
malteráveis. como ente exilado 
mesmo e do ser 


de si 


O homem: um ser 
para a morte 


A análise da existência inautêntica — 


realizada na primeira seção de Ser e 
Tempo — constituir a parte negativa da 
escalada para a descoberta heidegge- 


riana do ser. Para encaminhar-se na 
direção do ser seria necessário desven- 
dar a existência autêntica do homem. 
aquela que o faz o verdadeiro revelador 
do ser. Esse é o cbjetivo da segunda 
seção da obra, que tem seu Rúcico no 
conceito de angústia. 


901 


ET TT 


FABBRI 


ES Ss SEJ asa 


OS PENSADORES 


A angústia — segundo Heidegger — é, 
dentre todos os sentimentos e modos da 
existência humana, aquele que pode 
reconduzir o homem ao encontro de sua 
totalidade como ser e Juntar os pedaços 
a que é reduzido pela imersão na mono- 
tonia e na indiferenciação da vida coti- 
diana. A angústia faria o homem elevar- 
se da traição cometida contra si mesmo, 
quando se deixa dominar pelas mesqui- 
nharias do dia-a-dia, até o autoconheci- 
mento em sua dimensão mais profunda. 
Ao contrário de todos os demais estados 
de consciência, a angústia Jamais seria 
provocada por qualquer coisa existente, 
determinada ou determinável. Para Hei- 
degger, o angustiado não somente igno- 
ra a razão de seu estado de consciência 
como também tem certeza de que coisa 
alguma do mundo está implicada nesse 
estado. Isso se comprovaria pelo fato de 
que, na angústia, todas as coisas do 
mundo aparecem bruscamente como 
desprovidas de qualquer importância, 
tornam-se despreziveis e dissolvem-se 
em nulidade absoluta. O próprio angus- 
tiado desapareceria de cena, na medida 
em que seu cu habitual, composto pelas 
preocupações, desejos e ambições coti- 
dianos e vulgares, passa a ser conside- 
rado como insignificante. A própria 
dissolução do eu nas coisas do mundo e 
nas trivialidades impede-o de localizar a 
causa de sua angústia. O que ameaça o 
angustiado — diz Heidegger — está em 
tudo e em lugar algum, ao mesmo 
tempo. Não se pode dizer que a angústia 
se aproxima ou se distancia; ela é 
onipresente. Por isso, envolve o homem 
com um sentimento de estranheza radi- 
cal. Todos os socorros e todas as prote- 
ções são ineficazes para debelá-la; o 
homem sente-se completamente perdido 
e desvalido. 

Não tendo coisa alguma do mundo 
como causa, a angústia teria sua fonte 
no mundo como um todo e em estado 
puro. O mundo surge diante do homem, 
aniguilando todas as coisas particulares 
que o rodeiam e, portanto, apontando 
para o nada. O homem sente-se, assim, 
como um ser-para-a-morte. 

A partir desse estado de angústia, 
abre-se para o homem, segundo Heideg- 
ger, uma alternativa: fugir de novo para 
o esquecimento de sua dimensão mais 


902 


profunda, isto é, o ser, e retornar ao coti- 
diano; ou superar a própria angústia. 
manifestando seu poder de transcen- 
dência sobre o mundo e sobre si mesmo. 
Aqui surge um dos temas-chaves de Hei- 
degger: o homem pode transcender, o 
que significa dizer que o homem está 
capacitado a atribuir um sentido ao ser. 
O homem está naturalmente fora de si 
mesmo, sobre o mundo, em relação dire- 
ta com o mundo que ele produz e para o 
qual ele se projeta incessantemente: 
“Produzir diante de si mesmo o mundo é 
para o homem projetar originariamente 
suas próprias possibilidades” 

Entretanto, nesse projetar-se sobre o 
mundo, o homem não estaria sozinho. 
Ele é um ser-com, um ser-em-comum e 
isso se manifesta sobretudo no trabalho, 
mas ainda mais profundamente na soli- 
cttude por outrem, fato que conduz ao 
amor e à comunicação direta. É princi- 
palmente em relação a si mesmo e a seu 
próprio futuro que o homem não cessa 
de transcender-se. O ser humano | Jamais 
seria um ser acabado e nunca seria tudo 
aquilo que pode ser; estaria sempre 
diante de uma série infinita de possibili- 
dades, sobre as quais se projeta. Estabe- 
lecendo um estado de permanente tensão 
entre aquilo que o homem é e aquilo que 
virá a ser, essa projeção constituiria a 
inquietação. A inquietação estrutura o 
ser do homem dentro da temporalidade, 
prendendo-o ao passado, mas, ao mesmo 
tempo, lançando-o para o futuro. Assu- 
mindo seu passado e, ao mesmo tempo, 
seu projeto de ser, o homem afirma sua 
presença no mundo. Ultrapassa então o 
estágio da angústia e toma o destino nas 
próprias mãos. 

A temporalidade constitui, assim, a 
dimensão fundamental da existência 
humana, segundo Heidegger. E o filó- 
sofo concluiu a segunda seção da pri- 
meira parte de Ser e Tempo com a per- 
gunta: haverá algum caminho que possa 
levar do tempo existencial ao sentido do 
ser? Em outros termos, o tempo se reve- 
laria também como o horizonte do ser? 


Que é o ser? 
As questões colocadas no final da 


parte publicada de Ser e Tempo deve- 
riam ser respondidas noutras seções, 


HEIDEGGER 


planejadas por Heidegger para compor 
uma obra inteira, que constituísse solu- 
ção para O problema filosófico funda- 
mental, proposto inicialmente: que é o 
ser. qual seu sentido e sua verdade? 
lissas seções, no entanto, jamais foram 
publicadas, fato que tem levado seus 
intérpretes a falar de um primeiro e de 
um segundo Heidegger, bastante dife- 
rentes entre si. 

O próprio Heidegger recusou a inter- 
pretação de que sua suposta segunda 
fase tenha representado um abandono 
das propostas contidas em Ser e Tempo. 
Tratar-sea. antes. de uma reversão ou 
conversão. de tal forma que. nas últimas 
obras. não é a existência humana a porta 
de entrada para o ser. mas é este mesmo 
que torna possível a abertura para a 
compreensão da existência humana. 

Heidegger desloca-se, desse modo. da 
problemática imediata da existência 
humana. que o ocupou em Ser e Tempo, 
e dirige todas as suas reflexões para o 
próprio ser. O traço marcante dessas 
reflexões ontológi 'as é constituído pela 
penetração cada vez maior no universo 
da linguagem, que passa a ser o hori- 
zonte no qual se poderia divisar o ser. O 
ser do “segundo” Heidegger é uma espé- 
cie de iluminação da linguagem: não da 
linguagem cienúfica, que constitul a 
realidade como objeto, nem da lingua- 
gem técnica, que modifica a realidade 
para aproveitar-se dela. O ser “habita” 
antes a linguagem poética e criadora. na 
qual se pode “comemorá-lo”. isto é, lem- 
brá-lo conjuntamente, a fim de não se 
cair no esquecimento. Elevar-se até o ser 
não seria, portanto, conhecê-lo pela aná- 
lise metafísica, nem explicá-lo ou inter- 
pretá-lo através da linguagem cientfica. 
Seria “habitar” nele, através da poesia. 
Por outro lado, o ser é — para Pe 
— a“casa” que o homem pode habitar, 

a “elareira” no meio de um pao 
cujos caminhos não levam a parte algu- 
ma. O ser pode aparecer e pode ocultar- 

+ porém em caso algum é mera aparên- 
cia: é presença permanente, o horizonte 
luminoso, no qual todos os entes encon- 
trariam sua verdade. Não é o conjunto 
dos entes, nem um ente especial, é é o“ha- 
bitar” de todos os entes. 

Apesar de envolver o ser na linguagem 
poética, o “segundo” Heidegger não dei- 


Depois de aposentado de suas funções 
como professor universitário, Martin 
Redondo recolheu-se à solidão da 
Floresta Negra. (Retrato do filósofo 
e casa de campo na Floresta Negra.) 


903 


OS PENSADORES 


xou inteiramente de lado a ontologia. É 
possivel ver no pensamento e na lingua- 
gem “comemorativos” do filósofo uma 
ontologia, ainda que negativa, isto é, 
que diz o que o ser não é. Nas últimas 
obras escritas por Heidegger, o ser não é 
apresentado como ente algum, nem o 
principio dos entes, nem o fundo da rea- 
lidade. Não é também algo inefável, pois 
é aquilo que torna possível a linguagem, 
sendo o responsável por o homem falar 
sobre as coisas. Não sendo ente algum, 
nem princípio dos entes, o ser, de certa 
forma, identifica-se com o nada, mas, 


apesar disso, ele é. O ser é um mistério, 
no sentido de que não pode ser com- 
preendido através de nenhum ente. O ser 
do qual se fala é, até certo ponto, a pró- 
pria realidade; não está oculto atrás dos 
entes, sendo os próprios entes enquanto 
presentes. Essa presença transcorreria 
dentro da história e teria um destino, 
que se confundiria com a história e o 
destino do pensar essencial, enquanto 
pensamento e linguagem ““comemorati- 
vos”. O pensar essencial seria o pensar 
que “joga” com o ser e se reflete nele, 


1889 — Martin Heidegger 
nasce em Messkirch, a 26 de 
setembro. 

1891 — É publicada a enct- 
clica Rerum Novarum. 


1907 — Lumiêre inventa a 
fotografia em cores 
1914 — Início da Primeira 


Guerra Mundial. Heidegger 
torna-se livre docente na 
Universidade de Freiburg. 
1918 — Término da Primei- 
ra Guerra Mundial. 

1919 — Rutherford realiza, 
pela primeira vez, a desinte- 
gração do átomo. 

1923 — Heidegger torna-se 
professor em Marburg. 


CRONOLOGIA 


1927 — Publica a primeira 
parte de Ser e Tempo. 

1928 — Torna-se professor 
na Universidade de Frei- 
burg. Trotsky é deportado 
para a Sibéria. 

1929 — Heidegger publica 
Kant e o Problema da Meta- 
física. 

1933 — Heidegger torna-se 
o primeiro reitor nacional- 
socialista da Universidade 
de Freiburg. Adolf Hitler é 
eleito chanceler da Alema- 
nha. Em Portugal, promul- 
ga-se uma nova constituição 
que estabiliza a ditadura 
fascista de Salazar. 


BIBLIOGRAFIA 


fazendo-o, ao mesmo tempo, surgir. 


1939 — Inicia-se a Segunda 
Guerra Mundial. Morte do 
papa Pio XI. 

1945 — Fim da Segunda 
Guerra Mundial. Em Ala- 
mogordo, realiza-se a pri- 
meira experiência com a 
bomba atômica. 

1949 — Mao Tsé-tung fun- 
da a República Popular da 
China. 

1953 — Heidegger publica 
a Introdução à Metafísica. 
1956 — E editado Que é Is- 
to — A Filosofia? de Hei- 
degger. 

1962 — Publica a Questão 
da Coisa. 


MACINTYRE, A.: Existentialism in A Critical History of Western Philosophy, editado por D. 
J. O'Connor, The Free Press of Glencoe, Nova York, 1964. 
Mora, J. F.: Heidegger in Diccionario de Filosofia, 2 vols., Editorial Sudamericana, 


Buenos Aires, 1969. 


WAELHENS, A. DE: La Philosophie de Martin Heidegger, Publications Universitaires de Lou- 


vain, Louvain, 1955. 


GRENE, M.: Heidegger, Nova York, 1957. 

LANGAN, T.: The Meaning of Heidegger, Nova York, 1959. 
WysCHOGROD, M.: Kierkegaard and Heidegger, Nova York, 1954. 
VYcinaAs, V.: Earth and Gods, The Hague, 1961. 
KAUFMANN, W.: From Shakespeare to Existentialism, capitulo 17, Boston, 1959. 


LowrrH, K.: Heidegger, Pensador de un Tiempo Indigente, 1958. 


WAHL, J.: Vers la Fin de VOntologie. Étude sur Introduction dans la Métaphysique par Hei- 


degger, 1956. 


CorvEz, M.: La Philosophie de Heidegger, 1961. 
CHAPELE, ÀA.: L 'Ontologie Phénoménologique de Heidegger, 1962. 
MANNOo, M.: Heidegger e la Filosofia, 1962. 


904 


O 


O 
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Q 


OS PENSADORES 


m tratos de Memória, o filósofo 

Be rand Russell (1872-1970) 

ec ta que, por volta de 1913, ti- 
nha entre seus alunos da Universidade 
de Cambridge um tão esquisito, a ponto 
de, após todo um período letivo, o filóso- 
fo não saber dizer se se tratava apenas 
de um excêntrico ou de um homem de 
gênio. Sua perplexidade aumentou ainda 
mais quando foi procurado pelo estranho 
aluno, que lhe fez uma asólita per- 
gunta: “O senhor poderia fazer a fineza 
de me dizer se sou ou não um completo 
idiota?”. Russell respondeu que não sa- 
bia e perguntou-lhe das razões de sua 
dúvida. O aluno replicou: “Caso seja um 
completo idiota, me dedicarei à aeronáu- 
tica; caso contrário, tornar-me-ei filó- 
sofo”. Russell não encontrou outra saida 
para se desfazer da embaraçosa questão, 
a não ser pedindo-lhe que escrevesse um 
assunto filosófico qualquer, e depois lhe 
mostrasse. Passado algum tempo, o 
aluno retornou com o trabalho e o filó- 
sofo, depois de ler apenas uma linha, 
sentenciou: “Não, você não deve se tor- 
nar um aeronauta” 

A partir daí, Wittgenstein, o aluno ex- 
cêntrico abandonou totalmente qualquer 
preocupação com engenharia de aviões, 
tornando-se não apenas mais um filósofo 
entre outros, mas uma das principais fi- 
guras da filosofia do século XX. 


De inventor a filósofo 


Ludwig Josef Johann Wittgenstein 
nasceu em Viena, a 26 de abril de 1889. 
Sua família havia emigrado da Saxônia 
para a Áustria, e sua ascendência ju- 
daica cessou com o avô paterno, que se 
convertera ao protestantismo. Seu pai 
era diretor de uma grande siderúrgica e 
organizou o primeiro cartel do aço na in- 
dústria austríaca. Sua mãe, filha de um 
banqueiro vienense, era extremamente 
devotada à música. Entre os frequenta- 
dores da familia Wittgenstein, encontra- 
va-se Johannes Brahms (1833-1897); 
um de seus irmãos, Paul, tornou-se co- 
nhecido pianista. 

A educação de Wittgenstein, até os ca- 
torze anos, processou-se totalmente em 


Na página anterior: Fotografia de 
Ludwig Wittgenstein (Foto Fabbri) 


906 


casa; era um estudante indiferente, mas 
demonstrava grande interesse por enge- 
nhos mecânicos, a ponto de construir 
uma máquina de costura, que provocou 
grande admiração. Seus pais resolve- 
ram, então, enviá-lo a uma escola em 
Linz, na região montanhosa da Áustria, 
onde a ênfase era colocada no estudo da 
matemática e da fisica, dando-se pouca 
atenção à educação clássica. Após três 
anos em Linz, Wittgenstein ingressou na 
Escola Técnica Superior, em Charlotten- 
burg, Berlim. Na primavera de 1908, 
deixou essa escola, onde estudava enge- 
nharia mecânica, e mudou-se para a In- 
glaterra, registrando-se como estudante 
de engenharia na Universidade de Man- 
chester. Durante três anos, dedicou-se a 
pesquisas aeronáuticas, tendo projetado 
um motor acionado a jato e um propul- 
sor. Seus interesses, porém, começaram 
a afastar-se dessa área, orientando-se 
para a matemática pura e, em seguida, 
para os fundamentos da matemática. 
Nessa época, Wittgenstein encontrou por 
acaso os Princípios de Matemática, de 
Bertrand Russell que lhe despertou 
grande entusiasmo. Como resultado, de- 
cidiu abandonar a engenharia e, em 
1912, ingressou no Trinity College, a 
fim de estudar com Russell. Sob sua 
orientação, dedicou-se à lógica, reali- 
zando progressos surpreendentes. 


Em busca da pureza 


Norman Malcolm, um dos principais 
biógrafos e comentadores de Wittgens- 
ten, conta que os anos de Cambridge, do 
ponto de vista afetivo, foram marcados 
pela intima amizade que o ligou a David 
Pinsent, seu colega de estudos. A ligação 
entre os dois envolvia outras afinidades 
além da lógica. O interesse pela música 
foi uma delas. Ambos possuiam um re- 
pertório de mais de quarenta (ieder de 
Schubert que Wittgenstein sabia asso- 
biar, enquanto Pinsent acompanhava ao 
piano. Além disso, faziam piqueniques 
na Islândia e na Noruega, correndo as 
despesas por conta de Wittgenstein. Em- 
bora considerasse Wittgensten uma 
companhia dificil, irritável e por vezes 
deprimente, Pinsent dizia que, quando 
alegre, ele se tornava encantador. 

Um dos motivos principais de suas de- 


WITTGENSTEIN 


Na passagem dos séculos XIX e XX, Viena era uma das mais importantes cidades 
da Europa e capital do Império Austro-Húngaro. Wittgenstein ali nasceu, filho 
de uma família muito rica. Seus antepassados eram judeus alemães, mas desde 
seu avô paterno a família se convertera ao protestantismo. (A foto mostra uma 
rua do centro de Viena em 1910; Civica Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.) 


907 


OS PENSADORES 


Depois de concluir os estudos secundários na Áustria, Wittgenstein passou 
a estudar mecánica em Berlim. Em 1908, com dezenove anos de idáde, 
transferiu-se para Manchester, na Inglaterra, onde desenvolveu diversos 
projetos ligados à aeronáutica; nessa época, a filosofia ainda não o 
preocupava. (Wittgenstein em 1908; foto de propriedade do Prof. W. Mays.) 


908 


WITTGENSTEIN 


pressões decorria de um sentimento de 
proximidade da morte que viria a impe- 
di-lo de aperfeiçoar suas idéias no ter- 
reno da lógica. Durante muitos anos, an- 
tes de ir para Cambridge, raros eram os 
dias em que não pensava em suicídio. 
Assim, ir para Carnbridge a fim de estu- 
dar filosofia com Russell, adquiriu para 
Wittgenstein o caráter de salvação. 

Durante a primavera de 1913, inten- 
samente envolvido por seu trabalho em 
lógica, Wittgenstein submeteu-se a vá- 
rias sessões de hipnose, tentando, com 
esse recurso, obter respostas mais claras 
e definidas acerca das questões lógicas 
extremamente intrincadas com as quais 
se defrontava. No decorrer desse pe- 
riodo, correspondeu-se frequentemente 
com Russell: suas cartas retratam um 
Wittgenstein muito afetivo, entusias- 
mado com suas descobertas lógicas, 
mas, ao mesmo tempo, manifestam sua 
convicção de que jamais poderia tor- 
nar-se amigo de Russell, pois a seu ver, 
os ideais diferentes dos dois filósofos 
impediam uma verdadeira amizade. 
Wittgenstem considerava possível a 
amizade entre duas pessoas, desde que 
ambas fossem “puras”. podendo, assim, 
existir um relacionamento aberto entre 
elas, sem causar a menor ofensa. Ele 
mesmo, contudo, não se considerava um 
puro, e escrevia para Russell: “Minha 
vida está cheia dos mais odiosos e mes- 
quinhos pensamentos (isso não é exa- 
gero). Talvez você pense que seja uma 
perda de tempo. para mim, pensar 
acerca de mim mesmo; mas como posso 
tornar-me um lógico se não sou sequer 
um homem! Antes de mais nada, devo 
tornar-me puro” 

Quando eclodiu a Primeira Guerra 
Mundial, Wittgenstein alistou-se na 
exército austríaco como voluntário. Du- 
rante os anos de caserna, trabalhou in- 
tensamente, redigindo o Tratactus Logi- 
co-Philosophicus, que viria a ser sua 
obra mais conhecida. Em agosto de 
1918, terminou-o e dois meses depois foi 
aprisionado pelas tropas italianas. Re- 
tornando à vida civil, publicou o Tratac- 
tus, em 1921, nos Anais de Filosofia Na- 
tural, dirigido por Wilhelm Ostwald 
(1853-1932); no ano seguinte, veio à luz 
a tradução inglesa com o título latino, 
sob o qual a obra ficaria consagrada. 


Por volta da mesma época, Wittgens- 
ten doou toda sua fortuna pessoal a 
duas irmãs. Em parte, isso foi devido ao 
fato de que não queria ter amigos atrai- 
dos .por seu dinheiro. Por outro lado, a 
razão dessa atitude decorria de sua pre- 
disposição para uma vida simples e fru- 
gal e da idéia de que o dinheiro poderia 
ser apenas uma amolação para o filó- 
sofo. Em consequência, Wittgenstein, a 
partir de 1920, passou a ser um simples 
mestre-escola, lecionando para crianças 
de 9 a 10 anos de idade. Em 1924, dois 
anos antes de renunciar a seu cargo de 
professor, elaborou um dicionário, com 
cerca de seis mil palavras, para uso dos 
alunos das escolas primárias das aldeias 
austriacas. Esse pequeno livro foi publi- 
cado em 1926. 

Em 1923, Wittgenstein recebeu a vi- 
sita de um jovem matemático de Cam- 
bridge, Frank Ramsey, que estivera 
ENE LRDR o Tratactus e ansiava por dis- 
cuti-lo com o autor. Nessa época, o filó- 
sofo continuava vivendo em extrema 
simplicidade e declarou ao matemático 

ue não pretendia realizar mais nada em 
filosofia. pois sua mente “já não era 
mais flexível”. 

Em 1926, após abandonar o magisté- 
rio, pensou em entrar para a vida monás- 
tica, mas foi desencorajado pelo abade 
do mosteiro no qual pretendia viver. No 
verão do mesmo ano, trabalhou para os 
monges de Hiitteldorf, na qualidade de 
ajudante do Jardineiro. Depois de traba- 
lhar no projeto de uma casa para sua 
irmã e ter-se dedicado à escultura du 
rante certo tempo, retornou a Cam- 
bridge, em 1929, quando passou a dedi- 
car-se novamente à filosofia. Não se sabe 
ao certo o que foi que o levou a retomar 
tal interesse. Em junho daquele ano, ob- 
teve o doutoramento com o Tratactus. 
Seus examinadores foram Russell e G.E. 
Moore (1873-1958), a quem, aliás, é de- 
vido o título latino da tradução inglesa 
de 1922. Nessa época, publicou um 
breve ensaio intitulado Algumas Obser- 
vações sobre Forma Lógica que, junta- 
mente com o Tratactus, constituiu a to- 
talidade dos escritos filosóficos 
publicados durante sua vida. Permane- 
ceu em Cambridge até 1936, quando se 
retirou para a Noruega, onde começou a 
escrever as Investigações Filosóficas. No 


909 


OS PENSADORES 


Em 1913, Wittgenstein herdou grande 
fortuna, e criou um fundo de auxílio 


a poetas. George Trakl, por quem 
nutria grande admiração, foi um dos 
beneficiados. (Arquivo Brenner.) 


ano seguinte, retomou a Cambridge, e 
dois anos depois sucedeu a Moore na ca- 
deira de filosofia. Em 1941, durante a 
Segunda Guerra Mundial, não querendo 
permanecer como simples espectador, 
Wittgenstein conseguiu trabalho no 
Guy's Hospital; e, até 1943, desempe- 
nhou as funções de simples porteiro. Foi 
transferido então para Newcastle, traba- 
lhando como simples ajudante no labo- 
ratório de pesquisas clínicas, onde ficou 
até a primavera de 1944. Três anos de- 
pois, renunciou à sua cátedra de filoso- 
fia: buscava isolamento e tranquilidade 
para que pudesse terminar as Investiga- 
ções. Na medida em que sua saúde per- 
mitia. trabalhava com afinco na obra. 
Depois de viver na Irlanda. durante al- 
gum tempo. viajou para os Estados Uni- 
dos. aí permanecendo três meses. após 
os quais retomou à Inglaterra. Desco- 
briu então que estava com câncer, mas 


910 


não se surpreendeu nem ficou deprimido, 
declarando que isso não o chocava. pois 
não queria continuar vivendo. Em 1950, 
viajou para Viena. onde reencontrou a 
familia e, no mesmo ano, morou durante 
certo tempo com um amigo em Oxford. 
No ano seguinte, mudou-se para a casa 
de seu médico. em Cambridge, pois a 
idéia de passar seus últimos dias em um 
hospital causava-lhe aversão. Sabendo 
da iminência da morte, dedicou-se inte- 
gralmente a seu trabalho. Os escritos fi- 
losóficos de então são da mais alta qua- 


hdade. 

A 27 de abril de 1951, sua enfermi- 
dade agravou-se subitamente, e quando 
o médico informou que seu fim chegara. 
respondeu: “Otimo!”. Suas últimas pa- 
lavras, antes de perder a consciência fo- 
ram: “Diga-lhes que eu tive uma vida 
maravilhosa”. Morreu dois dias depois. 


A teoria da figuração 


Além do Tratactus Logico-Philosophi- 
cus e das Investigações Lógicas, Witt- 
genstein deixou outras obras, das quais 
as mais representativas são as Observa- 
çõesFilosóficas,os Cadernos Azul e Mar- 
rom, redigidos entre 1933 e 1935. e 
Conferências e Discussões sobre Esté- 
tica, Psicologia e Crença Religiosa, livro 
constituído por uma série de notas reuni- 
das por alguns de seus amigos, a partir 
de conversas ocasionais e apontamentos 
de aula. 

O conjunto de sua obra é dividido, 
los intérpretes, em duas fases bem dis- 
tintas, de tal forma que se pode falar de 
um “primeiro Wittgenstein” e de um 
“segundo Wittgenstein”. “primeiro” 
corresponde ao Tratactus, e o “segundo” 
encontra-se nas demais obras. 

Os temas do Tratactus estão agrupa- 
dos em proposições que vão de 1 a 7, se- 

ndo um nível crescente de complexi- 

ade na argumentação. Essas 
proposições básicas são como teses de 
que as proposições subsequentes. nume- 
radas decimalmente, constituem um co- 
mentário ou esclarecimento. A primeira 
proposição diz que “o mundo é tudo o 
que ocorre”; a segunda. que “o que 
ocorre, o fato, é o subsistir de estados de 
coisas”; a terceira, que “pensamento é a 
figuração lógica dos fatos”; a quarta. 


WITTGENSTEIN 


Wittgenstein começou a interessar-se por filosofia no começo da segunda 
década do século XX, des de ter lido os Princípios de Matemática 


de Russell. Como voluntário 


o exército austríaco durante a I Guerra Mundial, 


Waittgenstem escreveu, em plena frente de batalha, sua obra mais conhecida, 
o Tratactus Logico-Philosophicus. (Prisioneiros austríacos em Val di Sole.) 


ue “o pensamento é a proposição signi- 
cativa “; a quinta, que “a proposição é 
uma função de verdade das proposições 
elementares”; a sexta, que “a forma ge- 
ral da função de verdade é [p, é, N(J ; e 
a sétima sentencia: “o que não se pode 
falar, deve-se calar”. 

Essas sete teses principais compõem 
toda a estrutura do Tratactus, o qual é 
uma explicitação das mesmas. Witt- 
genstein deixa claro, assim, todo o obje- 
tivo filosófico que propôs a si mesmo. 
Segundo suas próprias palavras. “todo 
meu trabalho consiste em explicar a na- 
tureza das sentenças”. 

A explicação de Wittgenstein tem 
como centro a idéia de que uma sentença 
é uma figuração (picture, em inglês; 
Bild, em alemão). O Tratactus afirma 

ue as sentenças figuram mesmo a reali- 
ade, não se tratando apenas de um 
“como se”. Conforme assinala o próprio 


autor, “um nome representa uma coisa. 
outro, outra coisa. e estão ligados entre 
si de tal modo que o todo, como quadro 
vivo, representa o estado de coisas”. Em 
outros termos. haveria um paralelismo 
completo entre o mundo dos fatos reais 
e as estruturas da linguagem. Nesse sen- 
tido, ou seja, na medida em que uma 
proposição é uma figuração da reali- 
dade, deve haver nela tantos elementos 
a serem distinguidos quantos os que 
existem no estado de coisas afigurado; 
deve haver uma mesma multiplicidade 
lógica ou matemática entre a O ENracão 
e aquilo que é afigurado. Dessa forma, 
define-se como forma de representação 
aquilo que existe de comum entre a figu- 
ração e o afigurado, e a possibilidade de 
que as coisas no mundo estejam relacio- 
nadas, como o estão os elementos da fi- 
guração, & denominada forma da reali- 
dade. Desse modo, uma vez que são 


911 


E E 


FABBRI 


OS PENSADORES 


figurações, as sentenças possuem a 
mesma forma da realidade que afigu- 
ram. 

Mas, embora uma sentença possa afi- 
gurar a realidade, ela não é capaz, no 
entanto, de fazê-lo no que respeita à sua 

rópria forma de representação. Se deve 
RA algo de idêntico na figuração e no 
afigurado a fim de que uma possa ser a 
figuração do outro, então a E bad lógica 
(ao mesmo tempo forma da realidade) 
que todas as figurações devem possuir, 
não pode ser afigurada por nenhuma fi- 
guração. Caso contrário, cair-se-ia em 
uma regressão ao infinito, ou seja, seria 
necessário supor uma segunda lingua- 
gem que representaria a primeira, e as- 
sim sucessivamente. Por essa razão, 
Wittgenstein conclui que todo o pro- 
blema da filosofia reduz-se apenas à dis- 
tinção entre o que pode ser dito por meio 
de proposições, isto é. mediante a única 
linguagem que existe, e o que não pode 
ser dito, mas apenas mostrado. 


As coisas e os nomes 


No Tratactus, as proposições e a lin- 
guagem em geral repousam na noção de 
“nome”, o qual é definido pelo autor 
como um signo simples empregado nas 
sentenças. O signo simples não é com- 
posto por outros signos. como é o caso, 
por exemplo, da expressão “as ruas da 
capital da Inglaterra”; a palavra “Lon- 
dres”, ao contrário, satisfaz a exigência 
de simplicidade. Além de dever ser um 
signo simples, o nome, para Wittgens- 
ten, deve satisfazer a uma outra exigên- 
cia, qual seja, a de representar uma 
coisa simples, que ele chama “objeto”. 
No Tratactus, os objetos são concebidos 
como absolutamente simples, e não sim- 
ples apenas em relação com algum sis- 
tema de notação. Segundo o filósofo, os 
objetos formam a bEiência do mundo, 
e por isso mesmo não podem ser compos- 
tos; a substância é o que subsiste inde- 
pendentemente do que ocorre; o fixo, o 
subsistente e o objeto são um só, en- 
quanto que a configuração constitui o 
mutável, o instável. 

Por si só, o nome não é, para Witt- 
genstein, uma figuração do objeto e, por- 
tanto, sozinho nada diz. Somente atra- 
vês da combinação de nomes é possível 


912 


figurar a realidade; em outros termos, 
isso significa que o centro da teoria da 
linguagem como figuração encontra-se 
nas sentenças. Nota Wittgenstein que a 
maior parte das proposições da lingua- 
gem corrente não parecem ser figurações 
da realidade; somente a análise delas 
permite tornar manifesto o caráter figu- 
rativo. Como resultado dessa análise, 
surgem as proposições elementares, que 
se definem como proposições que consis- 
tem de nomes em vinculação imediata. 
Somente as proposições elementares re- 
presentam uma configuração de objetos 
simples. Para Wittgenstein, por outro 
lado, mesmo que cada fato consista em 
muitos estados de coisas, e que cada es- 
tado de coisas seja constituído por mui- 
tos objetos simples (podendo, tanto os 
objetos, como os estados de coisas, ten- 
derem ao infinito). uma proposição ad- 
mite uma, e somente uma, análise em 
proposições elementares. Uma vez anali- 
sada completamente, a proposição será 
composta de nomes RBDIES. cujo signifi- 
cado será um objeto simples. Desse 
modo, a compreensão de uma proposi- 
ção exige apenas a compreensão de seus 
constituintes. 
Linguagem e verdade 

Na filosofia do “primeiro Wittgens- 
ten”, a idéia da existência de proposi- 
ções elementares não é arbitrária, ao 
contrário, decorre diretamente de suas 
preocupações acerca da relação entre o 
pensamento e a linguagem, de um lado, 
e a realidade, de outro. Sua teoria ba- 
seia-se na idéia de que a realidade é afi- 
gurada pela linguagem, e nesse caso se- 
ria necessário admitir-se a existência de 
proposições, cujo sentido evidencie-se 
imediatamente. Entretanto, não se deve 
inferir daí que tais proposições apresen- 
tem uma verdade auto-evidente. Assim, 
das proposições elementares depende- 
riam todas as outras proposições. Em 
outras palavras, as proposições (cujo 
sentido é imediatamente evidente) não- 
elementares seriam funções de verdade 
de proposições elementares; não fosse 
assim, nenhuma sentença poderia dizer 
alguma coisa ou ser entendida. 

A função de verdade de uma única 
proposição p é uma proposição cuja ver- 
dade ou falsidade é determinada, exclu- 
sivamente, pela verdade ou falsidade de 


WITTGENSTEIN 


FABBRI 


Um dos poetas preferidos de Wittgenstein foi Rainer Maria Rilke, considerado 
pela maioria dos historiadores como o maior poeta da a 
alemã do século XX. Rilke foi um dos beneficiados pelo fundo de auxílio, 
criado pelo filósofo com parte da fortuna herdada de seu pai. (Retrato de 
Rainer Maria Rilke, por Paula Modersohn Becker; Bremer Werkchau Bremen.) 


913 


OS PENSADORES 


Pp; por exemplo, não-p (se p é falso) é 
uma função de verdade de p. Uma função 
de verdade de duas proposições pe des 
uma proposição cuja verdade ou falsi- 
dade é unicamente determinada pela ver- 
dade ou falsidade de p, q; por exemplo, 
“P, q são ambas verdadeiras” é uma fun- 
ção da verdade de p, q. Se duas proposi- 
ções não-elementares r e s, são funções 
de verdade de proposições elementares: 
então r e s estarão relacionadas interna- 
mente: por exemplo, uma delas pode de- 
correr logicamente da outra, ou podem 
ser contraditórias. Para Wi ittgenstein, 
conhecendo-se a estrutura interna de 
duas proposições, pode-se saber quais as 
relações lógicas que, elas mantêm entre 
si. Não se faz necessário, para tanto, um 
conhecimento de princípios lógicos; e. 
dai. ser possível viver sem as proposi- 
ções lógicas, Já que se pode reconhecer, 
graças à mera inspeção dessas proposi- 
ções. suas propriedades formais em uma 
notação correspondente. 

Para tornar manifestas as condições 
de verdade de uma proposição, Witt- 
genstein empregou o método das tábuas 
de verdade. Uma vez que a proposição 
em questão é função de verdade de ou- 
tras proposições, o objetivo seria mos- 
trar a relação entre a verdade (ou falsi- 
dade) das últimas e a verdade (ou 
falsidade) da primeira. 

Dois são os casos limites entre os 
possiveis grupos de condições de ver- 
dade das proposições. Um deles ocorre- 
ria quando uma proposição fosse verda- 
deira para todas as possibilidades de 
verdade das proposições elementares: 
tal proposição é chamada tautologia. O 
outro caso diz respeito à proposição que 
seja falsa para todas as possibilidades 
de verdade: essa proposição é denomi- 
nada contradição. Conquanto seja conve- 
mente referir-se tanto às contradições. q y 
como as tautologias. como “proposi- ; ai 28 7 
ções . ambas para W ittgenstein não são. á 
a rigor. proposições. pois. além de não 
determinarem qualquer realidade. não 
possuem condições de verdade. já que 


NS É 


, : 
á t 
Dar rlanéd ca 25 
- um . 


- 33 egipro 


Wittgenstein aliou lucidez intelectual 
e sensibilidade; durante a 
HI Guerra Mundial, trabalhou como 
simples auxiliar em um hospital. 
(Desenho de Henry Moore; Gal. Tate.) 


914 


WITTGENSTEIN 


FABBR: 


915 


OS PENSADORES 


FABBRI 


Quando Wittgenstein começou a se interessar por filosofia, procurou 
a Universidade de Cambridge, a fim de estudar com Bertrand Russell. A essa 


escola, o filósofo voltaria no fim dos anos vinte para se doutorar 
e exercer um cargo de pac no Trinity College. (Edificio da biblioteca 
da Universidade de Cambridge, projetado pelo arquiteto Martin Leslie.) 


916 


WITTGENSTEIN 


uma é incondicionalmente verdadeira 
(tautologia), e outra é incondicional- 
mente falsa (contradição). Assim, para 
Wittgenstein, as proposições mostram o 
que dizem, mas se forem tautológicas ou 
contraditórias são vazias de sentido. Em 
outros termos, a tautologia e a contradi- 
ção não são figurações da realidade, não 
representam nenhuma situação possível, 
porquanto a pr imeira permite todas as 
situações possiveis, enquanto a segunda, 
nenhuma. 

Por outro lado, diz anda Wittgens- 
tein, “a proposição, a figuração, o mode- 
lo são, num sentido negativo, como um 
corpo sólido que limita a liberdade de 
movimento do outro; no sentido positivo, 
como um espaço limitado por uma subs- 
tância sólida onde um corpo pode ter 
lugar”. Nessa ordem de idéias, pode-se 
dizer que, enquanto a verdade de uma 
proposição não é certa, mas apenas pos- 
sivel, a da tautologia é tida como certa, e 
a da contradição como impossível. 

De acordo com o Tratactus, os assim 
chamados princípios de lógica, proposi- 
ções de lógica ou verdades lógicas, são 
todos simples tautologias, não expres- 
sam pensamentos, nada dizem. Não se 
pode afirmar, contudo, que não possuam 
qualquer sentido: o simples fato de uma 
dada combinação de proposições exibir 
uma tautologia revela algo acerca das 
estruturas das proposições constituintes. 
Nas palavras do próprio Wittgenstein: 
“As proposições da lógica são tautolo- 
gias; isso mostra as propriedades (lógi- 
cas) formais da linguagem, do mundo” 

A metafísica é vazia 

A teoria da figuração que se encontra 
no Tratactus e sua explicação de verdade 
lógica conduziram a uma interessante 
doutrina sobre a necessidade, e também 
a uma negação de qualquer conheci- 
mento do a Segundo o filósofo, as 
proposições genuínas dizem apenas 
como as coisas são, não como elas devem 
ser. A única necessidade que pode existir 
é a necessidade lógica expressa pelas 
tautologias ou por equações matemáti- 
cas. No entanto, nem as tautologias, nem 
as equações matemáticas dizem coisa al- 
guma sobre o mundo. Por conseguinte, 
no mundo, não existe necessidade. Para 
Wittgenstein, tudo é acidental. Desen- 
volvendo essa tese, o autor do Tratactus 


Es gibi feine 
Chre ohne 


oreibeil! 
tinto asa! 


it 


ornuTávaa 


fit 


Seteccelos 


Depois da anexação da Áustria pela 
Alemanha nazista, Wittgenstein 
repudiou a cidadania austríaca e 

naturalizou-se inglés. (Cartaz contra 
o plebiscito de anexação, em 1936.) 


917 


FABBRI 


OS PENSADORES 


A foto acima retrata Adolf Loos, 
um dos grandes amigos do filósofo. 
Loos foi um dos maiores 
responsáveis pela introdução da 
arquitetura moderna na Austria. 


918 


FABBRI 


mostra que, embora uma proposição 
possa ser inferida de outra dede que 
haja uma conexão interna e estrutural 
entre elas), tal não ocorre entre o estado 
de coisas, cuja existência não pode ser 
anferida a partir de um outro estado de 
coisas, completamente diferente. Em 
suas próprias palavras, “de modo algum 
é possivel inferir. da subsistência de uma 
situação. a subsistência de uma situação 
inteiramente diferente dela”. Se isso 
fosse possivel, tratar-se-ia de uma infe- 
rência daquilo que constituiria uma futu- 
ra situação, um futuro estado de coisas. 
“Que o sol se levante amanha” — diz 
Wittgenstein — “é uma hipótese, e isso 
quer dizer: não sabemos se realmente se 
levantará.” 

A partir dessas concepções, o ato de 
vontade e a realização daquilo que é 
desejado passam a ser considerados 
como duas ocorrências inteiramente di- 
ferentes. Nesse sentido, a relação entre a 
vontade e aquilo que acontece no mundo 
só pode ser acidental. O homem não pode 
fazer nada acontecer, nem mesmo um 
movimento de seu corpo. Nas palavras 
do filósofo: “Não posso subjugar os 
acontecimentos do mundo à minha von- 
tade: sou completamente impotente” 

Por outro lado, na medida em que, 
segundo a teoria da figuração, tanto uma 
proposição como a sua negação são 
ambas possíveis, a proposição verda- 
deira é meramente acidental. Dai Witt- 
genstein retira a conclusão de que não 

odem haver proposições em ética. Com 
isso, ele queria dizer que se alguma 
coisa possui valor, tal fato não pode ser 
acidental: a coisa tem de-possuir aquele 
valor. No mundo, entretanto, tudo é aci- 
dental; consequentemente, não existe 
valor no mundo: “No mundo, tudo é 
como é e acontece como acontece: nele 
não há valor, e se houvesse, o valor não 
teria valor”. Se houver um valor que 
tenha valor, ele deve permanecer fora de 
todos os acontecimentos, pois todos os 
acontecimentos são acidentais. Em ou- 
tros termos, o sentido do mundo deve 
estar fora dele; o que o faz não-acidental 
não pode estar no mundo pois, no caso 
contrário, isso seria de novo acidental. 
Essa concepção não constitui uma nega- 
ção absoluta da existência do valor, mas 
da existência de valor no mundo. Uma 


WITTGENSTEIN 


Personalidade pouco comum, Wittgenstein sempre demonstrou possuir 
exacerbada sensibilidade e, frequentemente, deixava-se dominar por 
estados depressivos. Nessas ocasiões, o fi lósofo procurava refúgio nas 
belezas naturais da Noruega, onde possuia uma casa na qual 
passava longas temporadas. (Soguefjord, Noruega; Foto Ostuni.) 


vez que as proposições se pronunciam 
apenas acerca do que está no mundo, 
tudo aquilo que diz respeito à ética não 
pode ser expresso por proposições, pois 
estas, diz Wittgenstein, “não podem 
exprimir nada alem”. e acrescenta: “é 
claro que a ética não se deixa exprimir. 
A ética é transcendental”. Assim, o 
mundo, e o que está nele, não é nem bom, 
nem mau. Bem e mal existem apenas em 
relação ao sujeito, e este também é con- 
cebido por Wittgenstein como transcen- 
dental: “o sujeito não pertence ao 
mundo, mas é limite do mundo”. 

A ética, todavia, não constitul o único 
assunto que não pode ser expresso pelas 
proposições. À ela acrescentam-se outras 
áreas, como a forma de representação 
das proposições, a existência de objetos 
simples que constituiriam a substância 


do mundo, a existência de um sujeito 
metafísico, a existência do bem e do mal, 
e muitos outros igualmente indizíveis. 
Wittgenstein parece ter acreditado que o 
homem tem pensamentos sobre essas 
questões apenas quando considera o 
mundo como um todo limitado. Em suas 
próprias palavras, “a intuição do mundo 
sub specie aeternitatis é a intuição dele 
como um todo limitado”. Para ele, essa 
intuição é de natureza mística; além 
disso, ele afirma que “o que é místico 
não é como o mundo é, mas que ele seja”. 

Por outro lado, conquanto se possa 
dizer o que se queira a respeito daqueles 
tópicos metafísicos, isso não significa 
que eles sejam absurdos, mas sim que se 
situam além do alcance da linguagem. 
Diz o próprio Wittgenstein que “existe 
com certeza o indizivel”. Essa afirmação 


99 


FABBRI 


OS PENSADORES 


constituiria um exemplo do que é indizi- 
vel, mas pode produzir uma certa com- 
preensão filosófica. No fim do Tratactus, 
o autor explica: “minhas proposições se 
elucidam do seguinte modo: quem me 
entende, por fim as reconhecerá como 
absurdas, quando graças a elas — por 
elas — tiver calado para além delas. É 

reciso, por assim dizer, jogar a escada 
EA depois de ter subido por ela”. A pro- 
posição final do Tratactus (“ O que não 
se pode falar, deve-se calar.”) não cons- 
titui apenas um turuísmo, mas traduz a 

existência de um terreno a respeito do 
qual nada se pode dizer. 

O resto é silêncio? 

Para muitos intérpretes do desenvolvi- 
mento filosófico do autor do Tratactus 
Logico-Philosophicus, o próprio Witt- 
genstein encarregou-se de jogar fora a 
escada que ele mesmo utilizara. Segundo 
esses intérpretes, depois da publicação 
do Tratactus, Wittgenstein modificou 
radicalmente a orientação de sua filoso- 
fia, abandonando a perspectiva logicista 
que caracteriza essa obra. No Caderno 
Azul, no Caderno Marrom e, sobretudo, 
nas Investigações Filosóficas, publica- 
dos após sua morte, o filósofo passou a 
trilhar um novo caminho, afirmando ser 
extremamente insatisfatório o Tratactus. 
Isso, no entanto, não significa que tenha 
passado a considerar suas primeiras 
reflexões pura e simplesmente como 
errôneas, mas sim como incapazes de 
elucidar todos os problemas da Imgua- 
gem em virtude de resultarem de uma 
maneira “supersticiosa” de abordagem. 
A linguagem — diz o “segundo Wittgens- 
ten” — engendra ela mesma superstições 
das quais é preciso desfazer-se, e a filo- 
sofia deve ter como tarefa primordial o 
esclarecimento que permita neutralizar 
os efeitos enfeitiçadores da linguagem 
sobre o pensamento. O centro desse 
enfeitiçamento da linguagem sobre a 
inteligência encontra-se nas tentativas 
para se descobrir a essência da lingua- 
gem; é necessário, ao contrário, não que- 
rer descobrir o que supostamente esteja 
oculto sob a linguagem, mas abrir os 
olhos para ver e desvendar como ela fun- 
ciona. A atitude metafísica deve ser 
substituída pela atitude prática. 

A linguagem — diz o segundo Witt- 
genstem — funciona em seus usos, não 


920 


cabendo, portanto, indagar sobre os sig- 
nificados das palavras, mas sobre suas 
funções práticas. Estas são múltiplas e 
variadas, constituindo múltiplas lingua- 
gens que são verdadeiras formas de vida. 
Em outros termos. poder-se-ia dizer que 
o correntemente chamado linguagem é, 
na verdade, um conjunto de “jogos de 
linguagem”, entre os quais poderiam ser 
citados seus empregos para indagar, 
consolar, indignar-se, ou descrever. 
Wittgenstein compara os jogos de lin- 
guagem a ferramentas utilizadas pelo 
operário, que usa o martelo para marte- 
lar, o serrote para serrar, e assim por 
diante. Da mesma forma, não há, para 
Wittgenstein, uma única função comum 
das expressões da linguagem, nem 
mesmo algo que possa ser considerado 
como o jogo de linguagem. O que se 

ode dizer que existe são certas seme- 
faia ou, nas palavras do próprio 
Wittgenstein, certo “ar de família”, cer- 
tos parentescos que se combinam, se en- 
trecruzam, se permutam. 

Em termos rigorosamente técnicos, 
poder-se-ia dizer que, para o “segundo 
Wittgenstein”, a linguagem não pode ser 
unificada segundo uma única estrutura 
lógica e formal. Diferentemente da tese: 
exposta no Tratactus, Wittgenstem 
afirma nas Investigações Eiloróftcas que 
uma proposição não traz em si o todo da 
linguagem. Esta procede através de pe- 
quenos segmentos, que são diferentes, 
múltiplos e parcelados. A única seme- 
lhança gue tais segmentos possuem en- 
tre si é “um certo ar de familia” . consti- 
tundo cada um deles um “jogo de 
linguagem”. Não se pode definir exata- 
mente o que seja “um jogo de lingua- 
gem”, a não ser através da comparação 
entre os traços semelhantes e distintivos 
de uma série de jogos. Com essa coloca- 
ção do problema, Wittgenstein aproxi- 
ma-se muito do estruturalismo desenvol- 
vido por Saussure (1857-1913). 

Essa nova maneira de colocar o 
problema da linguagem (que é tão alheia 
à metafísica quanto a teoria exposta no 
Tratactus, mas que consegue, no en- 
tanto, evitar o formalismo lógico de Ber- 
trand Russell e do Circulo de Viena) traz 
consigo profundas consequências no que 
diz respeito à filosofia em geral. Para o 

“segundo Wittgenstem”, os filósofos 


WITTGENSTEIN 


- 


A obra de Wittgenstein tem duas faces diversas; a primeira corresponde 
ao Tratactus Logico-Philosophicus, publicado em 1921; a segunda é marcada, 
sobretudo, pelas Investigações Filosóficas, escritas em 1948, em Dublin 
(foto acima). Para alguns intérpretes, trata-se de filosofias totalmente 
opostas; para outros, são apenas 0 verso e o reverso da mesma moeda. 


OS PENSADORES 


deixaram-se enredar nas teias dos cha- 
mados “problemas filosóficos” porque 
se iludiram procurando descobrir a es- 
sência da linguagem, algo que estivesse 
oculto atrás e Na verdade, não exis- 
tem “problemas” filosóficos, mas tão so- 
mente “perplexidades”. Com isso, Witt- 
genstein quer dizer que de nada adianta 
ao filósofo tentar encontrar soluções, 
procurando uma suposta realidade es- 
condida; em filosofia nada existiria de 
oculto e todos os dados dos chamados 
“problemas” estão sempre ao alcance da 
inteligência. Quando esses dados não 
possibilitam qualquer solução, se está 
diante de um beco sem saída, e nada 
mais. Perguntar- se, por exemplo, “que 
horas são?”, constitui um problema e, 
como tal, pode perfeitamente ser solu- 
cionado; mas inquirir sobre a natureza 
última do tempo é colocar-se num labi- 
rinto, aparentemente sem saida. A saida, 
contudo, é possivel, e consiste, segundo 
Wittgenstein, simplesmente em se liber- 
tar da idéia de que existam labirintos. 
Apesar disso, não se deve concluir que 

para Wittgenstein as questões filosófi- 
cas sejam destituídas de sentido. Pelo 
contrário, a filosofia tem um sentido 
profundo, o qual consiste em mostrar as 
raizes da perplexidade e como elas se 
acham vincadas no pensamento humano. 
Haverá uma razão que explique a fasci- 
nação dos homens pelas questões filosó- 
ficas, a ponto de alêuds eles terem de- 
dicado toda sua vida a elas. Para 
Wittgenstein, na verdade, essas questões 
são “fascinantes” e seu “enfeitiçamento” 
decorre das investidas feitas pelo ho- 
mem contra as limitações da linguagem. 
Porém não cabe mais continuar essa luta 
inglória. A filosofia deve ensinar ao ho- 
mem apenas como “ver” as questões; ela 

não pode explicar, inferir ou deduzir 
coisa alguma, mas somente “pôr à vista” 
as perplexidades resultantes do esqueci- 
mento das razões pelas quais sê utilizam 
certos conceitos. Em suma, a filosofia é 
uma permanente “luta contra o enfeiti- 
camento da linguagem” 


Wittgenstein e seu legado 
Tanto a filosofia formulada no Tratac- 


tus Logico-Philosophicus (correspon- 
dente ao “primeiro Wittgenstein”), 


YZ 


quanto a que se encontra nas obras pós- 
tumas, sobretudo nas Investigações Fi- 
losóficas e nos Cadernos . 4zui e Marrom, 
exerceram profunda influência no pensa- 
mento do século XX. Muitas das teses 
fundamentais dos filósofos do chamado 
Circulo de Viena foram desenvolvidas a 
partir da interpretação empirista que fi- 
zeram do. Tratactus. Entre outras dessas 
teses do Circulo de Viena, encontra-se o 
princípio da verificabilidade, segundo o 
qual, o significado de uma proposição 
reduz-se ao conjunto de dados empíricos 
imediatos, cuja ocorrência confere vera- 
cidade à mesma, e cuja não-ocorrência a 
tona falsa. O Círculo de Viena retirou 
também do Tratactus a idéia de que as 
proposições matemáticas são tautolo- 
Rs e. portanto, despidas de significado 
atual. 

Mas, não obstante esses e outros pon- 
tos de convergência, é excessivo di- 
zer-se, como o fazem alguns admirado- 
res de Wittgenstein, que ele tenha sido 

o “pai do positivismo lógico + desenvol- 
vido pelo Circulo de Viena. Algumas di- 
vergências ponderáveis separam o autor 
do Tratactus dos positivistas lógicos. A 
teoria da figuração, por exemplo, não foi 
adotada pelo Circulo de Viena. Outro as- 
pecto que os separa é a posição diante 
da metafísica; enquanto os positivistas 
lógicos rejeitam totalmente as proposi- 
ções metafisicas, Wittgenstein admite a 
possibilidade de apreensões intuitivas 
no terreno da linguagem, do pensamento 
ou da realidade, embora ressalvando que 
tais intuições não podem ser expressas 
pela linguagem. 

Por outro lado, a filosofia do “'se- 
gundo Wittgenstein” influenciou consi- 
deravelmente a “filosofia linguistica”, 
desenvolvida pelo Grupo de Oxford. 
Também nesse caso, os admiradores de 
Wittgenstein chegam a considerá-lo “o 

ai da filosofia linguística”, muito em- 

ora os filósofos do Grupo de Oxford de- 
vam parte de seu pensamento a outras 
fontes, como a filosofia de G. E. Moore. 
Ao lado do Grupo de Oxford e do Circulo 
de Viena, mais importante foram as in- 
fluências que Wittgenstein deixou em 
discípulos propriamente ditos, como é o 
caso de John Wisdom (1904- ). perten- 
cente à corrente da “filosofia analítica”, 
desenvolvida na Inglaterra. 


WITTGENSTEIN 


Wittgenstein dA dA grande parte da filosofia do século XX. Para 
alguns historiadores, ele foi “o pai do positivismo e do Círculo de 
Viena, para outros, foi o “pai da filosofia analítica” do Grupo de Oxford. 

O inglês John Wisdom (acima) é um dos mais importantes continuadores da 
linha de pensamento iniciada pelo autor do Tratactus Logico-Philosophicus. 


923 


E SM E ta A 


1889 — A 26 de abril, em 
Viena, nasce Ludwig Josef 
Johann Wittgenstein. 

1904 — Nasce John 
Arthur Terence  Dibben 
Wisdom, em Londres. 

1912 Wittgenstein | in- 
gressa no Trinity College. 
1913 — Submete-se a 
hipnose, visando esclarecer 
intrincadas questões lógicas. 
1914 — Inicia-se a Pri- 
meira Guerra Mundial. 
Wittgenstein alista-se, vo- 
luntariamente, no exército 
austríaco. 

1918 — Como colapso do 
Império Austro-Húngaro, é 
aprisionado pelos italianos. 
1921 — A revista de Wi 
lhelm Ostwald, Annalen der 
Naturphilosophie, publica o 
Tratactus Logico-Philoso- 
phicus, de Wittgenstein. 
1924 Wisdom 
dua-se em Cambridge. 


&ra- 


CRONOLOGIA 


1926 — Wittgenstein tra- 
balha como ajudante de 
jardineiro do mosteiro de 
Hiitteldorf. 

1929 — Wittgenstein 
retorna a Cambridge, onde, 
em junho, doutora-se com o 
Tratactus. 

1930 — Redige as Obser- 
vações Filosóficas. 

1931 — Wisdom publica 
Interpretação e Análise. 
1933 - 1935 — Wittgens- 
tein escreve os Cadernos 
Azule Marrom. . 

1934 — Wisdom obtém o 
mestrado na Universidade 
de Cambridge. 

1936 — Wittgenstein reti- 
ra-se para a Noruega, onde 
inicia as Investigações Filo- 
sóficas. 

1938 — Elabora as Confe- 
rências e Discussões sobre 
Estética, Psicologia e 
Crença Religiosa. 


BIBLIOGRAFIA 


1939 — Estoura a Se- 
gunda Guerra Mundial. Su- 
cedendo a G. E. Moore, 
Wittgenstein assume a ca- 
deira de filosofia da Univer- 
sidade de Cambridge. 


1941 - 1943 — Trabalha 
como porteiro do Guy's 
Hospital. 

1943 - 1944 — Trabalha 


como simples ajudante no 
Clinical Research Labora- 
tory, em Newcastle. 

1947 — Renuncia à ca- 
deira de filosofia. 

1951 — A 29 de abril, 
morre Wittgenstein. 

1952 — Wisdom torna-se 
professor de filosofia em 
Cambridge. 

1953 — Publica Filosofia 
e Psicanálise. Publicação 
das Investigações Filosófi- 
cas, de Wittgenstein. 

1965 — Wisdom publica 
Paradoxo e Descoberta. 


MaALCOLM, N.: Wittgenstein, in The Encyclopedia of Philosophy, 8 vols., The Macmillan 
Company & The Free Press, Nova York, 1967. 
THOMSON, J. J.: Wisdom, in The Encyclopedia of Philosophy, 8 vols., The Macmillan Com- 
pany & The Free Press, Nova York, 1967. 

PEARS, D.: Wittgenstein, Fontana Books, Londres, 1971. 
PrrcHER, G.: The Philosophy of Wittgenstein, Prentice-Hall, Englewoods Cliffs, 1964. 

WAHL, J.: Prefácio a Le Cahier Bleu et le Cahier Brun, de Wittgenstein, Éditions Gallimard, 


Paris, 1965. 


RusseLL, MOORE, CARNAP € outros: Ludwig Wittgenstein: The Man and His Philosophy, 
editado por K. T. Fann, Dell Publishing Company, Nova York, 1967. 
ANSCOMBE, G. E. M.: An Introduction to Wittgenstein's “Tratactus”, Hutchinson, Londres, 


1959. 


STENIUS, E.: Wittgenstein s “Tratactus ”, Blackwell, Oxford, 1960. 

GRIFFIN, J.: Wittgenstein 's Logical Atomism, Oxford University Press, Londres, 1964. 
HARTNACK,J.: Wittgenstein and Modern Philosophy, Anchor Books, Nova York, 1965. 
FAavrHOLDT, D.: An Interpretation and Critique of Wittgenstein 's Tratactus, Munksgaard, 


Copenhague, 1964. 


924 


“CAMUO ato 


e A SR CR SE 


OS PENSADORES 


o período anterior à Revolução 
IN temesiana — dos fins do século 
passado até os anos trinta deste —, 
o pensamento econômico estava rigida- 
mente dividido em duas ortodoxias 
igualmente bem estabelecidas e consa- 
adas. De um lado, havia os que preten- 
iam fazer ciência econômica, inteira- 
mente livre de julgamentos de valor, 
cujas conclusões baia — de que o “ho- 
mem econômico” deixado a si mesmo 
encontraria sempre uma situação de 
equilíbrio que proporcionaria respostas 
“ótimas” a todas as demandas — resulta- 
riam da mera lógica dedutiva, aplicada 
a um pequeno número de postulados evi- 
dentes por si mesmos. De outro, estavam 
os que pretendiam perscrutar o capita- 
lismo com olhos críticos, à procura de 
suas contradições inevitáveis, cujo agu- 
çamento progressivo — sob a forma de 
crises cada vez mais frequentes, longas 
e profundas — provocaria a queda defini- 
tiva do sistema e sua substituição por 
outro mais justo e mais eficiente. 

A falta de diálogo entre as duas cor- 
rentes era absoluta, fundada em diver- 
gências semânticas irreconciliáveis. O 
capitalismo, que uns queriam abolir, se- 
quer existia para os outros. Para o mar- 
ginalismo — ortodoxia que imperava em 
todas as academias do mundo ocidental 
—, em lugar do capitalismo o que havia 
era uma economia de mercado, cujo fun- 
cionamento se desviava um pouco dos 
preceitos da teoria do equilíbrio: apenas 
na medida em que apresentava “imper- 
feições”, face ao modelo da concorrência 
perfeita. O mesmo modelo permitiria 
aferir o funcionamento das economias de 
mercado que existiram durante a Idade 
Média ou na Roma da Antiguidade ou 
ainda das que podem ser observadas em 
povos primitivos. 

O conceito de “exploração”, básico 
para os marxistas, era literalmente in- 
concebível para os marginalistas. Para 
os primeiros, o monopólio dos meios de 
produção, usufruídos por uma parte da 
sociedade, obrigaria os restantes a alie- 
nar sua capacidade de trabalho por um 
valor menor do que aquela capacidade 


Na página anterior: foto de John 
Maynard Keynes (Bettmann Archive). 


926 


em funcionamento era capaz de criar. 
Dai a essência da exploração. Para os 
marginalistas, não havia monopólio dos 
meios de produção, porém dotação dife- 
renciada de fatores de produção: se uns 
possuíam terras, outros possuíam capi- 
tais e outros possuíam capacidade de 
trabalhar, todos esses fatores eram 
igualmente necessários ao processo pro- 
dutivo. E não havia razão para supor 
ue a colaboração entre os “titulares” 
pad fatores tivesse que implicar qual- 
quer relação de exploração, desde que 
sua liberdade enquanto “homens econô- 
micos” fosse devidamente respeitada. 

É claro que a recíproca também era 
verdadeira. Conceitos básicos para os 
marginalistas, como “utilidade margi- 
nal” por exemplo, eram completamente 
destituídos de sentido para os marxis- 
tas. Os marginalistas concebiam a eco- 
nomia como o resultado das interações 
de inúmeros indivíduos, que produzem e 
consomem, conforme determinadas in- 
clnações subjetivas que poderiam ser 
traduzidas em leis explicativas dos pre- 
cos relativos, da alocação de recursos 
em diferentes ramos de produção, etc. 
Tais leis eram todas derivadas do princi- 
pio da utilidade marginal decrescente, 
ou seja, de que cada bocado adicional de 
determinado bem ou serviço apresenta, 
para o mesmo consumidor, uma utili- 
dade menor que o anterior. No fundo, era 
a explicação do velho paradoxo: coisas 
essenciais à vida, como o ar ou a água, 
são destituidas de valor de troca 
quando disponíveis em abundância, en- 
quanto coisas bem menos -essenciais, 
como brilhantes, por exemplo, têm ele- 
vado valor de troca, só por serem escas- 
sas. Para os marxistas, acostumados a 
pensar a sociedade capitalista em ter- 
mos de classes, as inclinações subjetivas 
dos indivíduos são de tal maneira enqua- 
dradas pela estrutura social, que jamais 
poderiam servir de princípio explicativo 
do funcionamento da economia. 

É interessante notar que a ausência de 
diálogo entre marginalistas e marxistas 
foi se agravando na medida em que uma 
e outra doutrina iam se consolidando en- 
quanto ortodoxias. Ainda no fim do sê- 
culo XIX, a publicação do 3.º volume de 
O Capital de Marx, por Engels, deu azo 
a uma importante polêmica entre Bôhm- 


KEYNES 


Desde meados do século XVIII, quando começou a Revolução Industrial, a análise 
dos problemas econômicos passou a ocupar a atenção dos pensadores. 
A partir de então, a Economia Política, cuja fundação seatribui 
a Adam Smith, ganhou importância cada vez maior entre as ciências humanas. 
(A foto acima mostra um aspecto do intenso movimento da Bolsa de Londres.) 


Bawerk, um dos mais importantes ex- 
poentes do marginalismo, e Hilferding, 
que se iria revelar pouco depois como 
um teórico marxista dos mais destaca- 
dos. Dai em diante, no entanto, cada 
uma das correntes iria se fechar cada 
vez mais em seu próprio campo. 


O MALOGRO DO 
MARGINALISMO 


Essa progressiva cessação do diálogo 
foi acompanhada também pelo relativo 
esgotamento da criatividade teórica, na 
medida em que a realidade econômica 
que tinha inspirado tanto uma como a 
outra doutrina — o capitalismo indus- 


trial europeu da segunda metade do sê- 
culo XIX — estava se alterando. A forma 
como isso se deu foi naturalmente dife- 
rente num caso e no outro. O margina- 
lismo foi perdendo contato com a reali- 
dade na medida em que o capitalismo se 
foi tomando mais monopolista e por- 
tanto cada vez mais afastado dos mode- 
los de concorrência perfeita com os 
quais a análise marginalista lidava. Já 
PE a Primeira Guerra Mundial, o 
“laissez faire” teve que ser abandonado 
por uma política econômica de planeja- 
mento centralizado em todas as nações 
beligerantes, ou seja, em todas as potên- 
cias industriais. Após a Guerra. houve 
um curto período, durante os anos vinte, 


927 


OS PENSADORES 


em que se tentou voltar ao liberalismo. 
Tais tentativas desembocaram, no en- 
tanto, na crise de 1929 e na profunda e 
prolongada depressão, que se estendeu 
até o fim da década seguinte. Nessa si- 
tuação, em que de 15 a 20% do proleta- 
riado das principais nações industriais 
estavam desempregados, os economistas 
oficiais, presos aos esquemas de pensa- 
mento marginalista, só tinham a ofere- 
cer conselhos no sentido de que a econo- 
mia deveria ser deixada a si mesma para 
reencontrar seu equilibrio. Politica- 
mente, tais conselhos equivaliam a um 
convite ao suicídio. 

O malogro do marginalismo não se 
deu, porém, apenas no plano político: 
ocorreu também no intelectual. Toda 
análise baseada na utilidade marginal 
supunha que a existência de desempre- 

ados só podia se explicar pela recusa 
des mesmos em trabalhar por níveis de 
salário compatíveis com produtividade 
marginal. Já era dificil de se crer nesse 
tipo de explicação mesmo em épocas 
normais; mas num periodo de desem- 
prego em massa, em que era óbvio que 
milhões de homens e mulheres aceita- 
riam trabalho por qualquer remunera- 
ção maior que o miserável seguro contra 
o desemprego que recebiam, ela era sim- 
plesmente ridícula. O ni Raja no 
entanto, não podia formular qualquer 
outra explicação sem negar os postula- 
dos em que se baseava. 

Quanto ao marxismo, o periodo ante- 
rior à Primeira Guerra Mundial anda 
foi relativamente fértil, marcado pelas 
análises do imperialismo e do capita- 
lismo monopolista por parte de Hilfer- 
dng, Rosa Luxemburgo, Lenin e Bukha- 
rm — estes dois últimos escrevendo já 
durante a Guerra. Em 1917, no entanto, 
a vitória da Revolução de Outubro torna 
o marxismo ortodoxia oficial no antigo 
império russo. Com o passar dos anos, 
a interpretação lenmista torna-se a 
única aceita, sendo as demais banidas 
não apenas da União Soviética mas tam- 
bém dos Partidos Comunistas agrupados 
na 3.º Internacional. Com a consolida- 
ção de Stalin no poder, a partir de 1929, 
a polêmica no próprio seio do marxismo 
é reprimida e em seu lugar surge um 
dogmatismo cada vez mais estéril. 

É, sem dúvida, a ascensão do Stali- 


928 


nismo o principal fator da relativa este- 
rilidade da economia política marxista 
durante o período de entre- -guerras, mas 
não se deve deixar de mencionar também 
o abandono, após 1914, de qualquer 

perspectiva revolucionária por parte dos 
partidos ligados à 2.º Internacional, e a 
destruição do movimento operário pelo 
fascismo em uma série de países (Hun- 
gria, Polônia, Itália, Alemanha, Áustria, 
Espanha, etc.), cuja intelectualidade 
marxista foi morta, presa ou exilada. 
Foi um periodo de derrotas para a 
esquerda, durante o qual, com raras 
exceções, O pensamento marxista se 
refugiou na repetição de velhas fórmulas 
consagradas e em sua aplicação mecã- 
nica à realidade. Com exceção da polê- 
mica sobre a industrialização e o papel 
da economia camponesa — que se travou 
na União Soviética, durante os anos vinte 
—, O pensamento econômico marxista 
não apresentou avanços significativos 
antes que se abrisse a nova fase, inaugu- 
rada pela Revolução Keynesiana. 

Essa Revolução está ligada ao nome 
de Keynes, por ser este o autor mais 
conhecido entre os que se dedicaram a 
demolir os preceitos envelhecidos das 
ortodoxias. Sua celebridade contribuiu 
para que certas idéias novas chamassem 
a atenção de todos e ganhassem a adesão 
de grande parte da nova geração de 
economistas. Mas, como o mostra Joan 
Robinson, em Liberdade e Necessidade, 
as principais teses da Teoria Geral do 
Emprego, do Juro e da Moeda, que Ke 
nes publicou em 1936, já tinham sido 
antecipadas por Gunnar Myrdal e Mi- 
chael Kalecki, embora Keynes não o 
soubesse. 


COMBATE À ORTODOXIA 


Na realidade, a revolta contra o orto- 
doxia marginalista no seio mesmo de 
uma de suas fortalezas mais importan- 
tes, a Universidade de Cambridge, come- 
çou em 1926, quando Piero Sraffo, então 
um jovem refugiado da Itália, publicou 
um artigo que fez furor. Chamava-se 
“The Laws of Returns under Competitive 
Conditions” e saiu no prestigioso Econo- 
mico Journal. Nesse artigo, de apenas 
quinze páginas, Sraffa mostrava que o 
pressuposto da concorrência perfeita 


KEYNES 


Nas primeiras décadas do século XX, a Economia Política foi palco de lutas 
teóricas entre duas correntes divergentes: o marginalismo eo marxismo. 
Apesar de lecionar no reduto dos mar. ginalistas, o economista John Maynard 
Keynes foi um dos principais responsáveis pela superação desses pontos 
de vista opostos. (King's College, Cambridge, onde Keynes foi estudante.) 


uase não se aplicava a qualquer merca- 
dE real e que se deveria reconstruir a teo- 
ria dos preços a partir da constatação de 
que a maioria das empresas industriais 
podia usufruir de ganhos de escala e que 
portanto lhes convinha crescer até o 
ponto em que tais ganhos são compensa- 
dores — donde resulta que a maior parte 
dos mercados são regidos por “concor- 
rência imperfeita” ou “concorrência mo- 
nopolística”. Nesse ponto, explicita- 
mente ou não, Sraffa dava razão a Marx, 
que já tinha mostrado que os ganhos de 
escala eram um dos principais fatores da 
concentração do capital. 
O artigo de Sraffa desencadeou forte 
polêmica, provocando uma série de 


obras a respeito da economia monopolis- 
tica, entre as quais se destacava a obra 
de estréia de Joan Robinson, The Econo- 
mics of Imperfect Competition, publi- 
cada em 1933. Um dos mais importantes 
dogmas do marginalismo acabava de 
cair e, ao mesmo tempo, as teses marxis- 
tas sobre o capitalismo monopolista, or 
muladas principalmente por Hilferdin 

Lenin, começaram a ser complementadas 
por um tratamento mais detalhado de 
como diferentes tipos de monopólios se 
comportam no mercado. E preciso dizer 
que os novos teóricos do monopólio — 
como Joan Robinson, E. A. G. Robinson 
e E. H. Chamberln — provavelmente 
ignoravam que estavam tratando de um 


929 


TE TT TE ETTA TITO EEE 


Fabbri 


OS PENSADORES 


assunto já amplamente debatido por 
autores marxistas. Não obstante, o seu 
trabalho começou a arrasar o muro que 
separava uma corrente da outra. 

Nesse meio tempo, John Maynard 
Keynes já era uma figura amplamente 
conhecida. Bem mais velho que os de- 
mais autores — Sraffa nasceu em 1898, 
Kalecki em 1899 e J. Robinson em 1903 

Keynes já era consagrado como teó- 
rico e político. Filho de um professor de 
Cambridge, nasceu em 1883 e se formou 
na mesma universidade, tornando-se 
professor dela em 1909. Protegido o 
célebre economista Alfred Marshall, 

apa da ortodoxia marginalista, Kms 
oi nomeado redator do Economic Jour- 
nal em 1911; dois anos depois tomou-se 
secretário e redator da Sociedade Real 
de Economia. Ao mesmo tempo que obti- 
nha sucessos em sua carreira acadêmica, 
Keynes trabalha no serviço público, 
ingressando no Tesouro em 1915, onde 
ocupou elevados cargos. Foi o represen- 
tante financeiro do Tesouro britânico na 
Conferência de Paz, em 1919. 


REVOLUÇÃO KEYNESIANA 


As obras de Keynes mostram bem 
uais eram suas preocupações, sempre 
ligadas a problemas práticos do momen- 
to. Ele não estava interessado em recons- 
truir a teoria econômica a partir da teo- 
ria do valor, mas em verificar por que as 
teses marginalistas, nas quais ele fora 
educado, levavam a receitas de política 
econômica totalmente irrelevantes. Foi 
essa atitude que o levou a escrever em 
1930 o Treatise on Money (Tratado 
sobre a Moeda), no qual, segundo Joan 
Robinson, sob o pretexto de tratar da 
moeda e do nivel de preços, ele estava 
lançando as bases da análise do nível 
geral de produção. Tais bases acabaram 
sendo definitivamente constituídas na 
Teoria Geral do Emprego, do Juro e da 
Moeda e abriram uma brecha enorme no 
conjunto de dogmas sobre os quais se 
assentava o marginalismo. 

Supunha-se então, nos meios econô- 
micos “respeitáveis” de todos os países 
capitalistas, que uma economia de mer- 
cado encontrava naturalmente seu equi- 
líbrio numa situação em que todos que 
desejassem trabalhar por uma remunera- 


930 


ção correspondente à sua produtividade 
marginal poderiam fazê-lo. Em determi- 
nadas circunstâncias essa remuneração 
poderia ser baixa, por exemplo, devido 
aos rendimentos decrescentes resultantes 
do desequilíbrio. entre população e recur- 
sos naturais, oO que acarretaria uma 
rodutividade reduzida do “último tra- 

alhador”. Como o empresário não pode, 
racionalmente, pagar mais do que a 
produtividade marginal, é possível que 
certo número de pessoas preferisse ficar 
fora do mercado de trabalho, isto é, 
como desempregados voluntários. Porém 
não poderia haver desempregados invo- 
luntários, isto é, pessoas que querem tra- 
balhar pelo salário corrente e não encon- 
tram quem queira empregá-las, a não ser 
que por algum fator extra-econômico — 
pressão sindical por exemplo — o nível 
salarial não pudesse baixar ao nível da 
produtividade marginal de pleno empre- 
go. Em tais circunstâncias, qualquer 
política destinada a promover o e po 
seria inútil quando não prejudicial 
Supunha-se também que numa economia 
de mercado ) Jamais poderia haver super- 
produção, já que a cada venda corres- 
ponde uma compra. Esse postulado, que 
se deve ao economista Seara Say, é 
“evidente por si mesmo” num mercado 
não-monetário, onde se dá o escambo, 
isto é, a troca direta de mercadoria por 
mercadoria. Admitia-se que as econo- 
mias industriais comportam-se atual- 
mente da mesma maneira, sendo o seu 
funcionamento apenas menos evidente 
por se encontrar encoberto pelo “véu 
monetário”. Em suma, a crise que sacu- 
dia as nações capitalistas durante meia 
dúzia de anos simplesmente não existia 
para os marginalistas, ou não passaria 
de um desajustamento temporário, que 
se corrigiria por si mesmo. 

Keynes critica este conjunto de cren- 
ças, mostrando que, a cada momento, o 
nível de emprego, numa economia capi- 
talista, depende da demanda efetiva, ou 
seja, da proporção da renda que é gasta 
em consumo ou investimento. Ao contrá- 
rio da Lei de Say, numa economia mone- 
tária é possivel receber sem imediata- 
mente gastar o dinheiro, ou seja, é 


“possível vender sem comprar. 


Uma das inovações de Keynes foi mos- 
trar que, numa economia capitalista, 


KEYNES 


MEM: 


E 
a 
y 

M 


Keynes casou-se em 1925, aos 42 anos de idade, com a dançarina soviética 
Lídia Lopokova. Nessa época, o economista ocupava o cargo de primeiro 
tesoureiro do King's College da Universidade de Cambridge, colaborando 

regularmente no Economic Journal, uma das mais importantes publicações 

especializadas em Economia Política. (Keynes e a esposa, após o casamento.) 


931 


Bettmann Archive 


OS PENSADORES 


qualquer quantia de dinheiro é suscetível 
de ser aplicada lucrativamente, mas que, 
conforme o “estado das expectativas” 
pode haver vantagem em reter o dinhei- 
ro, isto é, em entesourá-lo. Quando o 
entesouraménto aumenta, em virtude de 
uma elevação da “preferência pela liqui- 
dez”, é claro que o volume de vendas su- 
pera o de compras, ou em outras pala- 
vras, a demanda efetiva por mercadorias 
cai. O que acontece, nesse caso, é que há 
um crescimento de estoques invendáveis, 
caracterizando uma situação de super- 
produção. Para resolvê-la, o nível de ati- 
vidade diminui, o que reduz a renda, 
ajustando-a ao nível (agora mais baixo) 
da demanda efetiva. 


RENDA E CONSUMO 


Keynes sugeriu também que o nivel de 
consumo dos indivíduos depende da 
renda, mas varia muito menos do que 
esta. Assim, quando a renda sobe, o con- 
sumo individual cresce em menor pro- 
porção, havendo portanto um aumento 
mais que proporcional da diferença entre 
renda e consumo, isto é, da poupança. 
Ora, a poupança é constituída por recur- 
sos que podem ser investidos, mas para 
que o sejam é preciso que os empresários 
assumam o risco de. fazê-lo. Keynes tem 
plena consciência da separação entre o 
capitalista monetário ou rentista e o ca- 
pitalista industrial ou empreendedor. Ê 
este que assume os riscos do negócio e 
toma dinheiro emprestado do primeiro, 
comprometendo- se a pagar uma taxa de 
Juros prê-fixada. É claro que ele só o 
fará se essa taxa de juros for convenien- 
temente inferior à sua perspectiva de lu- 
cros ou, como a chamou Keynes, da “efi- 
ciência marginal do capital”. Sendo os 
Juros Sado: demais, a inversão não 
absorve toda a renda poupada e a dife- 
rença permanece entesourada, com a 
consequente queda da demanda efetiva, 
do nível de atividade, etc. 

Dessa maneira, Keynes mostrou que 
uma economia capitalista pode encon- 
trar seu nível de equilibrio — no qual a 

oupança corresponde à inversão “deli- 
bsradas sem que se formem estoques 
não desejados — em situações que de 
modo algum permitem o pleno emprego 
de todos os seus recursos, sobretudo dos 


932 


humanos. Para que tais economias atin- 
Jam o pleno emprego e nele permaneçam, 
é preciso que políticas adequadas sus- 
tentem a demanda efetiva, de modo que, 
a cada elevação da renda, o consumo e a 
inversão também cresçam. preciso, 
portanto, dotar o Estado de instrumentos 
efetivos de política econômica, que lhe 
permitam regular a taxa de juros de 
modo a mantê-la abaixo da “eficiência 
marginal do capital”, incrementar o con- 
sumo mediante a expansão dos gastos 
públicos e expandir a inversão por meio 
de empréstimos públicos capazes de 
absorver Os recursos ociosos. 

Keynes defendeu muitas dessas idéias 
mesmo antes da grande crise de 1929, 
mas ele só as reuniu num corpo teórico 
consistente na Teoria Geral, em 1936. 
Seu impacto intelectual foi enorme, pois 
ele removia do terreno a maior parte dos 
obstáculos que impediam que os econo- 
mistas acadêmicos pudessem oferecer 
soluções concretas aos problemas econô- 
micos da conjuntura. O impacto político 
não foi menor, mas algo retardado. 
Enquanto os efeitos do livro ainda rever- 
beravam, a Segunda Guerra Mundial 
lançava todas as nações industriais em 
frenética corrida armamentista, liqui- 
dando os efeitos da grande depressão. 
Foi só no após-guerra que a lição Keyne- 
siana foi aprendida e cuidadosamente 
aplicada pelos governos das nações capi- 
talistas: o pleno emprego tornou-se um 
objetivo explícito da mais alta priori- 
dade e os instrumentos de política econô- 
mica foram postos em ação, com resulta- 
dos tão notáveis que podem ter 
inaugurado uma nova fase da história do 
capitalismo. É dificil i imaginar que outro 
tratado teórico de economia exceto O 
Capital, tenha tido impacto análogo na 
conduta dos homens. 


A DINÂMICA DO 
CAPITALISMO 


O sistema de Keynes, sem que ele o 
soubesse, tinha sido antecipado por ou- 
tros autores, entre os quais Michal 
Kalecki. Nascido na Polônia, Kalecki 
estudou em Varsóvia e em Lodz e, após 
um longo periodo em que se sustentou 
com empregos precários, conseguiu ser 
admitido, em 1929, no Instituto de Pes- 


E CDS = 


KEYNES 


quisa da Conjuntura e dos Preços, em 
Varsóvia. Foi enquanto trabalhava nesse 
Instituto que Kalecki desenvolveu sua 
teoria de dinâmica econômica capita- 
lista, cuja primeira visão apareceu em 
1933, sob o título de Proba Teorii 
Koniunktury (Tentativa de Teoria da 
Conjuntura). No mesmo ano, Kalecki 
apresentou sua teoria numa conferência 
da Sociedade Internacional de Econome- 
tria, que teve lugar em Leyden, na 
Holanda, sendo o trabalho publicado na 
revista Econometria, em 1935. Apesar 
disso, sua teoria não chamou a atenção 
aquela época e foi co ed ofus- 
cada pela Teoria Geral de Keynes, que 
veio a lume no ano seguinte. Kalecki 
tinha recebido uma bolsa da Fundação 
Rockefeller e foi à Suécia para entrar em 
contato com Gunnar Myrdal e outros 
economistas. Ah ele iniciou um outro 
livro, mas o abandonou quando soube da 
aparição do livro de Keynes em que solu- 
ções análogas às suas tinham sido pro- 
postas. Dirigiu- se então a Londres e a 
Cambridge, onde conheceu Joan Robin- 
son e Piero Sraffa, e, através destes, 
Keynes. Este o convidou a trabalhar em 
Cambridge. onde ele ficou até 1940, 
uando se transferiu para Oxford, onde 
icou quase até o fim da guerra. Em 
Cambridge, Kalecki E um livro 
em que expôs, de modo mais amplo, sua 
teoria: Essays in the Theory of Economic 
Fluctuations (Ensaios sobre a Teoria das 
Flutuações Econômicas), que saiu em 
1939. Enquanto trabalhava em Oxford, 
Kalecki prosseguiu em seus estudos teó- 
ricos e em 1943 apareceram seus Stu- 
dies in Economic Dynamics. 

Após breves interlúdios em Paris, 
Montreal e Varsóvia, Kalecki assumiu 
em 1946 um posto no Secretariado das 
Nações Unidas, onde se encarregou da 
confecção dos “Relatórios sobre a Eco- 
nomia Mundial”. Essa série de publica- 
ções anuais de elevado nível esteve sob 
responsabilidade de Kalecki até 1954, 
quando sob pressão política, ao que pa- 
rece sobretudo dos americanos, foi leva- 
do a pedir sua demissão. 


Bettmann Archive 


Na época de seus primeiros anos de 


casamento, Keynes trabalhou no O CAPITALISMO 


Comitê Governamental das Finanças e VISTO POR KALECKI 
Indústria, órgão da Coroa Britânica (O 
economista e Lídia Lopokova). Kalecki, ao contrário de Keynes, 
933 


OS PENSADORES 


inspirou-se muito mais na economia 
marxista do que no marginalismo. Seu 
objetivo não era, como o E Keynes, sal- 
var o capitalismo das consegiências de 
suas contradições, mas sobretudo anali- 
sá-la com todo o rigor. É claro que para 
os marxistas, as crises do capitalismo, 
como a de 1929, não somente eram reais 
como também necessárias. O mecanismo 
que as produzia, no entanto, permanecia 
obscuro, embora haja inúmeras indica- 
ções na obra de Marx a esse respeito. 
Quem, depois de Marx, mais se ocupou 
do assunto foi Rosa Luxemburgo, que 
punha em dúvida a motivação dos capi- 
talistas de investirem a mais valia acu- 
mulada a não ser que houvesse uma pré- 
via expansão do consumo. Dessa 
maneira ela colocou um problema que, 
de outro prisma, Keynes esignou como 
o da “demanda efetiva” 

Kalecki não dividia o mundo em con- 
sumidores-poupadores de um lado e em- 
preendedores do outro, mas em traba- 
lhadores e capitalistas. Os primeiros 
ganham salários apenas suficientes para 
sua sobrevivência e portanto têm que 
dispendê-los em bens de consumo. Só 
aos capitalistas resta a opção de gastar 
em consumo ou em inversão uma pro- 
porção maior ou menor de seus lucros. 
Havendo capacidade ociosa e desem- 
prego, o nível de atividade depende, em 
última análise, dos gastos dos trabalha- 
dores, que já são dados, e dos capitalis- 
tas, que podem ser maiores ou menores. 
Se os gastos dos capitalistas aumentam, 
haverá maior demanda por bens de con- 
sumo e/ou de produção, o nível de ativi- 
dade e de emprego vai subir e no fim os 
lucros dos capitalistas também serão 
maiores. É por isso que Kalecki diz que 

“os trabalhadores gastam o que ganham 
e os capitalistas ganham o que gastam”. 
É claro que além de trabalhadores e ca- 
pitalistas há outros setores que integram 
a demanda efetiva: o Estado e o resto do 
mundo (exportações). A demanda efetiva 
também crescerá se o Estado gastar 
mais do que arrecada sob a forma de tri- 


Fato fundamental na história 
econômica do século XX foi o crack 
da Bolsa de Valores de Nova York, 

em 1929. (Wall Street em um de seus 

dias de desespero, em 1929.) 


934 


T-—w————"n-—-—--oo—hm 
[nn 


KALECKI 


. ms e cu 


EEE pa 


Ao ENA AM 


«vasênsos séúseshs: ef 
a E niónnho., 


OS PENSADORES 


As sucessivas crises económicas, depressão e ds A comuns nos países 


capitalistas, levou Keynes a investigar os motivos 


as variações de produção 


e emprego. O economista concluiu que o fator responsável pela alteração 


do emprego é a procura de mão-de-obra e não a oferta, contrapondo-se, 


assim, aos marginalistas (Londres, 1932: manifestação de desempregados.) 


butos (deficit orçamentário) e se o pais 
conseguir exportar mais do que importa 
(excedente na balança comercial). A de- 
cisão crucial, no entanto, é dos capitalis- 
tas quanto a investir. Na medida em que 
o fazem, a produção e os lucros sobem 
até o ponto em que os lucros acumulados 
(poupança) são equivalentes ao valor da 
inversão. A relação entre produto e lu- 
cros depende de fatores de distribuição 
da renda, que por sua vez dependem do 
grau de monopólio das empresas. 

O mundo capitalista, visto por Kale- 
cki, é regido por decisões dos capitalis- 
tas quanto à inversão, por decisões do 
Estado quanto ao equilí rio orçamentá- 
rio e pelo comércio internacional. Nesse 
mundo os ciclos de conjuntura são inevi- 
táveis mas a profundidade das crises e 
sua duração dependem de decisões poli- 
ticas e não apenas das forças cegas do 
mercado. Essa observação póde parecer 
óbvia hoje, após mais de vinte anos de 
política keynesiana em quase todos os 
países capitalistas, mas era certamente 
heterodoxa nos meios marxistas, da- 
quela época, que esperavam com abso- 
luta fé que a crise dos anos trinta reco- 
meçaria tão logo os efeitos da guerra se 
desvanecessem. Nesse sentido, Kalecki 
desempenhou no lado marxista um papel 
análogo ao de Keynes entre os margina- 


936 


. 


listas, embora com impacto e êxito 
muito menores: o de sacudir a compla- 
cência com que se esperava que a adesão 
irrestrita dos estados capitalistas ao 
“laissez-faire” levasse a classe domi- 
nante a cavar sua própria sepultura. Ka- 
lecki ainda durante a guerra, em 1943, 
escreveu um artigo profético “The Poli- 
tical Aspects of Full Employment” no 
Political Quarterly, no qual prevê que o 
andamento da conjuntura dependerá 
cada vez mais de decisões políticas, do 
que resultaria o “ciclo de conjuntura 
político” — o que permite entender as 
contradições que o capitalismo contem- 
porâneo apresenta. 


JOAN ROBINSON 


Como se vê, não se limitou a Revolu- 
ção Keynesiana à corrente marginalista. 
Com Kalecki, a ortodoxia marxista tam- 
bém foi atingida, embora seus efeitos se 
tenham feito sentir algo mais tarde. Mas 
não há dúvida de que o grande debate 
que surgiu nos meios marxistas, a partir 
dos anos sessenta, sobre o caráter do es- 
tado capitalista contemporâneo e da 
etapa atual do sistema é prova que o 
imobilismo foi mesmo abandonado. 

Se a presença de Sraffa e Kalecki em 
Cambridge serviu para que o intercâm- 


42. : 
Fabbri 
ee crer tr tetas Ee Ea Ee errar a —— o —————— 


E SS SS = es 


KALECKI- ROBINSON 


IGHT THE BATTLE 
FOR BREAD 


atan ums 
Agricultural Camp 


ASK AT THE COUNTER FOR LEAFLET 


Segundo Keynes, somente o Estado tem capacidade ara conferir 


Fabbri 


equilíbrio ao sistema econômico de uma nação. Isso deveria ser feito 
através de medidas para incrementar o pleno emprego e para desencorajar o 
entesouramento individual. (Cartaz inglês de propaganda para 
aumento da produção de trigo e pão; Museu Cívico do Ressurgimento, Milão.) 


937 


e Ties 


OS PENSADORES 


Keynes destruiu grande parte dos pressupostos da Economia clássica, 
utilizando muitos dos argumentos de Marx, embora menosprezasse o marxismo 
como ciência. Joan Robinson, sua discípula, foi além, fazendo uma 
crítica radical da economia capitalista, para a qual se valeu abundantemente 
das teses marxistas. (Joan Robinson; Ramsey & Muspratt, Cambridge.) 


938 


ROBINSON 


bio de idéias entre marginalistas e mar- 
xistas recomeçasse pelo menos no plano 
pessoal, não há dúvida de que foi Joan 
Robinson, mais do que ninguém, que fez 
com que as últimas barreiras da incomu- 
nicação caissem. Educada na ortodoxia 
marginalista, Joan Robinson começou, 
como já foi visto, por desafiar o pressu- 
posto da livre concorrência. Em seguida 
uniu-se a Keynes como um de seus mais 
destacados seipulos e ajudou a divul- 
gar e interpretar o novo evangelho. 
Embora Keynes tenha destruído 
grande arte da consagrada doutrina 
marginalista, inclusive com argumentos, 
em parte ao menos, análogos aos de 
Marx, ele menosprezava completamente 
a economia marxista como ciência. Joan 
Robinson, no entanto, tinha menos 
apego ao capitalismo como sistema e, 
uma vez verificada a fragilidade do 
mesmo, passou a interessar-se por sua 
critica mais radical. Em 1944, no livro 
intitulado Economia Marxista, ela tenta 
tornar compreensíveis para o economista 
acadêmico as principais teses de O Capi- 
tal. Ao fazer isso, no entanto, rompe com 
o margimalismo sem aderir ao mar- 
xismo. À sua posição é definida, nessa 
altura, do seguinte modo: “Os economis- 
tas ortodoxos, como um todo, identifica- 
ram-se com o sistema e assumiram o pa- 
pel de seus apologistas, enquanto Marx 
se pro ôs a entender o funcionamento do 
capitalismo a fim de apressar sua derru- 
bada. Marx estava consciente desse pro- 
pósito. Os economistas, numa incons- 
ciência total”. E mais adiante: “Neste 
interim, os economistas acadêmicos, 
sem prestar muita atenção a Marx, fo- 
ram forçados pelas experiências dos 
tempos modernos a questionar muito da 
apologética ortodoxa, e os progressos 
recentes da teoria acadêmica levaram- 
nos a uma posição que, em algum sen- 
tido, assemelha-se muito mais à posição 
de Marx do que à de seus antecessores” 
Joan Robinson estava rompendo poli- 
ticamente com o marginalismo, sem se 
desligar metodologicamente do mesmo. 
Esse desligamento se dá nos anos se- 
uintes, sendo marcado pela publicação 
de 4 Acumulação do Capital, em 1956, 
no qual ela empreende uma incursão na 
análise do desenvolvimento geral de uma 
economia capitalista, tema querido aos 


No. 175 SEPTEMBER 1934 


ECONOMIC 
JOURNAL 


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Uma das mais. importantes publicações 
sobre Economia Política, em todo 
o mundo, Economic Journal, foi 
dirigido por John Maynard Keynes 


durante muitos anos, desde 191 Fa 


clássicos de A. Smith a Marx, mas que 
tinha sido abandonado pelos marginalis- 
tas. Realiza a análise sem aderir a ne- 
nhuma teoria do valor, o que evidente- 
mente lhe impede de formular leis que 
regem a acumulação do capital, sendo 
obrigada a se limitar a uma certa casuís- 
tica de modelos. Nos Ensaios sobre a 
Teoria do Crescimento, esse tipo de aná- 
lise está bem representado. Ela constitui 
parte integrante da macro-economia mo- 
derna, que tenta entender o funciona- 
mento do capitalismo usando indistinta- 
mente conceitos e teses tiradas do 
marginalismo (ao menos em sua versão 
keynesiana) e do marxismo. 


939 


OS PENSADORES 


O grande mérito das análises da diná- 
mica econômica de Joan Robinson está 
na crítica aguda e mordaz do preten- 
sioso edificio lógico construído pelos 
marginalistas e que, apesar de capenga, 
continua sendo apresentado como o 

único corpo “científico” de conhecimen- 
tos econômicos. Joan Robinson em lugar 
de efetuar a crítica “de fora”, como o fa- 
zem usualmente os marxistas denun- 
ciando as intenções apologéticas e os 
conceitos inadequados, examina as pro- 
posições marginalistas a partir “de den- 
tro”, de seus próprios pressupostos lógi- 
cos, denunciando suas inconsistências e 
sobretudo suas pretensões injustificadas 
de dizer algo ore o mundo real. 

Joan Robinson abriu caminho para 
um tipo de pensamento econômico que, 
por se recusar a qualquer ortodoxia, 
pode ser tido como eclético. Ele tem se 
adaptado bem à política amorfa das ins- 
tituições internacionais, particularmente 
dos órgãos intergovernamentais ligados 
à ONU, que têm que conciliar as posi- 
ções divergentes de seus integrantes. Os 
trabalhos de análise econômica produzi- 
dos pela CEPAL são um bom exemplo de 
como esse tipo de pensamento consegue 
produzir resultados significativos. 

Em Liberdade e Necessidade, um dos 
seus últimos livros, Joan Robinson traça 
um grande panorama, das origens da so- 
ciedade até os dias de hoje. Trata-se de 
uma interpretação da história da huma- 
nidade e não de uma história da econo- 
mia e seu maior significado está nisso: 
mostra a necessidade de reintegrar a 
chamada ciência econômica no conjunto 
das ciências do homem e, ao mesmo 
tempo, de que estas estejam solidamente 
ancoradas nas ciências da natureza. Sua 
fraqueza metodológica revela-se à me- 
dida que a obra avança em direção ao 
mundo contemporâneo; seu tom torna-se 
cada vez mais opinativo e as análises 
perdem em profundidade. 

A grande contribuição de Joan Robin- 
son para o pensamento econômico está 
na sua própria trajetória intelectual, que 
abriu vastos horizontes a toda uma nova 
geração de economistas, que, graças a 
ela e a alguns de seus companheiros, 
pôde lançar mão de um acervo de conhe- 
cimento muito mais rico do que na época 
em que todos estavam quase que obriga- 


940 


toriamente filados a uma ou outra cor- 
rente doutrinária, cada quai paralisada 
em seu próprio dogmatismo. 


SRAFFA: : 
A MERCADORIA-PADRAO 


Piero Sraffa escreveu relativamente 
pouco. Além do celebrado artigo, já 
mencionado, ele apenas editou as obras 
de Ricardo, para as quais escreveu um 
importante prefácio, e publicou, em 
1960, A Produção de Mercadorias por 
meio de Mercadorias. Constitui esse 
livro a obra de toda uma vida, pois, 
como Sraffa mesmo indica no prefácio, 
ele o começou em 1925, tendo levado 
“um tempo desproporcionado para um 
trabalho tão curto”. Na verdade, o autor 
está sendo muito modesto: seu livro de 
reduzido tamanho já teve uma enorme 
repercussão no pensamento econômico 
contemporâneo e é fácil prever que terá 
repercussão ainda maior no futuro. 

Apesar de fácil leitura, 4 Produção de 
Mercadorias por meio de Mercadorias é 
de dificil absorção, pois os muitos pro- 
blemas que aborda não estão explicita- 
dos, ocultando-se sob uma simplicidade 
enganadora. É isso que explica que a 
repercussão inicial da obra tenha sido 
modesta. Levou mais de dez anos para 
que seu significado tenha penetrado nas 
consciências e passado a fecundar um 
crescente número de estudos e análises. 
Não é exagero dizer que Sraffa possivel- 
mente tenha proporcionado um novo 
ponto de partida lógico para a análise do 
capitalismo, estando a maior parte dos 
seus frutos ainda por vir. 

A Produção de Mercadorias começa 
por construir um quadro do tipo insu- 
mo-produto no qual as relações de troca 
entre diferentes valores de uso são deter- 
minadas por coeficientes técnicos e pela 
estrutura da demanda. Mostra a seguir 
que, havendo um excedente, mesmo que 
se suponha a mesma taxa de lucro em 
todos os setores, os preços relativos e 
essa taxa de lucro se determinam mutua- 
mente. Quando se adiciona o salário ao 
sistema, o número de equações é menor 
que o de incógnitas, o que significa que 
apenas quando é fixado seja o salário 
seja o lucro é que os preços relativos se 
determinam. 


ROBINSON SRAFFA 


Na Conferência Internacional de Bretton Woods, em 1944, Keynes apresentou um 
plano que propunha o abandono do padrão-ouro, a estabilização internacional 
moeda e a criação do Fundo Monetário Internacional, presidido por ele, em 
1946. Contudo, o apego dos Estados Unidos ao padrão-ouro tornou impossível 
a aplicação de suas sugestões. (Com Henry Morgethau, em Bretton Woods.) 


Para demonstrar que, num sistema 
abstrato que apresenta as principais 
caracteristicas da economia capitalista, 
existe um conjunto de relações que 
determinam os preços relativos, os salá- 
rios e os lucros, Sraffa precisava de- 
monstrar que tais quantias são comensu- 
ráveis, ou seja, que podem ser reduzidas 
ao mesmo denominador. Para resolver 


esse problema, Sraffa utilizou um 
[aa E LAS : 

construto teórico — a mercadoria- 
padrão — que se compõe de todas as 


mercadorias básicas (isto é, as que en- 
tram na produção de outras mercado- 
rias) em tal proporção que * 'o produto e 
os meios de produção são quantidades 
da própria mercadoria composta”. A 


mercadoria-padrão tem por caracte- 
rística conservar o mesmo preço face a 
qualquer variação dos salários ou lu- 
cros, o que não se dá com nenhuma mer- 
cadoria simples. Esta terá não só seu 
custo de trabalho acrescido, se o salário 
aumenta, mas os seus eos também 
sofrerão aumentos em proporções variá- 
veis, conforme a proporção do custo do 
trabalho em seus custos totais. 

Como essas proporções variam entre 
as diversas indústrias, cada mercadoria 
será afetada de modo diferente por um 
aumento de salários, de modo que no fim 
— depois que a alteração salarial tiver 
reajustado os preços — mercadorias que 
eram mais baratas que outras podem ter 


941 


Fabbr 


OS PENSADORES 


As principais teses da revolução 
keynesiana foram antecipadas pelo 
economista polonês Michael Kalecki, 
ue desenvolveu uma teoria da 
núâmica económica capitalista. 


ficado mais caras, e sucessivamente. 

Com a mercadoria-padrão Sraffa des- 
cobriu uma espécie de pedra filosofal da 
economia, à cuja procura estiveram 
Ricardo, Marx e muitos outros: a de 
uma medida mvariante do valor. Com 
esta sua descoberta, Sraffa mostrou que 
uma teoria objetiva do valor é perfeita- 
mente possível e se pode, a partir dela, 
construir uma visão coerente — embora 
complexa — do movimento dos grandes 
agregados econômicos e das leis que os 
regem. Ele mesmo inicia a aplicação 
desta sua teoria ao problema da depre- 
ciação do capital fixo, da renda da terra 
e do deslocamento dos métodos de 
produção. 


942 


P.A. Interpress Photos 


O VALOR-TRABALHO 


Na verdade, para Sraffa o “construto” 
teórico da mercadoria-padrão é “pura- 
mente auxilhar”. Ela lhe serve apenas 
para mostrar que a comensurabilidade 
das quantias é logicamente possível em 
termos de valor, mas este tem como “me- 
dida mais tangível” o trabalho. Na ver- 
dade, o que Sraffa precisa é de uma me- 
dida do valor que permita descontar 
preços passados, transformando-os em 
valores presentes, já que cada mercado- 
ria incorpora uma longa série de outras 
mercadorias, que ajudaram a produzi-la. 
É preciso pois reduzir essas outras 
mercadorias a um valor atual e nesse 
processo de redução as mercadorias vão 
se dissolvendo até que somente resta 
“trabalho datado”. Demonstra Sraffa, 
desse modo, que, num sistema em que 
mercadorias são produzidas por meio de 
mercadorias, os preços relativos, os 
salários e os lucros são determinados, 
em última análise, pelo tempo de traba- 
lho que é gasto na produção dessas 
mercadorias. 

Verifica-se, pois, que a Teoria do 
Valor-Trabalho é a base necessária para 
se poder formular teorias consistentes 
sobre a alocação de recursos entre os 
diferentes ramos de produção sobre a 
repartição da renda entre as diferentes 
classes sociais, sobre o Nro gresso técnico 
e os demais temas cardiais da economia 
política. É bom que se diga, no entanto, 
que essa reabilitação da teoria do valor- 
trabalho não se dá nos termos simplistas 
em que seus próprios partidários em 
geral a compreendiam e aplicavam. O 
cálculo matricial mesmo quando apli- 
cado a casos extremamente simplifi- 
cados mediante pressupostos heróicos — 
a mesma taxa de lucros e o mesmo salá- 
rio em todos os ramos — dá resultados 
surpreendentes do ponto de vista do 
senso comum. O que não dizer de análi- 
ses que relaxem esses pressupostos e 
tentem realmente penetrar nos meandros 
de um sistema capitalista monopólico, 
cuja característica é a heterogeneidade 
estrutural? Apesar da complexidade da 
tarefa, campos fascinantes se abrem ao 
pensamento teórico, armado, a partir de 
agora, com instrumentos conceituais 
muito poderosos. 


SRAFFA 


Keynes é geralmente considerado como o iniciador de uma revolução contra as 
teses da corrente marginalista, mas, na verdade, essa revolta começou em 1926, na 
Universidade de Cambridge, com os trabalhos do economista italiano Piero Srafãa. 

Suas obras contêm um novo ponto de partida lógico para a análise do 
capitalismo. (Srafja, a esquerda, com o primeiro ministro Segni, no centro.) 


É interessante considerar que o livro 
de Sraffa não somente veio desencadear 
olêmicas nos meios marxistas mas tam- 
ém animou o diálogo polêmico entre as 
duas correntes. A chamada “Contro- 
vérsia sobre o capital”, que contrapôs os 
autores da escola de Cambridge aos teó- 
ricos do Instituto de Tecnologia de 
Massachussetts, foi provocada pelo livro 
de Sraffa, principalmente quando ele 
demonstra que um método de produção 
mais intensivo em capital pode substi- 
tuir um menos intensivo, mesmo que o 
novo sistema implique em um salário 
mais elevado. Tal possibilidade parecia 
impossível do ponto de vista margina- 
lista e levou à descoberta de inconsis- 


tências lógicas na própria formulação do 
conceito de nal or parte dos margi- 
nalistas. 

Como se pode ver, a relativa estagna- 
ção teórica provocada pelo enrijecimento 
doutrinário das duas grandes ortodoxias 
acabou sendo superada em boa medida 
graças a Keynes, Sraffa, Kalecki e 
Robinson. Atualmente a economia polí- 
tica está em crise, mas é uma crise muito 
saudável, de renascimento, desenca- 
deada por uma renovação profunda das 
bases do pensamento teórico. Keynes, 
Kalecki, Robinson e Sraffa varreram os 
escombros do campo e lançaram novos 
alicerces, sobre os quais será possíve) 
voltar a construir. 


943 


Adel-Kuptone 


1883 - Nasce John Maynard 
Keynes, em Cambridge. 
1898 - Nasce Piero Srafja.' 
1899 - Nasce Michael Ka- 
lecki. 

1903 - Nasce Joan Robin- 
son. 

1911 - Keynes passa a diri- 
gir o Economic Journal. 
1914 - Inicia-se a 1 Guerra 
Mundial. O “laissez faire” 
econômico é substituído pe- 
los planejamentos. 

1917 - Estoura a Revolução 
Comunista na Rússia e o 
marxismo torna-se doutrina 
econômica oficial nesse 
pais. 

1918 - Termina a I Guerra 
Mundial e os países capita- 
listas tentam voltar ao libe- 
ralismo econômico. 

1919 - Keynes representa o 
Tesouro Britânico na Confe- 
rência Internacional de Paz. 
1924 - Inicia-se a Nova Po- 
litica Econômica na URSS. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1926 - Srafja publica um ar- 
tigo que sacode os meios 
acadêmicos da Economia, 
nos países capitalistas. 

1929 -“Crack” da Bolsa de 
Valores de Nova York cria 
pânico nos países capitalis- 
tas. 

1930 - Surge Treatise on 
Money, de Keynes. 

1933 - Joan Robinson publi- 
ca The Economics of Imper- 
fect Competition. Vem à luz 
Tentativa de Teoria da Con- 
Juntura, de Michael Kalecki. 
1934 - Inicia-se nos Estados 
Unidos o “New Deal” de 
Roosevelt, para fazer frente 
à crise econômica. 

1936 - Keynes publica Teo- 
ria Geral do Emprego, do 
Juro e da Moeda. 

1939 - Começa a II Guerra 
Mundial. Surge Ensaios So- 
bre a Teoria das Flutuações 


Econômicas, de Michael 
Kalecki. 
BIBLIOGRAFIA 


1940 - Kalecki transfere-se 
para Oxford. 

1943 - Michael Kalecki pu- 
blica Aspectos Políticos do 
Pleno Emprego. 

1944 - Surge Economia 
Marxista de Joan Robinson. 
Keynes participa da Confe- 
rência Internacional de Bret- 
ton Woods. 

1945 - Termina a Segunda 
Guerra Mundial. 

1946 - Kalecki trabalha no 
Secretariado da Organiza- 
ção das Nações Unidas. O 
Fundo Monetário Interna- 
cional é presidido por Key- 
nes. ; 

1956 - Vem à luz Acumula- 
ção do Capital de Joan 
Robinson. 

1960 - Sraffa proporciona 
um novo ponto de partida 
para a andlise do capitalis- 
mo com A Produção de 
Mercadorias por Meio de 
Mercadorias. 


HAyEk, F. A.: 4 Survey of Contemporary Economics, Irwin & Co., Nova York, 1935. 
ScHUMPETER, J. A.: Business Cycles, McGraw-Hill, Nova York, 1939. 

KLEIN, L. R.: The Keynesean Revolution, The Macmillan, Co., Nova York, 1947. 
HARRIS, S. E.: The New Economics, Knopf & Co., Nova York, 1948. 

DiLLARD, D.: The Economics of John Maynard Keynes,.Prentice-Hall, Nova York, 1948. 
GALBRAITH, J. K.: The Affluent Society, Little Brown, 1958. 
LEKACHMAN, R.: 4 History of Economic Ideas, Harper and Row, Nova York, 1959. 

Taytor, O. H.: 4 History of Economic Thought, MacGraw-Hill, Nova York, 1960. 
WHITTAKER, E.: Schools and Streams of Economic Thought, Rand MacNally, Chicago, 1960. 
Rostow, W. W.: The Process of Economic Growth, Oxford University Press, Londres, 1960. 
GALBRAITH, J. K.: Economic Development, Harvard University, 1964. 

GHERITY, J. A.: Economic Thought, Random House, Nova York, 1965. 

HarcourT, G. C. e LAING, N. S.: Capital and Growth, Penguin Modern Economic Readings, 


19714. 


HARCOURT, G. C.: Some Cambridge Controversies in the Theory of Capital, Cambridge, 


1972. 


944 


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OS PENSADORES 


um dia qua quer de 1940, no lado 

espanhol da fronteira entre a Fran- 

ça e a Espanha, um funcionário da 
alfândega, cumprindo ordens superiores, 
impediu a entrada de um grupo de inte- 
lectuais alemães que fugia da Gestapo, a 
temível corporação nazista. Um dos inte- 
grantes do grupo, homem de quarenta e 
oito anos de idade, que estampava no 
rosto sinais de profunda melancolia, mas 
ao mesmo tempo transmitia a Impressão 
de um intelecto privilegiado, não resistiu 
à tensão psicológica e suicidou-se. 

O fato poderia ser visto apenas à luz 
da psicologia individual, mas na verdade 
transcende esses limites e adquire di- 
mensão social e cultural mais ampla. O 
intelectual em questão era Walter Benja- 
min, um dos principais representantes da 
chamada Escola de Frankfurt. 

As idéias dessa corrente de pensa- 
mento encontram-se, em grande parte, nas 
páginas da Revista de Pesquisa Social, 
um dos documentos mais importantes 
para a compreensão do espírito europeu 
do século XX. Seus colaboradores estive- 
ram sempre na primeira linha da refle- 
xão crítica sobre os principais aspectos 
da economia, da sociedade e da cultura 
de seu tempo; em alguns casos chegaram 
mesmo a participar da militança políti- 
ca. Por tudo isso, foram alvo de perse- 
guição dos meios conservadores, respon- 
sáveis pela ascensão e apogeu dos 
totalitários europeus da época. 

Fundado em 1924, o Instituto de Pes- 
quisas Sociais de Frankfurt, do qual a 
Revista era porta-voz, foi obrigado, com 
a ascensão ao poder na Alemanha do 
nacional-socialismo, em 1933, a transfe- 
rir-se para Genebra, depois para Paris, 
e, finalmente, para Nova York. Nesta ci- 
dade a revista passou a ser publicada 
com o título de Estudos de Filosofia e 
Ciências Sociais. Com a vitória dos alia- 
dos na Segunda Guerra Mundial, os prin- 
cipais diretores da revista puderam 
regressar à Alemanha e reorganizar o 
Instituto em 1950. 

Alfred Schmidt, que se dedicou à 
investigação da importância e da in- 
fluência da Revista de Pesquisa Social, 
afirma que nela se fundem, de maneira 


Na página anterior: foto do 
filósofo Max Horkheimer. (Ullstein). 


946 


Pd 


única, a autonomia intelectual, a análise 
crítica e o protesto humanístico. Os cola- 
boradores da revista opunham-se aos 
periódicos e instituições de caráter aca- 
dêmico, desenvolvendo um pensamento 
comum nesse sentido, sem que isso, con- 
tudo, anulasse interesses e orientações 
individuais e, sobretudo, sem que fossem 
postas de lado as exigências de rigor 
científico. Gian Enrico Rusconi, outro 
estudioso da Escola de Frankfurt, chama 
a atenção para o fato de que o pensa- 
mento desse grupo não pode ser com- 
preendido sem ser vinculado à tradição 
da esquerda alemã. Para Rusconi, o 
significado histórico e político das refle- 
x0es encontradas na Revista de Pesquisa 
Social reside em sua continuidade em 
relação ao marxismo e à ciência social 
anticapitalista. Essa posição teórica foi 
desenvolvida tendo como pano de fundo 
as experiências terríveis e contraditórias 
da república de Weimar, do nazismo, do 
estalinismo e da guerra fria. Ainda 
segundo Rusconi, a “teoria crítica” — 
como costuma ser chamado o conjunto 
dos trabalhos da Escola de Frankfurt — é 
uma expressão da crise teórica e politica 
do século XX, refletindo sobre os seus 
problemas com uma radicalidade sem 
paralelo. Por isso, os trabalhos de seus 
pensadores exerceram grande influência, 
direta em alguns casos, indireta noutros, 
sobre os movimentos estudantis, sobre- 
tudo na Alemanha e nos Estados Unidos, 
nos fins da década de 60. 

A história desse grupo de pensadores 
pode ser iniciada com a fundação do Ins- 
tituto de Pesquisa Social de Frankfurt, 
sob direção de Carl Griinberg, que per- 
maneceu no cargo até 1927. Griinberg 
abria o primeiro número do Arquivo de 
História do Socialismo e do Movimento 
Operário (publicação que fundou em 
1911), salientando a necessidade de não 
se estabelecer privilégio especial para 
esta ou aquela concepção, orientação 
científica ou opinião de partido. Griún- 
berg estava convencido de que qualquer 
unidade de pontos de vista entre os cola- 
boradores prejudicaria os fins críticos e 
intelectuais da própria iniciativa. Poste- 
riormente, já na direção da Revista de 
Pesquisa Social, ele próprio se conside- 
raria um marxista, mas entendendo essa 
posição, não em seu sentido apenas 


BENJAMIN 


PEER Os 
pa o TIO ; 


= 


Samuel Yavelberg 


Frankfurt-sobre-o-Meno, na Alemanha, foi sede de um dos mais importantes 
dd do século XX. Em torno do Instituto de Pesquisas 


Sociais, fundado nessa cidade, em 1924, esse movimento, conhecido como 
Escola de Frankfurt, realizou relevantes trabalhos de sociologia, psicologia 
social e filosofia. (Edificio central da Universidade de Frankfurt.) 


político-partidário, mas em seu signifi- 
cado científico; o conceito “marxismo” 
servia-lhe para descrição de um sistema 
econômico, de uma determinada cosno- 
visão e de um método de pesquisa bem 
definido. Essa postura inicial de Grún- 


berg — vinculada a uma “escola” de 
pensamento, mas ao mesmo tempo, 


entendendo-a em sua dimensão crítica e 
como perspectiva aberta — constitui, de 
modo geral, a tônica do pensamento dos 
elementos do grupo de Frankfurt. 

Entre os colaboradores da Revista, 
contam-se figuras muito conhecidas de 
um público mais amplo, como Herbert 
Marcuse (1898- ), autor de Eros e 
Civilização e O Homem Unidimensional 
(ou Ideologia da Sociedade Industrial), e 
Erich Fromm (1900- ). que se dedi- 
cou a estudos de psicologia social, nos 
quais procura vincular a psicanálise 
criada por Freud (1856-1939) às idéias 
marxistas. Outros são menos conheci- 


Eai eenet|Ra 


dos, como Siegfried Kracauer, autor de 
um clássico estudo sobre o cinema ale- 
mão (De Caligari a Hitler), ou Leo 
Lówenthal, que se dedicou a reflexões 
estéticas e de sociologia da arte. Ao 
grupo da Revista pertenceram também 
Wittfogel, F. Pollock e Grossmann, auto- 
res de importantes estudos de economia 
política. 


Os homens e as obras 


Entre todos os elementos vinculados 
ao grupo de Frankfurt, salientam-se, por 
razões diversas, os nomes de Walter 
Benjamin, Theodor Wiesengrund- 
Adorno e Max Horkheimer, aos quais se 
pode ligar o pensamento de Júrgen 
Habermas. Esses autores formaram um 
grupo mais coeso e em suas obras encon- 
tra-se um pensamento dotado de maior 
unidade teórica. 

Os traços biográficos e o perfil huma- 


947 


OS PENSADORES 


As obras de Herbert Marcuse (esquerda), um dos integrantes da Escola de 
Frankfurt, influenciaram profundamente os movimentos estudantis de 
contestação, nos anos sessenta, nos Estados Unidos. Gyórgy Lukács não 
pertenceu ao grupo de Frankfurt, mas muitas de suas reformulações do 
marxismo foram retomadas pelo pensamento de Benjamin e de Adorno. 


no de Walter Benjamin são os mais 
conhecidos entre esses quatro pensado- 
res de Frankfurt; sua morte, quando era 
ainda relativamente moço (48 anos) e em 
circunstâncias trágicas, deixou marca 
indelével entre os amigos, fazendo com 
que surgissem muitos depoimentos sobre 
sua vida e sobre sua personalidade. Para 
Adorno, Walter Benjamin era a persona- 
lidade mais enigmática do grupo, seus 
interesses eram frequentemente contra- 
ditórios e sua conduta oscilava entre a 
intransigência quase ríspida e a polidez 
oriental. Essa maneira de ser aparentava 
mais o temperamento vibrante de um 
artista do que a tranquilidade e a frieza 
racional, normalmerite esperadas de um 
filósofo. Seu pensamento parecia nascer 
de um impulso de natureza artística, 
que, transformado em teoria — como diz 
ainda Adorno — “liberta-se da aparência 
e adquire incomparável dignidade: a 
promessa de felicidade”. 

Outro depoimento que enriquece de 
significados o perfil ntelectual e huma- 
no de Walter Benjamin é o de Gerschom 


948 


Scholem, seu companheiro desde a ju- 
ventude. Scholem o conheceu na prima- 
vera de 1915, quase um ano após o co- 
meço da Primeira Guerra Mundial, e 
relata que nessa época ficou impressio- 
nado com a profunda sensação de melan- 
colia de que o amigo parecia estar 
permanentemente possuído. 

Walter Benjamin nasceu em Berlim, 
em 1892, de ascendência israelita. Seus 
estudos superiores foram iniciados em 
1913 e realizados em várias universi- 
dades, nas quais sempre exerceu intensa 
atividade política e cultural entre os 
colegas. Em 1917, casou-se e passou a 
viver em Berna (Suiça), em cuja universi- 
dade apresentou uma dissertação acadê- 
mica, intitulada O Conceito de Crítica de 
Arte no Romantismo Alemão. Em 1921, 
publicou uma tradução dos Quadros 
Parisienses de Baudelaire (1821-1867) 
e no ano seguinte o poeta e dramaturgo 
Hugo von Hofmannsthal (1874-1929) o 
convidou para publicar na revista que 
dirigia (Novas Contribuições Alemãs) 
seu primeiro grande ensaio, As “Afini- 


E e a SE TD mp rt PO A rei rerr a aarier  R TP  y ET a 1 A  T n Ta m mt A  rair ESA a  em e a a aa A Ri Fe r a e NE  aa mm m A 


BENJAMIN 


É possível estabelecer uma relação entre a “teoria crítica” de Horkheimer, 
um dos principais componentes do grupo de Frankfurt, e a revolução teatral 
realizada por Brecht. Tanto uma quanto outra procura elaborar uma forma 
superior de apreensão da realidade e, sobretudo, um instrumento de mudança 
social. (Brecht, por Rudolph Schlichter; Galeria Municipal de Mônaco.) 


949 


Es EM ES So SAS ES 


OS PENSADORES 


Durante algum tempo, Walter Benjamin 
viveu em Berna, Suíça, em cuja 
universidade apresentou sua tese de 
graduação sobre a Noção de Critica 
de Arte no Primeiro Romantismo. 


dades Eletivas” de Goethe. Em 1928, 
Walter Benjamin viu truncadas suas 
esperanças de uma carreira universi- 
tária, quando a universidade de Frank- 
furt recusou sua tese As Origens da Tra- 
gédia Barroca na Alemanha. Para 
assegurar a sobrevivência, passou então 
a dedicar-se à crítica jornalística e a 
traduções escrevendo, ao lado dessas 
atividades, numerosos ensaios, Nessa 
época, fez uma das mais perfeitas tradu- 
ções em lingua alemã que se conhecem: 
À Procura do Tempo Perdido, de Proust 
(1871-1922). Além disso, projetou uma 
grande obra de filosofia da história, cujo 
título deveria ser Paris, Capital do Sécu- 
lo XIX, obra que ficou incompleta. A dé- 
ada de 1930 trouxe-lhe outros infortú- 
nios: seus pais faleceram, teve que 
divorciar-se da esposa e viu ascender o 
totalitarismo nazista. Sob a ditadura de 
Hitler, ainda conseguiu publicar alguns 
trabalhos menores, recorrendo ao dis- 


950 


Fabbri 


farce de pseudônimos. Em 1935, foi 
obrigado a refugiar-se em Paris, onde os 
dirigentes emigrados do Instituto de 
Pesquisas Sociais de Frankfurt recebe- 
ram-no como um dos seus colaboradores 
e deram-lhe condições para escrever al- 
guns de seus mais importantes traba- 
lhos: 4 Obra de Arte na Época de suas 
Técnicas de Reprodução, Alguns Temas 
Baudelairianos, O Narrador, Homens 
Alemães. Finalmente veio a falecer na 
fronteira entre Espanha e França, em 
circunstâncias dramáticas. 

Theodor Wiesengrund-Adorno nasceu 
em 1903, em Frankfurt, cidade onde fez 
seus primeiros estudos e em cuja univer- 
sidade se graduou em filosofia. Em 
Viena, estudou composição musical com 
Alban Berg (1885-1935), um dos maio- 
res expoentes da revolução musical do 
século XX. Em 1932, escreveu o ensaio 4 
Situação Social da Música, tema de imú- 
meros outros estudos: Sobre o Jazz 
(1936), Sobre o Caráter Fetichista da 


Música e a Regressão da Audição 
(1938), Fragmentos Sobre Wagner 
(1939) e Sobre Música Popular 


(1940-1941). Em 1933, com a tomada 
do poder pelos nazistas, Adorno foi obri- 
gado a refugiar-se na Inglaterra, onde 
passou a lecionar na Universidade Ox- 
ford, ali permanecendo até 1937. Nesse 
ano, transferiu-se para os Estados Uni- 
dos, onde escreveria, em colaboração 
com Horkheimer, a obra Dialética do 
Huminismo (1947). Foi também nos 
Estados Unidos que Adorno realizou, em 
colaboração com outros pesquisadores, 
um estudo considerado posteriormente 
como um modelo de sociologia empírica: 
A Personalidade Autoritária. Esta obra 
foi publicada em 1950, ano em que 
Adorno pôde regressar à terra natal e 
reorganizar o Instituto de Pesquisas 
Sociais de Frankfurt. Entre outras obras 
publicadas por Adorno, antes de sua 
morte ocorrida em 1969, salientam-se 
anda Para a Metacrítica da Teoria do 
Conhecimento - Estudos Sobre Husserle 
as Antinomias Fenomenológicas (1956), 
Dissonâncias (1956), Ensaios de Litera- 
tura 1, Ile III (1958 a 1965), Dialética 
Negativa (1966), Teoria Estética (1968) 
e Três Estudos Sobre Hegel (1969). 

Max Horkheimer, o principal diretor 
da Revista de Pesquisa Social, desde o 


ADORNO - HORKHEIMER -HABERMAS 


Samuel Yavelbera 


Característico da Escola de Frankfurt é o fato de considerável parte de seus 
trabalhos terem sido feitos coletivamente. Essa característica encontra-se, 
particularmente, em Theodor Adorno e Max Horkheimer, que escreveram juntos, 
entre outras obras, Dialética do Iluminismo. (Retrato de Adorno, à esquerda, 

e de Horkheimer, desenhados por Hans Scheil; Museu Histórico de Frankfurt.) 


afastamento de Griúnberg nos fins da dé- 
cada de 20, nasceu em Stuttgart, a 114 de 
fevereiro de 1895 e faleceu em Nurem- 
berg, a 9 de julho de 1973. Em 1930, 
tornou-se professor em Frankfurt, onde 
permaneceu até 1934, quando teve que 
se refugiar, como os demais companhei- 
ros. Nesse ano transferiu-se para os 
Estados Unidos, passando a lecionar na 
Universidade de Colúmbia. Nos Estados 
Unidos, Horkheimer permaneceu até 
1949, ano em que pôde regressar a 
Frankfurt e reorganizar o Instituto de 
Pesquisas Sociais, com Adorno. 

A maior parte dos escritos de Hork- 
heimer encontra-se nas páginas da Re- 
vista de Pesquisa Social. Entre os mais 
importantes contam-se: Ínícios da Filo- 
sofia Burguesa da História (1930), Um 
Novo Conceito de Ideologia (1930), 
Materialismo e Metafísica (1933), Mate- 
rialismo e Moral (1933), Sobre a Polêé- 
mica do Racionalismo na Filosofia Atual 


(1934), O Problema da Verdade (1935), 
O Ultimo Ataque à Metafisica (1937), e 
Teoria Tradicional e Teoria Crítica 
(1937). 

Jiúrgen Habermas é considerado um 
herdeiro direto da escola de Frankfurt. 
Nascido em 1929, em Gummersbach, 
Habermas licenciou-se em 1954, com 
um trabalho sobre Schelling 
(1775-1854), intitulado O Absoluto e a 
História. De 1956 a 1959, colaborou 
estreitamente com Adorno no Instituto 
de Pesquisa Social de Frankfurt. Em 
1968, transferiu-se para Nova York, pas- 
sando a lecionar na New Yorker New 
School for Social Research. Entre suas 
obras principais, contam-se Entre a Filo- 
sofia e a Ciência - O Marxismo como Crí- 
tica (1960), Reflexões Sobre o Conceito 
de Participação Pública (publicado em 
1961, juntamente com trabalhos de ou- 
tros autores, com o título geral de O 
Estudante e a Política), Evolução Estru- 


951 


Samuel Yavelberg 


OS PENSADORES 


Adorno é considerado um dos grandes musicólogos do século XX, tendo escrito 
inúmeras obras, tanto sobre música erudita quanto sobre música nas 


Aluno de Alban Berg, um dos maiores expoentes da música atona 


Adorno 


chegou mesmo a compor algumas partituras. No desenho acima, de B. F. Doblin, 
véem-se Alban Berg e Arnold Schônberg, num ensaio do Quarteto Kolisch. 


tural da Vida Pública (1962), Teoria e 
Práxis (1963), Lógica das Ciências 
Sociais (1967), Técnica e Ciência como 
Ideologia (1968), e Conhecimento e Inte- 
resse (1968). 


Cinema e revolução 


Os múltiplos interesses dos pensado- 
res de Frankfurt e o fato de não consti- 
tuírem uma escola no sentido tradicional 
do termo, mas uma postura de análise 
crítica e uma perspectiva aberta para 
todos os problemas da cultura do século 
XX, torna dificil a sistematização de seu 
pensamento. Pode-se, no entanto, salien- 
tar alguns de seus temas, chegando-se a 
compor um quadro de suas principais 
idéias. De Walter Benjamin, devem-se 
destacar reflexões sobre as técnicas de 
reprodução da obra de arte, particular- 


952 


mente do cinema, e as consequências 
sociais e políticas resultantes; de Ador- 
no, o conceito de “indústria cultural” e a 
função da obra de arte; de Horkheimer, 
os fundamentos epistemológicos da posi- 
ção filosófica de todo o grupo de Frank- 
furt, tal como se encontram formulados 
em sua “teoria critica”; e, finalmente, de 
Habermas, as idéias sobre a ciência e a 
técnica como ideologia. 

Walter Benjamin tinha seu ensaio 4 
Obra na Epoca de suas Técnicas de 
Reprodução na conta de primeira grande 
teoria materialista da arte. O ponto cen- 
tral desse estudo encontra-se na análise 
das causas e consequências da destrui- 
ção da “aura” que envolve as obras de 
arte, enquanto objetos individualizados 
e únicos. Com o progresso das técnicas 
de reprodução, sobretudo do cinema, a 
aura, dissolvendo-se nas várias reprodu- 


Fabbri 


HABERMAS 


Fabbri 


Para Brecht. “a primeira perda real que Hitler inflingiu à cultura alemã” 
foia morte de Walter Benjamin, que se suicidou por temor de ser 
encarcerado pela Gestapo. Para Ps Scholen, a qualidade do estilo de 
Benjamin, aliada a um pensamento profundo, “fazia de seus escritos 
verdadeiras obras primas”. (Foto de Benjamin: Biblioteca Estadual, Berlim.) 


953 


OS PENSADORES 


ções do original, destituiria a obra de 
arte de seu status de raridade. Para Ben- 
jamin, a partir do momento em que a 
obra fica excluída da atmosfera aristo- 
crática e religiosa, que fazem dela uma 
coisa para poucos e um objeto de culto, a 
dissolução da aura atinge dimensões 
sociais. Essas dimensões seriam resul- 
tantes da estreita relação existente entre 
as transformações técnicas da sociedade 
e as modificações da percepção estética. 
A perda da aura e as consequências 
sociais resultantes desse fato são parti- 
cularrhente sensíveis no cinema, no qual 
a reprodução de uma obra de arte carre- 
ga consigo a possibilidade de uma radi- 
cal mudança qualitativa na relação das 
massas com a arte. Embora o cinema — 
diz Walter Benjamin — exija o uso de 
toda a personalidade viva do homem, 
este priva-se de sua aura. Se, no teatro, a 
aura de um Macbeth, por exemplo, liga- 
se indissoluvelmente à aura do ator que 
o representa, tal como essa aura € senti- 
da pelo público, o mesmo não acontece 
no cinema, no qual a aura dos intérpretes 
desaparece com a substituição do pú- 
blico pelo aparelho. Na medida em que o 
ator se torna acessório da cena, não é 
raro que os próprios acessórios desem- 
penhem o papel de atores. 

Benjamin considera ainda que a natu- 
reza vista pelos olhos difere da natureza 
vista pela câmara, e esta, ao substituir o 
espaço onde o homem age consciente- 
mente por outro onde sua ação é incons- 
ciente, possibilita a experiência do in- 
consciente visual, do mesmo modo que a 
prática psicanalítica possibilita a expe- 
riência do inconsciente instintivo. Exi- 
bindo, assim, a reciprocidade de ação 
entre a matéria e o homem, o cinema 
seria de grande valia para um pensa- 
mento materialista. Adaptado adequada- 
mente ao proletariado que se prepararia 
para tomar o poder, o cinema tornar-se- 
ia, em consegiiência, portador de uma 
extraordinária esperança histórica. 

Em suma, a análise de Benjamin mos- 
tra que as técnicas de reprodução das 
obras de arte, provocando a queda da 
aura, promovem a liquidação do ele- 
mento tradicional da herança cultural; 
mas, por outro lado, esse processo con- 
tém um germe positivo, na medida em 
que possibilita um outro relacionamento 


954 


das massas com a arte, dotando-as de 
um instrumento eficaz de renovação das 
estruturas. Trata-se de uma postura oti- 
mista, que foi objeto de reflexão crítica 
por parte de Adorno. 


A indústria cultural 


Para Adorno, a postura otimista de 
Benjamin no que diz respeito à função 
possivelmente revolucionária do cinema 
desconsidera certos elementos funda- 
mentais, que desviam sua argumentação 
para conclusões ingênuas. Embora de- 
vendo a maior parte de suas reflexões a 
Benjamin, Adorno procura mostrar a 
falta de sustentação de suas teses, na 
medida em que elas não trazem à luz o 
antagonismo que reside no próprio inte- 
rior do conceito de “técnica”. Segundo 
Adorno, passou despercebido a Benja- 
min que a técnica se define em dois ni- 
veis: primeiro “enquanto qualquer coisa 
determinada intra-esteticamente” e, se- 
gundo, “enquanto desenvolvimento exte- 
rior às obras de arte”. O conceito de téc- 
nica não deve ser pensado de maneira 
absoluta: ele possui uma origem histó- 
rica e pode desaparecer. Ao visarem à 
produção em série e à homogeneização, 
as técnicas de reprodução sacrificam a 
distinção entre o caráter da própria obra 
de arte e o do sistema social. Por conse- 
guinte, se a técnica passa a exercer 
imenso poder sobre a sociedade, tal 
ocorre, segundo Adorno, graças, em 
grande parte, ao fato de que as 
circunstâncias que favorecem tal poder 
são arquitetadas pelo poder dos econo- 
micamente mais fortes sobre a própria 
sociedade. Em decorrência, a racionali- 
dade da técnica identifica-se com a 
racionalidade do próprio dominio. Essas 
considerações evidenciariam que, não só 
o cinema, como também o rádio, não 
devem ser tomados como arte. “O fato de 
não serem mais que negócios — escreve 
Adorno — basta-lhes como ideologia.” 
Enquanto negócios, seus fins comerciais 
são realizados por meio da sistemática e 
programada exploração de bens conside- 
rados culturais. Tal exploração Adorno 
chama de “indústria cultural”. 

O termo, foi empregado pela primeira 
vez em 1947, quando da publicação da 
Dialética do Iluminismo, de Horkheimer 


E = a cê 


HABERMAS-ADORNO 


Em Dialética do Iluminismo, Adorno, de parceria com Horkheimer, desenvolve 
a tese de que a ciência e a tecnologia dela resultante fizeram supor que 
as mesmas pudessem contribuir para a felicidade humana, mas o que ocorreu 
realmente foi o aparecimento de uma nova forma de mistificação, um verdadeiro 
“antiluminismo”. (Retrato de Adorno; Interfoto Friedrich Ranch, Mônaco.) 


955 


MES = 


OS PENSADORES 


FER o 


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E E mato: 
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Mais do gu disque outros pensadores do século XX, os colaboradores do 
e 


Instituto 


Pesquisas Sociais de Frankfurt endereçaram suas reflexões 


a um dos aspectos mais típicos da cultura contemporânea: a chamada 
“cultura de massa”. Principalmente Adorno e Horkheimer dedicaram inúmeros 
escritos a esse tema. (Edifício do Instituto de Pesquisas Sociais.) 


e Adorno. Este último, numa série de 
conferências radiofônicas, pronunciadas 
em 1962, explicou que a expressão “in- 
dústria cultural” visa a substituir “cul- 
tura de massa”, pois esta induz ao engo- 
do que satisfaz os interesses dos 
detentores dos veículos de comunicação 
de massa. Os defensores da expressão 
“cultura de massa” querem dar a enten- 
der que se trata de algo como uma cultu- 
ra surgindo espontaneamente das pró- 
prias massas. Para Adorno, que diverge 
frontalmente dessa interpretação, a in- 
dústria cultural, ao aspirar à integração 
vertical de seus consumidores, não ape- 
nas adapta seus produtos ao consumo 
das massas, mas, em larga medida, 
determina o próprio consumo. Interes- 
sada nos homens apenas enquanto consu- 
midores ou empregados, a indústria cul- 
tural reduz a humanidade, em seu 
conjunto, assim como cada um de seus 
elementos, às condições que representam 


956 


seus Interesses. A indústria cultural traz 
em seu bojo todos os elementos caracte- 
rísticos do mundo industrial moderno e 
nele exerce um papel específico, qual 
seja, o de portadora da ideologia domi- 
nante, a qual outorga sentido a todo o 
sistema. Aliada à ideologia capitalista, e 
sua cúmplice, a indústria cultural contri- 
bui eficazmente para falsificar as rela- 
ções entre os homens, bem como dos ho- 
mens com a natureza, de tal forma que o 
resultado final constitui uma espécie de 
antiluminismo. Considerando-se — diz 
Adorno — que o iluminismo tem como 
finalidade libertar os homens do medo, 
tornando-os senhores e liberando o 
mundo da magia e do mito, e admitindo- 
se que essa finalidade pode ser atingida 
por meio da ciência e da tecnologia, tudo 
levaria a crer que o iluminismo instau- 
raria o poder do homem sobre a ciência e 
sobre a técnica. Mas ao invês disso, 
liberto do medo mágico, o homem tor- 


Samuel Yavelberq 


ADORNO 


Em Dialética Negativa, Theodor Adorno afirma: “Sem o pensamento da liberdade, 
seria impossível justificar teoricamente a sociedade organizada”. Em larga 
medida, essa frase sintetiza o pensamento que orientou todas as suas 
reflexões, desde seus trabalhos como musicólogo até suas teses políticas. 
(Escritório de Adorno, no Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt.) 


nou-se vítima de um novo engodo: o pro- 
gresso da dominação técnica. Esse pro- 
gresso transformou-se em poderoso 
instrumento utilizado pela indústria cul- 
tural para conter o desenvolvimento da 
consciência das massas. A indústria cul- 
tural — nas palavras do próprio Adorno 
“impede a formação de indivíduos 
autônomos, independentes, capazes de 
Julgar e de decidir conscientemente”. O 
róprio ócio do homem é utilizado pela 
indústria cultural com o fito de mecani- 
zá-lo, de tal modo que, sob o capita- 
lismo, em suas formas mais avançadas, a 
diversão e o lazer tornam-se um prolon- 
gamento do trabalho. Para Adorno, a 
diversão é buscada pelos que desejam 
esquivar-se ao processo de trabalho 
mecanizado para colocar-se, novamente, 
em condições de se submeterem a ele. A 
mecanização conquistou tamanho poder 
sobre o homem, durante o tempo livre, e 
sobre sua felicidade. determinando tão 


completamente a fabricação dos produ- 
tos para a distração, que o homem não 
tem acesso senão a cópias e reproduções 
do próprio trabalho. O suposto conteúdo 
não é mais que uma pálida fachada; o 
que realmente lhe é dado é a sucessão 
automática de operações reguladas. Em 
suma, diz Adorno, “só se pode escapar 
ao processo de trabalho na fábrica e na 
oficina, adequando-se a ele no ócio”. 
Tolhendo a consciência das massas e 
instaurando o poder da mecanização 
sobre o homem, a indústria cultural cria 
condições cada vez mais favoráveis para 
a implantação de seu comércio fraudu- 
lento, no qual os consumidores são conti- 
nuamente enganados em relação ao que 
lhes é prometido mas não cumprido. 
Exemplo disso encontra-se nas situações 
eróticas apresentadas pelo cinema. 
Nelas, o desejo suscitado ou sugerido 
pelas imagens, ao invés de encontrar 
uma satisfação correspondente à pro- 


9571 


Samuel! Yavelberg 


OS PENSADORES 


messa nelas envolvida, acaba sendo 
satisfeito com o simples elogio da rotina. 
Não conseguindo, como pretendia, esca- 
par a esta última, o desejo divorcia-se de 
sua realização, que sufocada e transfor- 
mada em negação converte o próprio de- 
sejo em privação. A indústria cultural 
não sublima o a sexual, como nas 
verdadeiras obras de arte, mas o reprime 
e sufoca. Ao expor sempre como novo o 
objeto do desejo (o seio sob o suéter ou o 
dorso nu do herói desportivo), a indús- 
tria cultural não faz mais que excitar o 
prazer preliminar não sublimado que, 
pelo hábito da privação, converte-se em 
conduta masoquista. Assim, prometer e 
não cumprir, ou seja, oferecer e privar, 
são um único e mesmo ato da indústria 
cultural. A situação erótica, conclui 
Adorno, une “à alusão e à excitação, a 
advertência precisa de que não se deve, 
Jamais, chegar a esse ponto”. Tal adver- 
tência evidencia como a dusteia cultu- 
ral administra o mundo social. 

Criando “necessidades” ao consumi- 
dor (que deve contentar-se com o que lhe 
é oferecido), a indústria cultural organi- 
za-se para que ele compreenda sua con- 
dição de mero consumidor, ou seja, ele é 
apenas e tão-somente um objeto daquela 


indústria. Desse modo, instaura-se a 
dominação natural e ideológica. Tal 
dominação, como diz Max Jiménez, 


comentador de Adorno, tem sua mola 
motora no desejo de posse constante- 
mente renovado pelo progresso técnico e 
científico, e sabiamente controlado pela 
indústria cultural. Nesse sentido, o uni- 
verso social, além de configurar-se como 
um universo de “coisas”, constituiria um 
espaço hermeticamente fechado. Nele, 
todas as tentativas de liberação estão 
condenadas ao fracasso. 

Contudo, Adorno não desemboca 
numa visão inteiramente pessimista, e 
procura mostrar que é possível encon- 
trar-se uma via de salvação. Esse tema 
aparece desenvolvido em sua última 

ra, intitulada Teoria Estética. 


Arte e práxis 
Em Teoria Estética — nas palavras do 
comentador Kothe — “Adorno oscila 


entre negar a possibilidade de produzir 
arte depois de Auschwitz e buscar nela 


958 


refúgio ante um mundo que o chocava, 
mas que ele não podia deixar de olhar e 
denominar”. Essa postura foi extrema- 
mente criticada pelos movimentos de 
contestação radical, que o acusavam de 
buscar refúgio na pura teoria ou na cria- 
ção artística, esquivando-se assim da 
práxis política. A seus detratores, Ador- 
no responde que, embora plausível para 
muitos, o argumento de que contra a 
totalidade bárbara não surtem efeito 
senão os meios bárbaros, na verdade não 
releva que, apesar disso, atinge-se um 
valor limite. A violência que há cin- 
quenta anos podia parecer legítima 
aqueles que nutrissem a esperança abs- 
trata e a ilusão de uma transformação 
total, está, após a experiência do nazis- 
mo e do horror estalinista, Inextrica- 
velmente imbricada naquilo que deveria 
ser modificado: “ou a humanidade re- 
nuncia à violência da le: de talião, ou a 
pretendida práxis política radical renova 
o terror do passado” 

Criticando a práxis brutal da sobrevi- 
vência, a obra de arte, para Adorno, 
apresenta-se, socialmente, como antitese 
da sociedade, cujas antinomias e antago- 
nismos nela reaparecem como problemas 
internos da sua forma. Por outro lado, 
entre autor, obra e público, a obra 
adquire prioridade epistemológica, afir- 
mando-se como ente autônomo. Esse 
duplo caráter vincula-se à própria natu- 
reza desdobrada da arte, que se constitui 
como aparência. Ela é aparência por sua 
diferença em relação à realidade, pelo 
caráter aparente da realidade que pre- 
tende retratar, pelo caráter aparente do 
espírito do qual ela é uma manifestação; a 
arte é até mesmo aparência de si própria 
na medida em que pretende ser o que não 
pode ser: algo perfeito num mundo 
imperfeito, por se apresentar como um 
ente definitivo, quando na verdade é algo 
feito e tornado como é. 


Ciência e totalitarismo 


A expressão “teoria crítica” é empre- 
gada para designar o conjunto das 
concepções da Escola de Frankfurt. 
Horkheimer delineia seus traços princi- 
pais, tomando como ponto de partida o 
marxismo e opondo-se Aquilo que ele 
designa pela expressão “teoria tradicio- 


E 


ADORNO - HORK HE IMER 


nal”. Para Horkheimer, o típico da teo- LS a 
ria marxista é, por um lado, não preten- Srta: j 
der. qualquer visão concludente da PSA qua e 
totalidade, e, por outro, preocupar-se = 
com o desenvolvimento concreto do té 
pensamento. Desse modo, as categorias 


= 
marxistas não são entendidas como con- & THEODOR W. ADOR NO 
4 
“q 


ceitos definitivos, mas como indicações ? U.SEPTEMBER 1903 
para investigações ulteriores, cujos re- e 
sultados retroajam sobre elas próprias. - AUGUST 1969 
Quando se vale, nos mais diversos con- o =. 
textos, da expressão “materialismo” | MARGARETE ADORNO 
Horkheimer não repete ou transcreve GEBKARPLUS 
simplesmente o material codificado nas 
obras de Marx e Engels, mas reflete esse 
materialismo segundo a óptica dos mo- 
mentos subjetivos e objetivos que devem 
entrar na interpretação desses autores. 

Por teoria tradicional Horkheimer 
entende uma certa concepção de ciência, 
resultante de um longo processo de 
desenvolvimento que remonta ao Dis- 
curso do Método de Descartes 
(1596-1650). Descartes — diz Horkhei- 
mer — fundamentou o ideal de ciência 
como sistema dedutivo, no qual todas as 
proposições referentes a determinado 
campo deveriam ser ligadas de tal modo 

ue a maior parte delas pudesse ser deri- 
vada de algumas poucas. Estas forma- 
riam os princípios gerais que tornariam 
mais completa a teoria, quanto menor 
fosse seu número. À exigência funda- 
mental dos sistemas teóricos construidos 
dessa maneira seria a de que todos os 
elementos assim ligados o fossem de 
modo direto e não contraditório, trans- 
formando-se em um puro sistema mate- 
mático de signos. Por outro lado, a teo- 
ria tradicional | encontrou amplas 
justificativas para um tal tipo de ciência 
no fato de que os sistemas assim cons- 
truídos são extremamente aptos à utili- 
zação operativa, isto é, sua aplicabi- 
lidade prática é muito vasta. 

Horkheimer adrnite a legitimidade e a 
validez de uma tal concepção, reconhe- 
cendo o quanto ela contribuiu para o 
controle técnico da natureza, transfor- 
mando-se, como diz Marx, em “força 
produtiva imediata”. Mas o reverso da 


fo. 3UNI 1962 ; 


moeda é negativo. Para Horkheimer, o Theodor Wiesengrund-Adorno faleceu 
trabalho do especialista, dentro dos mol- em 1969, aos sessenta e trés anos de 
des da teoria tradicional, realiza-se idade. Seus restos mortais jazem, ao 
desvinculado dos demais, permanecendo lado dos de sua mãe, no Cemitério 
alheio à conexão global dos setores da Central de Frankfurt-sobre-o-Meno. 
959 


OS PENSADORES 


Nascido em 1929, Júrgen Habermas realizou sua formação universitária no 
período de redemocratização da Alemanha, logo ana o término da Segunda 
e 


Guerra Mundial. Dentro do espírito da escola 


Frankfurt, suas obras 


analisam, sobretudo, os problemas decorrentes das vinculações entre ciência, 
técnica e economia política. (Habermas em seu gabinete de estudos nos E.U.A.) 


produção. Nasce assim a aparência ideo- 
lógica de uma autonomia dos processos 
de trabalho, cuja direção deve ser dedu- 
zida de uma natureza interna de seu 
objeto. O pensamento cientifista conten- 
ta-se com a organização da experiência, 
a qual se dá sobre a base de determi- 
nadas atuações sociais, mas 0 que estas 
significam para o todo social não entra 
nas categorias da “teoria tradicional”. 
Em outros termos, a teoria tradicional 
não se ocupa da gênese social dos pro- 
blemas, das situações reais nas quais a 
ciência é usada e dos escopos para os 

uais é usada. Chega-se, assim, ao para- 
à de que a ciência tradicional, exata- 
mente porque pretende o maior rigor — 
para que seus resultados alcancem a 
maior aplicabilidade prática — acaba 
por se tornar muito mais abstrata, muito 
mais estranha à realidade (enquanto 
conexão mediatizada da práxis global 
de uma época) do que a teoria crítica. 


960 


Esta, dando relevância social à ciência, 
não conclui que o conhecimento deva ser 
pragmático; ao contrário, favorece a 
reflexão autônoma, segundo a qual a 
verificação prática de uma idéia e sua 
verdade não são coisas idênticas. 

A teoria crítica ultrapassa, assim, o 
subjetivismo e o realismo da concepção 
positivista, expressão mais acabada da 
teoria tradicional. O subjetivismo, se- 
gundo Horkheimer, apresenta-se nitida- 
mente quando os positivistas conferem 
preponderância explicita ao meêtodo, 
desprezando os dados em favor de uma 
estrutura anterior que os enquadraria. 
Por outro lado, mesmo quando os positi- 
vistas atribuem maior peso aos dados, 
estes acabam sendo selecionados pela 
metodologia utilizada. E esta atribui 
maior Re a determinados aspectos 
dos dados, em detrimento de outros. 

A teoria crítica, ao contrário, pretende 
ultrapassar tal subjetivismo, visando a 


Associated Press 


E E E 


HORKHEIMER 


arm 


Habermas considera uma ilusão pretender-se elaborar uma ciência pura. Nesse 
sentido, suas obras procuram mostrar as raízes humanas mais profundas do 
trabalho cientifico, trazendo à tona os interesses que subjazem ao 
desenvolvimento das ciências. Suas teses têm exercido considerável 
influência junto aos universitários norte-americanos. (Habermas e alunos.) 


descobrir o conteúdo cognoscitivo da 
práxis histórica. Os fatos sensíveis, por 
exemplo, vistos pelos positivistas como 
possuidores de um valor irredutível, são, 
para Horkheimer, “prê-formados social- 
mente de dois modos: pelo caráter histó- 
rico do objeto percebido e pelo caráter 
histórico do órgão que percebe”. 

Outros elementos de critica ao positi- 
vismo, sobretudo os aspectos políticos 
nele envolvidos, encontram-se em uma 
conferência de Horkheimer, em 1951, 
com o título Sobre o Conceito de Razão. 
Nessa conferência, ele afirma que o posi- 
tivismo caracteriza-se por conceber um 
tipo de razão subjetiva, formal e instru- 
mental, cujo único critério de verdade é 
seu valor operativo, ou seja, seu papel na 
dominação do homem e da natureza. 
Desse ponto de vista, os conceitos não 
mais expressam, como tais, qualidades 
das coisas, mas servem apenas para a 
organização de um material do saber 


para aqueles que podem dispor habitual- 
mente dele; assim, os conceitos: são 
considerados como meras abreviaturas 
de muitas coisas singulares, como fic- 
ções destinadas a melhor sujeitá-las: já 
não são subjugados mediante um duro 
trabalho concreto, teórico e político, mas 
explicados abstrata e sumariamente, 
através daquilo que se poderia chamar 
um decreto filosófico. Dentro dessas 
coordenadas, a razão desembaraça-se da 
reflexão sobre os fins e torna-se incapaz 
de dizer que um sistema político ou eco- 
nômico é irracional. Por cruel e despó- 
tico que ele possa ser, contanto que fun- 
clone, a razão positivista o aceita e não 
deixa ao homem outra escolha a não ser 
a resignação. A teoria justa, ao contrário 
— escreve Horkheimer -—, “nasce da 
consideração dos homens, de tempos em 
tempos, vivendo sob condições determi- 
nadas e que conservam sua própria vida 
com a ajuda dos instrumentos de traba- 


961 


| E ES 


Associated Press 


OS PENSADORES 


lho”. Ao considerar que a existência so- 
cial age como determinante da consciên- 
cia, a teoria critica não está anunciando 
sua visão do mundo, mas diagnosticando 
uma situação que deveria ser superada. 

Em suma, a teoria crítica de Horkheia- 
mer pretende que os homens protestem 
contra a aceitação resignada da ordem 
totalitária. A “razão polêmica” de Hork- 
heimer, ao se opor à razão instrumental e 
subjetiva dos positivistas, não evidencia 
somente uma divergência de ordem teó- 
rica. Ao tentar superar a razão formal 
positivista, Horkheimer não visa a supri- 
mir a discórdia entre razão subjetiva e 
objetiva através de um processo pura- 
mente teórico. Essa dissociação somente 
desaparecerá quando as relações entre 
os seres humanos, e destes com a nature- 
za, vierem a configurar-se de maneira 
diversa da que se instaura na dominação. 
A união das duas razões exige o trabalho 
da totalidade social, ou seja, a práxis 
histórica. 


Tecnicismo e ideologia 


Júrgen Habermas desenvolve sua teo- 
ria no mesmo sentido de Horkheimer. 
Para ele, a teoria deve ser crítica, enga- 
jada nas lutas políticas do presente, e 
construir-se em nome do futuro revolu- 
cionário para o qual trabalha; é exame 
teórico e crítico da ideologia, mas tam- 
bém crítica revolucionária do presente. 

O projeto filosófico de Habermas pode 
ser sintetizado em termos de uma crítica 
do positivismo e, sobretudo, da ideolo- 
gia dele resultante, ou seja, o tecnicismo. 
Para Habermas, o tecnicismo é a ideolo- 
gia que consiste na tentativa de fazer 
funcionar na prática, e a qualquer custo, 
o saber científico e a técnica que dele 
possa resultar. Nesse sentido, pode-se 
falar de um imbricamento entre ciência e 
técnica, pois esta, embora dependa da 
primeira, retroage sobre ela, determi- 
nando seus rumos. Essa vinculação, mos- 
tra Habermas, é particularmente sensi- 
vel nos Estados Unidos (na URSS, por 
suposição ocorreria algo análogo), onde 
a Secretaria de Defesa e a NASA são os 
mais importantes comanditários em ma- 
téria de pesquisa científica. Na medida 
em que se considera o complexo militar- 
industrial, particularmente observável 


962 


nos Estados Unidos, e na medida em que 
se releva aquela comandita, tem-se como 
consequência um novo complexo que 
poderia ser referido como complexo 
ciência-têcnica-indústria-exêrcito- admi- 
nistração. Nesse complexo, o pro- 
cesso de mútua vinculação entre ciência 
e técnica amplia-se, tornando-se um pro- 
cesso generalizado de realimentação 
reciproca que Habermas compara a um 
sistema de vasos comunicantes. Desse 
modo, ciência e técnica tornam-se a pri- 
meira força produtiva, subordinando 
todas as demais. Para Habermas, “são 
os cientistas e os técnicos que, graças a 
seu saber daquilo que ocorre num mundo 
não vivido de abstrações e de deduções, 
adquiriram imensa e crescente potência 
(...), dirigindo e modificando o mundo 
no qual os homens possuem, simultanea- 
mente, o privilégio e a obrigação de vive- 
rem”. Assim, esse contexto, não apenas 
Ee enicos -científico, mas também econômi- 
co-político, passa a ser a conotação da 
técnica. Nesse sentido, o autor ataca a 
ilusão objetivista das ciências. Contra a 
ilusão da teoria pura, Habermas procura 
trazer à tona as raizes antropológicas da 
prática teórico-científica e evidenciar os 
mteresses, que estão no princípio do 
conhecimento, particularmente do co- 
nhecimento científico. 

No plano da filosofia social, Haber- 
mas critica o objetivismo ontológico e 
contemplativo da filosofia teórica tradi- 
cional. Para ele, em nenhum caso a filo- 
sofia poderia ser propriamente uma ciên- 
cia exata, e as pretensões que ela pode (e 
poderá) manifestar nesse sentido não 
fazem senão testemunhar sua contami- 
nação pelo objetivismo positivista das 
ciências; nesse contexto ela não é mais 
que uma especialidade entre outras, no 
seio da instituição universitária, colo- 
cando-se “junto às ciências” e afastada 
das preocupações de um público leigo, 
devido a seus refinamentos teóricos. 

A crítica do positivismo científico e 
filosófico, empreendida por Habermas, é 
inseparável de sua luta contra o objeti- 
vismo tecnocrático. O positivismo e o 
tecnicismo não passam, para ele, de duas 
faces de uma mesma e ilusória moeda 
ideológica: tanto um, como outro, não 
seriam mais que “manchas turvas no 
horizonte da racionalidade” 


HORKHEIMER-HABERMAS 


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Habermas procura mostrar como nos Estados Unidos, na maioria dos 
casos, a pesquisa científica subordina-se, direta ou indiretamente, a duas 
instituições: a NASA e à Secretaria de Defesa. Como resultado, constitui-se 
o que ele chama “complexo ciência-técnica-indústria-exército-administração”. 
(Habermas, fotografado na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.) 


963 


1892 — Em Berlim, nasce 
Walter Benjamin. 

1914 — Tem início a Pri- 
meira Guerra Mundial. 

1918 — Benjamin gradua- 
se na Universidade de Berna 
com a dissertação sobre a 
Noção de Critica de Arte no 
Primeiro Romantismo. 

1921 — Adorno conhece 
Max Horkheimer, ao qual se 
liga por profunda amizade. 
1924 —- Fundação do Insti- 
tuto de Pesquisas Sociais de 
Frankfurt. 

1928 — Benjamin vê rejei- 
tada sua tese sobre As Ori- 
gens da Tragédia Barroca 
na Alemanha. 

1929 — Nasce Júrgen Ha- 
bermas. 

1933 — O Instituto de Pes- 
quisas Sociais transfere-se 
para Genebra. 

1936 — Benjamin publica, 
em francês, A Obra de Arte 
na Era de sua Reprodutibili- 
dade Técnica. 

1938 — Adorno viaja para 
os Estados Unidos. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1939 — Publica Fragmen- 
tos sobre Wagner. Eclode a 
Segunda Guerra Mundial. 
1940 — Benjamin suicida- 
se. No mesmo ano, são pu- 
blicadas suas Teses sobre a 
Filosofia da História. 

1947 — Adorno e Horkhei- 
mer empregam pela primei- 
ra vez o termo indústria 
cultural. 

1950 — Reorganização do 
Instituto de Pesquisas So- 
ciais, na Alemanha. Adorno 
publica seu estudo sobre a 
Personalidade Autoritária. 
1951 — Horkheimer pro- 
nuncia conferências Sobre o 
Conceito de Razão. 

1954 — Habermas licencia- 
se com uma tese sobre 
Schelling: O Absoluto e a 
História. 

1955 — Publicação do ori- 
ginal alemão de A Obra de 
Arte na Era de sua Repro- 
dutibilidade Técnica, de 
Benjamin. 

1956 - 1959 — Habermas 
colabora com Adorno. 


BIBLIOGRAFIA 


1956 — Adorno publica Pa- 
ra a Metacrítica da Teoria 
do Conhecimento — Estu- 
dos sobre Husserl e as Anti- 
nomias Fenomenológicas. 
1958 - 1965 — Publica os 
Ensaios de Literatura I, Il e 
HI. 

1961 — micia a Teoria 
Estética. 

1962 — Publicação de Evo- 
lução Estrutural da Vida 
Pública, tese de doutora- 
mento de Habermas. 

1963 — Habermas publica 
Teoria e Práxis. 

1966 — Adorno publica a 
Dialética Negativa. 

1968 — Conclui a primeira 
versão da Teoria Estética. 
Habermas publica Técnica e 
Ciência como “Ideologia”, e 
transferese para Nova 
York. 

1969 — A 6 de agosto, con- 
tando 66 anos, falece Theo- 
dor Wiesengrund-A dorno. 
1973 — A 9 de julho, com 
78 anos de idade, morre 
Max Horkheimer. 


ScHoLEM, G.: Walter Benjamin, Mon Ami, in Les Lettres Nouvelles, Paris, maio-junho 1972. 
ARENDT, H.: Walter Benjamin: 1892-1940, in Men in Dark Times, da mesma autora, Penguin 


Books, Middlesex, 1968. 


ADORNO, T. W.: Profilo di Walter Benjamin, in Prismi, do mesmo autor, Giulio Einaudi edito- 


re, Torino, 1972. 


ScHMIDT, A. e Rusconi, G. E.: La Scuola di Francoforte, De Donato editore, Bari, 1972. 

HABERMAS, Adorno e outros: Comunicação e Indústria Cultural, organizado por G. Cohn, 
Companhia Editora Nacional e Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1971. 

ADORNO, Popper e outros: La Disputa del Positivismo en la Sociologia Alemana, Ediciones 
Grijalbo, Barcelona-Cidade do México, 1973. 
HABERMAS, J.: La Technique et la Science comme “Idéologie”, Éditions Gallimard, Paris, 197 
JIMÉNEZ, M.: Adorno: Art, Idéologie et Théorie de !'Art, Union Générale d'Éditions, 10/18, 


Paris, 1973. 


AxXELOS, K.: Arguments. d'une Recherche, Éditions de Minuit, Paris, 1969. 


964 


PN E qua 


e: COPYRIGHT MUNDIAL, 1974 — ABRIL S.A, CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO — BRASIL, 


PITULO 73 


El 


E 


OS PENSADORES 


efinida como “'ciência que estuda a 
D linguagem com métodos pró- 

prios”, a Linguistica moderna 
visa, como objetivo principal, à constru- 
ção de uma teoria geral capaz de descre- 
ver todas as línguas. Para os lingiiistas, 
tal construção deve superar os limites da 
gramática tradicional, pois esta, basean- 
do-se no grego e no latim, desconsidera 
numerosas línguas, nitidamente diferen- 
tes dos dois idiomas clássicos, sob os 
mais diversos ângulos. 

Por outro lado, embora seus interesses 
não excluam eventuais convergências 
com a filosofia ou a psicologia, a 
Lingiística se apresenta como ciência 
autônoma e desvinculada de qualquer 
outra disciplina que possa se ocupar da 
linguagem. A gramática tradicional, ao 
contrário, não possuindo independência 
equivalente, sempre esteve ligada à filo- 
sofia e à crítica literária. Por essa razão, 
a gramática tradicional é responsável 
pela, maior valorização da linguagem 
escrita, chegando a ponto de ignorar, e 
até mesmo desprezar, a diferença entre 
lingua escrita e lingua falada. Colocan- 
do-se noutra perspectiva, os lingiistas 
conferem primazia à lingua falada, e jus- 
tificam essa posição com o argumento de 
que as línguas só passaram a ser escritas 
muitos séculos depois de faladas; além 
desse argumento, apontam para o fato de 
que a criança primeiro fala, depois 
escreve. Os gramáticos tradicionais não 
se deram conta desses fatos e também 
não perceberam que, desde uma perspec- 
tiva histórica, a lingua “correta” é ape- 
nas o falar próprio de uma região ou de 
uma classe que, tendo adquirido certo 
prestígio, tornou-se instrumento da ad- 
ministração, da educação e da literatura. 

Os lingiistas modernos admitem que a 
“lingua comum”, culta e erudita, possa 
dispor de vocabulário mais rico que 
qualquer dos dialetos coexistentes, mas, 
intrinsecamente, a “lingua comum” não 
é mais “correta”. A própria distinção 
entre “lingua” e “dialeto” habitualmente 
resulta de critérios políticos. Os lin- 
guistas mostram, por exemplo, como 


Na página anterior: Saussure; 
Foto Julien, Bibl. Pública 
e Un. de Genebra. (Jean Arland) 


966 


existem menores diferenças entre o 
sueco, o dinamarquês e o norueguês — 
considerados como línguas distintas —, 
do que entre muitos dos chamados “dia- 
letos” chineses. Deve-se ressaltar ainda 
que, considerando-se o vocabulário de 
certa lingua como reflexo das atividades 
e dos interesses de determinada socieda- 
de, torna-se carente de sentido afirmar 
que uma certa língua possui vocabulário 
mais rico do que uma outra qualquer. 
Nesse sentido, os lingiúistas mostram 
como, seja qual for a língua em questão, 
seu vocabulário é rico o suficiente para 
exprimir as distinções consideradas im- 
portantes pela sociedade que a utiliza. 

As posições defendidas pela gramática 
tradicional constituíram caracteristicas 
marcantes dos chamados comparatistas 
e neogramáticos do século XIX. Tanto 
uns quanto outros tinham como certo 
que a Linguística deveria ser conduzida 
por uma trilha essencialmente histórica 
e comparativa, de tal modo que os fatos 
linguísticos não teriam qualquer valor 
descritivo. 


Uma nova perspectiva 


A posição defendida pelos compara- 
tistas e neogramáticos do século XIX 
encontrou oposição das mais enérgicas 
no lingúista suíço Ferdinand de Saussu- 
re, nascido no castelo de Vuflens, Gene- 
bra, em 1857, e falecido em 1913 no 
cantão suíço de Vand. Sua obra mais 
importante, Curso de Linguística Geral, 
só foi publicada postumamente em 
1916, graças aos esforços de dois disci- 
pao Charles Bally (1865-1947) e AI- 

ert Séchehaye, que recolheram anota- 
ções de aulas dadas pelo mestre entre 
1906 e 1911. 

Especializando-se inicialmente no 
grupo lingiúístico indo-europeu, Saussu- 
re, em vida, publicou apenas o livro Tra- 
balho Sobre o Sistema Primitivo das Vo- 
gais Indo-Européias (1879) e sua tese de 
doutoramento, intitulada Sobre o Em- 


prego do Genitivo Absoluto em Sânscrito 


(1880). Ao que tudo indica, Saussure 
teria deixado de publicar o Curso devido 
à inquietação que suas idéias poderiam 
provocar, como já ocorrera, até certo 
ponto, entre os participantes de suas 
aulas. 


SAUSSURE 


Considerada como o marco inicial da 
Lingúística moderna, a obra teve intensa 
repercussão nos meios acadêmicos e 
constituiu verdadeira revolução na ciên- 
cia da linguagem. Nela, Saussure ante- 
cipa o conceito de “estrutura”, que viria 
a ser um dos conceitos ndamencais: do 
ponto de vista metodológico, para o 
desenvolvimento dx Linguistica. Como 
diz um dos mais conhecidos lingiistas 
do século XX, Emile Benveniste 
(1902- ). “estrutura é um dos termos 
essenciais da Linguística moderna. um 
dos que ainda têm valor programático” 
O termo tornou-se tão difundido que os 
pesquisadores o empregam em diferentes 
acepções, e dele tiram conclusões igual- 
mente diferentes, no plano metodológico. 
Em alguns casos, “estrutura” é enten- 
dida como um “sistema que explica O 
arranjo do todo em partes, as quais são 
solidárias”; em outros casos, fala-se de 
“estrutura” como “disposição, num todo 
organizado, dos elementos das substân- 
cias concretas”. Mas apesar da diversi- 
dade de conceituações, é inegável que, 
desde a década de 1940, o estrutura- 
lismo foi o movimento que mais se impôs 
à atenção dos especialistas tornando-se o 
motor ativo da Linguística. 

A palavra “estrutura” não chega a ser 
mencionada explicitamente no Curso 
mas a noção de “sistema”, largamente 
empregada, contém implícito o mesmo 
signific: ido quando S aussure define “lin- 
gua” como “um sistema cujos termos são 
todos solidários e em que o valor de um 
não resulta senão da presença simul- 
tânea dos outros”. Saussure mostra que 
esse sistema, quando utilizado numa 
situação determinada, possibilita o ato 
concreto e individual de comunicar-se, € 
tal ato define-se como fala. Estabele- 
cem-se, assim, dois níveis no estudo da 
linguagem: um, essencial, explica o prô- 
prio Saussure, “tem por objeto a lingua, 
que é social em sua essência e indepen- 
dente do individuo”, outro, “secundário, 
tem por objeto a parte individual da lin- 
guagem, isto é, a fala”. Essa doutrina 
dos níveis, pedra de toque do estrutura- 
Desde muito cedo, Saussure dedicou-se | lismo, sintetiza-se na dicotomia lin- 


Jean Arland 


aos estudos lingúísticos. A foto gua/fala. O objeto da Linguística, 
mostra o criador da Linguística então, passa a ser o estudo da lingua 
moderna quando contava vinte anos. enquanto sistema, e não da fala. Nesse 
(Bibl. Pública e Un. de Genebra.) sentido, Saussure propõe que a pesquisa 
967 


OS PENSADORES 


lingúística seja descritiva ou sincrônica, 
e não evolutiva ou diacrônica. Essa dico- 
tomia sincronia/diacronia tem como 
consequência a divisão da ciência da lin- 
guagem em duas partes: por um lado, a 
Lingúística sincrônica (ou estática ou 
descritiva), que estuda a constituição da 
lingua, seus sons, suas palavras, sua 
gramática, suas regras, etc. num dado 
momento: por outro, a Lingúística dia- 
crónica (ou evolutiva ou histórica), que 
estuda as transformações produzidas na 
lingua atravês do tempo. No Curso, 
Saussure associa a esses dois tipos de 
interpretação um sistema de eixos: um 
eixo AB referente à simultaneidade, 
(sincronia) e outro CD correspondente à 
sucessividade (diacronia). 

Saussure nega não só a primazia do 
eixo CD sobre o eixo AB (primazia essa 
que, antes dele, era admitida sem mais), 
mas considera evidente o primado do 
aspecto sincrônico sobre o outro, pois, 
para a grande maioria das pessoas que 
falam, aquele aspecto é a única e verda- 
deira realidade. Além disso, Saussure 
rejeita toda e qualquer possibilidade de 
estudar simultaneamente as relações no 
tempo e no sistema. Para ele, “a oposi- 
ção entre os dois pontos de vista (sincrô- 
nico e diacrônico) é absoluta e não admi- 
te compromisso”. 

Às dualidades língua/fala e sincro- 
nia/diacronia, acrescenta-se uma ter- 
ceira dicotomia constituída pelo signo 
linguístico, entendido como união de um 
sigmficante (imagem acústica de sua 
face fônica) e de um significado (o con- 
ceito, a classe de realidades não lingúis- 
ticas às quais ele remete). Na teoria de 
Saussure, o signo possui caráter arbitrá- 
rio, pois não há razão alguma para que o 
signo “árvore”, por exemplo, seja este e 
não outro; em outros termos, não existi- 
ria nenhum elo específico entre signifi- 
cante e significado. Para Saussure, as 
onomatopéias existentes não constituem 
acervo suficientemente rico para destruir 
a tese da arbitrariedade do signo. Esse 
caráter arbitrário comanda a noção de 
“sistema”, sendo, portanto, o núcleo das 
oposições lingua/fala, sincronia/dia- 
cronia. Nesse sentido, pode-se afirmar 

ue o signo linguístico encobre duas 
aces da mesma moeda. O signo “árvo- 
re”, por exemplo. não indica uma árvore, 


968 


FERDINAND DE SAUSSURE 


gem 


COURS 


DE 


LINGUISTIQUE GENERALE 


PUBLIÉ PAR 


CHARLES BALLY «+ ALBERT SECHEHAVE 


Profesecur a NUaiver-u Privat docens a FUniversite 
de Geneve de Gentve 


AVEC LA COLLABORATION DE 
ALBERT RIEOLINGER 
Martre au Coullége de Geneve. 


LIBRAIRIE PAYOT & C' 


LAUSANNE PARIS 
1, Rue de Bowg, 1 106, Bd Seint-Germaia, 106 


1916 


Tos droits ráservês. 


Frontispício da primeira edição da 
obra de Ferdinand de Saussure, coma 
qual nasceu a Lingúística do século XX. 

De uma forma ou de outra, toda a 

Linguística moderna provém dela. 


mas evoca a idéia que se tem de uma ár- 
vore, sendo ao mesmo tempo uma ima- 
gem sonora. Portanto. significado (ár- 
vore real) e significante (palavra árvore) 
são duas abstrações. 

Saussure confere ao estudo do signo 
uma importância que extravasa os limi- 
tes do terreno linguístico e considera a 
Linguística como um ramo apenas de 
uma ciência mais vasta, a Semiologia, 
cujo objeto seria “a vida dos signos no 
seio da vida social”. Tal preocupação 
ilustra a influência que o sociologismo, 
corrente na época, e representado por 
Emile Durkheim (1858-1917). exerceu 
em seu pensamento. 

Considerando a língua como um siste- 
ma, Saussure realça a importância das 
relações que ocorrem entre grupos asso- 
ciativos no interior da própria língua. 


Fabbri 


SAUSSURE 


Nascido em Genebra, em 1857, Ferdinand de Saussure iniciou seus estudos 
superiores na universidade dessa cidade, passando depois para Leipzig e Berlim. 
Especializando-se no grupo lingúístico indo-europeu, em 1881 tornou-se 
instrutor na Escola de Altos Estudos de Paris, onde permaneceu até 1891. 
(A foto acima mostra a cidade de Paris, vista da Torre Eiffel.) 


Tais relações apresentam-se em dois ni- 
veis. Em primeiro lugar, existem os gru- 
pos associativos in absentia, isto é, as 
classes de unidades disponíveis na me- 
mória. Nesse sentido, cada elemento 
linguístico proveca imagens de outros 
elementos, tanto na pessoa que fala, 
quanto na que ouve. À palavra “ensino”, 
por exemplo, desperta associações como 
“ensinar”, “educação”, “aprendiza- 
gem”, etc. Saussure chama a essas asso- 
ciações de “relações in absentia”, pois 
elas vêm à tona na ausência dos signos 
evocados. Cada uma dessas classes de 
unidades, que formam as relações in 
absentia constitui aquilo que o autor 
chama eixo paradigmático. 

Um segundo nível de relações entre os 
signos decorre do fato de que todo ele- 
mento da língua está em relação com 


outros, formando cadeias de enunciados. 
falados ou escritos. Tais relações em ca- 
deia formam-se in praesentia, consti- 
tuindo os sintagmas, ou seja, unidades 
maiores que agrupam outras menores. 
Os grupos associativos in praesentia na 
cadeia constituem, na terminologia de 
Saussure. o eiro sintagmático. 


O nascimento da fonologia 


Conquanto tivesse indicado que na lin- 
gua não existem senão diferenças, Saus- 
sure não chegou a assinalar nitidamente 
a distinção entre a imagem acústica dos 
sons (a qual não é mais que a soma limi- 
tada de elementos distintivos) e a subs- 
tância material dos sons, com sua infini- 
dade de movimentos musculares. Esse 
problema seria enfrentado pela Escola 


969 


Fabbri 


OS PENSADORES 


Fonológica de Praga, que pode ser consi- 
derada um desenvolvimento das teorias 
implícitas na obra do criador da Lingúis- 
tica moderna. 

Entre os principais representantes da 
Escola Fonológica de Praga, encontra-se 
Roman Jakobson, nascido em 1896, em 
Moscou. Jakobson fez seus estudos no 
Instituto de Línguas Orientais e, quando 
tinha dezoito anos de idade, ligou-se ao 
Círculo Lingúístico de Moscou, que 
então se formava. Nessa época, Jakobson 
participou ativamente do amplo movi- 
mento de idéias, conhecido como Forma- 
lismo Russo. Esse movimento colocava 
como primeira tarefa da crítica a análise 
das formas literárias, das mais simples 
(recorrências fônicas, por exemplo) às 
mais complexas (gêneros literários, 
etc.). Para os formalistas russos, o 
importante são os procedimentos (procé- 
dés, em francês) e não o conteúdo psico- 
lógico ou filosófico das obras. “O proce- 
dimento, eis o único herói da literatura” 
era a palavra de ordem de Jakobson, 
durante os anos vinte. 

Em 1928, no Congresso Internacional 
de Lingúistas, realizado em Haia, Ja- 
kobson, juntamente com Nicolas Ser- 
gueivitch Troubetzkoi (1890-1938) e 
Karcevski apresentou uma tese que se 
tornaria famosa como Proposição 22 e 
com a qual se marcava o nascimento de 
uma nova disciplina, a Fonologia. Embo- 
ra o trabalho tivesse sido apresentado 
pelos três representantes russos, sua 
autoria devia-se a Jakobson. 

Em 1929, vieram à luz as Notas Sobre 
a Evolução do Russo Comparada à das 
Outras Linguas Eslavas; no ano seguin- 
te, Jakobson doutorava-se na Universi- 
dade de Praga. A partir daí, sua ativi- 
dade torna-se cada vez mais intensa, 
mantendo rica correspondência científica 
com Troubetzkoi e escrevendo inúmeros 
trabalhos: Princípios de Fonologia His- 
tórica (1931), Sobre a Teoria das Afini- 
dades Fonológicas entre as Línguas 
(1938), O Desenvolvimento Fonológico 
da Linguagem Infantil e as Coerências 
Correspondentes nas Linguas do Mundo 
(1939). Neste ano, Jakobson foi obri- 
gado a deixar a Tchecoslováquia, pois 
começou a invasão nazista e ele era 
Judeu. Refugiou-se então na Escandi- 
návia, lecionando nas universidades de 


970 


Copenhague, Oslo e Upsala, até se trans- 
ferir para os Estados Unidos, onde 
desenvolveria, durante a década dos 
quarenta, os pontos essenciais de sua 
teoria. Em 1947, Jakobson tornou-se 
professor de língua e literatura eslavas 
na universidade de Colúmbia e, dois 
anos depois, transferiu-se para a univer- 
sidade de Harvard. Finalmente, em 
1957, ligou-se ao Instituto de Tecnolo- 
gia de Massachusetts. 


Som e significado 


O lingiista polonês Jan Niecislaw 
Baudouin de Courtenay (1845-1929), 
exerceu importante influência sobre o 
pensamento de Jakobson, e foi o respon- 
sável pela invenção do termo fonema. 
Mas foi somente com Jakobson que se 
chegou, por exemplo, a afastar o con- 
ceito de indivisibilidade unitária do 
mesmo. Antes dele, esse fato era admi- 
tido de tal modo que, na definição do 
termo incluta-se a não suscetibilidade de 
dissociação como característica do fone- 
ma. Jakobson, juntamente como o lin- 

ista americano Leonard Bloomfield 
fis 887-1949), afirmou que o fonema é 
um feixe de traços distintivos e começou 
a operar diretamente com esses traços. 

Ao se preocupar com o valor do fone- 
na, Jakobson notou que, embora não 
EE “uma significação própria 

ositiva”, aquele termo poderia contri- 
Ea para diferenciar os elementos lexi- 
cais significativos entre si, estabele- 
cendo, desse modo, o contraste entre 
cada palavra (na qual se encontra) e 
todas as outras que, em circunstâncias 
análogas, encerram outro fonema. Por 
outro lado, Jakobson também mostrou 
como a caracterização de um som 
linguístico como fonema depende de cer- 
tos traços, cuja ausência ou presença o 
opõe, por sua vez, a todos os demais da 
lingua. Esses traços constituiriam as 
unidades mínimas e indivisíveis, e Ja- 
kobson foi assim levado a estabelecer, 
em vez do quadro de fonemas de uma lin- 
gua, o dos traços fônicos que funcionam 
nessa língua e caracterizam os seus pró- 
prios fonemas. Cada fonema é analisado 
segundo o critério de presença ou ausên- 
cia de um traço. A presença e a ausência 
são assinaladas, respectivamente, pelos 


SAUSSURE — JAKOBSON 


he] 
c 
o 
= 
« 
c 
o 
x 
E 


Revolucionárias para sua época, as principais idéias concebidas por Saussure 
não foram por ele próprio sistematizadas em forma de livro. Somente após sua 
morte, os discípulos cuidaram de compor um volume com base em apontamentos 
de Ro A foto acima foi feita em 1913, ano de seu falecimento, 

e pertence ao acervo da Biblioteca Pública e da Universidade de Genebra. 


971 


OS PENSADORES 


Roman Jakobson ampliou consideravelmente as fronteiras da Lingúística, 
tornando-a um dos principais campos de pesquisa do século XX. As idéias de 
Jakobson repercutiram nas mais diversas áreas das ciências humanas, 
particularmente na etnologia, na mitologia e na psicanálise. Acima, 

o lingúista russo, quando de sua estada na Universidade de São Paulo. 


972 


Agência Estado 


JAKOBSON 


sinais matemáticos de mais (+) e menos 
(-). Exemplos de pares de presença e 
ausência seriam, em português: sonori- 
dade — não sonoridade (como em /b/: 
(pildl:ltlilal:!slete.), oclusão — não 
oclusão (/p/:/f/, /b/:/v/, [tiis/, 
/d/:/z/ etc.), palatização — não palati- 
zação (/x/: a /lh/:/1 etc.) e assim 


por diante. 
Evidencia-se assim, o caráter binário 
do traço distintivo — caráter esse que 


marcará (ou não), segundo sua presença 
(ou ausência), cada um dos termos que 
pino das diversas oposições fono- 

ógicas, de tal modo que, ao termo carac- 
terizado pela presença da marca, Jakob- 
son denominou “termo marcado”, e 
aquele caracterizado pela ausência, 
“termo não marcado” 

O binarismo do traço, porém, não se 
limita segundo Jakobson, à fonologia; a 
oposição “marcado” /“não marcado” 
surge também em morfologia, em sinta- 
xe, em semântica, e, inclusive, nos estu- 
dos sobre os distúrbios característicos 
da afasia. Para Jakobson, a afasia 
desdobra-se em dois tipos de distúrbios 
referentes a dois tipos de anomalias da 
linguagem. Um primeiro, proveniente da 
deterioração da capacidade de seleção 
das unidades linguísticas pertencentes 
ao sistema, foi denominado distúrbio 
paradigmático. O outro, chamado dis- 
túrbio sintagmático, diz respeito à dete- 
rioração do poder de combinar tais uni- 
dades na cadeia lingúística. Por outro 
lado, uma vez que os traços distintivos 
são inerentes ao próprio processo, de 
comunicações, impõe-se que eles sejam 
descritos nos diversos níveis (articula- 
tório, acústico, nervoso e perceptivo), 
correspondentes às etapas constitumtes 
daquele processo. Conquanto tal análise 
em vários níveis possa ter a pretensão de 
conferir maior consistência teórica ao 
“princípio dicotômico” que rege a teoria 
de Jakobson, isso não chega a ocorrer. 
No entanto, na medida em que a hipótese 
binarista organizasse os materiais do 
linguista, dentro do possível e da manei- 
ra mais simples e mais econômica, ela 
passaria a ser de grande valia para os 
membros de uma comunidade lingúiís- 
tica: facilitando c trabalho de emissão e 
recepção dos locutores e ouvintes, per- 
mitiria que, em suas operações cotidia- 


A importância dada por Jakobson ao 
som guarda íntima relação com o 
caráter profundamente sonoro da 

língua russa, sobretudo com a poesia 

de Maiakóvski, seu contemporáneo. 


9713 


OS PENSADORES 


| EERRRRRE 


a 


ego 2.4 na 


A Escola Fonológica de Praga teve Pedi importância no desenvolvimento da 


Linguística do século XX, principalm 


ente por suas investigações sobre o papel 


desempenhado pelas imagens acústicas na formação e no sentido das palavras. 
Roman eba o a um dos principais animadores da Escola Fonológica de 
Praga, cidade onde se doutorou e viveu uma dezena de anos. (Vista de Praga) 


nas de codificação e decodificação, obti- 
vessem situações vantajosas de escolha 
binária, graças aos recursos informacio- 
nais. 

Essas idéias constituem o núcleo de 
uma nova disciplina, denominada por 
Jakobson Teoria da Informação. Nesse 
sentido, Jakobson propôs um modelo 
para a transmissão da comunicação, 
compreendendo um emissor e um recep- 
tor, ligados entre si por um canal de 
transmissão, através do qual passa uma 
mensagem, cuja construção baseia-se 
num código, a fim de transmitir um dado 
relativo à experiência do emissor a res- 
peito do mundo, ou seja, um referente. A 
partir daí, Jakobson deduziu que a lin- 
guagem apresenta seis funções, cada 
uma das quais especificamente orientada 
a partir de um dos hômponentes do 


974 


modelo. Assim, se a comunicação se cen- 
traliza essencialmente no referente, tra- 
ta-se da função referencial (ou represen- 
tativa ou denotativa) da linguagem (ex: 
“A Lua é um satélite da Terra”). Se visa 
também, ou principalmente, à atitude do 
emissor em si diante de sua mensagem, 
trata-se da função expressiva ou emotiva 
(“Eu te amo”). Se ela visa ao receptor, 
para agir sobre ele, trata-se da função 
conativa (“Não deixe de assistir à 
aula”). Quando a mensagem contém ele- 
mentos que procuram verificar o bom 
funcionamento do canal ou a atenção do 
receptor, trata-se da função fática (' “Está 
ouvindo o que estou dizendo?”). Se a 
mensagem é utilizada para explicitar o 
código, trata-se da função metalin- 
guistica (“Chover é verbo defectivo”). 
Finalmente, quando a mensagem visa, 


HJELMSLEV 


Com o desaparecimento da Escola 
Formalista Russa, Jakobson mudou-se 
para a Tchecoslováquia, onde se tornou 
professor de língua boêmia na 
Universidade de Brno. (Vista de Brno) 


Fabbri 


centralmente, à elaboração de sua pró- 
pria forma, trata-se da função poética da 
linguagem (“Já não queria a maternal 
adoração/que afinal nos exaure e res- 
plandece em pânico”). 

Com suas obras, Jakobson impul- 
sionou quase todos os campos da Lin- 
guística, desde a teoria geral até a 
morfologia, passando pela semântica, 
pela poética e pela métrica. Além disso, 
contribuiu de forma decisiva para fundar 
a fonologia histórica e a tipologia, e 
influenciou intensamente outros campos 
das ciências humanas, sobretudo a etno- 
logia, a mitologia ea psicanálise. No 
plano da Lingiúistica propriamente dita, 
a importância de seus trabalhos reflete- 
se sobretudo na formulação da teoria 
glossemática, cuja criação é devida, 
principalmente, a Louis Trólle Hjelmslev 
(1899-1965), que partiu das teses elabo- 
radas por Roman Jakobson no Circulo de 
Praga. 


Uma teoria dedutiva 


Hjelmslev começou sua carreira com a 
publicação do livro Princípios de Gra- 
mática Geral, em 1928. Três anos 
depois, fundava o Círculo Lingúistico de 
Copenhague e, no ano seguinte, doutora- 
va-se em filologia com a tese Estudos 
Bálticos. Em 1938, juntamente com 
seu compatriota Viggo Brôndal 
(1887-1942), Hjelmslev fundou as Acta 
Lingúistica, sub-intituladas Revista In- 
ternacional de Linguística. Essa publica- 
ção representou, nas palavras do lin- 
guista Mounin, “o ato de batismo oficial 
do estruturalismo como tendência na 
Europa” . O artigo de abertura do pri- 
meiro número, assinado por Brôndal, 
ntitulava-se Lingiística Estrutural. 

Um ano antes da fundação das Acta, 
Hjelmslev completava com um segundo 
volume a obra 4 Categoria dos Casos, 
Estudos de Gramática Geral, cujo pri- 
meiro volume fora publicado em 1935. 
Nesse ano, na cidade dinamarquesa de 
Aarhus, Hjelmslev apresentou, junta- 
mente com H. J. Uldall, o esboço de uma 
nova teoria lingúística: a Glossemática. 
Com o título de Prolegômenosa uma Teo-. 
ria da Linguagem, surgiu, em 1943, uma 
versão da Glossemática devida exclusi- 
vamente a Hjelmslev. Vinte anos depois, 


975 


OS PENSADORES 


O chamado formalismo russo representou um dos principais momentos na ferunedo 
da crítica literária do século XX, defendendo uma perspectiva centralizada 
nos aspectos estéticos, específicos da literatura como arte. Os formalistas 

congregavam-se em Moscou na segunda e terceira décadas do século XX; Jakobson 
foi uma de suas figuras de primeiro plano. (Vista do Kremlin, em Moscou.) 


Hjelmslev publicou 4 Linguagem, onde 
se encontra uma tentativa de reinter- 
pretar a gramática, sob a ótica dos câno- 
nes estruturalistas da hinguagem. 

O centro de gravidade das investiga- 
ções de Hjelmslev é constituído por seus 
trabalhos sobre os pressupostos metodo- 
lógicos que devem fundamentar a teoria 
cientifica das linguas. À maneira dos ló- 
gicos, o linguista dinamarquês procurou 
construir uma teoria lingúística na base 
de uma axiomatização completa, ou 
seja, sobre a explicitação 1 inequívoca de 
todos os princípios e definições, a partir 
dos quais sua teoria seria derivada. 
Nesse sentido, Hjelmslev estabeleceu 
três exigências metodológicas, a cujo 
conjunto ele propõe o nome de “princípio 
do empirismo” (empiriprincip). Essas 
exigências são a não-contradição, a 
exaustividade e a simplicidade absoluta, 
que devem se articular entre si, de forma 

ue a primeira predomine sobre a segun- 
a, e esta sobre a terceira. 

O emprego da palavra “empirismo” 

para designar seu princípio metodoló- 


916 


gico poderia fazer pensar que suas inves- 
tigações implicam a utilização de méto- 
dos indutivos. O próprio Hjelmslev 
admite correr um certo risco ao utilizar 
aquela expressão, mas afirma sua dispo- 
sição em abandoná- la, desde que a epis- 
temologia a declare imprópria. Às ope- 
rações de síntese, características do 
método indutivo, o linguista dinamar- 
quês opõe a análise dos verdadeiros 
dados da experiência, ou seja, o texto em 
sua totalidade. Tal análise permitiria 
isolar unidades cada vez menos gerais, 
até que se pudesse chegar às indisso- 
ciáveis unidades de base. Para designar 
esse procedimento, Hjelmslev não hesita 
em propor o termo dedução, com uma 
significação que se afasta sensivelmente 
da que é atribuída, geralmente, a essa 
palavra. 

Nesse sentido, uma vez constituida e 
considerada em si mesma, a teoria de 
Hjelmslev é perfeitamente independente 
de toda a experiência, pois não comporta 
qualquer postulado de existência e 
forma um sistema fechado que permite 


Fabbri 


HJELMSLEV 


No período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais, a cidade de Praga 
foi palco de intensa atividade intelectual e artística. Com o advento 
do nazismo, esse panorama alterou-se e, como consequência, desagregou-se a 
Escola Fonológica de Praga e Jakobson transferiu-se para a Escandinávia. 
(Cartaz tchecoslovaco anti-nazista; Museu Imperial da Guerra, Londres.) 


977 


OS PENSADORES 


determinar, por operação puramente 
dedutiva, as possibilidades resultantes 
de proposições previamente estabele- 
cidas. Por outro lado, tais proposições 
seriam estabelecidas pelo teórico a par- 
tir de sua experiência anterior, de modo 

a satisfazer as condições que permitirão 
a aphcação da teoria a certos dados. A 
teoria é, portanto, arbitrária, no sentido 
de que os dados da experiência não 
poderiam confirmá-la ou invalidá-la, e 
dentre esses dados, só poderão ser esco- 
lhidos aqueles aos quais se possa aplicar 
a teoria. 

Além disso, visando ao estudo dos tex- 
tos sob a forma de cadeias faladas, a teo- 
ria lingiística, segundo Hjelmslev, deve 
ser tão pouco metafísica quanto possível, 
ou seja, ela deverá conter um minimo de 
proposições implícitas. Deve definir os 
conceitos que utiliza e as definições, 
enquanto possível, não devem fazer 
intervir senão conceitos Já definidos. 

Dentro dos princípios metodológicos 
defendidos por Hjelmslev, e na medida 
em que a análise do texto é o fim pri- 
meiro da teoria linguistica, importa 
determinar as relações entre as partes e 
o todo. Surgem, então, três tipos de rela- 
ções (tanto no texto, como no sistema): 
as interdependências (dependências mú- 
tuas); as determinações (dependências 
unilaterais, onde, embora um termo 
pressuponha pas a reciproca não é 
verdadeira); e as constelações (depen- 
dências mais ses nas quais os ter- 
mos não se excluem, nem se repelem, 
nem mesmo pressupõem uns aos outros). 
Tais relações podem ser expressas atra- 
vês do termo função. Este, para Hjelms- 
lev, adquire um valor que, conquanto 
recorde aquele que essa palavra possui 
em matemática, não chega a identificar- 
se totalmente com ele. Assim, uma fun- 
ção é uma relação entre dois termos, de 
tal sorte que uma interdependência é 
uma função entre duas constantes, uma 
determinação é uma função entre uma 
constante e uma variável, e uma conste- 
lação é uma função entre duas variáveis. 
Os dois termos da função são ditos 
fonctifs. 

Além disso, Hjelmslev desdobra sua 
análise do texto em dois planos: um 
plano da expressão, outro do conteúdo. 
Esse desdobramento tem como ponto de 


978 


partida a dicotomia significante /sig- 
nificado, que constitui o signo. Reto- 
mando essa dualidade, o hngúista dina- 
marquês afirmará a existência de uma 
função significante (relação entre signifi- 
cante e significado), Guias oncido serão 
a expressão e o conteúdo. Por outro 
lado, o conteúdo lingúístico apresenta 
uma certa forma, forma essa que é inde- 
pendente do sentido do conteúdo: é a 
forma do conteúdo. Além disso, as rela- 
ções desta última com o sentido são arbi- 
trárias, e o sentido ordenado por essa 
forma torna-se a substância do conteúdo. 
Isso se evidencia na seguinte cadeia: ich 
weiss es nicht (alemão), I do not know 
(inglês) e je ne sais pas (francês). O que 
essas três frases possuem em comum é 
um sentido, que em português se expres- 
saria pela proposição “eu não sei”. Pro- 
cedendo analogamente para o outro 
termo da função significante (a expres- 
são), constata-se a existência de uma 
substância da expressão e de uma forma 
da expressão. 

Assim, para Hjelmslev, o signo é, ao 
mesmo tempo, o signo de uma subs- 
tância de conteúdo e o signo de uma 
substância de expressão. Em suas obras 
a palavra signo designa, portanto, a uni- 
dade resultante da função significante, 
que compreende a forma do conteúdo e a 
da expressão. Por outro lado, Hjelmslev 
considera que o signo é formado por um 
número limitado de não-signos, aos 
quais chama “figuras”. Tal constituição 
seria um dos traços fundamentais da 
estrutura lingúística. 

Em suma, ele entende a Lingúística 
como uma espécie de álgebra (Glossemá- 
tica) que opera com grandezas designa- 
das arbitrariamente. Dentro dessas coor- 
denadas teóricas, “lingua” se define 
como “uma hierarquia, onde qualquer 
uma das seções permite divisão ulterior 
em classes definidas por relação mútua, 
de tal modo que qualquer uma dessas 
classes permite uma divisão em deriva- 
dos definidos por mutação mútua” 


Um lingiiista engajado 


Hjelmslev conduziu a Lingúistica ao 
mais alto grau de abstração e, como a 
maioria dos linguistas, não demonstrou 
preocupações de natureza mais ampla e 


EEE, E 


HJELMSLEV 


O e“ uu a 
= ementilido 


[ 


Além de Saussure, Jakobson, Hjelmslev e Chomsky, a Lingúística do século XX 
apresenta outros investigadores que realizaram estudos igualmente importantes. 
O francês Emile Benveniste (acima) notabilizou-se por trabalhos sobre 
gramática comparada e, sobretudo, por suas análises dos pronomes pessoais, 
enquanto categorias constantes e independentes de toda determinação cultural. 


979 


Marcel Amson 


OS PENSADORES 


Louis Hjelmslev dedicou-se sobretudo aos aspectos metodológicos da 
Lingúística, procurando fazer da ciência da língua uma disciplina despida de 
quaisquer pressupostos metafisicos. Para ele, a Linguística deve conter o 
mínimo possível de proposições implícitas, e o pesquisador deve definir 
rigorosamente todos os conceitos que utiliza. (Foto de Hjelmslev, em 1959.) 


980 


Keystone 


CHOMSKY 


mais próxima de problemas concretos do 
homem. Perfil intelectual diferente en- 
contra-se em Noam Chomsky 
(1928- ) que, além de notável teórico 
da Linguística, é um dos principais pole- 
mistas da esquerda norte-americana. 

Natural de Filadéfia, Avram Noam 
Chomsky frequentou a Universidade de 
Pensilvânia, onde estudou Lingúística 
Matemática e Filosofia. Depois de dou- 
torar-se, Chomsky, a partir de 1955, tor- 
nou-se titular da cadeira de Linguística e 
de Linguas Modernas do Instituto de 
Tecnologia de Massachusetts, onde par- 
ticipou, sob a liderança de vários estu- 
dantes, de uma companha contra a tenta- 
tiva de utilização dessa universidade por 
parte do Pentágono e da NASA. Nessa 
ocasião, declarou em entrevista à im- 
pressa que não via motivos legítimos 
para justificar a utilização de subsídios 
públicos em uma tecnologia destrutiva, 
acrescentando ser necessário opor a uma 
tal tecnologia pressões políticas e sociais, 
que, utópicas na aparência, poder-se- 
iam converter em realidade. Conquanto 
não tenha desenvolvido um pensa- 
mento propriamente político, Sn 
um dos intelectuais mais ativos dos 
Estados Unidos no que toca à participa- 
ção política. Seus artigos, como polemis- 
ta, sobre a guerra do Vietnã, por exem- 
plo, ficaram famosos pelas incisivas, 
irônicas e devastadoras criticas às mi- 
ciativas norte-americanas no sudeste 
asiático. Por outro lado, embora de ori- 
gem judaica, desde a juventude Jgou-se 
a grupos que se opunham à criação do 
Estado de Israel, tendo trabalhado nclu- 
sive pela cooperação árabe-judaica em 
bases socialistas. Ainda a propósito da 
politica externa americana, escreveu A 
América e Seus Novos Mandarins, dedi- 
cado “aos corajosos Jovens que recusam 
servir numa guerra criminosa”. Além 
desse livro, escreveu também Por Ra- 
zôes de Estado, e Violência Contra- Revo - 
lucionária. 


Lingiiística e Gramática 


para Chomsky 


Adversário virulento do estrutura- 
lismo e do behaviorismo, Chomsky lan- 
çou violento ataque a esta última cor- 
rente em 1950, num comentário sobre 


Comportamento Verbal, livro escrito 
pelo psicólogo  B. JF. Skinner 
(1904- ). Embora se tenha formado 
dentro da escola do estruturalismo ame- 
ricano, sobretudo a representada por 
Bloomfield, Chomsky viria a rejeitar a 
maioria dessas idéias. 

O objetivo da Lingiiística é a constru- 
ção de uma gramática geral que permita 
a descrição de todas as linguas. No 
entanto, na medida em que a teoria 
Inguística também tenha como aspira- 
ção a comparação entre gramáticas dife- 
rentes, é sua tarefa explicitar e formular 
os Ri erais que permitem optar 
pela melhor delas. Ou, no caso de lin- 
guas que não possuem sequer uma gra- 
mática parcial, a teoria linguistic a dev e 
ser capaz de decidir entre as possibili- 
dades oferecidas pelas regras gramati- 
cais (parciais, também) que o linguista 
elabora acerca dessas linguas. 

As regras gramaticais, para Chomsky, 
devem ser especificadas e formalizadas 
com tanta precisao quanto as regras que 
governam a aritmética. Evidencia-se ai a 
influência exercida por seus estudos 
matemáticos, que virão a manifestar-se 
no rigor que permeia sua obra. Por outro 
lado, se para Chomsky o conjunto de fra- 
ses que uma gramática engendra é é defi- 
nido como língua, tal gramática deve 
engendrar todas as frases dessa lingua, e 
apenas elas. 

A linguagem humana, para ele, tem 
como propriedade geral o carater aberto 
ea criatividade, ou seja. a ca acidade de 
todo “locutor autótone” produzir e com- 
preender um número indefinidamente 
grande de frases, jamais ouvidas ante- 
riormente e, talvez, jamais pronuncia- 
das. Esse emprego criador da lingua 
materna, diz Chomsky, é, normalmente, 
inconsciente e espontâneo no locutor. 

Na evolução de seu pensamento bin- 
gúístico, Chomsky criou, sucessiva- 
mente, uma Gramática Gerativa, uma 
Gramática Sintagmática (expostas em 
Estruturas Sintáticas, publicado em 
1957) e uma Gramática Transforma- 
cional, apresentada em Aspectos da Teo- 
ria da Sintaxe (1965). 

A gramática gerativa visa a descrever 
todas as frases É e uma língua, através de 
um número finito de regras que possibi- 
litam engendrar ou explicitar um núme- 


981 


OS PENSADORES 


ro infinito de frases. Estas podem ser 
representadas em dois níveis: sintático, 
como sequências de palavras, e fonoló- 
gico, como sequências de fonemas. Toda 
sequência de palavras diferente constitui 
uma frase diferente, desde que essa 
sequência seja, naturalmente, bem for- 
mada. Além disso, do ponto de vista 
estritamente sintático, a estrutura fono- 
lógica das palavras não desempenha 
qualquer papel. 

Por outro lado, embora apresente 
grande simplicidade formal, a gramática 
gerativa exibe um modelo inadequado, 
incapaz de dar conta de uma série de 
processos normais para a formação de 
frases. Mais potente que a ramática 
gerativa, pois é capaz de realizar com 
vantagem tudo o que a última faz, a gra- 
mática sintagmática é o segundo dos 

“três modelos para a descrição da 
linguagem” + elaborados por Chomsky. 
Na gramática sintagmática, as palavras 
que compõem a frase são denominadas 
seus constituintes últimos; e a ordem 
ocupada por estes, uns em relação aos 
outros, é designada pela expressão es- 
trutura linear da frase. Tal estrutura em 
constituintes ou estrutura sintagmática 
assemelha-se à noção da realização das 
operações em matemática, com a utiliza- 
ção de parênteses. Se, por exemplo, é 
necessário solucionar a equação (x + y) 
xz, a operação de adição tem prioridade 
sobre a de multiplicação. Um sintagma 
do gênero os homens e as mulheres do 
sul admite duas interpretações: os ho- 
mens e (as mulheres do sul), ou seja, x 
+ (yz), e (os homens e as mulheres) do 
sul, isto é, (x + y)xz. Esta segunda inter- 
pretação equivale a (os homens do sul) e 
(as mulheres do sul), vale dizer: (x +) 
xz = (xz) + (yz). Assim, duas sequências 
de elementos podem ter a mesma estru- 
tura linear, mas estruturas sintagmá- 
ticas diferentes. 

O mérito da gramática sintagmática 
elaborada por Chomsky reside na possi- 
bilidade de formalizar um modelo de 
estrutura sintática, através da análise 
das frases em seus constituintes últimos. 
Contudo, também essa gramática apre- 
senta limitações. Embora não tenha pro- 
vado a existência de frases que essa gra- 
mática não fosse capaz de engendrar, 
Chomsky afirmou que existem frases que 


982 


tal gramática não é capaz de descrever 
senão de maneira “desajeitada”. Ele jus- 
tifica a escolha de seu “terceiro mode- 
lo”, a gramática transformacional, di- 
zendo que esta última é mais simples 
que a sintagmática. 

Nota-se que, na gramática sintagmá- 
tica, parte-se de uma dada frase (se- 
quência inicial) que, após a utilização de 
certas regras (análogas, num certo senti- 
do, à utilização dos parênteses em mate- 
mática), engendra uma outra sequência 
(sequência terminal). A colocação dos 
parênteses que acompanham uma se- 
quência terminal (engendrada, natural- 
mente, por uma gramática sintagmática) 
é definida como indicador sintagmático. 

A propriedade definitiva das regras 
transformacionais é constituida pela 
regra que converte um indicador sintag- 
mático em outro. A sequência derivada, 
dada pela aplicação de uma regra trans- 
formacional, pode servir de sequência 
subjacente à qual se aplica uma segunda 
regra transformacional e será necessá- 
rio, portanto, atribuir-lhe o indicador 
sintagmático derivado apropriado. 

Na gramática transformacional, a sin- 
taxe se desdobra em dois componentes. 
Um deles diz respeito à base da gramá- 
tica, a qual define as estruturas funda- 
mentais. O outro, caracterizado pelo 
componente transformacional, é consti- 
tuído pelas transformações graças às 
quai é possível chegar às estruturas das 

ases, tal como se apresentam na língua. 
Estas últimas, ditas estruturas de super- 
ficie, são atingidas a partir de estruturas 
pensas cuja definição é dada pela 

ase. A passagem das estruturas profun- 
das às de superficie obedece às regras 
das transformações. Nessa ordem de 
idéias, cabe salientar que o sentido de 
cada frase é derivado, em grande parte, 
senao totalmente, de sua estrutura pro- 
funda, por meio de regras de interpre- 
tação semântica; por outro lado, a inter- 
pretação fonética de cada frase (sua 
descrição fisica enquanto sinal acústico) 
é derivada de sua estrutura de superficie, 
por meio de regras fonológicas. 

Apesar da fecundidade de sua análise, 
Chomsky não chegou a considerá-la 
esgotada. Suas idéias, discutidas, por 
vezes combatidas, não podem ser ignora- 
das no terreno da Linguística moderna. 


CHOMSKY 


Magnum-zoom 


Conhecido também como um dos principais representantes 
da esquerda norte-americana, Avram Noam Chomsky realizou importante 
renovação teórica nos domínios da Lingúística. Combatendo as tendências 
behaviorista e estruturalista, abriu novo caminho para o estudo 
dos fatos da língua, desde sua tese de doutoramento, escrita em 1957. 


983 


1857 — Em Genebra, nasce 
Ferdinand de Saussure. 

1858 — Nasce Emile Durk- 
heim. 

1879 — Saussure publica o 
Trabalho sobre o Sistema 
Primitivo das Vogais Indo- 
Européias. 

I880 — Apresenta sua tese 
de doutoramento Sobre o 
Emprego do Genitivo Abso- 
luto em Sanscrito. 

1887 — Nascem Leonard 
Bloomfield e Viggo Brôndal. 
1890 — Nasce Nicolas Ser- 
gueivitch Troubetzkoi. 

1896 — Nasce Roman Ja- 
kobson. 

1899 — Nasce Louis Trólle 
Hjelmslev. 

1902 — Nascimento de 
Émile Benveniste. 

1913 — Morre Saussure. 
1916 — Charles Bally e Al- 
bert Séchehaye publicam o 
Curso de Linguística Geral, 
de Saussure. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1917 — Morre Durkheim. 
1928 — Juntamente com 
Troubetzkoi e Karcevski, 
Jakobson apresenta a Pro- 
posição 22. Publicação dos 
Princípios de Gramática 
Geral, de Hjelmslev. Na Fi- 
ladélfia, nasce Avram Noam 
Chomsky. 

1929 — Jakobson publica 
suas Notas sobre a Evolu- 
ção Fonológica do Russo 
Comparada à das Outras 
Linguas Eslavas. Morre Jan 
Baudouin de Courtenay. 
1931 — Hjelmslev funda o 
Círculo Lingúístico de Co- 
penhague. Publicam-se os 
Princípios de Fonologia 
Histórica, de Jakobson. 

1932 — Hjelmslev doutora- 
se em filologia com a tese 
Estudos Bálticos. 

1935 — Publica o primeiro 
volume de A Categoria dos 
Casos, Estudos de Gramáti- 
ca Geral. 


BIBLIOGRAFIA 


1937 — Publica o segundo 
volume da mesma obra. 
1938 — Juntamente com 
Brôndal, funda a Acta Lin- 
guistica. Morre Troubetz- 
koi. Jakobson publica Sobre 
a Teoria das Afinidades Fo- 
nológicas entre as Linguas. 
1939 — Publicação de O 
Desenvolvimento Fonológi- 
co da Linguagem Infantil e 
as Coerências Correspon- 
dentes nas Linguas do Mun- 
do, de Jakobson. 

1943 — Hjelmslev publica 
A Resposta dos Fundamen- 
tos de uma Teoria da Lin- 
guagem. 

1949 — Morre Bloomfield. 
1957 — Editam-se as Estru- 
turas Sintáticas, de 
Chomsky. 

1963 — Publicação de A 
Linguagem, de Hjelmslev. 
1965 — Chomsky publica 
os Aspectos da Teoria da 
Sintaxe. Morre Hjelmslev. 


Dusois, J.: Estruturalismo e Lingúística, in Estruturalismo e Marxismo, de vários autores, 
Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1968. 
Leroy, M.: As Grandes Correntes da Lingúística Moderna, Editora Cultrix e Editora da 
Universidade de São Paulo, São Paulo, 1971. 
Mounin, G.: La Linguistique du Siecle, Presses Universitaires de France, Paris, 1972. 

Marroso CAMARA JUNIOR, J.: Roman Jakobson e a Linguística, in Linguística. Poética. Cine- 
ma., de vários autores, Editora Perspectiva, São Paulo, 1970. 
RuweT, N.: Prefácio aos Essais de Linguistique Générale, de Jakobson, Les Éditions de 


Minuit, Paris, 1963. 


MARTINET, À.: Au Sujet des Fondements de la Théorie Linguistique de Louis Hjelmslev. 
Republications Paulet n.º 3, Paris, maio de 1968. 
GREIMAS, A. J.: Prefácio a Le Langage, de Hjelmslev, Les Éditions de Minuit, Paris, 1966. 

Linguistics and Politics. Interview with Noam Chomsky, in New Left Review n.º 57, Londres, 


setembro-outubro de 1969. 


Lyons, J.: Chomsky, Éditions Seghers, Paris, 1971. 


vS4 


CANDALH A ODACII 


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OS PENSADORES 


les (384 a.€.-332 a.C.), o termo 

“estrutura” manifesta os mais va- 
riados significados no curso da história, 
mas só modernamente assumiu destaque 
especial, tornando-se a noção central de 
várias correntes de pensamento, que 
abrangem desde a lingiiística e a antro- 
pologia até a psicanálise e a história. O 
denominador comum a todas essas cor- 
rentes de pensamentos é o chamado “es- 
truturalismo”. 

Traçando-se a gênese do vocábulo 
“estrutura”, encontra-se em sua raiz eti- 
mológica um primeiro sentido que, de 
certa forma, está presente em todas as 
correntes estruturalistas do século XX. 
A palavra latina structura deriva do 
verbo Struere, que significa construir, no 
sentido de “construir edificios”. A partir 
do século XVII, o termo, já nas línguas 
modernas, passou a ser empregado em 
outros sentidos, além do significado ar- 
quitetônico. Essa ampliação verificou-se 
na biologia, quando se passou a compa- 
rar o corpo do homem a uma construção: 
Fontenelle (1657-1757), por exemplo, 
fez esse tipo de comparação, quando es- 
creveu sobre a disposição dos órgãos. O 
termo “estrutura” estendeu-se também 
aos domínios da linngúística, quando, 
entre outros, Vaugelas (1585-1650) em- 
pregou o vocábulo ao tratar da distribui- 
ção das palavras na oração e da compo- 
sição dos estilos poéticos. Esses 
anatomistas e gramáticos empregaram o 
termo “estrutura” pelo fato de ele poder 
designar, simultaneamente, um con- 
Junto, as partes desse conjunto e as rela- 
ções dessas partes entre si; a esses senti- 
dos se poderia acrescentar ainda as 
relações das partes com o conjunto. A 
mesma riqueza de significados explica 
também a atenção despertada pela pala- 
vra, a partir do século XIX, em todos os 
interessados pelas ciências exatas, pelas 
ciências da natureza e pelas ciências do 
homem. As investigações de Galois 
(1821-1832), por exemplo, ao elaborar 
a teoria dos grupos, apresenta uma pri- 
meira vinculação entre a noção de estru- 
tura e a matemática. 

Todos esses dados históricos permi- 


P resente na filosofia desde Aristóte- 


Na pág. anterior: Foto do antropólogo 
Claude Lévi-Strauss (M. P. Guéna). 


986 


tem esboçar uma primeira delimitação 
do termo, tal como ele é empregado pe- 
las correntes estruturalistas. Em um pri- 
meiro sentido, de natureza biológica, 
“estrutura” seria um conjunto, cujos ele- 
mentos manifestam solidariedade entre 
si e dependência mútua. A totalidade de 
tal conjunto não consistiria simples- 
mente na soma de suas partes, mas re- 
sultaria das relações internas existentes 
entre as partes, relações essas que são 
necessárias e funcionais. No sentido ma- 
temático, “estrutura” significa um sis- 
tema de relações ou leis que descrevem 
o funcionamento de um fenômeno repre- 
sentado por um modelo. Nesse sentido, 
“estrutura” reduz-se a um sistema de 
operações abstratas, e seu significado é 
o de uma combinatória geral, que as- 
sume aspecto particular ou concreto, 
quando preenchida por um modelo, isto 


é, pela representação de um fenômeno 


determinado. “Estrutura” seria, assim, 
uma forma vazia, cuja matéria é variá- 
vel, visto depender do modelo particular 
que venha a se encaixar nela. 

Esses dois sentidos (biológico e mate- 
mático) não são, contudo, suficientes 
para se compreender o emprego da pala- 
vra pelas correntes Soma: o sê- 
culo XX. 

Nesse sentido, impõe-se lembrar o pa- 
pel desempenhado por Ferdinando 
Saussure (1857-1913), criador da lin- 
guística modema e precursor do estru- 
turalismo. Embora não tenha usado a 
palavra “estrutura” | explicitamente, 
Saussure elaborou toda a essência da 
concepção estrutural, mediante a noção 
de “sistema”. Para Saussure, a língua é 
um sistema, cujos termos são todos soli- 
dários, e no qual o valor de um termo re- 
sulta da presença simultânea de outros. 
Além disso, as partes do sistema podem 
e devem ser todas consideradas em sua 
solidariedade sincrônica, isto é, em um 
dado momento do tempo, e não em sua 
evolução histórica. 

Suas bases conceituais assim estabe- 
lecidas, o estruturalismo pôde desenvol- 
ver-se, e estendeu-se a todos os domínios 
das ciências humanas. Papel especial- 
mente importante nesse sentido foi de- 
sempenhado pelo antropólogo Claude 
Lévi-Strauss, nascido na Bélgica, em 
1908. 


LEVI-STRAUSS 


V 


A 


e 
Rs E Er nes Po adia: 


Os primeiros resultados indiscutíveis da perspectiva estruturalista 


apresentaram-se no terreno da Linguística. Adaptado às investigações 
antropológicas, o estruturalismo renovou e fecundou essa área das ciências 


humanas, sobretudo com os trabalhos de Claude Lévi-Strauss (acuna, em 
seu gabinete no Laboratório de Antropologia Social do Collége de France.) 


98% 


GUÉNA P. M. 


OS PENSADORES 


GUÉNA P.M. 


A carreira científica de Lévi-Strauss iniciou-se em 1934, na Universidade 
de São Paulo. Depois disso, o antropólogo lecionou na New School 
for Social Research, em New York, de onde passou para a École Pratique des 
Hautes Études da Universidade de Paris. Desde 1968 ocupa a cátedra de 
Antropologia Social do Collêge de France, cujo pátio interno é visto acima. 


988 


LÉVI-STRAUSS 


Nos Tristes Trópicos 


Lévi-Strauss miciou sua vida profis- 
sional como antropólogo, quando fez 
parte da missão francesa que auxiliou o 
governo de São Paulo (Brasil) a fundar 
sua universidade, em 1934. Formado em 
filosofia pela École Normale Supérieure, 
de Paris, Lévi-Strauss, em seus cursos 
na Universidade de São Paulo, já discu- 
tia temas e problemas, como o tote- 
mismo e os sistemas de classificação de 
povos primitivos. Nessa época, Lévi- 
Strauss realizou estudos de campo entre 
os índios brasileiros dos grupos bororo, 
cadiueu, nhambiquara e tupi-caraíba. 
Em sua obra Tristes Trópicos, publicada 
em 1955, encontra-se uma análise dos 
Frupos indigenas e da sociedade paulista 

a época, em linguagem acessível ao pú- 
blico não especializado. 

Pouco antes da eclosão da Segunda 
Guerra Mundial, Lévi-Strauss E ps à 
França, onde serviu ao exército nos dois 
primeiros anos da guerra. Em 1941, via- 
jou para a Martinica, na América Cen- 
tral, e daí conseguiu chegar aos Estados 
Unidos, onde passou a lecionar na New 
School for Social Research. Nos Estados 
Unidos, Lévi-Strauss entrou em contato 
com a escola norte-americana de antro- 

ologia, profundamente influenciada pe- 
as investigações de Franz Boas 
(1858-1942), e com o grupo dos lingúuis- 
tas liderados por Roman Jakobson 
(1896-...). Em 1945, veio à luz, na re- 
vista dirigida por Jakobson, o artigo 4 
Análise Estrutural em Lingúística e An- 
tropologia, no qual se encontram os pri- 
meiros passos no sentido de constituição 
de uma antropologia estruturalista. 
Nesse artigo, Lévi-Strauss procura em- 
pregar o método desenvolvido pela lin- 
guística fonológica na análise de fenô- 
menos culturais. 

De volta à França em 1948, 
Lévi-Strauss passou a dirigir uma seção 
da École Pratique des Hautes Études, da 
universidade de Paris. O ano seguinte 
seria marcado pela publicação de Estru- 
turas Elementares do Parentesco, na 
qual Lévi-Strauss fez uma primeira ten- 
tativa de aplicação integral do método 
estruturalista aos problemas antropoló- 
gicos. A idéia central é a de que todos 
os sistemas atravês dos quais as socie- 


dades se organizam refletem processos 
de comunicação. Os mais importantes 
dentre eles são o de parentesco, como 
forma de circulação de mulheres, o eco- 
nômico, de circulação de bens, e a lin- 
gua, sistema de troca de palavras. 

Em 1958, Lévi-Strauss publicou a co- 
letânea Antropologia Estrutural. Em 
1962, vieram à luz O Totemismo Hoje 
e O Pensamento Selvagem. Nessas 
obras, Lévi-Strauss procura mostrar o 
processo lógico que opera com as cate- 
gorias do sensível e como esse tipo de 
pensamento não se encontra apenas en- 
tre os povos primitivos, fazendo-se tam- 
bém presente na vida cotidiana do ho- 
mem civilizado. Suas obras posteriores 
ocupam-se do funcionamento dessa es- 
trutura de pensamento, através da aná- 
lise comparativa dos mitos: O Cru e o 
Cozido (1964), Do Mel às Cinzas 
(1966), As Origens da Etiqueta à Mesa 
(1968), e O Homem Nu (1971). 


Que é estrutura? 


Em Antropologia Estrutural Lévi- 
Strauss afirma que, para merecer o nome 
de “estrutura”, um modelo científico 
deve satisfazer, exclusivamente, a qua- 
tro condições. Em primeiro lugar, o mo- 
delo deve oferecer um caráter de sis- 
tema, isto é, consistir de elementos 
tais que uma modificação qualquer de 
um dos elementos acarrete modificação 
em todos os outros. Em segundo lugar, 


. todo modelo deve pertencer a um grupo 


de transformações, cada uma das quais 
corresponda a um modelo da mesma 
família, de modo que o conjunto dessas 
transformações constitua um grupo de 
modelos. Em terceiro lugar, as proprie- 
dades exigidas por essas duas condições 
devem permitir prever de que modo rea- 

irá o modelo, em caso de modificação 
de um dos elementos. Finalmente, é ne- 
cessário que o modelo seja construído de 
tal modo que seu funcionamento possa 
explicar todos os fatos observados. A 
primeira dessas condições revela a opo- 
sição, não só de Lévi-Strauss mas do es- 
truturalismo em geral contra o empi- 
rismo. Na medida em que o empirismo 
concebe a realidade como singular e 
como revelada graças à experiência 
sensível, o objeto passa a ser o que é, 


989 


Lire | 


OS PENSADORES 


CLAUDE LÉVESTRAUSS | 


LA PENSEE 
SAUVAGE 


Em Tristes Trópicos encontram-se as análises estruturais que Lévi-Strauss 
fez, a partir de suas investigações junto aos índios brasileiros dos rapos 
bororo, cadiueu, nhambiguara e tupi-caraíba. Em O Pensamento Selvagem, 
Lévi-Strauss mostra o processo lógico que opera com as categorias do sensível 
e constrói explicações do mundo tal como ele é vivido imediatamente. 


dado, o fato. Para o estruturalismo, ao 
contrário, um fato isolado, enquanto tal, 
jamais possui significado. Lévi-Strauss 
exemplifica com os nr a 
cheese e queijo. Quando isolados da es- 
trutura alimentar que os determina, es- 
ses vocábulos, aparentemente, se refe- 
rem à mesma realidade; o mesmo, 
contudo, não ocorre quando são conside- 
rados no interior das distintas estruturas 
alimentares a que pertencem, como por 
exemplo a cozinha francesa, inglesa ou 
brasileira, nas quais se revelam comple- 
tamente diferentes. Para o francês, fro- 
mage conota um gosto picante, enquanto 
que, para o inglês, cheese quase não pos- 
sui gosto e, para o brasileiro, queijo de- 
nota um gosto salgado. Salienta-se as- 
sim o caráter relativo dos elementos da 
estrutura: o sentido e o valor de cada 
elemento advêm, exclusivamente. da po- 
sição que ocupem em relação aos de- 
mais. Para Lévi-Strauss, uma estrutura 


990 


se constrói tendo como base oposições 
binárias pertinentes. A pertinência ou 
oposição pertinente por sua vez é defi- 
nida por ele como uma operação que 
pressupõe: a) que cada unidade da estru- 
tura é uma simples relação, insignifi- 
cante em si mesma; b) que a descrição 
das unidades relativas deve cobrir a to- 
talidade dos fenômenos de um campo as- 
sim estruturado; c) que os elementos não 
pertinentes devem ser eliminados; d) que 
a estrutura deve ser construida a partir 
das menores unidades significativas do 
domínio estudado, Além disso, as oposi- 
ções binárias pertinentes conferem valor 
aos elementos constituintes do sistema. 
valor esse que é exclusivamente de posi- 
ção. Desse modo, a estrutura, segundo 
Lévi-Strauss, é um sistema de relações, 
e é de sistemas desse gênero que a socie- 
dade é feita: sistema de parentesco e de 
filiação, sistema de comunicação lin- 
gúística, sistema de troca econômica, da 


LÉVI-STRAUSS 


CLAUDE LEVI-STRAUSS 


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af mesa 


Ê CLAUDE | 
LEVI-STRAUSS , 
MYTHOLOGIQUES : 


La Cru 
CUIT, 


PMN 
ED 


Para Lévi-Strauss, a lógica concreta pe po “primitivos” 


não é um fenômeno exclusivo desses povos. Pe 


o contrário, está também 


resente em todos os momentos da vida do homem “civilizado”. 
Em O Cru e o Cozido e Do Mel às Cinzas, através da análise comparativa 
dos mitos, Lévi-Strauss mostra o funcionamento dessa “ciência do concreto”. 


arte, do mito e do ritual. Essa concepção 
acarreta como consequência que, para 
Lévi-Strauss, a noção de estrutura social 
não se refere propriamente à realidade 
empírica, mas aos modelos construídos 
segundo essa realidade. Os modelos, 
para Lévi-Strauss, podem ser conscien- 
tes ou inconscientes, de acordo com o 
nível onde funcionam, e essa condição 
não afeta sua natureza. Os modelos 
conscientes (que se chamam comumente 
normas) incluem-se entre os mais pobres 
que existem, em razão de sua função, 
que é a de perpetuar as crenças e os 
usos, mais do que lhes expor as causas. 
Assim, a análise estrutural choca-se 
com a seguinte situação paradoxal, bem 
conhecida pelo linguista: quanto mais 
nítida é a estrutura aparente, tanto mais 
dificil torna-se apreender a estrutura 
profunda, por causa dos modelos cons- 
cientes e deformados que se interpõem, 
como obstáculos, entre o observador e o 


seu objeto. Na investigação etnológica, 
tais obstáculos estabelecem uma distân- 
cia entre o observador e a sociedade es- 
tudada; essa distância constitui uma ga- 
rantia de objetividade, pois, impedindo 
que observador e objeto venham a se 
identificar, impede também que este úl- 
timo seja reduzido às pré-concepções do 
primeiro. Mas, ao mesmo tempo, essa 
distância não tem apenas um caráter li- 
mitativo, pois constitui o terreno de uma 
possível comunicação. Se a estranheza 
entre o observador e o seu objeto é total, 
se eles não dispõem de nada em comum, 
então o objeto se fecha na sua opacidade 
e permanece refratário à investigação. 
Alem disso, a própria divergência entre 
a cultura do observador e a do obser- 
vado, mediante o qual o outro se consti- 
tui como tal, torna-se ininteligível. O 
conceito de objetividade assume então 
um valor problemático, não significando 
apenas uma cisão, uma distância, mas 


991 


OS PENSADORES 


também uma reciprocidade, uma solida- 
riedade entre o observador e o obser- 
vado. O conceito de objetividade dá lu- 
gar ao paradoxo de um objeto, ao 
mesmo tempo, objetivamente muito 
afastado e sSubjetivamente muito con- 
creto; em outros termos, dá lugar ao pa- 
radoxo de uma verdade que se situa na 
intersecção de duas subjetividades. Na 
realidade, o que caracteriza a investiga- 
ção etnológica é a recusa da antinomia 
entre sujeito e objeto. A apreensão do 
fato social é concreta na medida em que 
é totalizante e envolve, em um único mo- 
vimento, as propriedades objetivas e a 
experiência subjetiva. Tal apreensão 
concreta não se refere à existência Ime- 
diata do objeto dado, mas ao objeto real 
que, para o estruturalismo, é constituido 
pela totalidade de suas manifestações 
empíricas visíveis, acrescidas de sua ra- 
zão invisível, teoricamente estabelecida. 
Explica-se, assim, por que Lévi-Strauss 
trata, não das relações sociais visíveis, 
mas das estruturas sociais invisíveis. 


Um novo idealismo? 


Em sua Antropologia Estrutural, 
quando estabelece um paralelo entre a 
lingua e a cultura, e em O Cru e o Co- 
zido, quando examina o sistema das 
transformações dos mitos, a partir de 
um mito de referência qualquer, Lévi- 
Strauss encontra sempre um sistema de 
invariantes estruturais, ou de leis estru- 
turais, que o levam a postular uma iden- 
tidade entre as leis do mundo e as do 
pensamento. Em consequência, concebe 
a estrutura como real; não como subs- 
tância, mas como sistema de leis cons- 
tantes do espírito. “Nossa problemática” 
- reconhece Lévi-Strauss - “reúne-se à do 
kantismo”. Procurando as condições nas 
quais os sistemas de verdade se tornam 
mutuamente conversíveis e podem, por- 
tanto, ser simultaneamente recebidos 
por vários sujeitos, o autor de O Cru e 
o Cozido mostra como o conjunto dessas 
condições adquire o caráter de objeto 
dotado de realidade própria e indepen- 
dente de todo sujeito. Com os mitos 
ocorreria o mesmo que com a lingua- 
gem: o sujeito que aplicasse consciente- 
mente no discurso as leis fonológicas e 
gramaticais, afinal acabaria perdendo o 


992 


fio de suas idéias. Do mesmo modo, o 
exercício e o uso do pensamento mítico 
exigem que suas propriedades permane- 
cam escondidas. À análise dos mitos, as- 
sim, não tem, nem pode ter, como objeto, 
mostrar como os homens pensam, mas 
como os mitos se pensam nos homens. 
Lévi-Strauss vai ainda mais longe, ao 
admitir que se deva fazer abstração de 
todo sujeito para considerar que, de 
certa maneira, os próprios mitos se pen- 
sam entre si. 

Por outro lado, a problemática sujei- 
to-objeto, envolvida na conceituação de 
estrutura, vincula-se ao problema for- 
ma/conteúdo. Para Lévi-Strauss, existe 
“uma atividade inconsciente do es- 
pirito”, que consiste em “impor formas 
a um conteúdo”. Embora afirmando que 
forma e conteúdo possam ser definidos 
como pontos de vista complementares, 
Lévi-Strauss insiste no fato de que só as 
formas, e não os conteúdos, podem ser 
comuns. Além disso, à constância das 
formas se contrapõe a variabilidade dos 
conteúdos. Isso não implica, contudo, 
que haja uma antinomia entre forma e 
conteúdo, pois este último nas palavras 
de Lévi-Strauss “deriva sua realidade de 
sua estrutura, e o que se define como 
forma é a estruturação das estruturas lo- 
cais nas quais consiste o conteúdo”. A 
complementaridade forma / conteúdo 
traduz a recusa a opor o abstrato ao con- 
creeto. Lévi-Strauss declara que “o es- 
truturalismo se recusa a opor o concreto 
ao abstrato e a atribuir valor privile- 
giado ao segundo. A forma é definida 
por oposição à matéria que lhe é estra- 
nha, mas a estrutura não possui um con- 
teúdo dela mesma. A estrutura é o pró- 
prio conteúdo apreendido numa 
organização lógica, concebida como 
propriedade do real”. Desse modo, longe 
de constituir uma antinomia, forma e 
conteúdo são ambos da mesma análise 
estrutural, já que a não-arbitrariedade 
dos conteúdos é ressaltada por sua 
transformação recíproca, através de per- 
mutações que respeitam as condições 
postas pela estrutura do conjunto. Se- 
Ronco Lévi-Strauss, isso permite passar 

a observação etnográfica, que é con- 
creta e individualizada, às pesquisas es- 
truturais, cujo caráter abstrato e formal 
parece opor-se aos dados gráficos. 


LEVI-STRAUSS 


Lévi-Strauss conseguiu dar maior amplitude ao estudo das relações de 
parentesco, dele afastando qualquer conotação biológica. O autor de Tristes 
Trópicos mostrou que o parentesco é uma forma de comunicação: 
as mulheres circulam entre as ear Ate gr criando laços 
sociais de aliança. (Adolescentes da tribo dos índios brasileiros utacá.) 


993 


OS PENSADORES 


Coisas e relações 


A contradição entre o caráter abstrato 
das esquisas estruturais e o caráter in- 
dividualizado da observação etnográfica 
desaparece quando, segundo Lévi- 
Strauss, se compreende que esses carac- 
teres antitéticos dependem de dois níveis 
diferentes, ou, mais exatamente, corres- 
pondem a duas etapas da pesquisa. No 
nível da observação, a regra principal 
estabelece que todos os fatos devem ser 
exatamente observados e descritos, sem 
permitir que os preconceitos teóricos al- 
terem sua natureza e sua importância. 
Essa regra implica outra, se ndo a 
qual os fatos devem ser estudados em si 
mesmos (que processos concretos os le- 
varam à existência?) e também em rela- 
ção com o conjunto; em outros termos, 
toda mudança em um ponto deve ser re- 
lacionada com as circunstâncias globais 
de sua aplicação. 

Por outro lado, a investigação estru- 
turalista, tal como a concebe Lévi- 
Strauss, apresenta a imprescindível exi- 
gência metodológica do estudo imanente 
das conexões essenciais das estruturas, 
independentemente do problema de sua 
gênese ou de suas relações com o que é 
exterior a elas. O estudo imanente de um 
objeto implica a descrição do sistema 
em termos estritamente relacionais; 
onde a experiência comum só reconhece 
coisas, a análise estrutural descreverá 
redes de relações nas quais estas têm 
prioridade dig O próprio 
objeto e suas es diferentes aparece- 
rão como intersecções de feixes de rela- 
ções. No sentido do sistema de pa- 
rentesco, por exemplo, deve-se, 
inicialmente, realizar uma aproximação 
a partir do interior daquele sistema, 
aproximação que define suas estruturas 
lógicas internas, sem tratar das relações 
desse sistema com a organização social 
e econômica, com outras esferas de 
crença, etc. É verdade que a análise dos 
distintos níveis do conjunto social mos- 
tra que cada um deles constitui um sis- 


A maioria das obras de Lévi-Strauss 
foi escrita paralelamente ao seu 
trabalho na cadeira de Antropologia 
Social do College de France, em cuja 
biblioteca aparece na foto ao lado. 


994 


LÉVI-STRAUSS 


OS PENSADORES 


Wolfgang Kohler (na foto acima) foi 
um dos fundadores da Gestalt. Essa 
escola de psicologia constitui uma 
das expressões das correntes de 
pensamento estruturalista do séc. XX. 


tema e, portanto, podem ser estudados 

or meio de modelos ideais, mas é tam- 
Rem verdade que todo sistema nasce de 
uma práxis inter-humana e que a reali- 
dade social é um conjunto articulado, 
cujos diferentes níveis se acham numa 
relação de interação. Se o fato social 
constitui um todo, sua apreensão não 
pode ser parcelada; pelo contrário, deve 
sempre determinar os nexos essenciais 
que relacionam os diversoss estratos en- 
tre si. Desse modo, a totalidade do fato 
social, enquanto objeto de apreensão 
concreta, não recusa a utilização do mo- 
delo (inclusive matemático), já que ele é 
essencial à compreensão da realidade et- 
nográfica. 


Os modelos 


No entanto, a totalidade social impõe 
a exigência de que o próprio modelo 
possa fundar-se naquela realidade. Por 
exemplo: no caso de uma multiplicidade 
de fenômenos totêmicos, a Investigação 
antropológica não esgota a realidade 


996 


FAB8BAI 


concreta, quando evidencia relações de 
homologia, de oposição e de correlação 
entre os referidos fenômenos. 

No que diz respeito aos modelos, de- 
ve-se salientar uma última distinção in- 
troduzida por Lévi-Strauss. Tal distin- 
ção relaciona-se com a escala do 
modelo, comparada à dos fenômenos. 
Um modelo cujós elementos constituti- 
vos estão na escala dos fenômenos será 
chamado “modelo mecânico”, e aquele 
cujos elementos estão numa escala dife- 
rente, “modelo estatístico”. Tanto um 
quanto o outro não representam as úni- 
cas alternativas possíveis; entre os dois 
existem, segundo Lévi-Strauss, formas 
intermediárias. A distinção encontra sua 
explicação no valor posicional e diferen- 
cial que é atribuído a cada elemento da 
estrutura, destitumndo-a, assim das ca- 
racterísticas intrínsecas fornecidas pela 
experiência sensível. Nesse sentido, a es- 
trutura não consiste num conjunto de 
propriedades ou de elementos: é apenas 
um sistema de relações. Em decorrência 
disso, a investigação antropológica já 
não se apóia nos elementos em si, mas 
nas relações recíprocas que eles man- 
têm, pois apenas as relações são cons- 
tantes, ao passo que os elementos podem 
variar. Evidenciando a mesma constân- 
cia, a estrutura apresenta um caráter 
abstrato sustentado pelas propriedades 
formais do modelo. Devido precisamente 
a esse caráter abstrato, o modelo tor- 
na-se aplicável a qualquer ordem ou es- 
cala de fenômenos, mesmo que seus ele- 
mentos constitutivos difiram dessa 
ordem. Nesse sentido, a estrutura passa 
a se caracterizar por sua transponibili- 
dade, ou tradutibilidade, de fenômeno 
para fenômeno e de uma ordem de fenô- 
menos para outra. “As pesquisas estru- 
turais” - assinala Lévi-Strauss — “não 
ofereceriam interesse algum se as estru- 
turas não fossem traduzíveis em mode- 
los cujas propriedades formais são com- 
paráveis, independentemente dos 
elementos que as compõem”. Baseado na 
idéia de tradutibilidade encontra-se o 
pressuposto de que, segundo uma pers- 
pectiva abstrata, as estruturas têm a 
mesma forma, ou seja, elas obedecem ao 
princípio do isomorfismo. Este último 
garante, do ponto de vista metodológico, 
a possibilidade de uma relação inter-dis- 


LÉVI-STRAUSS 


ciplinar entre as ciências. As relações 
entre a história e a etnologia podem ser 
tomadas como ilustração, não só da 
possível colaboração entre as ciências, 
mas como aplicação da distinção entre 
modelo mecânico e modelo estatístico. 
Para explicitar a diferença entre história 
e etnologia, é preciso, segundo Lévi- 
Strauss, inseri-las no interior das outras 
ciências sociais. Para ele, “a etnografia 
e a história diferem, antes de tudo, da et- 
nologia e da sociologia, visto que as 
duas primeiras estão fundadas sobre a 
coleta e a organização de documentos, 
enquanto as ERR outras estudam antes 
os modelos construídos a partir e por 
meio desses documentos”. Além disso, a 
etnografia ea Fuolena correspondem 
respectivamente uas etapas da 
mesma pesquisa, que termina, enfim, em 
modelos mecânicos, enquanto a história 
(e todas as outras disciplinas geralmente 
classificadas como suas dunadnes) ter- 
mina em modelos estatísticos. As rela- 
ções entre essas quatro disciplinas po- 
dem, pois, ser reduzidas a duas 
oposições: uma, entre observação em- 
pirica e construção de modelos (como 
caracterizando o passo inicial); outra, 
entre o caráter estatístico ou mecânico 
dos modelos, vistos segundo a perspec- 
tiva do ponto de chegada. 


O mecesto 


Grande parte da reflexão teórica de 
Lévi-Strauss encoritra seu ponto de par- 
tida em situações concretas vividas por 
grupos primitivos. Desse modo, ao exa- 
minar, por exem lo, certas caracteristi- 
cas de grupos culturais da América tro- 

ical, Lévi-Strauss busca elucidar um 
Fa to crucial para a teoria antropológica: 
a proibição do incesto, única regra cul- 
tural que apresenta caráter de universa- 
lidade. Para o autor de Estruturas Ele- 
mentares de Parentesco, a proibição do 
incesto, arrancando o individuo de sua 
mera constituição biológica, torna-o ca- 
paz de coexistir com outros; passando 
da consanguinidade à aliança, o indivi- 
duo não se situa mais apenas em relação 
com a familia biológica, mas em relação 
com o grupo. À regra exogâmica tem a 
função de assegurar a permanência do 
grupo, que seria, ao contrário, compro- 


Michel Foucault, considerado um 
estruturalista, tem rejeitado 
essa classificação. Penetrando em 
domínios pouco explorados, Foucault 
elabora uma arqueologia do saber. 


9974 


DEDOC 


OS PENSADORES 


prá 
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O 


As corr entes estruturalistas têm proposto várias definições para a palavra 
“estrutura” + noção central de suas investigações. Levi-Strauss ensina a seus 
alunos que “uma estrutura oferece um caráter de sistema, consistindo em 
elementos combinados de tal forma que qualquer modificação em um deles 


implica uma modificação de todos os outros” 


metida, se a família biológica se voltasse 
sobre si mesma e subtraíisse os indivi- 
duos de participação no seio do próprio 
grupo. Por trás de sua conotação nega- 
tiva, a proibição do incesto encobre, na 
realidade, uma norma positiva, Já que a 
renúncia a tomar uma parceira no âm- 
bito da própria família bioló pe signi- 
fica, para o sujeito, o direito de pe 
car uma outra mulher do grupo. Are 

exogâmica constituiria assim, o núcleo 
originário, ainda indeterminado, de to- 
das as formas de intercâmbio. Lévi- 
Strauss mostra que, devido à sua univer- 
salidade, a proibição do incesto 
apresenta-se ligada à natureza, mas, na 
medida em que se instaura como regra, 
essa proibição manifesta seu caráter de 
fenômeno social e, nesse sentido, repor- 
ta-se ao universo das regras, isto é, da 
cultura. Desse modo, a origem da proi- 
bição não se situa, exclusivamente, nem 
na natureza, nem na cultura. Para Lévi- 
Strauss, ela “constitui o movimento fun- 
damental, graças ao qual, através do 
qual, mas sobretudo no qual, se realiza 
a passagem da natureza à cultura”. Vale 
salientar ainda que, substancialmente, 
não existe diferença entre a proibição do 
incesto e a exogamia. Para Lévi-Strauss, 


998 


. (Lévi-Strauss e colaboradores). 


elas diferem apenas por um caráter se- 
cundário, pois, embora ambas sejam re- 
gras de reciprocidade, esta última, na 
proibição do incesto, se apresenta sem 
organização, ao passo que, na exoga- 
mia, está organizada. A reciprocidade 
que caracteriza ambas as regras eviden- 
cia-se na renúncia que elas acarretam, 
pois só se renuncia à a filha ou à 
irmã, desde que o outro faça o mesmo. 
Além disso, o intercâmbio, distinguin- 
do-se da exogamia, não é necessaria- 
mente explicito ou imediato — o que não 
impede a presença da reciprocidade, já 
que, em última instância, a obtenção de 
uma mulher está condicionada ao fato de 
que um pai ou um irmão já renunciaram 
a ela. No entanto, adverte Lévi-Strauss, 
a regra não diz em proveito de quem se 
renuncia; o beneficiário ou, seja como 
for, a classe beneficiada, no caso da exo- 
gamia, está, ao contrário, delimitada. 
Desse modo, a única diferença é que, na 
exogamia, se expressa a crença de que 
é necessário defânir as classes para que 
seja possível estabelecer uma relação en- 
tre Ejs enquanto que, na proibição do 
incesto, a relação é é suficiente para defi- 
nir, em cada instante da vida social, uma 
completa e incessantemente renovada 


LÉVI-STRAUSS 


Por ocasião do Ano Internacional da Luta Contra o Racismo ea Discriminação 
Racial, organizado pela UNESCO em março de 1971, inúmeras per sonalidades de 
relevo mundial contribuíram com trabalhos diversos, todas condenando 
preconceitos raciais de qualquer espécie. Na foto acima, vê-se 


Lévi-Strauss, no dia de sua intervenção, ao lado 


multiplicidade de termos, direta ou indi- 
retamente solidários. 

A reciprocidade representa também o 
denominador comum entre a antropolo- 
gia estrutural e a linguística, pois em 
ambos os casos ela é a estrutura funda- 
dora. O objetivo do sistema do paren- 
tesco, como o da linguagem, é instituir 
um campo aberto da comunicação, no 
qual cada sujeito só se define por sua co- 
locação em relação ao outro. Por outro 
lado, se na linguagem os elementos cons- 
titutivos não valem tanto por suas pro- 
priedades intrínsecas, mas pelas rela- 
ções que os enlaçam em um sistema de 
separações diferenciais, nos sistemas de 
parentesco as mulheres configuram-se 
como valores num conjunto de relações 
de reciprocidade, regido por princípios 
de oposição e correlação análogas as 
que são subentendidas pela comunicação 
linguística. 

Lévi-Strauss distingue três níveis da 
comunicação social: comunicação de 
mensagens (correspondente aos produ- 
tos simbólicos que operam sobre a base 
da linguagem ou de algum sistema codi- 
ficado de signos): comunicação de mu- 
lheres (formas de Forpanitação de paren- 
tesco e de intercâmbio matrimonial); e 


o diretor da UNESCO. 


comunicação de bens (a economia). De- 
ve-se ter presente que esses três níveis de 
comunicação social são definidos por 
sistemas de regras inconscientes. Por 
outro lado, ressalte-se que o conjunto 
das aquisições inter-humanas (o com- 

lexo na necessidades, das solicitações 
hioló aos das pulsões, etc.) insere-se 
em um nível onde a subjetividade as- 
sume caráter operante graças a seu rela- 
cionamento com o outro. Essa relação se 
instaura, sobretudo, no plano do incons- 
ciente. À união entre as diversas subjeti- 
vidades não aparece somente nas insti- 
tuições conscientemente elaboradas para 
um fim intersubjetivo mas ao contrário 
tem sua gênese na pertinência a uma es- 
trutura comum — e universalmente vá- 
lda — da atividade. Segundo Lévi- 
Strauss, o objetivo da etnologia consiste 
em delmear traços essenciais, trazendo 
à luz as leis universais que formam uma 
ponte entre sujeito e sujeito e entre so- 
ciedade e sociedade. Através do incons- 
ciente realiza-se o paradoxo, próprio da 
etnologia: o de ser, ao mesmo tempo, 
uma ciência objetiva e subjetiva. Esse 
paradoxo revela-se no fato de que as leis 
do inconsciente transcendem a dimensão 
subjetiva e são, por assim dizer, exterio- 


999 


GUÉNA P.M 


OS PENSADORES 


Lévi-Strauss sempre procurou a maior 


Eee em suas 


investigações, afirmando: “É preciso 
compreender o ser em relação a ele 
próprio e não em relação a mim”. 


1000 


GUÉNA P. M. 


res a ela, ainda que não possam ser cap- 
tadas, a não ser mediante as operações 
efetivas da subjetividade. Sob um 
grande número de formas nas quais, de 
cultura a cultura, sobressai a atividade 
dos sujeitos, a etnologia individualiza as 
categorias recorrentes que constituem o 
fator primário de cada estruturação, ou 
seja, o substrato comum sobre o qual po- 
derá depois se articular uma série de ex- 
periências diferenciadas. Ainda nesse 
caso, é no exemplo da linglística — e em 
particular da fonologia — que se baseia 
a antropologia estrutural. A fonologia, 
recorda Lévi-Strauss citando Troubetz- 
koi (1890-1938), colocou em relevo a 
necessidade de se passar do estudo dos 
fenômenos conscientes da linguagem ao 
dos fenômenos inconscientes, como tam- 
bém ressaltou a necessidade de desco- 
brir o conjunto de leis elementares e uni- 
versais que permanecem latentes na 
comunicação lngúiística. 

Tendo em vista essas considerações, 
pode-se afirmar que, na tematização de 
uma ordem da realidade intersubjetiva 
(como a do sistema de parentesco), além 
da estruturação efetivar-se (sobretudo 
em um nível inconsciente), o fim essen- 
cial é o da comunicação. Essa mesma 
idéia está presente no fato de que, no uso 
da linguagem, o sujeito não tematiza ex- 
plicitamente princípios (como os de opo- 
sição e de correlação) que atuam sobre 
o continuo fônico. A razão disso está no 
fato de que os princípios operam em 
nível muito mais profundo, represen- 
tando a estrutura básica mais elementar, 
presente em todos aqueles que falam e 
na qual se corporifica a complexidade 
dos fenômenos linguísticos. 


O pensamento prim itivo 


Em 1955, seis anos após a publicação 
de Estruturas Elementares do Paren- 
tesco, Lévi-Strauss publicou Tristes Tró- 
picos, onde relata os contatos entre o an- 
tropólogo, representante da “sociedade 
ocidental”, e as sociedades primitivas, 
cujas características trazem à tona a 
enorme distância social que constitui um 
abismo entre o investigador e essas so- 
ciedades. Para tentar eliminar essa dis- 
tância, Lévi-Strauss considera a tarefa 
do antropólogo como sendo exatamente 


O —o—oeoeeaoA“NN JH TH | 


LEVI-STRAUSS 


GUÉNA P.M. 


Marcadas por extremo rigor e precisão, as obras de Lévi-Strauss tarmbém revelam 
sensibilidade artística; seus títulos são quase sempre ps Ao lado 
o 


disso, seus trabalhos são permeados de espírito filosófico pois a 
confrontação que estabelecem entre as culturas primitivas e o Ocidente 
civilizado cria novas perspectivas de questionamento do homem e seu futuro. 


1001 


E | L Ee 


OS PENSADORES 


a de elaborar transformações, a fim de 
explicar com os mesmos modelos os 
mais diferentes fenômenos. Essa trans- 
formação consiste em reduzir a socie- 
dade primitiva e a civilizada a um mo- 
delo único. Contudo essa é uma operação 
de laboratório, uma construção da inte- 
hgência investigativa: à falta de uma 
verdade de fato, constróôi-se uma verdade 
de razão. Tais transformações, trans- 
pondo modelos de um sistema para o ou- 
tro, exigem uma garantia para a opera- 
ção; essa garantia reside na elaboração 
de um sistema dos sistemas. Em outras 
palavras, se existe um sistema de regras 
que permite a articulação de uma língua 
(código lingiiístico) e um sistema de re- 
gras que permite a articulação das tro- 
cas de parentesco como modos de comu- 
nicação (códigos do parentesco), deve 
existir um sistema de regras que pres- 
crevem a equivalência entre o signo lin- 
edad e o signo parental. Esse sistema 
everia ser chamado ““metacódigo”, 
visto ser um código que permite defini 
e nomear outros códigos a ele subordina- 
dos. A esse respeito, Lévi-Strauss afirma 
em O Cru e o Cozido: “Já que os pró- 
prios mitos repousam sobre códigos de 
segundo grau (os códigos de primeiro 
grau são os da linguagem corrente), en- 
tão este livro delinearia um código de 
terceiro grau, destinado a assegurar a 
tradutibilidade reciproca dos vários mi- 
tos.” Isso equivale a dizer que, ao pro- 
gredir a indagação estrutural, o sistema 
estudado tende cada vez mais a manifes- 
tar sua unidade interna, sua coesão e sua 
exaustividade em relação aos fenômenos 
examinados. As estruturas que vão sur- 
gindo escapam progressivamente à par- 
ticularidade inicial e tendem a generali- 
zar-se; por trás da multiplicidade dos 
dados empíricos, vislumbram-se rela- 
ções cada vez mais simples que por sua 
recorrência cobrem uma gama muito 
ampla de fenômenos e garantem sua in- 
teligibilidade; delineia-se, como terme 
ideal, a existência de uma meta-estru- 
tura. Para Lévi-Strauss, a unidade do 
sistema, assim explicitada, não constitui 
uma forma fechada em si; pelo contrá- 
rio, caracteriza-se pela constante aber- 
tura em direção ao acontecimento. 
Exemplo claro dessa maneira de ver 
encontra-se na obra de Lévi-Strauss O 


1002 


Pensamento Selvagem e em uma confe- 
rência pronunciada no Collêge de 
France, em 1960. Nessas obras, Lévi- 
Strauss afirma que, em uma sociedade 
primitiva, as várias técnicas — que to- 
madas isoladamente podem aparecer 
como um dado bruto — surgem como o 
equivalente de uma série de escolhas 
significativas, quando situadas no inven- 
tário geral das sociedades. Nesse sen- 
tido, para Lévi-Strauss, um machado de 


pedra toma-se signo porque toma o lu- 


gar, no contexto em que se insere, do 
utensílio diferente que outra sociedade 
empregaria para o mesmo fim. Estabele- 
cida a natureza simbólica de seu objeto, 
a Antropologia conclui que deve descre- 
ver sistemas de signos segundo modelos 
estruturais. Ela encontra suas experiên- 
cias já dadas e prontas e, por ISSO 
mesmo, ingovernáveis, devendo, por- 
tanto, substituí-las por modelos. Assim, 
a Antropologia conclui que o pensa- 
mento selvagem, operando através de 
um conjunto de separações diferenciais, 
institui, no interior da totalidade em- 
pírica, um sistema de oposições que pos- 
sibilitará o início da estruturação dessa 
totalidade, a qual, por sua vez, torna-se 
disponivel para uma atividade de signifi- 
cação. Nesse passo, é importante salien- 
tar que, segundo Lévi-Strauss, “o pensa- 
mento selvagem é lógico no mesmo 
sentido e da mesma maneira em que o é 
nosso pensamento, mas só quando o 
nosso se aplica ao conhecimento de um 
universo ao qual se reconhecem, ao 
mesmo tempo, propriedades fisicas e 
propriedades semânticas”. Dessa forma, 
ao antropólogo convém, antes de mais 
nada, afastar o fantasma de uma pre- 
tensa mentalidade primitiva, já que o 
pensamento “selvagem” não se revela 
como uma forma distorcida ou arcaica 
do nosso, mas como uma experiência do- 
tada de lógica interna, que é tão ou mais 
exigente e rigorosa quanto a elaborada 
pelo pensamento civilizado ocidental. 
Quando, por exemplo, um indígena usa, 
para o seu sistema de classificação, cer- 
tas categorias representadas pelas espé- 
cies animais, não se deve ver nisso uma 
exigência. animista, mas, ao contrário, 
uma exigência lógica: a subdivisão das 
espécies animais ou vegetais institui 
para ele um primeiro esboço de articula- 


LÉVI-STRAUSS 


A antropologia estruturalista pretende mostrar que as diferenças existentes 
entre as culturas podem ser reduzidas a alguns tipos de estruturas 
semelhantes, que se encontram camufladas sob a diversidade aparente. 
Manifestações dessas estruturas neuem ser encontradas em qualquer produto 


cultural. (Desenho em couro de boi, dos índios brasileiros do grupo cadiueu.) 


1003 


OS PENSADORES 


ções do real. Por outro lado, a significa- 
ção pressupõe sempre um trabalho 
diacrítico, pois a atividade simbólica se 
expressa inserindo os dados naturais em 
um sistema de traços diferenciais. Exa- 
tamente nessa liberdade da cultura so- 
bre a natureza funda-se a arbitrariedade 
(não naturalidade) do signo. A cultura 
submete os dados naturais e passa a dis- 
por de um campo de autonomia no qual 
pode aprofundar-se, embora sem romper 
os vínculos que a unem à natureza. Ti- 
rando da experiência sensível e percep- 
tiva as categorias das quais se serve 
para exprimir certas concatenações con- 


ceituais, o pensamento dos povos primi- 
tivos oferece a imagem de um pensa- 
mento concreto que não produziu ainda 
as distinções entre objetivo e subjetivo e 
entre qualidades primárias e secundá- 
rias — o que revela sua inerência a um 
mundo primordial. O pensamento dos 
povos primitivos, nas palavras do pró- 
prio Lévi-Strauss, não é “o pensamento 
dos selvagens, nem o da humanidade 
primitiva ou arcaica, mas o pensamento 
em estado selvagem, distinto do pensa- 
mento cultivado ou dómesticado”. Seria 
o próprio pensamento civilizado em seu 
caráter originário. 


1908 - Nasce Claude Lévi- 
Strauss, na Bélgica. 

1912 - Max Wertheimer 
publica um artigo sobre per- 
cepção visual do movi- 
mento, com o qual funda-se 
a escola psicológica da Ges- 
talt. 

1916 - Vem à luz o Curso 
de Linguística Geral, de 
Ferdinand de Saussure, que 
dá início ao estruturalismo. 
1934 - Lévi Strauss chega 
ao Brasil, para lecionar na 
Universidade de São Paulo. 
1938 - Publica-se Sobre a 
Teoria das Afinidades Fo- 
nológicas entre as Linguas, 
de Roman Jakobson. 

1939 - Inicia-se a IH 
Guerra Mundial. Lévi 
Strauss é convocado para 
servir o exército. 


CRONOLOGIA 


1941 - Lévi-Strauss deixa a 
França, com destino à Mar- 
tinica, de onde seguiria para 
os Estados Unidos. 

1943 - Jean Paul Sartre pu- 
blica O Ser e o Nada, e vêm 
a luz os Prolegômenos a 
uma Teoria da Linguagem, 
de Louis Hjelmslev. 

1945 - Lévi-Strauss pu- 
blica o artigo A Análise Es- 
trutural em Lingúística e 
Antropologia, na revista di- 
rigida por Roman Jakobson. 
1947 - Lévi-Strauss deixa 
os Estados Unidos. 

1948 - Lévi-Strauss passa 
a lecionar na École des 
Hautes Études, da Universi- 
dade de Paris. 

1949 - Publica-se Estrutu- 
ras Elementares do. Paren- 
tesco, de Lévi-Strauss. 


BIBLIOGRAFIA 


1955 - Publica Tristes 
Trópicos, onde estuda os 
índios brasileiros. 

1957 - Chomsky publica 
Estruturas Sintáticas. 

1958 - Lévi-Strauss passa 
a trabalhar na cadeira de 
Antropologia Social do Col- 
lêge de France, e publica 
Antropologia Estrutural. 
1960 - Sartre publica Crí- 
tica da Razão Dialética. 
1962 - Vêm à luz O Tote- 
mismo Hoje e O Pensa- 
mento Selvagem. 

1968 - Recebe medalha de 
ouro do Centre National de 
Recherche Scientifique, e 
publica As Origens da Eti- 
queta à Mesa. Jean Piaget 
publica O Estruturalismo. 
1971 - Lévi-Strauss | pu- 
blica O Homem Nu. 


MeERLEAU- PonTI, M.: De Mauss à Claude Lévi-Strauss, in Signes, Gallimard, Paris, 1960. 
BENVENISTE, EMILE: Problêmes de Linguistique Générale, Gallimard, Paris, 1965. 

LACAN, JACQUES: Écrits, Seuil, Paris, 1966. 
Lfvi-STRAUSS C.: Antropologia Estrutural, Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1967. 


DivERSOS AUTORES: Estruturalismo, Portugália, Barcelos, 1968. 


GRANGER G. G.: Pour une Philosophie du Style, Armand Colin, Paris, 1969. 

DivEerSOS AUTORES: Estruturalismo (15 volumes), Nueva Vision, Buenos Aires, 1968. 
DivERSOS AUTORES: Cahiers pour Analyse, n.º 9, École Normale St. Claud, França, 1969. 
BouDoN, RAYMOND: 4 Quoi Sert la Notion de Structure, Vrin, Paris, 1970. 

BASTIDE, R. e OUTROS: Usos e Sentidos do Termo “Estrutura”, Herder e Editora da Universi- 
dade de São Paulo, São Paulo, 1971. 
Eco UMBERTO: 4 Estrutura Ausente, Perspectiva, São Paulo, 1973. 


1004 


OS PENSADORES 


m 1955, foi fundado em Genebra 
É um centro de altos estudos, sob 
os auspícios da Fundação Rocke- 
feller. Nele, reúnem-se pesquisadores de 
todo o mundo que tratam dos mais diver- 
sos assuntos, desde fatos aparentemente 
simples, como as primeiras palavras 
pronunciadas pelos bebês, até os compli- 
cados problemas teóricos de cibernética. 
Trata-se de uma instituição dedicada a 
assuntos interdisciplinares, estudando 
inclusive a teoria da informação, a for- 
mação dos raciocínios recorrenciais, a 
teoria das ligações analíticas e sintéti- 
cas, a epistemologia do tempo e do espa- 
ço, a aPrenajcantm das estruturas lógi- 
cas e a teoria das probabilidades. Tão 
ampla variedade de assuntos, no entanto, 
não dá como resultado uma simples 
somatória de investigações; pelo contrá- 
rio, existe um denominador comum que 
unifica todas as contribuições em torno 
de uma disciplina só: a Epistemologia 
Genética, criada por Jean Piaget. 
Piaget definiu a si mesmo como um 
“antigo-futuro-filósofo que se trans- 
formou em psicólogo e investigador da 
gênese do conhecimento”. Essa definição 
e as razões da transformação são apre- 
sentadas por ele no livro Sabedoria e Ilu- 
sões da Filosofia publicado em 1965. 
Nesse livro, Piaget desenvolve a tese de 
que a filosofia é uma “sabedoria” indis- 
pensável aos seres racionais, mas que 
não atinge um “saber” propriamente 
dito, provido das garantias e dos mêto- 
dos de controle, característicos do que se 
denomina “conhecimento” 

As razões dessa ausência de controle 
poderiam. ser encontradas no divórcio 
entre as ciências e a filosofia, cujas liga- 
ções caracterizaram os grandes sistemas 
do passado. Não é desprovido de senso, 
diz Piaget, “pensar que foi a orientação 
biológica de Aristóteles e a orientação 
matemática de Platão que Jusnhcara sa 
diferenças essenciais em seus sistemas” 
Assim, o pensamento cartesiano não 
pode ser compreendido sem a matemá- 
tica, e o criticismo kantiano, sem a física 
newtoniana. Na filosofia dos séculos XIX 
e XX, entretanto, essas ligações foram 
rompidas pela maior parte dos filósofos 


Na página anterior: retrato do 
pensador Jean Piaget (Abril Press). 


1006 


e surgiram conflitos que retardaram o 
desenvolvimento das disciplinas que pre- 
tendem ser científicas. Piaget chegou à 
conclusão de que, sob o conjunto extre- 
mamente complexo de fatores que inter- 
vêm nesses conflitos, reencontra-se sem- 
pre o mesmo problema: “em ue 
condições pode-se ter o direito de falar 
de conhecimento e como salvaguardá-lo 
contra os perigos interiores e exteriores 
que não cessam de ameaçá-lo?”. E acres- 
centa: “... quer se trate de tentações 
interiores ou de coações sociais de toda 
espécie, esses perigos perfilam-se em 
torno de uma mesma fronteira, surpreen- 
dentemente móvel ao longo das idades e 
das gerações, mas não menos essencial 
ao futuro do saber: aquela que separa a 
verificação da especulação” 

Por essas razões, Piaget diz que se 
“desconverteu”, transformando-se de um 
“antigo-futuro-filósofo” em psicólogo e, 
sobretudo, em investigador das estrutu- 
ras e da gênese do conhecimento. Em Ló- 
gica e Conhecimento Científico (1966), o 
próprio ca di de maneira ampla, define 
a epistemologia genética como o “Es- 
tudo da passagem dos estados inferiores 
do conhecimento aos estados mais com- 
plexos ou rigorosos”. Em outras pala- 
vras, Piaget propõe o retorno às fontes e 
à gênese propriamente dita do conheci- 
mento, do qual a epistemologia tradi- 
cional conhecia apenas os estados supe- 
riores, isto é, certas resultantes finais de 
um complexo processo de formação. Tal 
projeto situa-se em dois planos distintos, 
que se interpenetram e se explicam 
mutuamente: de um lado, a história do 
pensamento científico, de outro, o estudo 
experimental do desenvolvimento da 
inteligência, desde o nascimento até a 
adolescência. Piaget demonstrou que se 
pode traçar um paralelo entre esses dois 
planos distintos, que se interpenetram e 
se explicam mutuamente: de um lado, a 
história do pensamento científico, de 
outro, o estudo experimental do desen- 
volvimento da inteligência, desde o nas- 
cimento até a adolescência. Piaget de- 
monstrou que se pode traçar um paralelo 
entre esses dois planos. O conceito de 
causalidade, por exemplo, teria sofrido 
um processo de transformação, desde a 
teoria aristotélica atê a fisica probabi- 
lística do século XX, e as etapas dessa 


PIAGET 


Jean Piaget nasceu na Suíça, em Neuchátel, onde precocemente revelou suas 
qualidades de investigador da natureza, dedicando-se ao estudo dos moluscos 
da região. Seguindo um itinerário rigorosamente coerente, Piaget passou 
por quase todos os domínios do conhecimento, até chegar à lógica formal e à 
teoria da ciência. (Paisagem típica de Neuchátel; ao fundo o conhecido lago.) 


transformação seriam fundamentalmente 
as mesmas que as encontradas no desen- 
volvimento EE pensamento infantil. 

A epistemologia genética criada por 
Piaget não é, assim, uma disciplina filo- 
sófica, como a epistemologia tradicio- 
nal. Em primeiro lugar, porque se afasta 
de toda especulação, estudando a gênese 
das estruturas e dos conceitos cientifi- 
cos, tal como de fato se constituíram em 
cada uma das ciências; em segundo 
lugar, porque procura desvendar através 


da experimentação, os processos funda- 
mentais de formação do conhecimento na 
criança. A epistemologia genética tam- 
bém não é uma ciência entre outras, mas 
uma matéria interdisciplinar que se 
ocupa com todas as ciências. 

Essa unificação realizada por Pia 
e, sobretudo, esse processo « de gênese ni 
conhecimentos — que vai da simples 
constatação de fatos concretos até as 
mais altas abstrações — até certo ponto. 
identificou-se com sua própria vida. 


1007 


Fabbri 


OS PENSADORES 


Dos moluscos à 
lógica formal 


Nascido em Neuchátel, Suiça, a 9 de 
agosto de 1896, Piaget, desde muito 
cedo se interessou pelas ciências. Seu 
primeiro trabalho científico surgiu quan- 
do tinha dez anos de idade: era uma nota 
sobre um pardal totalmente albino que 
observara num parque público. Pouco 
depois, ofereceu-se como voluntário para 
trabalhar como assistente do diretor do 
Museu de Ciências Naturais de Neuchá- 
tel. Durante os quatro anos seguintes, 
publicou aproximadamente vinte artigos 
sobre moluscos e temas zoológicos afins. 
Seu interesse, entretanto, não se limitava 
aos moluscos, estendendo-se ao campo 
da religião, da biologia, da sociologia e 
da filosofia; adolescente ainda, começou 
a ler Bergson (1859-1941). 

Na universidade de Neuchâtel, Piaget 
licenciou-se em 1915, doutorando-se 
três anos depois com uma tese sobre os 
moluscos de Valois. Os estudos de biolo- 
gia fizeram-no suspeitar de que os pro- 
cessos de conhecimento poderiam depen- 
der dos mecanismos de equilíbrio 
orgânico; por outro lado, Piaget conven- 
ceu-se de que tanto as ações externas 
quanto os processos de pensamento 
admitem uma organização lógica. Ela- 
borou, então, um ensaio sobre o equili- 
brio do todo e suas partes, sem entre- 
tanto conhecer a teoria da Gestalt, que se 
ocupava do mesmo problema e já havia 
alcançado celebridade na Alemanha. 

De Neuchâtel, Piaget foi para Zuri- 

ue, onde passou alguns meses estu- 
dado psicologia nos laboratórios de G. 
E. Lipps e Wreschner e na clínica 
psiquiátrica de Bleuler (1857- 1939). 
Esses estudos firmaram-lhe a convicção 
de que a psicologia experimental pode- 
ria ser útil bastante para sua vocação de 
epistemólogo. Dirigiu- se então a Paris, 
onde estudou filosofia com André Lalan- 
de (1867-1936) e trabalhou com a 
padronização do teste de raciocinio de 
Burt, no laboratório criado por Alfred 
Binet (1875-1911). Lalande interessou- 
se por seus estudos, cujos resultados 
foram publicados numa série de quatro 
artigos, entre 1921 e 1922. Nessa época, 
Piaget convenceu-se de que o caminho 
para conciliar a filosofia e a psicologia 


1008 


deveria ser buscado na experimentação. 
Um de seus trabalhos desse período foi 
publicado nos Arquivos de Psicologia de 
Genebra e Claparêde (1873- 1940), seu 
editor, impressionado pela originalidade 
do escrito, propôs-lhe o ingresso no Ins- 
tituto Jean-Jacques Rousseau de Gene- 
bra, em 1921. Aí Piaget encontrou 
tempo e liberdade suficientes para de- 
senvolver seus estudos sobre a criança, 
iniciando uma série de trabalhos que lhe 
deram fama mundial. 

Em 1925, Piaget foi nomeado titular 
de Filosofia em Neuchâtel, onde lecionou 
até 1929, dando também aulas de psico- 
logia e sociologia, sem deixar a investi- 
gação experimental sobre a lógica e 
ontologia infantis, no laboratório de 
Genebra. Além disso, continuou seus tra- 
balhos com moluscos, publicando impor- 
tantes artigos sobre o assunto. 

Em 1929, voltou a ocupar um cargo 
de dedicação exclusiva na Universidade 
de Genebra, primeiro como Diretor 
Assistente e depois como co-diretor do 
Instituto Jean-Jacques Rousseau. De 
1929 a 1939, além de desempenhar fun- 
ções administrativas, Piaget foi profes- 
sor de história do pensamento científico, 
intensificando seus estudos sobre histó- 
ria das matemáticas, da fisica e da biolo- 
gia e redigindo seus primeiros trabalhos 
sobre epistemologia genética. Também 
foi nomeado, em 1929, diretor do Depar- 
tamento Internacional de Educação, 
cargo que lhe deu oportunidade de tentar 
introduzir suas descobertas sobre o 
desenvolvimento das crianças nas práti- 
cas educativas. Com esse fim, nas déca- 
das posteriores, Piaget e seus colabora- 
dores escreveram inúmeros livros. 

Em 1936 a Universidade de Harvard 
concedeu-lhe o título de Doutor Honoris 
Causa. Durante o periodo da guerra, 
desenvolveu suas idéias sobre as estrutu- 
ras lógicas relativas à fisica elementar. 
De 1939 a 1952, foi professor de socio- 
logia da Faculdade de Ciências Econô- 
micas da Universidade de Genebra. Em 
1940, tornou-se diretor do Laboratório 
de Psicologia Experimental dessa Uni- 
versidade, como sucessor de Claparéde, 
e continuou também como editor dos 
Arquivos de Psicologia junto com André 
Rey e Lambercier. Foi também eleito 
presidente da Sociedade Suiça de Psico- 


PIAGET 


A Suíça de Piaget é uma das nações de mais rica tradição cultural do 
mundo. Alí surgiram algumas das mais expressivas figuras dos movimentos de 
vanguarda da primeira metade do século XX. Entre outros, nasceram na 
Suíça o arquiteto Le Corbusier, o escultor Giacometti e o pintor 
Paul Klee, autor da tela “Noite de Lua”. (Coleção particular, Milão. ) 


1009 


Es ad EEE | 


OS PENSADORES 


logia e co-diretor da Revista Suíça de 
Psicologia. Após a guerra, a Universi- 
dade de Paris designou-o para suceder a 
Merleau-Ponty (1908-1961). Em 1950, 
além de diversos livros sobre psicologia 
e psicologia da criança, sozinho ou com 
colaboradores, Piaget já havia publi- 
cado a Introdução à Epistemologia Ge- 
nética em três volumes e o Tratado de 
Lógica. Seu projeto de elaborar uma 
epistemologia baseada nas ciências posi- 
tivas concretizou-se em 1955 quando foi 
inaugurado o Centro Internacional de 
Epistemologia Genética, sobre os auspi- 
cios da Fundação Rockfeller. 


O egocentrismo 


As obras À Linguagem e o Pensamento 
da Criança (1923), O Juízo e o Racio- 
cínio da Criança (1924), 4 Represen- 
tação do Mundo na Criança (1924), 4 
Causalidade Física na Criança (1927), O 
Juízo Moral na Criança (1932), já mos- 
tram a preocupação de Piaget com a teo- 
ria do conhecimento, embora repre- 
sentem muito mais a constatação das 
características do pensamento infantil. 
Desses estudos surgiu a noção de “ego- 
centrismo”, que desempenha papel es- 
sencial na epistemologia genética de 
Piaget, porque implica a noção de cen- 
tração e descentração, isto é, a capaci- 
dade da criança de considerar a reali- 
dade externa e os objetos como 
diferentes de si mesma e de um ponto de 
vista diverso do seu. O egocentrismo na 
linguagem infantil implica a ausência da 
necessidade, por parte da criança, de 
explicar aquilo que úiz, por ter certeza 
de estar sendo compreendida. Da mesma 
forma, o egocentrismo é responsável por 
um pensamento pré-lógico, pré-causal, 
mágico, animista e artificialista. O ra- 
ciocínio não é nem dedutivo nem induti- 
vo, mas transdutivo, indo do particular 
ao particular; o juízo não é lógico por- 
que centrado no sujeito, em suas expe- 
riências passadas e nas relações subjeti- 
vas que ele estabelece em função das 
mesmas. Os desejos, as motivações e 
todas as características conscientes, mo- 
rais e afetivas são atribuídas às coisas 
(animismo). A criança pensa, por exem- 
plo, que o cão late porque está com sau- 
dades da mãe. Por outro lado, para as 


1010 


crianças até os sete ou cinco anos de 
idade, os processos psicológicos internos 
têm realidade fisica: ela acha que os 
pensamentos estão na boca ou os sonhos 
estão no quarto. Dessa confusão entre o 
real e o irreal surge a explicação artifi- 
cialista, segundo a qual, se as coisas 
existem é porque alguém as fez. 

Notando as semelhanças entre os pro- 
cessos que condicionam a evolução da 
lógica e a idéia de realidade plasmada 
pela criança, Piaget conclui que a cons- 
trução do mundo objetivo e a elaboração 
do raciocínio lógico consistem na redu- 
ção gradual do egocentrismo, em favor 
de uma socialização progressiva do 
pensamento; somente com essa descen- 
tração das noções, a criança pode chegar 
ao estágio da lógica operacional. 

Do ponto de vista do juízo moral 
observa-se que, a princípio, a moral é 
totalmente heterônoma, passando a au- 
tônoma na medida em que a criança co- 
meça a sair do seu egocentrismo e 
compreender a necessidade da justiça 
equânime e da responsabilidade indivi- 
dual e coletiva, independentes da autori- 
dade ou da sanção imposta. 


Inteligência e adaptação 


Em uma segunda etapa de seu cami- 
nho no sentido de constituir uma episte- 
mologia genética, Piaget abordou os 
problemas relativos à formação da inte- 
ligência infantil. Os resultados de suas 
investigações encontram-se em várias 
obras, nas quais mostra como se désen- 
volve o pensamento lógico da criança, 
base de sua epistemologia genética: O 
Nascimento da Inteligência (1936), 4 
Construção do Real na Criança (1937), A 
Gênese da Noção de Número, em colabo- 
ração com Szeminska e Inhelder (1941), 
O Desenvolvimento das Quantidades Fí- 
sicas na Criança (1941), Classes, Rela- 
ções e Números (1942) e Formação do 
Símbolo na Criança (1945). 

Para Piaget, inteligência é adaptação 
e sua função é estruturar o universo, da 
mesma forma que o organismo estrutura 
o meio ambiente, não havendo diferenças 
essenciais entre os seres vivos, mas 
somente tipos específicos de problemas 
que implicam em níveis diversos de 
organização. As estruturas da inteli- 


PIAGET 


Para Piaget, “a filosofia tem sua razão de ser e deve-se mesmo reconhecer que 
todo homem que não passou po ela é incuravelmente incompleto”. Mas, 


descontente com o rumo especu 


tivo tomado pela maioria dos filósofos de seu 


tempo, Piaget dedicou-se à investigação científica da formação das funções 
intelectuais na criança, criando a epistemologia genética. 


gência mudam através da adaptação a 
situações novas e têm dois componentes: 
a assimilação e a acomodação. Piaget 
entende o termo assimilação com a acep- 
ção ampla de uma integração de elemen- 
tos novos em estruturas ou esquemas já 
existentes. A noção de assimilação, por 
um lado, implica a noção de significação 
e por outro expressa o fato fundamental 
de que todo conhecimento está ligado a 
uma ação e de que conhecer um objeto ou 
um acontecimento é assimilá-lo a esque- 
mas de ação. Em outros termos, conhe- 
cer, para Piaget, consiste em operar 
sobre o real e transformá-lo, a fim de 
compreendê-lo, em função do sistema de 
transformação a que estão ligadas todas 
as ações. Piaget denomina esquema de 
ação aquilo que numa ação é transpo- 


Es SE (| 


nível, generalizável ou diferenciável de 
urna situação para a seguinte, ou seja, o 
que há de comum nas diversas repetições 
ou aplicações da mesma ação. Se alguns 
esquemas são simples (talvez inatos e de 
natureza reflexa), a maioria deles não 
corresponde a uma montagem hereditária 
acabada; pelo contrário, são construídos 
pouco a pouco pelo indivíduo, dando 
lugar a diferenciações através de acomo- 
dações a situações novas. 

A acomodação define-se como toda 
modificação dos esquemas de assimila- 
ção, por influência de situações exterio- 
res. Toda vez que um esquema não for 
suficiente para responder a uma situação 
e resolver um problema, surge a necessi- 
dade do esquema modificar-se em função 
da situação. Exemplo: para o bebê 


1011 


Ea. 


OS PENSADORES 


aprender a chupar um canudinho dife- 
rente da mamadeira, deve haver um 
acomodação do esquema de chupar. 
Assimilação e acomodação são, por- 
tanto, mecanismos complementares, não 
havendo assimilação sem acomodação, e 
vice-versa. A adaptação do sujeito ocor- 
re através da equilibração entre esses 
dois mecanismos, não se tratando, 
porém, de um equilibrio estátito, mas 
sim essencialmente ativo e dinâmico. Em 
termos mais precisos, trata-se de suces- 
sões de equilibração cada vez mais 
amplas, que possibilitam as modifica- 
ções dos esquemas existentes, a fim de 
atender à ruptura de equilíbrio, repre- 
sentada pelas situações novas, para as 
quais não exista um esquema próprio. 


O nascimento da inteligência 


Em toda a análise do processo de for- 
mação das estruturas intelectuais, ou 
seja, da inteligência, desempenha papel 
fundamental a noção piagetiana de está- 
gio. O estágio foi definido por Piaget 
como forma de organização da atividade 
mental, sob seu duplo aspecto: por um 
lado, motor ou intelectual, por outro, 
afetivo. 

Do nascimento até a adolescência, 
Piaget distingue três estágios do desen- 
volvimento. O primeiro ê o estágio 
sensório-motor (do nascimento até dois 
anos), O segundo divide-se em dois sub- 
estágios: o de preparação para as opera- 
ções lógico-concretas (2a7 anos)eo de 
operações lógico-concretas (de 7 anos 
até a adolescência). A partir da adoles- 
cência e até a idade adulta, configura-se 
o estágio da lógica formal, quando o 
pensamento lógico alcança seu nível de 
maior equilibração, ou seja, de operati- 
vidade, adquirindo a forma de uma lógi- 
ca proposicional, que seria o auge do 
desenvolvimento. 

No início do desenvolvimento da inte- 
ligência sensório-motora (até 1 mês de 
idade), os comportamentos globais da 
criança estão determinados hereditaria- 
mente e apresentam-se sob a forma de 
esquemas reflexos. De 1 a 4 meses (2.º 
sub-estágio), começam a aparecer as pri- 
meiras adaptações adquiridas e a assi- 
milação distingue-se da acomodação, 
através das reações circulares primárias, 


1012 


ou seja, de repetições sucessivas nas 
quais os resultados são assimilados aos 
esquemas, modificando-os para permitir 
melhor adaptação às situações externas. 
No terceiro sub- -estágio (4 a 8 meses) 
aparecem as repetições de gestos que 
casualmente chegaram a produzir uma 
ação interessante sobre as coisas. No 
quarto sub-estágio (8 a 12 meses), há 
aplicação de meios já conhecidos para 
resolver situações novas. No quinto sub- 
estágio (12 a 18 meses), a criança faz 
experiências com os objetos do meio 
externo e descobre novos meios para 
resolver certas situações. No sexto sub- 
estágio (18 meses aos 2 anos), aparece a 
possibilidade da invenção de novos 
meios por combinação mental ou por 
combinação de ações. Esse estágio já 
prevê | uma mudança qualitativa na orga- 
nização da inteligência, que passa de 
sensível e motora a mental, isto é, repre- 
sentativa e interiorizada. 

Paralelamente à construção da inteli- 
gência, ou do pensamento lógico, Piaget 
analisa a construção do universo, pela 
criança no estágio sensório-motor, em 
função das categorias do objeto ou subs- 
tância, espaço, causalidade e tempo. 

Quanto ao objeto, as investigações de 
Piaget mostram que, durante as primei- 
ras fases do desenvolvimento, a criança 
não percebe o universo em seu redor 
como se fosse constituído por objetos 
substanciais, permanentes e de dimen- 
ções constantes; pelo contrário, ela se 
comporta como se estivesse frente a um 
mundo sem objetos e no qual o próprio 
espaço constituísse um meio sólido. Tra- 
ta-se de um mundo de quadros percepti- 
vos, cuja única realidade é a própria 
criança e suas ações. O sujeito funciona 
como um sistema organizador do univer- 
so, evoluindo de acordo com o aumento 
da complexidade das atividades de assi- 
milação. Partindo da não- -distinção entre 
ela mesma e os objetos, a criança passa a 
distinguir progressivamente os objetos 
que estão em sua presença e, depois, co- 
meça a relacionar entre si os vários obje- 
tos que aparecem em espaços já diferen- 
ciados, ora presentes, ora ausentes. No 
final do estágio sensório-motor, pela 
separação entre ação e percepção, a 
criança torna-se capaz da noção de obje- 
to permanente e idêntico a si mesmo, 


PIAGET 


Fabbri 


Na epistemologia genética de Piaget, os desenhos e pinturas infantis 
desempenham papel particularmente importante para a investigação da 
formação das estruturas intelectuais. A criação plástica, ao lado da 
linguagem e das atividades lúdicas, constitui uma das formas de representação, 
através das quais se revela o mundo interior da criança. 


1013 


OS PENSADORES 


ainda que ele não esteja mais presente e 
sendo manipulado por ela. 


Do ponto de vista do espaço, a coorde- 
nação sucessiva das ações leva a criança, 
progressivamente, a conceber aqueles 
espaços individuais e separados do início 
do seu desenvolvimento como um único 
espaço, no qual ela se desloca como os 
objetos, considerando a si mesma como 
um objeto, embora diferente dos demais. 

Quanto à causalidade, Piaget mostra 
como essa noção fundamental para a 
ciência liga-se; no estágio sensório- 
motor, às relações temporais. Durante os 
dois primeiros sub-estágios, tudo sucede 
como se o tempo se reduzisse exclusiva- 
mente às impressões de espera, de dese- 
Jo, de êxito ou de fracasso, existindo um 
princípio de sucessão, ligado ao desen- 
volvimento das diferentes fases de um 
mesmo ato. São as séries temporais prá- 
ticas: os atos de criança sucedem-se uns 
aos outros, mas nada lhe permite recons- 
truir sua própria história. Durante os 
sub-estágios seguintes, estabeleceram-se 
modificações nessa concepção, surgindo 
as séries temporais subjetivas: a criança 
não percebe ainda a ordem dos fenôme- 
nos a não ser quando ela mesma é a 
causa desses fenômenos, de modo que 
ainda continua sendo incapaz de conce- 
ber a história de seu universo, indepen- 
dentemente da própria ação, e não 
havendo, portanto, um tempo objetivo 
para ela. Só a partir do quarto sub-es- 
tágio é que começa a progredir uma 
visão mais objetiva do mundo, apare- 
cendo já no quinto sub-estágio uma orde- 
nação do tempo, não aplicável somente 
às ações, mas, em princípio, a todo o 
campo perceptivo (séries temporais obje- 
tivas). No último sub-estágio aparecem 
as séries representativas, quando a 
criança é capaz de recordar fatos não 
lhgados à percepção direta, mas aconte- 
cidos no passado. Isso não significa que 
esses fatos sejam corretamente seriados, 
nem que a avaliação da duração seja 
exata, mas sim que essas operações tor- 
nam-se possíveis porque desse momento 


“Em que condições se tem o direito de 
falar de conhecimento e como 
salvaguardá-lo contra os perigos 
interiores que não cessam de 
ameaçá-lo?” (palavras de Piaget). 


1014 


PIAGET 


SS3Hd ViIWVO 


1015 


OS PENSADORES 


em diante a duração subjetiva vai cada 
vez mais situar-se em relação com a 
duração das coisas, possibilitando, por 
sua vez, a ordenação dos movimentos no 
tempo e sua medida em relação com pon- 
tos de referência, exteriores. 


O pensamento simbólico 


No segundo estágio do desenvolvi- 
mento das estruturas da inteligência 
podem ser distinguidos dois sub-está- 
gios. O primeiro (dois aos sete anos) 
caracteriza-se pela função simbólica e 
pelo aparecimento da intuição das ope 
rações; o segundo (sete aos onze anos) é 
marcado pelas operações lógico-con- 
cretas. As atividades de representação (o 
Jogo, o desenho e sobretudo a lingua- 
gem) têm três consequências essenciais 
para o desenvolvimento mental: início da 
socialização da ação; interiorização da 
palavra, isto é, aparição do pensamento 
propriamente dito, que Já tem como 
suporte a linguagem interior e um siste- 
ma de signos; e, sobretudo, interiori- 
zação da ação como tal, que passa do 
plano perceptivo e motor para se recons- 
tituir no plano das imagens e das expe- 
riências mentais. Os primeiros esquemas 
verbais constituem uma continuação dos 
esquemas sensório-motores, transpostos 
para um plano superior, implicando 
portanto uma modificação qualitativa na 
estrutura. À isso Piaget chama “déca- 
lage vertical”, conceito particularmente 
importante em sua obra. Para o criador 
da epistemologia genética, cada fase do 
desenvolvimento deve ser considerada 
como formada por estruturas diferentes 
em quantidade e qualidade. Essa dife- 
renciação entre um momento e outro do 
desenvolvimento só é possível porque as 
equilibrações sucessivas, que permitem 
a passagem de um estágio a outro e mar- 
cam a mobilidade das estruturas, são 
acompanhadas de determinadas funções 
constantes, que garantem a continuidade 
entre um estágio e outro. Piaget designa 
essas funções (entre as quais incluem-se 
a compreensão ea explicação) pela 
expressão “invariantes”, afirmando, 
contudo, que seu nível pode variar em 
função do grau de organização das 
estruturas. É por essa razão que, com o 
advento das funções simbólicas, começa 


1016 


toda uma mobilidade das estruturas 
sensóro-motoras. Numa etapa do desen- 
volvimento, o egocentrismo ainda pre- 
sente manifesta-se, não mais em nível de 
confusão sujeito-objeto do ponto de vista 
fisico, como anteriormente, mas no nível 
da linguagem e do pensamento, através 
do animismo, do artificialismo e do rea- 
lismo nominal. Embora já haja uma 
modificação de esquemas para uma nova 
estrutura, ao nível de interiorização da 
ação, os aspectos perceptivos e subjeti- 
vos continuam sendo predominantes em 
relação à concepção do mundo, da 
causalidade fisica e dos conceitos espa- 
ço-temporais. Por isso esse sub-estágio 
simbólico é chamado pré-operatório, não 
havendo noção de conservação fisica nem 
reversibilidade nas operações. A criança 
começa simplesmente a distinguir o 
significante do significado, isto é, os 
objetos que apresentam determinadas 
alavras, e a usar essas palavras em 
Iê ugar do objeto. No entanto nota-se 
erfeitamente a generalização de signifi- 
cados indevidos, quando, por exemplo, a 
criança diz “au-au” para todos os ani- 
mais ou “titio” para todas as pessoas do 
sexo masculino. Essa irreversibilidade 
pré-lógica mantém-se até por volta dos 
sete anos, pois, embora a partir dos qua- 
tro anos e meio ou cinco anos começa a 
haver uma descentração maior do pensa- 
mento e a criança já comece a apresentar 
certas noções de classificação e de seria- 
ção dos objetos, essas noções são intuí- 
das, isto é, não são realmente compreen- 
didas porque não há uma operação 
verdadeiramente lógica. 


O pensamento lógico 


As operações lógicas surgem somente 
quando o pensamento da criança torna- 
se reversível, ou seja, quando ela é capaz 
de admitir a possibilidade de se efetuar a 
operação contrária, ou voltar ao Início 
da operação. Admitindo, por exemplo, 
que À é iguala B, a criança deve admitir 
que B é igual a A. Essa ida e volta do 
pensamento não acontece no período 

ré-lógico porque não existe sequência 
ló ógica nas ações da criança. 

Quando o pensamento infantil torna-se 
reversível, por volta dos 7 ou 8 anos, in1- 
cia-se o be -estágio das operações lógi- 


PIAGET 


Piaget ocupou inúmeros cargos 
universitários, entre os quais o de 
pnejessor catedrático de psicologia e 
e sociologia da universidade de 
Lausanne. (Vista aérea de Lausanne.) 


Fabbri 


co-concretas. Segue-se a ele, a partir dos 
onze ou doze anos, o estágio das opera- 
ções lógico-formais. A operatividade 
marca a possibilidade da criança agir, 
consistente e logicamente, em função das 
implicações de suas idéias. A organiza- 
ção das ações mentais em pensamento 
operatório pode ser descrita em termos 
de grupos matemáticos e agrupamentos 
lógicos e, mais tarde (no estágio formal), 
em termos de agrupamentos de relações, 
ou seja, relações de segunda ordem ou 
relações de relações. Os agrupamentos 
lógicos baseiam-se na noção matemática 
de classe. No sub-estágio das operações 
concretas, as relações entre as classes 
somente podem ser compreendidas quan- 
do apresentarem evidência concreta, isto 
é, estejam presentes no campo percep- 
tivo. Mas no período das operações for- 
mais a criança pode realizar as relações 
possíveis, de modo a prever as situações 
necessárias para provar uma hipótese. 
Essa é, precisamente a característica do 
método experimental na ciência. 

A lógica das proposições, possíveis 
combinações de classe, bem como o 
grupo de transformações INRC (opera- 
ção Inversa, Negativa, Reciproca e Con- 
trária) são a parte final da epistemologia 
genética de Piaget. A partir da experi- 
mentação com as operações lógicas, com 
a noção de Re biudade com os gru- 
pos matemáticos e os agrupamentos de 
classe, e com as transformações lógicas 
INRC, Piaget incursiona no campo da 
formalização lógico-matemática. 

A partir da fundação do Centro Inter- 
nacional de Epistemologia Genética, em 
Genebra, cientistas e lógicos de todo o 
mundo têm-se ocupado da pormenori- 
zação e aperfeiçoamento do processo 
genético, descrito por Piaget, e de suas 
relações com os principais conceitos da 
ciência contemporânea. Com isso, tor- 
nou-se realidade seu desejo de criação 
dos “métodos de controle”, indispen- 
sáveis para legitimar a verdade, e 
como dar uma nova dimensão ao pro- 
blema das relações entre a ciência 
propriamente dita e a filosofia. Piaget 
procurou, assim, evitar que a filosofia, 
através da pura especulação, mantenha o 
status de dona absoluta da verdade, já 
que deve haver uma correlação epistê- 
mica entre teorias e fatos. 


1017 


1896 — Em Neuchátel, Suí- 
ça, a 9 de agosto, nasce Jean 


Piaget. 

1915 — Licencia-se pela 
Universidade de Neuchátel. 
1925 — Torna-se professor 


titular de filosofia na mesma 
universidade. 
1929 — É nomeado diretor 
do Departamento Interna- 
cional de Educação. 

1932 — Publica Le Juge- 
ment Moral Chez "Enfant. 
1936 — Publica La Nais- 
sance de [Intelligence chez 
PEnfant. No mesmo ano, re- 
cebe o título de Doutor Ho- 
noris Causa pela Universi- 
dade de Harvard. 

1937 — Piaget publica La 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


Construction du Réel chez 
PEnfant. 

1939 - 1952 — Leciona so- 
ciologia na Faculdade de 
Ciências Económicas da 
Universidade de Genebra. 
1941 — Publica, em cola- 
boração com Szeminska, La 
Genese du Nombre chez 
PEnfant. 

1946 — Publica La Forma- 
ton du Symbole chez 
PEnfant. 

1947 — Publica La Psycho- 
logie de "Intelligence. 

1948 — Publica La Repre- 
sentation de [Espace chez 
PEnfant. 

1949 — É editado seu Trai- 
té de Logique. Essai de Lo- 


BIBLIOGRAFIA 


gistique Opératoire. 

1950 — Editam-se os três 
tomos da Introduction à 
PEpistemologie Génétique, 
de Piaget. 

1952 - 1963 — Leciona psi- 
cologia da criança na Sor- 
bonne. 

1955 — Piaget publica De 
la Logique de "Enfant à la 
Logique de 1" Adolescent. 
1957 - 1973 — Publica os 
30 volumes dos Études 
d'Epistémologie Génétique. 
1959 — Publica La Genese 
des Structures Logiques Elé- 
mentaires. 

1964 — Publicação dos Six 
Etudes de Psychologie, de 
Piaget. 


CELLERIER, G.: Piaget, Presses Universitaires de France, Paris, 1973. 
BATTRO, A. M.: El Pensamiento de Jean Piaget, Emecé Editores, Buenos Aires, 1969. 
GRIZE, HATWELL, WOLFF E OUTROS: Psychologie et Epistémologie Génétiques, Dunod, Paris, 


1966. 


FurTH, H. G.: Piaget for Teachers, Prentice-Hall, Englewood Cliffs, 1970. 


Droz, R. E RaHMY,M.: Lire Piaget, Dessart, Bruxelas, 1972. 

FLAVELL, J. H.: The Developmental Psychology of Jean Piaget, Van Nostrand, Princeton, 
1963. 

GINSBURG, H. E OPPER, S.: Piaget 's Theory of Intellectual Development, Prentice-Hall, Engle- 
wood Cliffs, 1969. 

KESSEN, W. E KUHLMAN, C.: Cognitive Development in Children, University of Chicago 
Press, Chicago, 1970. 

ALMy, M.: Young Children's Thinking: Studies of Some Aspects of Piaget 's Theory, Teachers 
College Press, Nova York, 1966. 

ELKIND, D.: Children and Adolescents: Interpretatives Essays on Jean Piaget, Oxford Univer- 
sity Press, Nova York, 1970. 

BALDWIN, A. L.: The Theory of Jean Piaget in Theories of Child Development, do mesmo 
autor, John Wiley & Sons, Nova York, 1968. 


1018 


annmma mn pnceo 


OS PENSADORES 


tê meados do século XIX, não 

havia uma verdadeira ciência da 

conduta humana, no sentido mais 
rigoroso da palavra “ciência”. Desde os 
antigos filósofos gregos, a psicologia era 
uma disciplina de caráter metafísico, 
ocupando-se com uma suposta essência 
do homem, sua natureza mais profunda, 
sua destinação última; em outras pala- 
vras, a psicologia tinha como objeto a 
alma e não fatos objetivos, passíveis de 
observação e estudo sistemático. 

No século XIX, sob influência dos 
resultados alcançados pelas ciências 
naturais, surgiram as primeiras tentati- 
vas de investigação dos fatos psicoló- 
gicos, seguindo-se os mesmos peca 
mentos da metodologia aquelas 
ciências, isto é, a experimentação. Nessa 

erspectiva, as investigações de Weber 
(1795-1878), Fechner (1801-1887), 
Helmholtz (1821-1894), Wundt 
(1832-1920) e outros, foram os funda- 
mentos da psicologia científica. 

Somente no século XX, entretanto, a 
orientação da metodologia científico- 
natural produziria seus resultados mais 
acabados e sistemáticos, anulando as 
fronteiras entre o humano e o animal, e 
considerando a psicologia como o estudo 
do observável externamente no compor- 
tamento dos organismos, sem preocupa- 
ção com uma suposta vida “interior”. 

Especialmente importante dentro 
dessa orientação é o chamado “behavio- 
rismo”, fundado por John B. Watson 
(1878-1958) e ao qual se vinculam as 
idéias de Burrhus Frederic Skinner, nas- 
cido a 20 de março de 1904, em Susque- 
hanne, Pennsylvania, EUA. 


A Teoria do Reforço 


O ponto de partida do pensamento de 
Skinner (Comportamento dos Organis- 
mos, publicado em 1938, e Esquemas de 
Reforço) encontra-se na teoria pavlo- 
viana dos reflexos condicionados, à qual 
ele acrescentou o conceito de condiciona- 
mento operante. O comportamento res- 
pondente (denominação usada por Skin- 
ner para os reflexos pavlovianos) está 
essencialmente associado à fisiologia 


Na página anterior: retrato de B. F. 
Skinner (Associated Press Photo). 


1020 ; 


interna do organismo e age sobre respos- 
tas matas que podem ser condicionadas, 
de modo a se repetirem diante de outros 
estímulos. Exemplo clássico de condicio- 
namento respondente é o do comporta- 
mento do cão, que é levado a salivar ao 
ouvir o toque de uma campainha ou o 
acender de uma lâmpada. Diferente- 
mente do respondente, o condiciona- 
mento operante, investigado por Skin- 
ner, é uma relação de ações do 
organismo sobre o meio que o cerca. 
Assim, um rato faminto colocado em 
uma caixa, executa uma série de ações, 
como andar ou tentar subir nas paredes, 
e uma delas (tocar em uma alavanca, por 
exemplo) é recompensada pelo pesqui- 
sador com uma porção de alimento ou 
um pouco de água; depois de certo nú- 
mero de vezes em que isso ocorra, o rato 
ficará condicionado a acionar a alavan- 
ca, toda vez que sentir fome ou sede. Em 
outras palavras, o rato ficará condicio- 
nado ao resultado de sua própria ação, e 
não a um certo estímulo, como no caso 
do condicionamento pavloviano. Neste, o 
organismo aprende a repetir certo com- 
portamento, normalmente inato, diante 
de novo estimulo, enquanto o condicio- 
namento operante é um mecanismo de 
aprendizagem de novo comportamento. 
Este pode ser apenas uma ação que se 
tornou mais frequente em determinada 
situação, ou que só ocorre após uma 
série de aproximações sucessivas. Esse 
processo, que Skinner chama '“'modela- 
gem” ., seria responsável por tudo que os 
organismos aprendem a fazer. 

São vários os fatos envolvidos no pro- 
cesso de modelagem. Entre outros, po- 
de-se salientar a discriminação (pro- 
cesso de responder a estímulos cada vez 
mais sutis) e o reforço generalizado (re- 
forços, como o dinheiro ou a aprovação 
social, que atuam sobre o organismo 
independentemente de qualquer privação 
específica). Todos esses fatos formam 
um tecido de relações entre o comporta- 
mento e as consequências dele advindas, 
e essas relações podem apresentar diver- 
sas alternativas. Em geral, quanto mais 
imediata for certa consequência, tanto 
maior será seu efeito sobre o comporta- 
mento, mas muitas vezes as conse- 
quências (positivas ou negativas) somen- 
te surgem a intervalos regulares ou 


SKINNER 


Para investigar experimentalmente o comportamento dos organismos animais, 
sobretudo os processos de aprendizagem, Skinner projetou e construiu um 
aparelho especial, conhecido como “Skinner-Box”. No que se vê acima 
(Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo), o 
elemento principal é a alavanca que o rato aciona e lhe proporciona alimento. 


irregulares de tempo. A essas relações 
variáveis, Skinner deu o nome de esque- 
mas de reforço. 

Os esquemas de reforço só começaram 
a se evidenciar quando Skinner consta- 
tou que o dado fundamental a ser consi- 
derado nos processos de mudança do 
comportamento deveria ser sua fregiiên- 
cia. Dentro dessa perspectiva, Skinner 
identificou relações muito parecidas 


entre os comportamentos de um orga- 
nismo e as circunstâncias em que eles 
ocorrem, possibilitando sua precisão, 
seu controle e, portanto, sua explicação. 
Os primeiros organismos estudados 
por Skinner foram ratos albinos, mas os 
princípios do condicionamento operante 
pareceram- lhe aplicáveis a todos os ou- 
tros animais, inclusive o homem. Em 
Ciência e Comportamento (1953), Com- 


1021 


OS PENSADORES 


portamento Verbal (1957), Além da 
Liberdade e da Dignidade (1971) e ou- 
tros escritos, Skinner critica o senso 
comum, que costuma explicar as ações 
do homem atribuindo-as a um agente 
mobservável (alma, psique, mente). Essa 
tese, diz Skinner, deriva exclusivamente 
das dificuldades para se identificar as 
circunstâncias que produzem e mantêm 
a maioria dos comportamentos humanos. 
Estes formam cadeias muito complexas e 
a constatação das inúmeras relações do 
condicionamento operante não está sufi- 
cientemente à mostra para a observação 
comum. É muito dificil identificar a com- 
plexa rede de acontecimentos gratifi- 
cantes (reforço positivo) ou indesejáveis 
(reforço negativo) presentes em todos os 
momentos da vida de uma pessoa. Tais 
acontecimentos e relações ocorrem no 
tempo e sua complexidade aumenta por- 
que, quase sempre, o indivíduo está na 
presença de vários estímulos, e estes 
podem proporcionar o aparecimento de 
diferentes comportamentos, muitos in- 
compatíveis entre si, outros convergentes 
ou coincidentes. Essas dificuldades, no 
entanto, não autorizam, segundo Skin- 
ner, a suposição da existência de um 
misterioso “eu” ou de uma alma que 
seria responsável pelos comportamentos 
das pessoas, com suas intenções, vonta- 
des, atitudes, impulsos, motivos, deci- 
sões. Tal suposição, como também a de 
que o homem possui livre arbítrio, não 
são mais do que a confissão de igno- 
rância das causas do comportamento. 
Para conhecer essas causas, é necessá- 
rio, segundo Skinner, extrapolar a pers- 
pectiva das ciências fisicas e biólógicas 
para o estudo do comportamento huma- 
no, e eliminar da psicologia todos os 
conceitos que não possam tornar-se 
operacionais pela mensuração e quantifi- 
cação, como as noções de “atitude”, 
“inteligência”, “emoção”, “estado de 
espírito”, “memória”, “traço de persona- 
lidade”, “inconsciente” e muitos outros. 


Psicologia e Sociedade 


Skinner não se limitou à investigação 
experimental do condicionamento ope- 
rante e à metodologia da psicologia. 
Abrindo novas perspectivas para muitas 
questões normalmente abordadas na fi- 


1022 


losofia da mente, da linguagem, do conhe- 
cimento e da percepção, assim como nos 
terrenos da ética e da ontologia, seus 
estudos orientaram-se no sentido de apli- 
cações práticas, que ele mesmo conside- 
rou como o principal interesse de seu 
trabalho. A mais importante dessas apli- 
cações encontra-se no terreno da educa- 
ção. Em Tecnologia do Ensino (1967), 
Skinner critica as práticas escolares 
tradicionais e explica as vantagens do 
ensino programado e das máquinas de 
ensinar, por ele desenvolvidas. Reali- 
zada por máquinas de ensinar, a progra- 
mação do ensino consiste em meticulosa 
divisão dos assuntos, em pequenos pas- 
sos que cada aluno deve percorrer indivi- 
dualmente e que são reforçados, toda vez 
que acerta. Assim, a aprendizagem tor- 
na-se rápida, eficiente e livre de notas 
baixas, reprovações ou qualquer outra 
forma de punição ou coerção. Para Skin- 
ner, de acordo com os princípios da teo- 
ria do reforço, é possivel programar o 
ensino de qualquer disciplina, tanto 
quanto o de qualquer comportamento, 
como o pensamento crítico ou a criativi- 
dade, desde que se possa definir previa- 
mente o repertório final desejado. 

Opondo-se a todas as formas de puni- 
ção ou repressão na vida social, Skinner 
rejeita a estigmatização de “doentes 
mentais” para as pessoas que adquiri- 
ram condutas meficientes ou socialmente 
reprovadas, e procura mostrar como 
esses comportamentos podem ser altera- 
dos. No romance Walden II, Skinner 
retrata uma sociedade ideal, regida 
pelas técnicas comportamentais. Walden 
II é o nome de uma comunidade onde não 
existem violência, autoridade, privilé- 
gios, classes sociais, propriedade priva- 
da, bandidos ou heróis; o trabalho é 
agradável e o lazer é frequente e produti- 
vo; as relações sociais são diversificadas 
e compensadoras, tendo cada indivíduo a 
possibilidade de se desenvolver a seu 
gosto. Em suma, Walden If defende a 
tese de que a vida do homem pode ser 
boa e gratificante, na medida em que a 
cadeia de tradições do status quo da 
sociedade seja rompida e substituida por 
um planejamento amplo, que vise ao 
maior bem para o maior número de pes- 
soas, aplicando-se os princípios da teo- 
ria do reforço. 


SKINNER 


Associated Press 


Considerado um dos mais influentes psicólogos do século XX, Skinner 
notabilizou-se por aplicar de maneira rigorosa à psicologia os métodos 
empregados ne ciências naturais. Isso o conduziu a uma concepção segundo a 
quala liberdade e a dignidade são palavras vazias de sentido e a vida dos 
indivíduos poderia ser planejada e dirigida de forma absolutamente racional. 


1023 


| | Ro 


1904 — Em Susquehanna, 
Pennsylvania, a 20 de mar- 
ço, nasce Burrhus Frederic 
Skinner. Pavlov recebe o 
Prêmio Nobel de Medicina. 
1910 - 1913 — Publicação 
dos Principia Mathematica, 
de Russell e Whitehead. 
1912 — Wertheimer publi- 
ca seus Estudos Experimen- 
tais sobre a Visão dos Movi- 
mentos, onde expõe, pela 
primeira vez, a psicologia da 
forma (Gestalt). 

1914 — Watson publica Be- 
havior: an Introduction to 
Comparative Psychology, 
primeira sistematização do 
behaviorismo. Publicação 
da Psicologia Educacional, 
de Thorndike. 

1921 — Edita-se 4 Evolu- 
ção Psíquica da Infância, de 
Koffka. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1923 — Conwy Lloyd Mor- 
gan publica Evolução Emer- 
gente. 

1931 — Skinner se doutora 
em psicologia pela Universi- 
dade de Harvard. 

1932 — Tolman publica o 
Comportamento Intencional 
em Homens e Animais. 

1936 — Skinner começa a 
lecionar na Universidade de 
Minnesota. Morre Pavlov. 
1937 — A Psychological 
Review publica Mente, Me- 
canismo e Comportamento 
Adaptativo, de Hull. 

1938 — Publicação de O 
comportamento dos Orga- 
nismos, de Skinner. 

1939 — Eclode a Segunda 
Guerra Mundial. 

1948 — Skinner publica 
Walden II. 

1951 — Publica, no Psy- 


BIBLIOGRAFIA 


chological Bulletin, o Uso 
Humano de Seres Humanos. 
1953 — Publica Ciência e 
Comportamento Humano. 
1957 — Publica Comporta- 
mento Verbal e, juntamente 
com C. B. Fester, Esquemas 
de Reforço. 

1961 — Em colaboração 
com J. G. Holland, publica 
um texto programado com o 
título de Análise do Com- 
portamento. 

1967 — Publica, no The 
Listener, sua Utopia Graças 
ao Controle do Comporta- 
mento Humano. 

1968 — Publica A Tecnolo- 
gia do Ensino. 

1969 — Publica Contingên- 
cias de Reforço: Uma Aná- 
lise Teórica. 

1971 — Publica Além da 
Liberdade e da Dignidade. 


BorING, E. G.: 4 History of Experimental Psychology, 2.º edição, Appleton-Century-Crofts, 
Nova York, 1950. 

HILGARD, E.R.: Theories of Learning, 2.º edição, Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1956. 
WOoLMAN, B.B.: Contemporary Theories and Sistems in Psychology, Harper, Nova York, 
1960. 

Buou, SIDNEY W.: What Psychology has to Offer to Education, in Festschrift for B.F. Skin- 
ner, de vários autores, Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1970. 

KELLER, F. S. e SCHOENFELD, W. N.: Principles of Psychology, Appleton-Century-Crofts, 
1950. 

VERPLANK, W. S.: Burrhus Frederic Skinner, in Modem Learning Theories, de vários autores, 
Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1954. 

CHoMsky, N.: Review of Verbal Behavior, by Skinner, in Language, n.º 35, 1959, páginas 
26-58. 

Morris, €.: Verbal Behavior, by Skinner, in Contemporary Psychology, n.º 3, 1958. 
OsGoop, €. E.: Verbal Behavior, by Skinner, in Contemporary Psychology, n.º 3, 1958. 

Day, WILLARD F.: On Certain Similarities Between the Philosophical Investigation of Witt- 
genstein and the Operationism of Skinner, in Festschrift for Skinner, de vários autores, 
Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1970. 


1024 


1 


IN. 
N 
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ET” 


OS PENSADORES 


eferindo-se aos cursos proferidos 
Re Wittgenstein (1889-1951) en- 
tre 1930 e 33, G. E. Moore 
(1873-1958) assinala que aquilo que 
mais o surpreendera nessas aulas fora a 
convicção expressa pelo filósofo, de que 
nesses anos de Cambridge a filosofia se 
transformara em algo absolutamente 
novo: uma atividade sem praticamente 
nada em comum com a forma de cultura 
tradicionalmente denominada ““filoso- 
fia”. Para Moore, o que Wittgenstein es- 
tava fazendo não era apenas um estádio 
do desenvolvimento contínuo da filoso- 
fia: existiria agora um desvio no desen- 
volvimento do pensamento humano, 
comparável ao que ocorreu quando Gali- 
leu e seus contemporâneos inventaram a 
dinâmica, e um novo método, como acon- 
tecera no tempo em que a quimica saira 
da alquimia. 
Esse novo método, centrado sobretudo 
na análise do funcionamento da lingua- 
em corrente, exigiria um novo tipo de 
Filósofo. dotado de “habilidade” técnica 
diferente da encontrada nos construtores 
de sistemas filosóficos do passado. Para 
se desenvolver tal habilidade, só haveria 
um caminho, dizia Wittgenstein: o da 
discussão. De momento, pouco importa- 
riam os resultados dessa nova disci- 
plina: o verdadeiramente importante re- 
sidiria no fato de se ter encontrado um 
novo método “para deixar as coisas 
como estão, e pôr em ordem as nossas 
noções quanto aquilo que pode ser dito 
do mundo”. 
Essas afirmações indicam que Witt- 
enstein sabia que a sua contribuição à 
EN da filosofia não consistia apenas 
numa nova doutrina articulada dentro do 
campo conceitual da tradição, mas no 
surgimento de um novo paradigma filo- 
sófico. A história deu-lhe razao, na me- 
dida em que a atividade filosófica, a par- 
tir da década de trinta, na Inglaterra, 
parte dos EEUU, Suécia e Finlândia pas- 
sou a ter muito pouco em comum com a 
filosofia tradicional. Essas novas cor- 
rentes são conhecidas pela expressão 
“filosofia analítica”, entendendo-se por 
“analítica” a especial atenção dispen- 
sada à linguagem, sobretudo à lingua- 


Na página anterior: Foto de Willard 
van Orman Quine. (Associated Press). 


1026 


gem corrente. Dentro da orientação 
analítica, existem pelo menos duas ten- 
dências diferentes. A primeira é repre- 
sentada pelo positivismo terapêutico do 
Grupo de Cambridge e se inspira, com 
exclusividade, em certas características 
socráticas do pensamento de Wittgens- 
tein; seu representante mais conhecido é 
John Wisdom (1904). A segunda tendên- 
cia encontra-se no Grupo de Oxford, que 
é decididamente linguístico, excluindo 
qualquer outro interesse teórico. Os pen- 
sadores do Grupo de Oxford têm em co- 
mum a crença de que o exame do funcio- 
namento da linguagem corrente 
(preliminar a toda reforma DEI da lin- 
guagem ou teorização filosófica) possa 
inspirar a solução (ou esvaziamento) dos 
chamados “problemas” filosóficos. A 
seu modo, trata-se de uma crítica acerba 
a qualquer metafísica, feita, contudo, 
dentro do parcimonioso universo de dis- 
curso do senso-comum britânico. Entre 
os pensadores do Grupo de Oxford, sa- 
lientam-se Gilbert Ryle, John Langshaw 
Austin e Peter Frederick Strawson, dos 
quais se poderia aproximar o trabalho 
realizado pelo norte-americano Willard 
van Orman Que. 


Da metafísica à lógica 


Gilbert Ryle (1900- ) foi educado 
dentro da tradição das humanidades 
clássicas, em Oxford. Mais tarde tor- 
nou-se catedrático de filosofia metafísica 
e, de 1947 a 1972, foi editor da revista 
Mind. A trajetória.de seu pensamento as- 
sinala a própria transformação da filoso- 
fia inglesa do século XX, evoluindo da 
metafísica hegeliana e outras correntes 
idealistas até chegar ao positivismo lin- 
guístico. Desde cedo, Ryle problemati- 
zou o conteúdo da filosofia, procurando 
responder precisamente à questão: que 
vem a ser dae filosofia? Sua convicção 
pioneira é que o que os filósofos real- 
mente fazem é examinar o sentido dos 
enunciados. No ambiente algo estratifi- 
cado da Universidade de Oxford nos 
anos vinte, tal preocupação era nova, 
embora em Cambridge, sob influência 
dos trabalhos lógicos de Russell 
(1872-1970) e Wittgenstein, a reflexão 
filosófica caminhasse nessa direção. Os 
únicos temas dos filósofos oxfordianos 


RYLE 


Desde os últimos séculos da Idade Média, a universidade de Oxford tem 
desempenhado papel fundamental no desenvolvimento da cultura inglesa. 
No século XX, a velha universidade abriga um grupo aEinas os que têm em 
comum a tese de que o exame da linguagem corrente pode orientar 
a solução dos chamados e orotlemaE RO cost (Vista aérea de Oxford). 


eram a teoria da percepção e a ética, ha- 
vendo total desinteresse pela lógica. 
Ryle foi o responsável pela ponte entre 
o tradicionalismo de Oxford e o logi- 
cismo de Cambridge. O artigo “Systema- 
tic Misleading Expressions”(1932) pode 
ser considerado como a primeira mani- 
festação verdadeiramente original de 
suas posições. Nesse artigo, Ryle afirma 
que a atividade da filosofia consiste na 
remoção das confusões conceituais, re- 
sultantes da enganadora semelhança en- 
tre construções gramaticais e constru- 
ções lógicas. Assim, por exemplo, tanto 
o impontual Smith como a impontuali- 


dade são dignos de censura, e por isso, 
com certa frequência, os filósofos são le- 
vados a achar que coisas semelhantes 
são afirmadas dos dois objetos (Smith e 
a impontualidade), daí passando à con- 
clusão de que o universo comporta obje- 
tos particulares e objetos gerais. Da 
mesma forma, nas expressões “Baldwin 
é um estadista” e “Pickwick é uma fic- 
ção”, a similaridade gramatical leva os 
filósofos a pensar que existem, efetiva- 
mente, “ficções” e “estadistas”. Nesse 
artigo, o pensamento de Ryle ainda não 
estava suficientemente burilado para se 
desligar dos preconceitos semânticos da 


1027 


HS PD Sa sd Ident s fd à 2 Mi fic SD AEE === 


OS PENSADORES 


Gilbert Ryle, o mais velho representante do Grupo de Oxford, tomou 
para tema fundamental de suas reflexões, desde seus primeiros trabalhos, 
a indagação: o que é fazer filosofia? Procurando resposta para esse 
problema, Ryle reproduziu toda a trajetória da filosofia mglesa do 
séc. XX, ndo do idealismo hegeliano até o positivismo linguístico. 


1028 


«ikus, Rondon 


RYLE 


época, especialmente da tese da adequa- 
ção termo-a-termo entre a proposição ló- 
gica e a estrutura do fato real. Nos en- 
saios recolhidos em Dilemmas (1954), 
Ryle sustenta que a maior parte dos pro- 
blemas filosóficos surgem sob a forma 
de dilemas, mantidos sem que se seja ca- 
paz de repudiar duas ou mais opiniões 
incompatíveis como, por exemplo, “o ho- 
mem € responsável por seus atos” e “o 
comportamento individual é resultado 
da influência do meio e das bases fisioló- 
gicas”. Tais dilemas, segundo Ryle, de- 
veriam ser superados, mostrando-se que 
o aparente conflito é devido à confusão 
conceitual e, ao mesmo tempo, não se 
aceitando as alternativas propostas pe- 
los mesmos. 

Ryle sempre considerou que o seu es- 
tilo de análise consistiria menos em res- 
ponder à pergunta: “Que significa esta 
expressão?”, do que em levantar a ques- 
tão: “O que é que faz com que esta ex- 
pressão seja sem-sentido? e que espécie 
de sem-sentido?”. Essa a razão pela qual 
se encontram nos primeiros ensaios de 
Ryle referências à idéia de uma gramá- 
tica lógica, que se aproxima da IV Inves- 
tigação Lógica, de Husserl (1859-1938). 


Que são o corpo e a alma? 


Em Philosophical Arguments (aula 
inaugural de 1945), Ryle sintetizou o 
programa de uma nova filosofia, afir- 
mando que é possível conseguir uma me- 
lhor escoa lógica” determinando-se 
o que pode e o que não pode ser dito sem 
absurdo, quais as inferências válidas e 
as que não o são, e quais os paralelismos 
lógicos suscetíveis de causar confusão. 
Esse tipo de critica filosófica encontra 
aplicação prática em The concept of 
mind (1949) — a obra mais famosa de 
Ryle —, um trabalho sistemático sobre 
os “conceitos mentalistas” normalmente 
utilizados pela filosofia do espírito. Para 
tornar mais eficaz sua polêmica nessa 
obra Ryle cunhou o epi a do “fan- 
tasma dentro da máquina”, referindo-se 
à concepção cartesiana sobre a origem 
da mente; concepção que, diz Ryle, do- 
mina a quase totalidade da epistemolo- 
gia moderna. Resumindo ironicamente 
esse ponto da filosofia cartesiana, Ryle 
escreve; “com as exceções duvidosas 


dos idiotas e das crianças de colo, todo 
ser humano tem um corpo e um es- 

irito”. Dessa posição inicial teriam 
Escdo as menarráveis dificuldades ter- 
minológicas dos dualismos filosóficos, 
com todo o seu cortejo mistificador de 
erros teóricos quanto à “relação” entre 
corpo e espírito. Um tal dualismo que 
obrigaria as pessoas a viver em dois 
mundos: o do corpo, governado por leis 
mecânicas; e o do espirito, que se desen- 
rolaria num meio não sujeito a tais leis. 
É costume expressar a bifurcação dessas 
duas vidas e desses dois mundos, dizen- 
do-se que as coisas e acontecimentos 
pertencentes ao mundo fisico, incluindo 
o próprio corpo, são exteriores, en- 
quanto o trabalho do espírito é interior. 
Esse dualismo do interno /externo é ape- 
nas uma metáfora, diz Ryle, pois como 
verificar que o espirito é interno? ou que 
porventura tenha qualquer outra conota- 
ção espacial? Ao conjunto de erros sobre 
a natureza e o lugar dos espíritos, Ryle 
denomina o “dogma do fantasma na má- 
quina”. Levando ainda mais longe sua 
crítica, Ryle caracteriza esse dogma 
como “erro-categoria” absolutamente 
global, e não apenas “uma reunião de er- 
ros particulares”. O erro categoria “ima- 
gina os fatos da vida mental como se per- 
tencessem a um tipo ou categoria lógicos 
(ou classe de tipos ou categorias), 
quando efetivamente pertencem a outra 
categoria”. Assim, por exemplo, um fo- 
rasteiro que chega à Universidade de 
Oxford e ouve falar de suas numerosas 
faculdades, bibliotecas, campos de jogos 
e assim por diante, poderá perguntar: 
“Mas onde está a Universidade?” Seria 
então necessário explicar-lhe que a Uni- 
versidade não é uma instituição colate- 
ral, sendo, precisamente, a maneira 
como tudo o que ele viu está organizado. 
Segundo Ryle, o forasteiro erra ao situar 
a Universidade na mesma categoria a 
que pertencem as outras instituições. Er- 
rando da mesma forma, o dualista vai ao 
ponto de postular a existência de uma 
entidade “pessoa” oculta dentro de um 
maquinismo. 

Ryle crê que boa parte do erro-catego- 
ria em questão deriva do fato de Descar- 
tes ter transportado para a teorização 
dos fenômenos mentais um modelo me- 
cânico. “Aderindo, — escreve Ryle — 


1029 


OS PENSADORES 


ainda que involuntariamente, à gramá- 
tica da mecânica, Descartes tentou evi- 
tar o desastre, descrevendo os espíritos 
com um vocabulário meramente simé- 
trico. As operações. do espírito deviam 
ser descritas por meio dos simples nega- 
tivos das descrições específicas feitas 
para o corpo: não existem no ESRASO» não 
são movimentos, não são mo ificações 
da matéria, não são acessíveis à observa- 
ção pública. (...) Assim representados, 
os espíritos não são simplesmente fan- 
tasmas acorrentados a máquinas: são 
eles próprios máquinas fantasmas”. A 
descrição alternativa proposta por Ryle, 
a fim de evitar as dicotomias cartesia- 
nas, enfatiza o aspecto executivo do 
comportamento inteligente e salienta 
como o homem faz tal e tal coisa (ou 
sabe como fazê-la), sem preconceber 
uma consciência reflexiva ou um corpo 
fisicista por detrás de cada uma das 
ações humanas. Ryle faz uma distinção 
clássica entre saber como e saber que, a 
fim de mostrar que saber como fazer tal 
e tal coisa, ser capaz de executá-la de 
modo inteligente, é logicamente indepen- 
dente de qualquer teorização intelectual 
do “fantasma na máquina”. Ryle acres- 
centa: “há muitas duvidades que reve- 
lam diretamente qualidades do espírito, 
se bem que não sejam em si próprias 
operações intelectuais, nem sequer efei- 
tos de operações intelectuais”. Dessa 
maneira, tudo o que está “implícito” nos 
enunciados referentes a uma pessoa que 
sabe inglês, sabe andar de bicicleta, ou 
é capaz de compor uma sinfonia, ou de 
caçar perdizes sem cachorro, é que a 
pessoa leva a cabo tais ações de modo 
satisfatório, “sabe como” realizá-las e, 
além disso, também é capaz de eventual- 
mente analisar: corrigir e aperfeiçoar 
suas técnicas linguística, ciclística, mu- 
sical ou cinegética. 

Ao lado de sua contribuição 
fundamental à filosofia do espírito, Ryle 
também se interessou pela teoria da sig- 
nificação. Os ensaios The Theory of 
Meaning (1957) e Use, Usage and Mea- 
ning (1961) constituem uma crítica con- 
tundente da concepção semântica, se- 
gundo a qual as palavras isoladas (tendo 
por modelo os nomes próprios) são as 
unidades significadoras, por excelência, 
e não as frases. Ironicamente, Ryle 


1030 


chama a concepção semântica de “teoria 
Fido-Fido”, dizendo que, nela, uma pa- 
lavra sempre encontrará uma coisa cor- 
respondente, da mesma forma como ao 
nome “Fido” corresponde o cachorro 
Fido. Ryle, por sua parte, e enfatiza o uso 
das frases para realizar ações concretas, 
como o aspecto realmente importante 
para a descrição filosófica. Tal coloca- 
ção é, no fundo, idêntica à que Wittgen- 
stein apresenta nas Investigações Filosó- 


ficas e salienta-se apenas pela “verve” 


de Ryle. Sem dúvida, uma das maiores 
virtudes da obra de Ryle reside na força 
de sua prosa filosófica, desprovida de 
academicismo, fluente e polêmica, diri- 
gida ao leitor de bom senso, de um modo 
que faz lembrar Hume. O que levou seu 
contemporâneo Austin a dizer: “Le style, 
c'est Ryle”. 


Dizer ou fazer? 


John Langshaw Austin (1911-1960) nas- 
ceu em Lancaster, filho de um funcioná- 
rio da Universidade escocesa de St. Leo- 
nard. A partir de 1933, através de uma 
bolsa de estudo, veio para Oxford, onde, 
como aluno e professor, viveu a maior 
parte, de sua vida. Austin é considerado 
o maior representante da chamada es- 
cola “analítica” de Oxford e, embora 
seus contemporâneos reconheçam nele 
verdadeiro gênio filosófico, a influência 
que exerce na filosofia inglesa é conside- 
rada por amplos setores como perni- 
ciosa, por conduzir a um academismo 
excessivo, por afastar a filosofia da ciên- 
cia e da epistemologia, e por não adotar 
nenhum valor. Embora ainda seja cedo 
para uma avaliação histórica da “escola 
analítica”, a verdade é que as críticas 
que lhe são endereçadas na defesa da 
maneira tradicional de fazer filosofia, 
nada mais fazem que pôr em relevo a 
crise da filosofia do século XX, problema 
de que Austin estava plenamente cons- 
ciente. Alguns intérpretes da obra de 
Austin chegam mesmo a pôr em dúvida 
que seu trabalho possa ser chamado de 
“filosofia” e perguntam se não seria me- 
lhor falar de “ciência” da linguagem, ou 
lingúística, ou lexicografia. Seus dois 
discípulos e colegas, Warnock e Urmson, 
responsáveis pela publicação e recons- 
trução da maior parte de sua obra, afir- 


RYLE-AUSTIN 


1 


Thame Studis 


4 
À 


Entre os membros do Grupo de Oxford, 
Peter Frederick Strawson tornou-se 
conhecido, sobretudo, por estudos de 
filosofia da lógica e por tentativas 
de reconstrução da metafísica. 


mam não querer propor nenhuma res- 
posta conclusiva para essas questões. 

A formação básica de Austin foi de 
tipo clássico: latim, grego, literatura, fi- 
losofia e história. Para seu trabalho pos- 
terior foi particularmente relevante o co- 
nhecimento adquirido da obra de 
Aristóteles. Até o início da Segunda 
Guerra Mundial, além de Aristóteles, o 
campo de interesse de Austin envolvia 
também Leibniz (1646-1716). Antes de 
1939, redigiu um ensaio sobre a Ética a 
Nicómaco e, a partir da poblemática 
leibniziana, publicou em 1939 Existem 
Conceitos a Priori? Só depois da guerra 
seu pensamento ganhou E RR pró- 
pria e Austin encontrou o método ade- 
quado para desenvolvê-lo. 

Em Other minds (1946), Austin estuda 
minuciosamente o uso de expressões ver- 
bais como “prometo”, “sei” e “acre- 
dito”, mostrando que um inventário am- 
plo dos empregos que a linguagem 
corrente faz desses verbos pode ajudar 
na obtenção de distinções epistêmicas 
significativas. Assim procedendo o ana- 
lista (ou o filósofo) não precisaria, em 
muitos casos, inventar uma terminologia 
complicada para a teoria do conheci- 
mento; bastar-lhe-ia verificar que a teo- 
ria do conhecimento, com suas distin- 
ções mais sutis, já está incorporada ao 
funcionamento habitual da linguagem 
corrente. O verbo to know, por exemplo, 
através da análise de Austin mostra-se 
surpreendentemente semelhante ao 
SEO to promise; “quando digo “pro- 
meto”... não anuncio tão-somente a mi- 
nha intenção, mas, usando essa forma 
(fazendo esse ritual), liguei-me a ou- 
trem, arrisquei a reputação . Da 
mesma forma, ao dizer “sei”, vou ainda 
mais longe; o que não qn dizer que 
com isso eu esteja dizendo que realizei 
um feito notável de conhecimento, supe- 
rior na mesma escala ao acreditar e ao 
estar certo, pois em tal escala não há 
nada superior ao estar inteiramente 
certo. Da mesma forma que, na mesma 
escala, prometer não é nada superior a 
esperar e tencionar, nem mesmo é supe- 
rior à intenção plena, uma vez que nada 
há, nessa escala, superior à intenção 
plena. Quando digo “sei”, dou aos outros 
a minha palavra: dou-lhes a minha auto- 
ridade para que digam 'S é P'”.:Boa 


1031 


OS PENSADORES 


parte da obra de Austin está centrada no 
estudo desses verbos e em seu peculiar 
comportamento linguístico. Numa longa 
série de cursos proferidos em Oxford, 
sob o título Word and Deads, Austin 
torna mais explicita aquela que é, sem 
dúvida, a sua grande descoberta: de que 
ao lado do trabalho meramente descri- 
tivo das expressões verbais, existe uma 
dimensão executiva, (“performatória”) 
que faz com que a realidade verbal e a 
não-verbal da linguagem em funciona- 
mento estejam indissociavelmente liga- 
das. Mais tarde, Austin resumiu essa 
concepção de maneira sistemática, em 
uma série de conferências em Harvard 
no ano de 1955; as notas dessas confe- 
rências constituem o volume póstumo, 
How to do things with words (1962). 

A análise Imgúística proporcionada 
pelo positivismo lógico, e que dominou 
a filosofia até a década de 40, centra- 
va-se nas proposições descritivas que, 
sendo redutíveis ao controle do cálculo 
lógico, poderiam ser integradas no edifi- 
cio da linguagem cientifica. Já a se- 
gunda fase do pensamento wittgenstei- 
niano pode ser considerada como uma 
reação implícita a esse modo de conside- 
rar a linguagem; Wittgenstein, com sua 
concepção dos “Jogos de linguagem”, 
não foi muito explícito na análise das di- 
versas funções desempenhadas pelas fra- 
ses. Assim, contrariando a tradição filo- 
sófica que apenas empresta importância 
epistemológica às expressões que “infor- 
mam acerca de fatos ou descrevem situa- 
ções de modo verdadeiro ou falso”, rele- 
gando todas as demais para a categoria 
do sem-sentido, Austin começa por per- 
guntar se estas são, efetivamente, “pro- 
posições”. Acreditar que todas as propo- 
sições significativas devem ter 
características descritivas é incorrer, 
talvez, na “falácia descritiva”. Supo- 
nha-se, por exemplo, que no decorrer de 
uma cerimônia de casamento um homem 
diga, como é costume, “aceito”, que- 
rendo com isso responder à pergunta ri- 
tual do sacerdote, se aceita tal mulher 
como sua legitima esposa; ou, então, su- 
ponha-se que alguém, ao atirar uma gar- 
rafa de champagne no casco de um na- 
vio, diga: “Dou-lhe o nome de 
TITANIC”. Observando esses dois casos, 
diz Austin, é provavelmente mais correto 


1032 


afirmar que o locutor esteja fazendo algo 
do que apenas dizendo algo. Austin 
chama de performatórias (performative 
utterances) essas expressões caracteri- 
zadas pela primeira pessoa do singular 
do indicativo presente de determinados 
verbos. Sua característica epistemoló- 
gica mais saliente é a de não serem ver- 
dadeiras nem falsas e poderem sofrer 
certos defeitos de execução que Austin 
chama mfelicities. Não adianta nada, 
E exemplo, afirmar “Aposto”, se não 
ouver um ceiro para aceitar minha 
aposta. Poder-se-ia assim dizer que as 
expressões “infehzes” são as que não 
cumprem suas funções especificas. 
Posteriormente, Austin desenvolveu a 
noção de “performatório” e incluiu-a 
dentro de uma teoria da pragmática dos 
atos da fala, em geral. Passou, então, a 
distinguir três realidades linguísticas es- 
tratificadas, no ato de falar: A) um ato 
locutório, B) um ato ilocutório e C) um 
ato perlocutório. Assim, na expressão 
“dispare nela” existe sucessivamente um 
ato locutório: disse-me “dispare nela”, 
referindo-se a palavra “dispare” a dis- 
e a palavra “nela”, a nela; um ato 
ilocutório: instigou-me (ou aconse- 
lhou-me, ordenou-me, etc.) que dispa- 
rasse nela; e, finalmente, um ato perlo- 
cutório: persuadiu-me a disparar nela 
(ou que disparasse nela). A designação 
per-locutório alude ao fato de que o novo 
tipo de ato é frequentemente levado a 
efeito não em um ato locutório mas atra- 
vés (em latim, per) de um ato locutório. 
É evidente que no primeiro ato, Austin se 
refere tão-somentt ao emprego de sons 
para referir determinados significados; 
no segundo caso, o locutor usa a sen- 
tença para obter diretamente certos efei- 
tos sobre os sentimentos, os pensamen- 
tos, ou o agir daquele que o escuta (nesse 
sentido, expressar a sentença está indis- 
soluvelmente ligado àquilo que se Jaz 
com ela); no terceiro caso, Austin enfa- 
tiza o fato de que o ato locutório serve 
apenas de veículo instrumental para o lo- 
cutor obter um efeito derivado. Embora 
a distinção entre o segundo e o terceiro 
casos não seja fácil de ser mantida, Aus- 
tin tentou fornecer alguns critérios lin- 
guísticos de construção sintática, crité- 
rios esses que serviriam de teste para 
efetuá-la. 


AUSTIN 


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Embora não pertencente propriamente ao Grupo de Ep fd o pensador americano 
Willard van Orman Quine pode ser aproxi dele pela temática de suas obras e 
pela semelhança de soluções que encontrou para o mesmo tipo de problema. 
Quine doutorou-se na universidade de Harvard, onde passou a maior parte de 
sua vida, lecionando e escrtvendo inúmeras obras. (Universidade de Harvard). 


1033 


Photo Researchers 


OS PENSADORES 


Uma ciência da linguagem 


Do ponto de vista dos resultados al- 
cançados, a obra de Austin dificilmente 
pode distinguir-se da pesquisa que um 
hipotético lexicógrafo levasse a cabo so- 
bre a língua inglesa atual. O que Austin 
fornece é um conjunto de inquéritos inde- 
pendentes sobre o uso dos verbos perfor- 
mativos, dos verbos que podem servir 
para a execução de atos ilocutórios e 
perlocutórios, e uma série de outras pe- 
quenas análises, dentre as quais se des- 
taca a análise semântica dos verbos per- 
ceptivos look, appear, seem, no ciclo de 
conferências reunidas sob o título de 
Sense and Sensibilia (1960). Mas de- 
ve-se ressaltar que é praticamente im- 
possível reuni-las sob uma teoria filosó- 
fica unificante. Recentemente, linguistas 
como Chomsky (1929- ) afirmaram 
que o método de investigação no estilo 
de Austin (no que toca à semântica dos 
verbos) poderia ser incorporado com 
muita utilidade à teoria transformacio- 
nal. Parece não haver dúvida de que Aus- 
tin acreditava na possibilidade da cola- 
boração de um grupo de filósofos 
analíticos, no sentido de determinar, por 
comum acordo, qual o uso dos principais 
termos das várias áreas de discurso. Só 
assim a filosofia da linguagem poderia 
estar certa de obter resultados palpá- 
veis, segundo um método declarada- 
mente empírico e científico. Ao que tudo 
indica, Austin estava convencido de que, 
mais cedo ou mais tarde, emergeria das 
pesquisas dos filósofos analíticos uma 
“nova ciência da linguagem”, com isso, 
o campo vital da filosofia se libertaria 
do peso da linguagem: “Na história da 
investigação humana — escreve Austin — 
a filosofia ocupa o lugar do sol inicial 
central, seminal e tumultuoso; de tempos 
em tempos, abandona uma parte de si 
próprio a fim de que assuma o estádio 
de ciência, como planeta, frio e perfeita- 
mente regularizado, progredindo rapi- 
damente para um distante estágio final. 
Isso aconteceu há muito tempo, no nasci- 


Quine tornou-se bastante conhecido no 
Brasil, onde foi o introdutor da 
lógica matemática. Uma de suas obras 
foi publicada originalmente em 
português: O Sentido da Nova Lógica. 


1034 


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AUSTIN 


1035 


OS PENSADORES 


A partir de 1950, Strawson passou a dedicar-se ao que ele mesmo chamou de 
“metafísica descritiva”. Com isso, o filósofo ampliou os limites de suas 
reflexões para além dos objetivos da filosofia analítica do Grupo de Oxford. 
A “metafísica descritiva” examina as características estruturais dos sistemas 
de conceitos, aplicando as técnicas analíticas ao estudo das categorias. 


1036 


Thame Studio 


STRAWSON 


mento da matemática, e repetiu-se 
quando nasceu a fisica; no último século 
testemunhamos o mesmo processo lenta- 
mente e de modo quase imperceptível, no 
nascimento da lógica matemática, atra- 
vês dos esforços conjuntos de filósofos e 
matemáticos. Não será possível que o 
próximo século possa assistir ao nasci- 
mento, através dos esforços conjuntos de 
filósofos, gramáticos e outros estudiosos 
da linguagem, de uma verdadeira e com- 
preensiva ciência da linguagem?”. 


Verdade e falsidade 


Peter Frederick Strawson (1919- ), 
um dos mais conhecidos filósofos britã- 
nicos do Grupo de Oxford, preocupou-se 
principalmente com a filosofia da lógica 
e a reconstrução da metafísica. Seu tra- 
balho mais conhecido, e que exerceu 
grande influência nos demais filósofos 
analíticos, é o artigo On Referring publi- 
cado na revista Mind em 1950, e que 
pode ser tomado como uma ruptura com 
a geração anterior, por constituir uma 
crítica à teoria das descrições definidas 
de Bertrand Russell. No paradigma pro- 
posto por Russell, qualquer sentença do 
tipo “o f é g” (por exemplo, “o rei da 
França é calvo”) é efetivamente decom- 
posta em três outras proposições: “há 
um rei da a “só existe um rei de 
França”, e “não há nada que seja rei de 
França e nao seja calvo”. Strawson pro- 
cura mostrar que nessa análise confun- 
de-se o referir-se (referring) a uma enti- 
dade com o afirmar a existência dessa 
entidade. Ao referir-se a uma entidade, 
o locutor pressupõe a existência da 
mesma, mas não afirma que exista, nem 
aquilo que afirma implica que exista. 
Deve-se fazer, portanto, uma distinção 
entre pressuposição e implicação (entail- 
ment). Ao enunciar uma frase “o (atual) 
rei de França é é calvo” o locutor procura 
referir-se à entidade que funciona como 
sujeito na sentença e, portanto, pressu- 
põe que ela existe, mas não está afir- 
mando que exista uma tal entidade. 
Strawson põe em relevo a necessidade de 
se levar em consideração a diferença 
existente entre a expressão (a sentença) 
e o fato de seu uso efetivo. Uma expres- 
são (sentença) pode ser significativa ou 
desprovida de sentido, mas a verdade ou 


falsidade que a ela se atribui é função do 
uso que lhe for dado. A sentença “o rei 
de França é calvo” é perfeitamente signi- 
ficativa, mas a afirmação efetuada com 
ela não pode ser considerada como ver- 
dadeira ou falsa, em virtude de a França 
ser uma república e não haver rei de 
França; não há, portanto, como atribuir 
à sentença uma referência efetiva. De 
acordo com a terminologia de Strawson, 
a sentença é significativa, mas a afirma- 
ção correspondente não é nem verda- 
deira nem falsa, pois uma de suas pres- 
suposições (a de que há um rei de 
França) é falsa. 

Em outro artigo, intitulado Truth, e 
publicado em Analysis (1949), Strawson 
critica a teoria semântica da verdade e 
propõe uma análise alternativa, refe- 
rente à função desempenhada pela pala- 
vra “verdade”. O filósofo argumenta que 
“verdade” e “falsidade” não devem ser 
consideradas palavras “descritivas”; se- 
riam antes “performatórias” (no sentido 
de Austin), como em “prometo”. Straw- 
son afirma que dizer que um enunciado 
é verdadeiro não é efetuar um enunciado 
sobre um outro enunciado (função meta- 
linguística da verdade), mas realizar o 
ato de aceitar, de concordar, de conce- 
der, etc. Quando se declara: “é verdade 
que está chovendo” não se diz (informa) 
algo mais além do que se informa atra- 
vês de “está chovendo”. Nesse ponto 
Strawson faz uso de uma idéia exposta 
anteriormente por Ramsey: a redundán- 
cia-da-verdade. Ramsey afirmou que di- 
zer que uma proposição é verdadeira não 
significa mais do que asseverar a pró- 
pria proposição. Assim, dizer: “é falso 
que César foi assassinado”, é o mesmo 
que declarar: “César não foi assassi- 
nado”. De acordo com esse ponto de 
vista, a “verdade” não tem “significado” 
independente. Com suas análises, Straw- 
son se opõe à teoria metalingiistica da 
verdade. Ao lado do uso performatório 
de “verdade”, Strawson salienta ainda 
seu uso expressivo. Em frases que come- 
cam por “Então, é verdade que”, “É ver- 
dade ?, “Se for verdade que”, “Se for 
verdade o que dizem”, a palavra “ver- 
dade” funciona como o advérbio “real- 
mente”, isto é, serve para expressar sur- 
presa, dúvida, espanto ou descrença. 

Em seu primeiro livro, Introduction to 


1037 


OS PENSADORES 


PER d : 


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Depois de doutorar-se na universidade de Harvard, Quine procurou 
aperfeiçoar-se em lógica, seu principal interesse. Com esse objetivo, entrou 
em contato com os membros do Circulo de Viena e com Carnap, em Praga. Voltando 
aos EUA, tornou-se professor em Harvard, de onde se ausentou algumas vezes 
para lecionar em São Paulo, Adelaide e Tokio. (Biblioteca de Harvard). 


1038 


Photo Researchers 


STRAWSON 


Logical Theory (1952), Strawson desen- 
volveu de maneira sistemática o pro- 
blema da relação entre a linguagem cor- 
rente e a lógica formal. O livro tem dois 
objetivos complementares: comparar e 
constatar o comportamento das palavras 
costumeiras com o comportamento dos 
simbolos lógicos, e pôr em relevo a natu- 
reza da lógica formal. O autor tenta 
mostrar que o cálculo proposicional e de 
predicados não esgota todos os traços ló- 
gicos do funcionamento da linguagem 
corrente, argumentando que os conceitos 
lógicos, especialrnente “v”, “5”, e “=”, 
são muito menos semelhantes a “ou”, 
“se. . então”, e “se e somente se” do que 
se possa su upor. Na discussão da lógica 
de predica os, Strawson sustenta que 
certas críticas à silogística aristotélica 
não são válidas por não levarem em 
conta que enunciados com a forma pro- 
posicional “Todos os f são g” pressu- 
põem a existência de membros da classe 
que desempenham o papel de sujeito. As- 
sim, por exemplo, a questão de saber se 
é verdade que todos os filhos de João es- 
tão acordados, nem se coloca se João 
não tiver filhos. Admitindo-se que os 
enunciados da forma “Todos os f são g” 
possuem pressuposições existenciais, 
torna-se possível apresentar uma inter- 
retação consistente do sistema aristoté- 
es tradicional. Para Strawson, a inca- 
pacidade de reconhecer esse ponto, e de 
perceber a relação correta existente en- 
tre o cálculo de predicados e a lingua- 
gem corrente, deve-se aos mesmos erros 
subjacentes à teoria das descrições, isto 
é, ao não reconhecimento da distinção 
entre sentença e enunciado (statement), 
à “tricotomia fictícia” (verdadeiro, 
falso, ou sem-sentido), e à confusão entre 
pressuposições e implicação. 

A partir de 1950, Strawson passou a 
se preocupar com aquilo a que deu o 
nome de metafísica escritiva. Trata-se 
de um empreendimento mais geral que o 
objetivo declarado da filosofia analítica, 
uma vez que se passa, como diz Ayer, “a 
examinar as características estruturais 
de nosso sistema conceitual, ou a aplicar 
as técnicas analíticas à investigação das 
categorias”. Essa fase do pensamento de 
Strawson encontra-se no livro Indivi- 
duals (1959), que, em sua primeira 
parte, Particulars, trata da natureza e 


pré-requisitos para a identificação de 
particulares na linguagem; a segunda 
parte concentra-se nas relações entre 
universais e particulares, e nas distin- 
ções entre referência e predicação, sujei- 
tos e predicados. Strawson defende a 
tese de que, do ponto de vista da identifi- 
cação particular, os objetos materiais 
constituem os particulares básicos. Isso 
significa que as condições gerais para a 
identificação particular exigem um sis- 
tema de entidades espaço-temporais ob- 
serváveis publicamente. O universo ma- 
terial forma tal sistema e os objetos 
materiais podem, portanto, ser identifi- 
cados independentemente da identifica- 
ção de particulares em outras catego- 
rias; mas a recíproca não é verdadeira. 
Assim, admite-se que os objetos mate- 
riais são particulares básicos para a 
identificação particular. Uma segunda 
tese de Strawson envolve o problema do 
dualismo corpo-mente. Em  Persons 
Strawson ataca tanto a concepção carte- 
siana — segundo a qual os estados de 
consciência são atribuídos a um Cogito 
ligado mas distinto de um corpo — 
quanto a teoria moderna, para a qual os 
estados de consciência não são atribui- 
dos a nada. Em última instância, ambas 
as posições seriam incoerentes. Por isso, 
Strawson propõe como conceito primi- 
tivo o de “pessoa”, que deve ser distin- 
guido do conceito de “corpo”, entendido 
como algo meramente material que con- 
trasta coisas e pessoas. 

Para Strawson uma coisa ou corpo 
material é um particular básico, no sen- 
tido de que é possível identificar e rei- 
dentificar corpos materiais, sem necessi- 
dade de referência a qualquer espécie de 
particular, além de corpos materiais. Es- 
ses particulares seriam básicos nos es- 
quemas de identificação do mundo. 
Como surgiria, então, a idéia de um de 
nós distinto dos particulares? A resposta 
tradicional consiste em sustentar que 
nós não somos corpos materiais, e que a 
nossa-idéia-de-nós-próprios não é a 
idéia de um corpo material. Mas Straw- 
son não vai ao ponto de afirmar que o ho- 
mem seja entidade imaterial, enfati- 
zando o fato de muitos dos termos 
corretamente aplicáveis aos corpos ma- 
teriais serem também aplicados segundo 
o mesmo critério, ao homem como pes- 


1039 


OS PENSADORES 


soa. Para Strawson, há duas classes de 
termos (predicados-M e predicados-P) 
aplicáveis, respectivamente, a corpos 
materiais e a pessoas; mas existe al- 
guma coincidência no fato de EE pre- 
dicados-M (talvez a sua totalidade) se- 
rem aplicáveis a pessoas, embora 
existam alguns predicados-P não aplicá- 
veis a corpos materiais (por exemplo: 
não se pode atribuir estados de consciên- 
cia aos corpos materiais). 

É essencial na análise feita por, Straw- 
son que os predicados-P sejam do 
mesmo tipo lógico, independentemente 
de serem aplicados a “nós” próprios, ou 

“ele”, “ela”, “eles”, ou ainda à pessoa 
propriamente dita. O critério para apli- 
cação dos predicados a mim mesmo é 
sem dúvida o eu estar consciente disso, 
mas para os outros tal atribuição é logi- 
camente impossível. (Não posso, por 
exemplo, sentir a dor alheia). Devo, en- 
tão, ter algum critério logicamente ra- 
zoável para ser capaz de fazê-lo; prova- 
velmente poderei basear-me na 
observação de comportamento. Strawson 
tenta superar a posição cética, segundo 
a qual nada se pode dizer da dor alheia 
a menos que ela seja experimentada. 
Para isso é necessário aceitar plena- 
mente o seu conceito de “pessoa”, o 
qual, afastando-se do dualismo carte- 
siano, refere- se a uma entidade sui gene- 
ris, para cuja aparência podem ser usa- 
das expressões de duas linguagens 
diferentes. 


O sentido da nova lógica 


Willard van Orman Quime (1908- )foi 
educado no Oberlain College (EUA), e 
obteve o título de Doutor em Harvard, 
sob orientação de Whitehead (1861 - 
1947). Desde o início, seu principal inte- 
resse foi a lógica, e, para se aperfeiçoar 
nesse campo. visitou Viena, estudou em 
Varsóvia e encontrou-se com Carnap em 
Praga. Em 1936, Quine tornou-se pro- 
fessor em Harvard. Depois visitou vários 
países, proferindo cursos em São Paulo, 
Adelaide, Tokio e Oxford. Sua perma- 
nência por vários anos em São Paulo, em 
seguida a um tratamento de saúde na 
ha da Madeira, foi particularmente i im- 
portante, pois, pela primeira vez, reali- 
zou-se um curso de lógica matemática 


1040 


numa universidade brasileira. Disso re- 
sultou o livro O sentido da nova lógica, 
publicado originalmente em língua por- 
tuguesa, em 1944. 

A obra de Quine liga-se à filosofia da 
lógica, à epistemologia e à filosofia da 
linguagem. No campo da lógica propria- 
mente dita, Quine introduziu algumas 
soluções técnicas na demonstração de 
teoremas da teoria dos conjuntos, carac- 
terizadas por grande elegância (Set 
Theory and its logic, 1963). No campo 
da filosofia da lógica, um dos argumen- 
tos mais famosos de Quine está centrado 
em sua recusa da distinção entre “anali- 
tico” e “sintético”, (Two dogmas of em- 
piricism, publicado em 1951). Partindo 
da distinção tradicional de Leibniz entre 
“verdade de razão” e “verdade de fato” 
Quine não vê qualquer possibilidade de 
manutenção de tais conceitos. Um enun- 
ciado como “nenhum homem não casado 
é casado” pode, na terminologia de 
Quine, ser considerado como analítico / 
logicamente verdadeiro. Isso decorre de 
sua teoria, segundo a qual, fornecida 
uma lista de partículas lógicas (não, 
se... então, e), diz-se que uma “verdade 
lógica” é um enunciado que continua 
verdadeiro com substituição de qualquer 
de suas partes constituintes, desde que 
não sejam as partículas lógicas. Outro 
tipo de enunciado analítico aparece em 

“nenhum solteiro é casado”, que pode 
transformar-se em enunciado “logica- 
mente verdadeiro” por substituição, co- 
locando-se o sinônimo “homem não ca- 
sado” no lugar dé “solteiro”. Mas nesse 
ponto (como em outros momentos de seu 
argumento), Quine Chega à à conclusão de 
que não existe critério para definir a 
analiticidade, como também não há para 
a sinonímia. Segundo Quine, um exame 
da analiticidade que depender da noção 
de sinonímia será insatisfatório. Se a si- 
nonímia das formas Imguúísticas consistir 
na possibilidade de sua cambialidade em 
todos os contextos, mantendo-se os valo- 
res-de-verdade do enunciado, pode-se 
chegar a falsidades. Isso ocorre, por 
exemplo, na substituição de “solteiro” 
por “homem” na proposição “ solteiro 
tem menos de dez lesar . É necessário 
explicar, diz Quine, a sinonímia cogni- 
tiva, que se anuncia na possibilidade de 
transformar qualquer enunciado anali- 


STRAWSON-QUINE 


ELEMENTARY 


LOGIC 


Revised Edition 
LARD VAN ORMAN QUINE 
| 


As obras de Quine estendem-se por amplos setores da filosofia da lógica, da 
epistemologia e da filosofia da tnguagem. No campo da lógica propriamente 
dita, Quine introduziu algumas soluções técnicas caracterizadas por grande 
elegância. No campo dafeloro ia da lógica, ficou famosa sua recusa da 
distinção entre analítico e sintético. (Frontispício de uma obra de Quine). 


1041 


OS PENSADORES 


tico numa verdade lógica por substitui- 
ção de sinônimos. Dizer que “solteiro” e 
“homem não casado” são cognitiva- 
mente sinônimos, é o mesmo que dizer: 
“Todos e só os solteiros são homens não 
casados”. Podemos transformar essa 
proposição em uma outra: “(Necessaria- 
mente) todos e só os solteiros são soltei- 
ros/são homens não casados”. Mas, 
nesse caso, também supõe-se mais uma 
vez a analiticidade. 

O argumento de Quine, em linhas ge- 
rais, tem entretanto consequências filo- 
sóficas extraordinariamente amplas. O 
abandono da distinção entre analítico e 
sintético desfaz a “fronteira que se crê 
separar a metafísica especulativa da 
ciência natural”, e reforça a concepção 
pragmatista, característica do pensa- 
mento de Pierce (1839 - 1914). Na con- 
cepção de ciência e de conhecimento de- 
lineada por Quine, todos os níveis estão 
ligados entre si e não há verdades estan- 
ques, de tal forma que uma alteração no 
quadro geral provoca redisposições que 
repercutem no discurso de todas as ciên- 
cias. Referindo-se ao seu repúdio da 
fronteira entre o sintético e o analítico, 
Quine declara: “exponho um pragma- 
tismo radical: Todo homem recebe uma 
herança científica juntamente com uma 
continua e detalhada estimulação senso- 
rial, e as considerações que o levam a re- 
formular a sua herança científica para 
recolher os estimulos contínuos são, com 
racionais, pragmáticas”. Essa posição 
acha-se ampliada no capítulo 2 de Word 
and Object (1960), onde Quine pretende 
mostrar a impossibilidade de uma tradu- 
ção “radical”. Qualquer tentativa de tra- 
duzir um texto de uma língua para outra 
envolve, diz o autor, a adoção de um es- 
quema, o qual implica necessariamente 
em alteração do original. Quine compara 
esse problema com a tradução da teoria 
numérica para a teoria dos conjuntos, 
que é feita de várias maneiras, e cujo cri- 
tério de preferência é apenas a sua maior 
ou menor adequação ao contexto. Da 
mesma forma, um linguista-antropólogo 
que se depare com o problema de tradu- 
zir uma lingua indígena não começará 
por investigar “palavras”, mas unidades 
sentenciais ligadas a certas condições 
bastante explícitas de estimulação sobre 
os próprios locutores indígenas. O esti- 


1042 


mulo significativo para o indígena é defi- 
nido através da classe de estimulos que 
o conduzem a concordar com o decla- 
rado na sentença. O estimulo de sinoni- 
mia intersubjetiva constitui a identidade 
do estimulo significativo para o indi- 
gena, e diz-se que duas sentenças são so- 
cialmente simônimas-no-estimulo se são 
ntersubjetivamente | sinônimas-no-esti- 
mulo para quase todos os locutores. 
Uma sentença é, analitica-em-estimulo 
para o indígena se ele assentir a ela, 
após cada estimulação; uma sentença 
será analítica-socialmente-em-estímulo, 
se acontecer o mesmo com a maior parte 
dos locutores indígenas. 

A fim de marcar a diferença entre essa 
descrição e as noções tradicionais de si- 
nonimia e analiticidade, Quine distingue 
entre sentenças “ocasionais” e sentenças 
“estabelecidas”. Se alguém for instado 
(após cada estímulo) a assentir à sen- 
tença “Joaquim está corado”, só poderá 
fazê-lo observando o rosto de Joaquim 
cada vez que o pedido for feito. Ao con- 
trário, para assentir à sentença “O sal é 
solúvel na água”, não é necessário repe- 
tir a observação do processo fisico em 
questão. No caso de sentenças ocasio- 
nais, a sinonímia intersubjetiva no esti- 
mulo equivale à identidade de sentido; 
no caso das sentenças “estabelecidas”, 
os estímulos que levam o locutor a as- 
sentir variam de indivíduo. Em alguns 
casos, falar de sinonimia e analiticidade 
não passa de estratégia descritiva mera- 
mente pragmática; a tradução só é possi- 
vel para algumas sentenças ocasionais, 
mas, na totalidade de uma lingua, o lin- 
a tem que deixar como 
hipotéticos largos segmentos do origi- 
nal. Quine chega assim à sua tese da m- 
determinância da tradução, tese que au- 
toriza posteriormente, para toda a 
epistemologia, uma posição convencio- 
nalista. Só em instâncias privilegiadas 
pode-se falar do “significado” (em- 
pírico) de uma sentença; quando os 
enunciados se chocam com a experiên- 
cia, o erro não deve ser localizado em 
“enunciados individuais”, mas atribuído 
a todo o esquema conceitual, implicando 
uma eventual retificação global do sis- 
tema lingiístico de crenças. Ora, tal exi- 

ência é uma reafirmação da impossibi- 
lidade do corte analítico / sintético. 


QUINE 


EMVNVIURI RUA RIU 
NANARARANTINAANDNANANA 


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UT 


Ea 


curso 
moderno de 


filosofia 


Piaf W.V. Quine 


da Universidade de Harvard 


Embora situando-se nos domínios da pura lógica formal, algumas das reflexões 
de Quine têm For Reqnendins OR Ico extremamente amplas. Entre outras, o 
abandono da clássica distinção entre analítico e sintético desfaz as 
fronteiras entre a metafísica especulativa ea filosofia natural. 
(Frontispício de uma das várias edições brasileiras de obras de Quine.) 


1043 


1900 - Nasce Gilbert Ryle. 
1908 - Nasce Willard van 
Orman Quine, em Akron, 
Ohio. 

1911 - Nasce John Lang- 
shaw Austin. 

1919 - Nasce Peter Frederik 
Strawson. Ryle inicia seus 
estudos em Oxford. 

1921 - Vem à luz a edição 
alemã do Tratactus Logico- 
Philosophicus de Wittgens- 
tein. 

1924 - Ryle estuda Croce, 
Gentile e Hegel, e começa a 
lecionar em Christ Church. 
1930 - Ryle estuda a fenome- 
nologia de Husserl, além de 
Bolzano e Meinong. Quine 
doutora-se em Harvard. 

1932 - Ryle publica a obra 
Systematically  Misleading 
Expressions. 

1934 - Quine publica A Sys- 
tem of Logistic. 

1935 - Austin torna-se assis- 
tente no Magdalen College. 


OS PENSADORES 


CRONOLOGIA 


1937 - Quine publica New 
Foundations for Mathemati- 
cal Logic. 

1942 - Austin trabalha no 


Intelligence Corps. 


1943 - Austin redige um In- 
vade Mecun para servir às 
forças aliadas na invasão da 
Normandia. 

1946 - Austin publica Other 
minds. Wittgenstein deixa a 
universidade de Cambridge. 
1948 - Quine publica On 
What Tere is. 

1949 - Ryle publica The 
Concept of Mind. 

1950 - Strawson publica On 
Refering, e Austin traduz Os 
Fundamentos da Aritmética, 
de Gottlob Frege. 

1951 - Falecimento de Witt- 
genstein. Quine publica Two 
Dogmas of Empiricism. 

1952 - Strawson publica In- 
troduction to Logical Theory. 
1953 - Ryle publica Ordi- 
nary Language, e Quine, 


BIBLIOGRAFIA 


From a Logical Point of view. 
1954 - Ryle publica o livro 
Dilemmas. 

1955 - Chomsky publica The 
Logical Structure of Linguis- 
tic Theory. 

1957 - Chomsky publica 
Syntatic Structures. 

1958 - Austin torna-se pro- 
fessor em Berkeley (E.U.A). 
1960 - Austin falece em Ox- 
ford. Quine publica Carnap 
and Logical Truth. 

1961 - São publicados os 
Philosophical Papers de 
Austin. 

1964 - Strawson publica 
Identifying Reference and 
Truth Values. 

1966 - Ryle publica Plato's 
Progress, e Quine, The Ways 
of Paradox. 

1972 - Quine apóia publica- 
mente a política do governo 
norte-americano no Vietnã. 
1973 - Quine publica The 
Roots of Reference. 


RANSEY, F. P.: Facts and Propositions, in The Foundations of Mathematics, Kegan Paul, 


1931. 


NAESs, A.: Interpretation and Preciseness, Oslo, 1953. 
PASSMORE, J.: 4 Hundred Years of Philosophy, Duckworth, Londres, 1957. 
RUSSELL, B.: Mr. Strawson on Refering, in My Philosophical Development, Alle and Un- 


win,1959. 


AYER, A. J.: Philosophy and Language, Oxford, 1960. 
COHEN, L.J.: The Diversity of Meaning, Londres, 1962. 
AYER, A. J.: The Concept ofa Person, 1963. 

ALSTON, W.: Philosophy of Language, Prentice Hall, 1964. 
GELLNER, E.: Words and Things, Penguin Books, 1968. 
SHAFFER, J.A.: Philosophy of Mind, Prentice Hall, 1968. 
FANN,K.T. (editor): Symposium on J. L. Austin, Routhedge and Kegan Paul, 1969. 
SEARLE, J. R.: Speech Acts, Cambridge, 1969. 

FuRrBERG, M.: Saving and Meaning, Basil Blackwell, 1971. 
BERLIN, I.: Essays on J. L. Austin, Oxford, 1973. 


1044 


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4 


ÍNDICE GERAL 


“as 


da DO e RE A RPE ei 
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tido E EAN E pi 


REAR RA gere 2 rã Dimas DE PE PR ty E 1. 


bel: (1) 122 
Abelardo, Pedro: (1) a fi- 

losofia do séc, XII na França 
136, dados biográficos 136, 
Heloisa 137, obras 138, a 
questão dos universais 140, 
razãoefe 142 a ética 143 

Abraão: (1) 122: (11) 446: 
: ([11) 62 1,622 

absolutismo: (TI) 278 

absoluto: (11) 521 

absurdo: (IV) 891 

Academia: (1) 52 

Adams, John: (LD 57 1,574 

Adão: (1) 122: (11) 310 

Addison, Joseph: (17) 430 

Adeodato: (1) 108, 116 

Adler, AMred: (MD 776 

Adorno, Theodor Wiesen- 
grund: (IV) dados biográ- 
ficos 950, obras 950, a in- 
dústria cultural 954, arte e 
práxis 958, 947.948 

Agassiz. Louis: (IV) 787 

Agostinho, Santo: (1) dados bio- 
gráficos 106, a conversão 
10, obras 112, a patrística 
112, a filosofia cristã, fé e 
razão - o problema do conhe- 
cimento 115, corpo e alma 
115, a iuminação divina 
116, Deus 116, a criação do 
mundo 118. o mal 120, o 
voluntarismo 120, o pecado e 
a graça 120, hberdade e 
predestinação 120, filosofia 
da história 122, 69. 143. 
146: (TD) 299,310, 316.351. 
352,417 

Agricola. Rodolfo: (1) 248 

Agripina: (1) 101 

Alain. Emile de Chartier. dito: 
(IV) 887 

Alarico: (1) 123 

Alcibiades: (D) 37 

Aleméon: (1) 20 


alegoria da caverna: (1) 62 


ÍNDICE GERAL 


Alembert, Jean de Rond D': (It) 
415, 437, 449, 456 a 458, 
471: (11) 526,530,534 

aletheia: (D) 18 

Alexandre, o Grande: (1) 68. 86 

Alexandre VI: (1) 171, 172: (11) 
312 

Alheri, Vittorio: (1) 224 

Al Ghazah: (1) 146 

alienação: (II) 601, 693, 694 

Alípio: (T) 108, 110 

alma (psyche): (1) XV, 115:(11) 
339; (11) 753 

altruísmo: (II) 276 

Ambrósio, Santo: (1) 110 

Amintas II: (1) 67 

Amipsia: (T) 32 

Amor (Eros): (1) XV 

Amor e Ódio: (1) 18 

analítica, filosofia: (IV) 1026 

analítico. método: (IV) 842 

analogia do ser: (T) BO 

Anaxágoras: (T) 20 22, 28. 33. 
35, 37,597, 74: (11) 450 

Anaximandro: (1) 8, 10, 16. 57. 
80 

Anaximenes: (1) 8, 43 

Andilly, Arnaud d”: (E) 310 

Andrelinus, Faustus: (1) 191 

angústia: (I11) 622: (IV) 901 

animismo: (1) 232 

Anitos: (1) 27 

Anandalle, Marquês 
435 

Anschutz: (II) 676 

Anselmo. Santo: (1) dados bio- 
gráficos 127, a existência de 
Deus, 128,0 argumento onto- 
lógico 128, obras 128 e 129, 

roblemas olíticos 131, 
140:(TT) 300, 351. 496 

Antropologia: (IV) 850, 999 

Aosta, Anselmo de: (1) 146 

apercepção: (II) 380 

ápeiron: (1) 8, 10 

apolíneo: (TIT) 627 

Apolônio: (1) 86 


de: (TI) 


aponia: (1) 92 

aporias: (ID 12, 14,22 

a posteriori: (LI) 489 

a priori: (IT) 489, 292, 498, 
501, 502: (II) 610; (IV) 
807, 808, 809 

Aquiles: (1) 14 

Aragão, Catarina de: (1) 166. 
204 

Arcesilau: (1) 115.214 

arché: (1) 8,58 

Argenson, Mare René de Voyer. 
dito Marquês d': (1) 113 

argumento ontológico: (|) 128: 


(ID) 496 
Ariano: (D) 102 
Aristófanes: (1) 32, 33, 34.37 


Ariston: (1) 49 

Aristóteles: (1) dados biográ- 
ficos 66, o Liceu 68, obras 
68,0 historicismo 72, da dia- 
lética à lógica 72, 0 Organon 
75, Juízos e proposições 76,0 
silogismo 76, axiomas 78, 
hipóteses 78, definições 78, 
conhecimento sensivel e co- 
nhecimento inteligivel 79,0 
conceito 79,0 ser 80, unalo- 
gia do ser 80, substância e 
acidente 80, 0 ato e a potên- 
cia 80, o movimento 80, as 
quatro causas 82,0 finalismo 
82, 0s motores 82.0 primeiro 
motor 83, a ética e política 
SI NE Go lo bo dio 22 
33, 50, 60. 108. 140, 1483, 


146. 148. 149, 152. 175. 
195, 201. 228. 236, 248, 
254. 256, 261: (11) 277. 288. 
293. 330. 376. 415. 491: 
(HD) 573. 746: (IV) 986. 


1006, 1031 

aritmética: (TI) 720 

Arnauld. Antoine: (11) 294, 310 
312.375 

Arnold. Thomas: (TI) 391 

Aron. Raymond: (IV) 888 


1019 


arqueologia: (1) 

arquétipo: (11) 516 

Arquimedes: (1) 86 

Arquitas: (1) 51, 54 

arte: (II) 520: (LI1) 610; (IV) 
952, 958 

ascese erótica: (1) 63 

Asclépio: (1) 31 

Aspásia: (1) 37 

assimilação: (IV) 1012 

associacionismo: (ID 537, 
678 

atenção: (LIT) 537 

Atlas: (TI1) 762 

ato e potência: (1) 80 

atomismo: (T) 22,91; (11) 460 

átomos: (1) 22 

ataraxia: (1) 92 

Aurélio Antonino: (T) 102 

Aurelius Augustinus: (1) 106 

Austin, John Langshaw: (IV) 
dados biográficos 1030, aná- 
lise da linguagem 1031, as 
proposições 1032 

tipos de autoridade: (TILT) 742 

Avempace: (1) 146 

Averróis: (1) 146, 156 

Avicebrom: (|) 146 

Avicena: (I) 146, 156 

Ayer, Alfred Jules: (IV) 1039 


achelard, Gaston: (HI) 

AP dados biográficos 756, 
obras 756, o novo espírito 
científico 758, o materia- 
lismo racional 758, o racio- 
nalismo setorial 760, surra- 
cionalismo 760, racionalismo 
aplicado 762, a imaginação 
material 762 

Bacon, Francis: (II) época e 
dados biográficos 246, a car- 
retira política 248, obras 248, 
a classificação das ciências 
251, o utilitarismo 255, o 
combate aos idolos 255, o 
método científico 258, indu- 
ção 258, a experiência 258, 
as tábuas de investigação 
238, a noção de forma 260, a 
Nova Atlântida 261; (1) 203; 
([1) 266, 268, 270, 289, 314, 
366. 374, 407, 443, 476; 


1050 


(11) 651,666, 726 

Bacon, Roger: (1) 160 

Bakunin, Mikhail: (LIL) 700 

Bally, Charles: (IV) 966 

“Balzo, Antonio dal: (387) 

Barcos: (II) 312 

Barreto, Luiz Pereira: (III) 656 

Baudelaire, Charles Pierre: (IV) 
948 

Baudouin, Charles: (LI) 776 

Bauer, Bruno: (II) 602, 689, 
694 

Bauer, Edgard: (LI) 694 

Bauer, Egbert: (III) 694 

Bayle, Pierre: (11) 450 

Beatriz: (1) 156; (III) 648 

Beauvoir, Simone de: (III) 887 

Beccaria, Cesare: (II) 453; (TI) 
668 

Becket, Thomas: (1) 133 

Beeckman, Isaac: (II) 293 

belo: (IH) 502: (HIT) 633 

bem: (1) 62; (III) 633, 639 

Benjamin, Walter: (IV) a escola 
de Frankfurt 946, dados bio- 
gráficos 948, obras 948 

Bentham, Jeremy: (III) dados 
biográficos 666, obras 666, o 
utilitarmmo 668, crítica ao 
direito natural 668, o cálculo 
dos prazeres 668, crítica às 
instituições 668, individuo e 
sociedade 670, o utilitarismo 
aplicado à conduta 670. mo- 
tivos bons e maus 670, apli- 
cação do utilitarismo 670, 
influências 670; (Il) 443; 
(LIT) 533, 557, 674,675 

Bentham, Samuel: (III) 674 

Benveniste, Emile: (IV) 967 

Béranger, Pierre Jean de: (1) 
136, 224 

Berg, Alban: (IV) 950 

Bergson, Henri: ([1) dados bio- 
gráficos 746, obras 746, o 
ctentificismo 748, determi- 
nismo e materialismo 748, 
reação bergsoniana: um novo 
espiritualismo 748, os dados 
imediatos 749, inteligência e 
conceitos 750, o eu profundo 
e a intuição 751, a metafísica 
751, as formas de memória 
752, corpo e alma 753, o 
inconsciente 753, funções do 
cérebro 753,a liberdade 754, 
745: (IV) 816, 1008 

Berkeley, George: (II) dados 


biográficos 426, obras 426, 0 
empirismo 427, a percepção 
429, o imaterialismo 430, 
Deus 430, outras obras 430, 
448; (III) 566, 666, 749 
Bérulle, Pierre de (II) 293 
Bervick, Jacques Stuart, duque 
de: (11) 413 
binarismo: (IV) 970 
Binet, Alfred: (IV) 1008 
Biringuccio: (1) 248 
Blackstone, William” (III) 666 
Blainville, Henri-Marie de: 
(UI) 647 
Blake, William: (I[) 516 
Blauler, Eugen: (II) 768: (IV) 
1008 
Bloomfield, Leonard: (IV) 970 
Boas, Franz: (IV) 849, 989 
Boaventura, São: (II) 300 
Bodin, Jean: (1) 220 
Boétie, Etienne de la: (1) 208 
Bóhm-Bawerk, Eugen: (1) 927 
Bôhme, Jakob: (1) 227, 255 
Bolena, Ana: (1) 204 
Bolingbroke, Henri Saint-John. 
dito visconde: (11) 413 
Boole, George: (LI) 714 
Borelh, Giovanni: (TI) 386 
Bórgia, Cesar: (D 171, 172, 
174, 178 
Bornstein, Emmrich: (LIT) 694 
Bossuet, Jacques Bénigne: (II) 
278, 417, 453,467 
Boswell, James: (II) 437, 450 
Bourgeois, Bernard: (III) 589, 
592 
Boutroux, Emile: (III) 749 
Bouille, Charles: ([) 186 
Boyle, Robert: (II) 331, 347 
Bracciolini, Poggio: (1) 186 
Bradley, Francis Herbert: (IV) 
826, 828 
Brahe, Tycho: (1) 228 
Bramhall, John: (E) 267 
Brahms, Johannes: (IV) 906 
Breuer, Joseph: (III) 766, 768 
Broca, Pierre Paul: (III) 748 
Brôndal, Viggo: (1V) 975 
Bruni, Leonardo: (1) 186, 188 
Bruno, Giordano: (1) caracteris- 
ticas do Renascimento 226, 
dados biográficos 228, obras 
228, a divindade da natureza 
230, o panteismo e o ani- 
mismo 232, o homem 233, 
255: (III) 304 
Brunschvicg, Léon: (1) 260 


Buchanan, George: (1) 208 

Biicher, Karl: (IV) 846 

Buffon. George Louis Leclerc, 
dito conde de: (IT) 437 

Bukharin, Nikolay Ivanovich: 
(1V) 928 

Burckhardt, Jacob: (II 641 

Byron, George Gordon. dito 
Lorde: (TD 626 


GC aim: (1) 122 Cairns, 

Huntington: (IV) 863 

Calígula: (1) 101 

Calas, Jean: (II) 449,453 

Calipos: (1) 54 

Calvino, João: (ID) 120. 212, 
220,227 

Campanella, Tommaso: (1) 
dados biográficos 242, 
obras 242: a Cidade do Sol 
243, 203 

Canabis: (II) 540, 542, 646 

Cantor, Georg: (III) 714; (IV) 
736 

Caos: (D XV 

capital: (1IT) 700; (14) 9314 

Capua, Leonardo da: (II) 386 

Carlos 1: (IT) 267 

Carlo II: (Principe de Gales): 
(11) 248, 348 

Carlos V: (1) 174 

Carlos IX: (T) 208 

Carlos X: (III) 582 

Cármides: (1) 49,50 

Carnap, Rudolf: (IV) dados bio- 
gráficos 872, obras 872, 
enunciados protocolares 873, 
a linguagem científica 873,a 
linguagem fisicalista 874, a 
consciência da verdade 876, 
as funções da filosofia 877,a 
lógica da linguagem 877, 
sentenças-objeto e sentenças 
sintáticas 879, verificabi- 
lidade e confirmabilidade 
879, 1040 

Carnéades: (1) 115.214 

Carnot, Sadi: (TE) 646 

Casa, Francisco della: (1) 171 

Cassirer. Emst: (II) 366 

Castelli, Benedetto: (1) 237 

Catarina IE, a Grande: (II) 458. 
460 

Castro, Oróbio de: (11) 3214. 328 


categorias: (I[) 491 

Caterus: (IT) 294 

causa errante: (T) 60 

causalidade: (11) 338, 440; (LI) 
532: (IV) 1014 

Cavendish, William: (Il) 266, 
268 

Cebes: (1) 55 

Cecil, William: (1) 247 

certeza: (IV) 882 

César, Júlio: (11) 330 

ceticismo: (II) 288, 450 

Chamberlin, E. H.: (1V) 929 

Chambers, Ephraim: (IT) 457 

Champeaux, Guilherme de: (1) 
136, 137,140 

Channing, William Ellery: (TV) 
786 

Charcot, Jean: (IN) 766 

Charron, Pierre: (I) 186, 212; 
(11) 289 

Chateaubriand, François René, 
dito visconde de: (1) 223 

Cháteuneuf, abade de: (II) 447 

Cháãteuneuf. marquês de: (II) 
447 

Chátelet, Emile de Bretenil. dito 
marquês de: ([1) 418 

Chomsky, Avram Noam: (IV) 
dados biográficos 981, obras 
981,a gramática 981, a gra- 
mática sintagmática 982 

Cicero, Marco Túlio: (T) o ecle- 
tismo 96, o estoicismo 97, o 
estoicismo grego 97, o logos 
universal 98, a fisica 98, a 
teoria do conhecimento 98, 
os exprimíveis 100, o estoi- 
cismo romano 100, 69, 87, 
93. 107, 187, 207; (11) 290, 
330, 434 

ciência: (1) 62, 251; (11) 393. 
407, 509: (II 547, 652. 
661,726:(1V) 809 

científica, previsibilidade: (LIT) 
652 

científicas, leis: (IV) 880 

cientificismo: (TED 748 

científico, novo espírito: (TIL) 
758 

Ciro: (1) 178 

Clairvaux. Bernardo de: (1) 
138, 140, 146 

Claparede, Edouard: (IV) 1008 

Clarke, Samuel: (II) 448 

classes, lutas de: (TIT) 692 

classes, paradoxos das: (IV) 
836 


classificação dos Estados: (II) 
420 

Cláudio César Germânico: (1) 
I01 

Cleanto: (1) 97, 101, 102,219 

Clemente II: (1) 132 

Clemente VIH: (D 174.181 

Clemente XT: (1) 133 

Clemente de Alexandria: (1) 112 

Cleópatra: (1) 96 

clinamen: (1) 24,91 

Clistenes: (1) 47 

cogito: (11) 299, 391. 393: (IV) 
8B12a8l4 

coisa em si: (11) 492 

Cobe, Edivard: (1) 250 

Coleridge, Samuel Taylor: (II) 
391; (III) 674,675 

Colet, John: (1) 192, 201 

Collingwood, Robin 
(11) 391 

compreensão (verstehern): (II) 
726 

Comte, Auguste: (III) dados 
biográficos 616, Comte e 
Saint-Simon 646, primeiras 
obras 674, Clotilde de Vaux 
648, a religião da humani- 
dade 648, a reforma intelec- 
tual 649, a lei dos três esta- 
dos 649, a mentalidade 
teológica 649, divisões do es- 
tado teológico 650, o estado 
metafísico 650, o estado po- 
sitivo 651, a unidade do 
conhecimento 652, previsibi- 
lidade científica 652, classi- 
ficação das ciências 652, a 
sociologia 653, a reorgani- 
zação da sociedade 654, 
Comte e Marx 654, 0 conser- 
vadorismo 654, positivismo 
no Brasil 655, a Sociedade 
Posiuvista do Brasil 656, o 
movimento republicano 658; 
(11) 443; (III) 661, 674. 675. 
726 

conatus: (IT) 275, 340 a 343 

conceito: (1) 79: (III) 750: (IV) 
812 

condicionados, reflexos: (EI) 
780a 782 

Condillac, Etienne Bonnot de: 
(II) dados biográficos 534, 
obras 536, o conhecimento 
536, a atenção 536, a memó- 
ria 537, associacionismo 
537, os sentidos 537, a tn- 


George: 


1051 


guagem 538, o espiritualis- 
mo 538. influências 5339, 05 
ide 'ologos 510: (11) 150: (10) 
130.526.59532.0512.05483.517% 
Ea Marte Jean À, N. de 
Caritat. dito marquês de: 
(IN) 616 
condottieri: (1) 166 
confirmabilidade: (IV) 879 
Congreve. Richar: (TI1) 655 
conhecimento: ([) 22, 79. 90. 
99: (11) 489, 492: (UI) ) 536, 
652: (IV) 866, 882 
consciência: (TE) 393; (IV) BOT. 
892 
consciência, fluxo da: (IV) 788 
consciência trágica: (II) 316. 
317 
conservadorismo: (III) 654 
Constant. Benjamin: (IT) 656 
Constantino: (D) 112 
constituição norte-americana: 
(HH) 570 
Cooper. Anthony Ashley: (TI) 
437 
Copérnico, Nicolau: (1) 228, 
239, 232, 233. 237.238:(11) 
386, 489 
Cornelio. Tommaso: (II) 386 
Corneille, Pierre: (11) 447 
corpo: (1) 115. (II) 339: (HE) 
753: (IV) 820, 892, 1039 
córtex cerebral, unidade funcio- 
val do: (HI) 782 
cosmogônico, processo: 
60 
Costa, Uriel da: (11) 327 
Courtenay, Jan Nieceslaw B. de: 
(IV) 970 
Cousin, Victor: 
Crátilo: (1) 50 
crença: (1) 679 
Crescam. Chasdai: (1) 326 
criação do mundo: ([D) 118 
Crisipo: (1) 97. 102.219 
Cristina da Suécia: (IN) 295 
Cristo: (ID) 309. 319. 321.323. 
334: (UND) 594 ) 
Critias: (T) 49,50 
Croce. Benedetto: (TI) 391: (III) 
603 
Cromwell, Oliver: (II) 268 
Crónos: (1) XV 
Cudworth, Ralph: (EH) 350 
cultural. indústria: (IV) 951 
Cuoco. Vincenzo: (LN) 388 
Cushing. Harvey: (TV) 849 
Cúrcio: (TE) 330 


(DID, 


(IL) 539, 603 


1052 


Cusano: (|) 228 
Cyon, Elie: (HIT) 780 


D “Ardrea, Francesco: (II) 

. 386 

Dante Alighieri: (1) Dante co 
tomismo 156, a Divina Co- 
média 156, Vida Nova 156, 
Monarquia 156, estudo 
sobre a linguagem 155, 174; 
(II) 648, 655 

Davenant, Willham: (TD) 266 

Dedekind: (IV) 836 

Deffand. Maria: (11) 415, 457 

Defoe, Danscl: (1) 263 

Degérando, Joseph-Marie: (III) 
ados biográ áficos 540, os 
signos 540,a linguagem 540, 
526 

deismo: (HI) 452 

demiurgo: (1) 60 

democracia: (III) 574. 582 

democracia ateniense: (1) 27 

Demócrito: (1) 22 a 24. 80, 88, 
90. 234, 237, 240, 242. 261: 
(TD) 460; (LIT) 690 

demônio (daimon): (1) 40.41 

demos: (1) 47 

De Morgan, Augustus: (III) 714 

denotativas, expressões: (IV) 
828 

Descartes, René: (Il) situação 
histórico-cultural 287,0 ceti- 
cismo 288, a exigência do 
método 289, dados biográ- 
ficos 290, as humanidades 
290, as matemáticas 293, 
obras 293, a dúvida 295, 0 
gênio maligno 297, a evidên- 
cia 298,0 cogito 299, a exis- 
tência de Deus 300, o mundo 
fisico 302, a física 303, a 
moral 302; (1) 243; (II) 267. 
268. 271. 272. 314, 315, 
321, 330, 334, 346, 351, 
352. 366. 374, 376. 379. 
381, 386. 391, 393. 407. 
409, 410, 427. 428, 434, 
442, 461. 486, 496: (ID) 
527, 539, 559, 590. 651. 
655: (IV) 813, Bata 1029 

desespero: (111) 62 

determinismo: Re 749 

Deus: (1) 82. 117: (11) 301. 


309, 314, 317, 318, 322, 
323. 328, 332, 333. 334, 
341, 376. 383, 391, 3993, 
396. 397. 402, 404, 427, 
430. 452, 460, 498, 501. 
506: (ID) 597, 621, 623, 
688, 689, 740, T41;, (IV) 
822.892 

Deus provas da existência de: 
(1) 128.129 

Deus e seus atributos: (1) 148 

Dewey, John: (IV) dados bio- 
gráficos 796, obras 796, ins- 
trumentalismo ou funciona- 
lismo 797, a idêa do bem 
198: (111) 706 

diacronia: (IV) 968 

dialética: (1) 12, 75: (LH) 598 

didnora: (1) 62 

Diderot, Denis: (II) dados bio- 
gráficos 456, a Encyclopédie 
457, obras 458, materia- 
lismo e atomismo 460, o sis- 
tema da natureza 461, a evo- 
lução 463, a justiça 463, o 
erro 463: (D 182, 234. 246 
(AD ATI: (TI) 526. 528,534 

Diels: (1) 14.20 


Dilthey. Wilhelm: (ID) 374, 
376:(!HI) 726.734 

Diofante: (ID) 330 

Diógenes. Laércio: (1) 1.18. 33, 
92,93:(11) 474 

Dion: (1) 51.53. 54.67 

Dionisio. o Areopagita: (1) 138: 
(HH) 674 

Dionisio [:(1) 53.54.67 

Dionisio 11: (1) 53.54 

Dioniso: (1) 51; (HT) 627, 633. 
640 

Diotima: (|) 37. 63 

direito político: (IF) 481 

direitos naturais: (E) 360 

dogmático. conhecimento: (IV) 
882 

Dollard. John: (HI) 776 

Dostoievski, Fiódor Mikháilo- 
vich: (III) 776 

dora:(N) 43 

Dumarsai: (II) 457 

Dumont. Etienne: (LD 671 

Duns Scot, John: (|) dados 
biográficos 160; (Il) 387: 
(IV) 899 

Durkheim, Emile: (IIt) dados 
biográficos 660, obras 66L,a 
ciência sociológica 661, me- 


todologia da sociologia 661, 
os fatos sociais 662, as repre- 
sentações coletivas 662, a 
pesquisa estatística 662, teo- 
rias pedagógicas 662, a soli- 
dariedade social 662, norma- 
lidade e patologia social 662, 
as formas elementares da 
vida religiosa 726; (IV) 849, 
968 
dúvida (Descartes): (II) 295 


cletismo: (1) 96 
áipo, complexo de: (III) 

768. 770, 776 

educação progressiva: (11) 477 

Edwards, Jonatham: (IIT) 566 

ego: (HI) 770, 772, 776 

egocentrismo: (IV) 1010 

egoismo: (11) 276; (II) 572 

eidética, região: (IV) 810 

eidos: (1) 57 

Einstein, Albert: (III) 747, 758 

Ekklesia: (1) 27, 47 

Elizabeth 1: (1) 246, 248; (IT) 
346 

Elizabeth da Boêmia: (IT) 295 

Emerson, Ralph Waldo: (1) 
224; (IV) 786 

Empédocles: (1) 18, 19, 20, 22, 
46, 80, 83: (111) 762 

empirismo: (IT) 268. 352, 427, 
450: (111) 532, 594,678 

Enesidemo: (1) 214 

Engels, Friedrich: (III) 603, 
686. 693, 694, 696, 698, 
699, 702: (IV) 927, 954 

empírica, refutabilidade: (IV) 
880 

empirismo: (IV) 838 

entendimento: (II) 491 

enumeração: (II) 298 

Epicteto: (1) 102, (IT) 330 

epicurismo cristão: (T) 201 

Epicuro: (1) características 87, 
dados biográficos 88, divisões 
da filosofia 88, a teoria 
do conhecimento 90, o ato- 
mismo 90, o clinamen 90, a 
sabedoria 91, o prazer 92, a 
ataraxia 92, Lucrécio 93, 22, 
24, 234; (TIN) 690 

Epimênides: (IV) 836 


Epimeteu: (1) XV 

episteme: (1) 43 

epistemologia: (IV) 826 

epopéia: (1) VI 

Erasmo de Roterdam: (1) o 
humanismo 186, dados bio- 
gráficos 188, obras 191, o 
Elogio da Loucura 193, Eras- 
mo e Lutero 195, a questão 
do livre arbítrio 197, 175, 
201, 220, 227 

Eratóstenes: (1) 86 

Érebo: (1) XV 

erro: (ID) 337, 463 

Esopo: (III) 674 

espaço: (II) 370, 490; (IV) 
1014 

Espeusipo: (1) 67 

Espinas, Alfred: (II) 660 

Espinosa (ou Spinoza), Baruch 
de: (III) dados biográficos 
326, obras 331, a critica da 
superstição 332, o raciena- 
lismo absoluto 333, a análise 
histórico-crítica 333. o método 
genético 334, a verdade 334, 
a Etica 336, o erro 337, a 
essência de Deus 338, a 
substância 338, causalidade 
338, pensamento e extensão 
338, os modos 338, corpo e 
alma 339, o conatus 340, 
ação e paixão 340, a liber- 
dade 341, os valores 341, a 
virtude 342, o Estado 342; 
(1) 234; (II) 302, 314, 374, 
376, 418, 516; (III) 527, 
539, 590 

Espírito Santo: (II) 689 

espiritualismo: (III) 539 

Ésquilo: (1) 37; (11) 626 

Ésquines: (1) 32 

Esquirol, Jean-Etienne: (III) 
647 

essência e existência: (1) 148 

essência de Deus: (II) 338 

Essex, Robert Devereux, dito 
Conde de: (1) 248, 250 

Estado: (1) 178; (II) 242, 258, 
276, 480; (HI) 600, 742 

estado civil: (TI) 276 

estado metafísico: (IIT) 650 

estado positivo: (111) 651 

estado teológico, divisão do: 
(HT) 650 

estatística, pesquisa: (TIT) 662 

estético, modo de vida: (II) 
620 


estoicismo: (|) 97, 100, 202 

estrutura: (IV) 967, 986 

ética: (1) 23, 83, 87, 143; (IN) 
452; (IN) 527, 613, 622; 
(IV) 844,919 

ético, fator: (TIT) 738 

ético, modo de vida: (III) 620 

etnografia: (IV) 997 

etnologia: (IV) 997, 999 

eu: (II) 508; (LI) 751 

Euclides: (1) 5], 52, 86, 146; 
(11) 267, 306, 330 

Eudemo: (1) 72 

Eudóxio: (1) 146 

Eudoxo: (1) 67 

Eugênio de Savóia: (II) 376. 
414 

Eupolis: (1) 32 

Euripedes: (1) 36, 37 

Eutiques: (1) 152 

Eva: (1) 122 

evidência: (II) 298 

evolução: (II) 463 

evolucionismo: (TIF) 710 

Evremond, Saint-: (II) 470 

existência: (IV) 892 

existência de Deus: (1) 128; (II) 
351 

existência humana: (TV) 900 

existencialidade: (IV) 900 

existencialismo: (IV) 887, 892, 
894, 895 

existencial, escolha: (LI) 620 

experiência: (III) 679 

experiência interna: (II) 611 

experimental, psicologia: (IV) 
785, 1020 

explicação (erklaren): (111) 726 

exprimíveis: (1) 100 

Exra, Abraão Ibn: (IT) 326 


alhos, atos: (HI) 774 
Farabi, Abu Al: (1) 146 
Farrington: (1) 8 
Favônio Eugólio: (1) 108 
fé: (1) 113, 142, 146; (HI) 623 
Fechner, Gustav Theodor: (LEI) 
748; (IV) 1020 
Federalistas: (LI) 569, a cons- 
tituição norte-americana 
570, egoismo e liberdade 
570, a ordem natural 573, os 
mecanismos de representação 


1053 


573, aristocracia e democra- 
cia 574, obras 574 

Feigl, Herbert: (IV) 868 

felicidade: (LIT) 530 

Fenareta: ([) 35, 40 

fenomenologia: (HI) 710; (IV) 
807 

fenomenológica, ontologia: (IV) 
889 

fenomenológica, redução: (IV) 
811 

Ferdinando (imperador): (U) 
286 

Ferney: (UI) 449 

Feuerbach, Ludwig: (II) 518; 
(II) 602, 603, 689, 691, 694 

Fichte, Johann Gottlieb: (II) a 
revolução francesa e a Ale- 
manha 506, o eu 508, a dou- 
trina da ciência 509, o princi- 
pio de identidade 509, o não- 
eu 510, a liberdade 5ll, 
dados biográficos 512, 516 a 
519; (III) 586, 606, 608, 
626,689 

Ficino, Marcílio: (1) 233; (II) 
396 

Fidias: (1) 35 

Filangieri, Gaetano: (II) 388 

Filipe da Macedônia: (T) 49, 67, 
68, 86 

Filmer, Robert: (II) 358 

Filolau: (1) 9 

filosofia: (IV) 818 

filosofia, começo histórico da: 
(DI 

filosofia cristã: (1) 113 

filosofia do espírito: (IV) 1029 

filosofia, estatuto da: (IV) 868 

filosofia, funções da: (IV) 877 

filosofia da história: (I) 122 

filosofia, natureza da: (IV) 922 

filosofia, papel da: (IV) 922 


filosofia, tarefa da: (II) 598 

filosofia norte-americana: (IV) 
786 

filosofia do século XVII: (II) 
407 

filosifia do século XII na Fran- 
ça: (1) 136 

finalismo: (1) 82: (II) 378 

Firt, Raymond: (IV) 861 

Fischer, John: (1) 192 

física: (1) 98; (I1) 302, 368 

fisiopatologia: (III) 782 

Fiske, John: ([V) 791 

Fleury, André Hercule, dito 
cardeal: (11) 414 


1054 


Fludd, Robert: (1) 256 

fogo: (1) 17 

fonema: ([V) 970 

Fontenelle, Bernard de Bovier 
de: (II) 467; (IV) 986 

forma: (1) 58; (1V) 992 

Forton, Jacques: (II) 308 

fortuna: (1) 177, 178 

Fortune, Reo: (IV) 861 

Foscolo, Ugo: (1) 224 | 

Fourier, Charles: (III) 649, 693 

Franco, Francisco Bahalmond: 
(Iv) 892 

Frankfurt, Escola de: (IV) 946 

Frank, Philipp: (IV) 866, 868, 
782 

Franklin, Benjamin: (II) 547, 
566, 738 

Frazer, James: (IV) 846 

Frederico II: (1) 182; (II) 448, 
472; (LI) 526, 530 

Frederico Guilherme [I: (LU) 
587 

Frederico Guilherme IV: (ll) 
518:(111)688, 689 

Frege, Gottlob: (HI) antece- 
dentes da lógica moderna 
714, dados biográficos 714, 
obras 714, anova lógica 715, 
o simbolismo lógico 716, teo- 
ria do conceito 716, lógica e 
aritmética 720, as extensões 
dos conceitos 720, concepção 
de número 720, sentido e 
significação, 722; (IV) 827, 
832, 836,872 

Freud, Ana: (ID 776 

Freud, Sigmund: (IH) dados 
biográficos 766, a histeria 
766, a associação livre e 
psicanálise 766, obras 768, 
repressão e libido 768, a evo- 
lução da libido 769%: complexo 
de Édipo 770, inconsciente e 
neurologia 770, a censura 
770, o id, o ego e o superego 
770, instintos: de vida e de 
morte 770, o inconsciente 
774, atos falhos 774, os so- 
nhos 774, transferência e su- 
blimação 774, a sexualidade 
feminina 775, desenvolvi- 
mento da psicanálise 776; 
(TI) 463: (IN) 612, 763: (IV) 
849,947 

Frobenius, Leo: (D) 195, 197 

Fromm, Erich: (IV) 947 

Fulbert de Chartres: (1) 137 


função. conceito de: (IV) 850. 
978 
funcionalismo: (IV) 850 


aleno, Cláudio: (1) 146; 

JF (11)347 

Galilei, Galileu: (Il!) desco- 
bertas e obras 237, a física 
moderna 238, 228, 242, 243; 
(11) 267, 268, 294, 304, 366, 
368, 374, 386, 397, 476: (11) 
651, 726;(IV) 1026 

Gassendi, Pierre: (I) 243: (ID 
295, 387, 450, 460 

Gauguin, Robert: (1) 190 

Gaunilo: (1) 128 

Gebhardt. Carl: (II) 3265 

gênio maligno: (IH) 297, 299 

Genovesi, Antonio: (TT) 386 

Gentile, Giovanni: (II) 603 

Gentz, Friedrich von: (TD) 506 

Geoffrin, Marie-Thérese Rodet, 
dita madame: (11) 415 

Gersonides, Levi ben Gerson, 
dito: (II) 326 

Giannone, Pietro: (II) 414 

Gigon, Olof: (1) 7 

Gilson, Étienne: (1) 157 

Gladisch: (1) I 

glossemática: (IV) 978 

gnomon: (T) 10 

Gôdel, Kurt: (IV) 868. 872 

Goethe, Johann Wolfgang: (1) 
156; (II) 374, 388, 506, 513, 
516: (LIT) 606 

Goldenweiser, A.: (IV) 858 

Goldmann, Lucien: (ID) 312, 
316 

CGórgias: (1) 11,36 

Gournay, Marie le Jars de: (1) 
212 

governo despótico: (11) 421 

governos representativos: (III) 
566 

graça: (1) 120 

gramática: (IV) 981 

gramática lógica: (IV) 1029 

gramática sintagmática: (IV) 
982 

Gramsci, Antonio: (1) 182 

Gregório Vil: (1) 131 

Gregório IX: (1) 148 

Groeyn, Wilhara: (T) 192. 201 


Grosseteste, Robert de: (1) 160 

Grossmann, Vasilij) Semêno- 
vich: (TV) 947 

Grotius, Hugo de Groot, dito: 
(11) 398 

Grunberg, Carl: (IV) 946 

Guilherme E: (1) 131: (FIN) 741 

Guilherme [: (HU 741 

Guilherme II, o Ruivo: (1) 131, 
132,133 

Guilherme de Orange: (II) 346. 
348 

Guillin: (IV) 849 

Guizot. François Pierre Guilau- 
me: (TIT) 694 


É abernas, Jiirgen: (IV) da- 

É dos biográficos 951, 
obras 951, as técnicas de 
reprodução e arte 952, 947, 
962 

Hamann, Johann: (II) 388 

Hamilton, Alexandre: (LIT) 570, 
572.576,578 

Hahn. Hans: (IV) 868,872,966 

harmonia: (D) 9.17 

harmonia preestabelecida: (IT) 
382 

Hauranne, Jean Duvergier: (IT) 
316 

Hecateu: (1) 14 

Hebreu, Leon: (IN) 326 

hedonismo: (LIT) 533 

Hegel, Georg Wilhelm Frie- 
drich: (II) situação histórica 
586, dados biográficos 586, 
obras 588, antecedentes filo- 
sóficos 589, política e filoso- 
fia 592, um ideal: a polis 
grega 593, crítica EE 
experiência 594, empirismo e 
idealismo 594, o saber ime- 
diato 596, a idéia 597, a ta- 
refa da filosofia 598, a dialé- 
tica 598, a racionalidade do 
real 598, a razão da história 
600, o ardil da razão 600, o 
Estado 600, a alienação 601, 
a herança hegeliana 602; (11) 
342, 516: (III) 608, 609, 
611, 616, 618, 687, 688, 
691 a 693, 726: (IV) 792, 
826, 884 

hegeliana. esquerda: (HIT) 689 


Hegius, Alexander: (1) 190 

Heidegger, Martin: (IV) dados 
biográficos 898, obras 898, 0 
ser 899, a metafísica tradi- 
cional 899, o método fenome- 
nológico 900, a existência 
humana 900, a faticidade 
900, a existencialidade 900, 
a ruína 901, a angústia 901, 
a morte 902, a temporalidade 
902, 0 universo da linguagem 
903 

Heidenhein, Rudolph: (II) 780 

Heine, Heinrich: (IT) 693 

helenístico. periodo: (1) 86 

Helmholtz, Hermann von: (IV) 
1020 

Heloisa: (1) 137, 138 

Helvetius, Claude-Adrien: (UI) 
dados biográficos 528, a feli- 
cidade 530, as sensações 
530, combate ao inatismo 
532, a causalidade 532, em- 
pirismo 532, influências 533; 
(11) 437, 476: (II) 526, 534 

Henrique I: (1) 133 

Henrique IV: (II) 290, 292. 
346, 447 

Henrique VII: (1) 200: (II) 346 

Henrique VIII: (1) 166, 192, 
195, 201, 204, 246 

Heráclio: (1) 112 

Heráclito: (1) XIII, 11, 14 a 
17, 19, 30, 43, 50, 80, 98, 
117, 230, 233: (LN) 461, 463; 
(1V) 898 

Herder, Johann Gottfried: (LL) 
391 

Hérmias: (1) 67,68 

Heródoto: (1) 1, 46. 86; (II) 
674 

Herpilis: (1) 68 

Herschel, John Frederick W.: 
(III) 675 

Hesíodo: (1) XIV, XV, 6, 7, 15, 
42; (UN) 626 

Hess, Moses: (III) 689, 691, 
692 

Hilferding, Rucolf: (IV) 927 a 
929 

Hipias: (1) 37 

Hipócrates: (1) 146; (1H) 330 

hipótese: (1) 78; (1H) 732 

histeria: (III) 765 

história. teoria da: (IV) 946 

história, valor da: (11) 397 

históricas, ciências: (TI) 398 

historicismo: (1) 72: (IV) B84 


Hitler, Adolf: (IV) 898 

Hjelmslev, Louis Tróle: (IV) 
dados biográficos 975, obras 
975, princípios metodoló- 
gicos 976, conceito de função 
978, a glossemática 978 

Hobbes, Thomas: (II) dados 
biográficos 266. primeiras 
obras 266, ligações intelec- 
tuais 267, obras principais 
267, empirismo e raciona- 
lismo 268, oposição a Des- 
cartes 271, o mecanismo 
272, o nominalismo 273, o 
conatus 275, egoísmo e al- 
truismo 276, o estado natural 
e o estado civil 276,0 absolu- 
tismo 278, pacto social 278, 
Hobbes e Rousseau 280, 
294, 358, 361, 374, 398, 
413, 418, 427, 460; (II) 
572, 590, 666 

Hôffding, Harald: (II) 670 

Hofmannsthal, Hugo von: (IV) 
948 

Holbach, Paul Heinrich Thiry 
(ou Dietrich), dito barão de: 
(II) dados biográficos 527, 
obras 528, materialismo 
528, 456, 458, 460. 476: 
(IT) 526, 534 

Holbein, Hans: (1) 195 

Hôlderlin, Friedrich: (UI) 516, 
587. 588; (TIN 626 

Homero: (D VEL VI XENI 15, 
42, 61: (11) 330: (1H) 626 

Hooke, Robert: (III) 674 

Hopfener, Theodor: (1) 1 

Horácio: (II) 406, 434 

Horkheimer, Max: (IV) dados 
biográficos 951, obras 951,a 
teoria crítica 958, a teoria 
tradicional 959, crítica do 
positivismo 960, razão polê- 
mica e razão instrumental 
962, crítica ao tecnicismo 


idades da evolução: 
(LI) 402 

humanismo: (T) 186: (IV) 818, 
894 

Hume, David: (II) dados bio- 
gráficos, 434, obras 436, 
ligações intelectuais 437, 
empirismo 438, impressões e 
idéias 438, a causalidade 
440, a moral 442, utilita- 
rismo 442, idéias políticas 


1055 


443, 450, 472, 486: (III) 
547, 646, 726: (IV) 802 

Husserl, Edmund: (IV) dados 
biográficos 806, obras 806, 
combate ao  psicologismo 
806, o fisico e o psíquico 
806, a consciência 807, a 
fenomenologia 807, a inten- 
cionalidade 808, noesis e 
noemas 808, a ciência 809, a 
ontologia regional 810, a 
redução fenomenológica 811, 
a imaginação transcendental 
812, a idéia 812, 0 eu trans- 
cendental 812, o cogito 813, 
816, 887, 889, 898, 900, 
1029, 1037 

Hutcheson, Francis: (III) 546 

Huygens. Christiaan: (ID 294, 
375 

Huygens, Constantin: (11) 293 


I ctino: (T) 35 

“id: (11) 770 

idealismo: (IIT) 594 

idealismo, oposição ao: (IV) 
826 

idéia: (1) 56, 58; (IE) 352: (MIT) 
597; (Iv) 812 

idéia do bem: (IV) 798 

idéia de justiça: (1) XVIII 

idéia de poder: (11) 355 

idéia de trabalho: (1) XVI 

identidade, princípio de: (II) 
509 

ideólogos: (III) 540 

idolos, combate aos: (1) 255 

iluminação divina: (1) 116 

imaginação material: (III) 762 

imanência: (IV) 807, 812 

imaterialismo: (IT) 430 

imperativo categórico: (II) 498, 
500 

imitação: (1) 60 

in absentia, relações: (IV) 969 

Inácio de Loyola, Santo: (1) 189 

inato, comportamento: (IIT) 781 

inato, reflexo: (LI) 781 

incesto, proibição do: (IV) 997 

incondicionada, resposta: (III) 
782 

inconsciente: (ID) 381; (III) 
753, 770, T74 

indivíduo: (III) 670 


1056 


indução: (1) 258: (III) 680 

infinitesimal: (T) 20 

infinito: (II) 355 

informação, teoria da: (IV) 974 

Inhelder, Bãrdel: (IV) 1010 

instrumentalismo: (IV) 797 

inteligência: (LIL) 750: (IV) 
101 

ironia: (1) 40 

irracionais: (1) 11 

irracional: (LI) 611,732 

Isaac: (TIT) 621 

isegoria: (1) 47 

Isócrates: (1) 52, 66, 67 

isonomia: ([) 18, 20 

Israeli: (1) 146 


J ackson, Andrew: (II) 582 
Jaeger, Werner: (1) 12 
Jaime 1: (1) 250; (II) 278 
Jakobson, Roman: (IV) dados 
biográficos 970, o forma- 
lismo russo 970, obras 970, o 
fonema 970, o binarismo 
970, a afasia 970, a teoria da 
informação 974, 989 
James, Henri (pai): (IV) 786 
James, Henri: (IV) 787 
James, William: (IV) a filosofia 
norte-americana 786, dados 
biográficos 786, a psicologia 
experimental 787, o fluxo da 
consciência 788, idéias filo- 
sóficas 788, o pragmatismo 
791,a verdade 791,0 método 
das hipóteses 792, a verifica- 
bilidade 793, obras 794; 
(LI) 746, 770; (IV) 794 
Jansênio, Cornélio: (II) 309, 
310 
Jansenistas de Port-Royal: (II) 
314 
Jaspers, Karl: (IV) 887 
Jay, John: (TI) 570 
Jefferson, Thomas: (III) a de- 
claração dos direitos 574, 
dados biográficos 576, o 
papel do povo 576, a base 
agricola 577, o futuro da 
América 577, o laissez-faire 
econômico 578, obras 578 
Jelles, Jarig: (11) 331, 332 
Jerônimo, São: (1) 194, 195 
Jesus: (I) 31, 32, 106, 112, 


123, 152, 161: (IV) 688, 689 
Jimenez, Max: (IV) 958 
João, São: (1) 109 
Johnson, Samuel: (III) 56, 66 
Jolivet, Rêgis: (III) 616 
Jones, Ernest: (LI) 776 
Jordan, Camille: (TIT) 540 
Juízos estéticos: (II) 502 
Juízos e proposições: (T) 76 
Juízos teológicos: (II) 502 
Julia, Didier: (II) 513 
Júlia Livila: (1) 101 
Júlio UH: (D 171,195 
Júlio César: (1) 96 
Jung, Carl Gustav: (III) 768, 
776 
Justiça: (IT) 453, 463 
Justino, São: ([) 112 


K aberry, Phyllis M.: (IV) 
863 

Kalecki, Michael: (IV) dados 
biográficos 932, análise do 
capitalismo 934 

Kant, Immanuel: (II) dados bio- 
gráficos 486, situação cultu- 
ral 486, obras 487, conheci- 
mento a priori e a posteriori 
489; juízo analítico e juizo 
sintético 489, a sensibilidade 
489, o espaço e o tempo 490, 
o entendimento 491, as cate- 
gorias 491, a dedução trans- 
cendental 491, objeto do co- 
nhecimento 492, o 
esquematismo trancendental 
492, metafísica e coisa em si 
494, as antinomias da razão 
496, crítica ao argumento 
ontológico 496, a razão prá- 
tica 498, a lei moral 498, o 
imperativo categórico 500, 
vontade moral 500, Deus 
501, a faculdade de julgar 
501, juízos teológicos e esté- 
ticos 502, o belo 502; (1) 
128; (1) 366, 443, 506, 509, 
520: (III) 586, 590, 594, 
606, 609, 610, 706; (IV) 
796, 802, 826, 868 

Karcevski, (IV) 970 

Kardiner, Abraham: (III) 776 

Kepler, Johannes: (1) 228: (II) 
366, 368 


keynes. John Maynard: (IV) 
marginalistas e marxistas 
926, a revolução keynesiana 
930, renda e consumo 932 

keynesiana. política: (IN) 936 

Kierkegaard, Sóren Aabye: (TIL) 
dados biográficos 616, polê- 
micas religiosas 618, obras 
618, oposição a Hegel 618,a 
escolha existencial 620, o 
modo de vida estético 620, o 
modo de vida ético 620, a 
conduta religiosa 621, deses- 
pero e angústia 622,a repeti- 
ção 622, fe e paradoxo 623, 
602: (IV) 887 

Klein. Melanie: (1H) 776 

Kothe, Herman: (IV) 968 

Koyre. A (ID 313 

Kracauer, Siegfried: (IV) 947 

Kraft. Victor: (IV) 868 

Kurtz. Paul: (IV) 786 


L, a Bruvére. Jean de: (IH) 
To 

Lachelier. Jules: (HH) 749 

Laffite. Pierre: (11) 655. 656 

Lagrange. Joseph Louis: (LH) 
646 

laissez-faire: (HI) 578: (11) 
927.936 

Lalande. André: (II) 746: (IV) 
1008 

Lambercier: (TI) 468: (IV) 1010 

La Mettrie, Julien Oflroy de: 
(HI) o século XVIIL 526, 
obras 526, dados hiográficos 
526, a ética 527; 460: (III) 
534 

Lanfranco: (1) 127.131] 

Lange. Carl: (IV) 788 

Lanzby. Paul: (III) 632 

Laplace, Pierre Simon de: (IT) 
646 

Lassalle. Ferdinand: (II) 699 

Latimer. Hugh.(1) 19º 

Latimer. Robert: (IT) 266 

Leão X:(D 174 

Leclerc, Jean: (11) 348 

Lefort, Claude: (IV) 818 

lei: (11) 481 

les moral: (11) 498 

lei dos três estados: (THU) 649 


leis sociológicas: (111) 683 

Leibniz, Gotifried Wilhelm: 
(111) dados biográficos 374, 
obras 376, o matematismo 
376, Deus 376, racionalismo 
e finalismo 378, o princípio 
da razão 378,0 princípio do 
melhor 378, o princípio da 
continuidade 378,0 princípio 
dos indiscerníveis 378, as 
mônadas 379, as percepções 
380, a mathesis universalis 
381, a noção de ordem 381,a 
harmonia preestabelecida 
382, o mal 382; (|) 234: (11) 
302, 307. 314, 367, ITA à 
376, 378 a 383. 408, 448 
452, 461, 486: (II) 527 
590, 594. 714:(14) 1031 

Le Maitre. Antoine: (ID) 310. 
470 

Lemos. Miguel: (TH) 6056 

Lenclos. Ninou de: (1) 115 

Lenin (Ulyanov. Vladimir 
Hyeh): (1V) 928.929 

Leon: (1 38,50 

Leontinos, Górgias de: (1) 213 

Leopoldo da Bélgica: (1H) 698 

Leopard:. Giacomo: (T) 224 

Lessing. Gottold Ephraim: (ti) 
506 

Leszezynska. Maria: (II) 447: 
UT 528 

Leucipo: (1) 22. 80. 90: (TH) 4160 

Levasseur, Thérese: (ID) 4T0. 
472 

Lévi-Strauss, Claude: (IV) a 
noção de estrutura 986, 
dados biográficos 989, obras 
989, estrutura e oposição 
binária 990, forma-conteúdo 
992, os modelos 996, etnolo- 
gia e etnografia 997, a proi- 
bição do incesto 997, antro- 
pologia e linguística 999, 
pensamento selvagem 1002; 
(11) 401: (1V) 846 

Lewes. G. EL: (IT) 665 

hberalismo: (1) 551. 566. 
268.683. 687 

liberdade: (1) 120: (11) 341. 
453. 479, 5llt: (HI) 572, 
754: (IV) 892 

libido: (UI) 768. 769.773. 774 

Licão: (1) 27 

Liceu: (1) 68 

liderança: (TD) 742 

Lieébault. Ambroise-Auguste: 


(111) 766 

Liebknecht. Wilhelm: (III): 699 

Linacre. Thomas: (1) 192 

língua: (1V) 967 

linguagem: (D) 157: (11) 398. 
400: (III) 538. 542: (IN) 
821. 842. 866. 873. 877 
920, 969, 1031.1037 

linguistica: (IV) 966 a 968. 
970. 973, 975. 958. 981. 
982. 999. 1000 

linha dividida: (1) 6] 

Lipps. G. E.: (1V) 1008 

Liszt. Franz: (III) 626 

Littrê. Emile: (II) 648. 655. 
656 

Jivre-cambismo: (II) 562 

Lobatchevski. Nicolai 
vitch: (II) 758 

Locke, John: (TI) situação histo- 
rica 346, dados biográficos 
346, obras 348. crítica do 
inatismo 350, a existência de 
Deus 351, 0 empirismo 352, 
as idéias 353, qualidades pri- 
márias e secundárias 354, 
modos e substâncias 354, o 
infinito 355, à idéia de poder 
355, natureza da substância 
356, a verdade 357, a exis- 
tência real 357, Upos de cer- 
teza 358. idéias politicas 
258, o estado natural 358, 
direitos naturais 360, pro- 
priedades 360,0 pacto social 
361, os três poderes 362: (1) 
260: (11) 2814. 378. 379. 386. 
426 a 430. 438, 440. 413. 
448. 450, 476. 459: (1H) 
330. 532. 534. 536. 542. 
247.666 

Loedwjk. Meijer: (11) 331. 332 

lógica: DD 75: (HD 680. FIA. 
715.719.720:(11) 830,832. 
1040 

lógicas. operações: (IN) 1016 

lógico. atomismo: (IN) 839 

lógico. empirismo: (IV) 868 

lógico. simbolismo: (III) 716: 
(IV) 834 

logos: (1) 15, 16. 18:(111) 625 

fogos cultural: (IV) 821 

logos do mundo estético: (IV) 
821 

fogos universal: (1) 98 

Lombardo. Pedro: (1) 146 

loucura: (TI1) 642 

Lourenço II: (1) 166 


Ivano- 


105% 


Lourenço, o Magnífico: (1) 169 

Lówenthal, Leo: (IV) 947% 

Luciano: (D) 200; (TD) 330 

Lucrécio: (1) 22, 93, 96, 156, 
233, 234; (III) 746 

Ludwig. Karl F. W.: (III) 780 

Luís XII: (D 171, 243: (1) 
292, 447 

Luis XIV: (11) 375 

Luís XV: (Il) 448, 458: (1) 
528 

Luís XVI: (LI) 458 

Luis da Baviera: (1) 162 

Luís Filipe: (UI) 582, 596 

Lukács, Gyôrgy: (II) 589, 592, 
616: (IV) 816 

Lúlio. Raimundo: (1) 228, 229 

Lutero, Martinho: (1) 195, 196, 
[975 203, 21252207 227: 
(III) 738 

Luxemburg: (IV) 928. 934 


M ach, Ernst: (IV) 866 
Macintire. Alasdair: 


(HI) 620 a 622: (Iv) 898 
Mac Taggart: (IV) 842 
Madison. James: (IH) 571,573 
Magno, Alberto: (1) 146 
maiêutica: (T) 40 
Maimônides, Moses ben: (LI) 

326 
Maistre, Xavier de: (III) 655 
mai: (1) 120 
Malcom, Norman: (IV) 906 
Malebranche, Nicolas de: (II) 

314, 426, 450: (III) 527 
Malinowski, Kaspar Bronislaw: 

(IV) dados biográficos 846, a 

antiga e a nova antropologia 

849, o funcionalismo 850, a 

observação participante 853, 

conceito de -cultura 856, as 

instituições 856, obras 858, 

análise da vida sexual e da 

famiha 858, últimas obras 

861, publicações póstumas 

862: (III) 776 
Mallet: (II) 457 
Malthus, Thomas Robert: (HI) 

5947, 998, 960 
Mannetti, Gianozzo: ([) 186, 

188 
Manunzio, Aldo: (1) 192 
Maquiavel, Nicolau: ([) a Itália 


1058 


renascentista 166, os condot- 
'tieri 166, dados biográficos 
169, a política como ciência 
175, o conceito de fortuna 
177,a virtu 177,a organiza- 
ção do Estado 178, os he- 
róis e o povo 180, difusão do 
maquiavelismo 181, Maquia- 
vel na atualidade 182, 220, 
227; (III) 726; (IV) 816 

Marcial: (II) 330 

Marco Aurélio Antonino: (1) 
dados biográficos 102, obras 
103 

Marcus Terentius Varro: (l) 
113 

Marcuse, Herbert: (II) 586, 
590: (11) 947 
marginalistas: (EV) 926, 930 

Marmontel, Jean François: (II) 
437, 456, 458 

Marshall, Alfred: (1V) 930 

Martensen, Hans Larsen: (III) 
618 

Martineau, Harriet: (ILE) 655 

marxismo: (III) 702: (IV) 895, 
928, 940 

Marx, Karl: (III) dados biográ- 
ficos 686, o legado hegeliano 
687, o liberalismo alemão 
687, a esquerda hegeliana 
689, primeiros escritos 689, 
a crítica à teoria do Estado de 
Hegel 692, a luta de classes 
692, a ahenação 693, o en- 
contro com Engels 693, pro- 
priedade-trabalho-alienação 
694, a nova orientação da 
economia política 697, Marx 
em Londres 698, O Capiial 
699, participação nas lutas 
operárias 699, a Interna- 
cional 699, a teoria do valor 
700, dinheiro como mercado- 
ria 700, a natureza do capital 
700,0 trabalho 701, o traha- 
lho explorado 701, dificul- 
dades da leitura de O Capital 
702, o marxismo 702; (T1) 
318, 391%: (MD 547, 552, 
554, 399, 589,603..654,734, 
736; (IV) 802. 884, 895, 
927, 929, 934, 938, 940, 
942,959 

Mascham. Francis: (11) 348 

Massin, Caroline: (LH) 647. 
648 

matemática (Pitágoras): (|) 


9: (11) 293: (1V) 832 
matematismo: (ED) 376 
materialismo: (LD) 460: (TLD) 
228.749 

materialismo 
758 

mathesis universalis: (IT) 315, 
381 

Maupertius, Pierre Louis Mou- 
reau de: (AD 416.449 

Mauss, Marcel: (II) 401 

Maximiliano (Duque da Bavie- 
ra): (11) 286 

Mazarin. Jules: (LI) 311 

Mead, Margaret: ([[1) 776 

mecânica, leis da: (TD) 368 

mecanicismo: (ID 272: (LI) 
527% 

Médici. Cosimo ll de: (1) 237 

Medicis, Catarina de: ([) 166. 
212 

Médicis, Júlio de: (1) 169 

Medicis. Lourenço de: (1) 174 

Meinong, Alexius: (IV) 828 

Meleto: (1) 27, 28, 29,30 

Melisso: (1) 11 

memória: (II) 537: (II) 752 

Mendes, Raimundo Teixeira: 
(HT) 656 

Menger, Karl: (IV) 868, 872 

mentalidade: (1) I 

mentalidade teológica: (II) 
649 

mente: (TV) 1039 

mercantilismo: (II) 547 

Merleau-Ponty, Maurice: (IV) 
dados biográficos 816, obras 
816, filosofia e política 817, 
crítica ao humanismo 818, 
subjetivismo e objetivismo 
818,0 corpo 820, o logos do 
mundo estético 821, o logos 
cultural 821, a linguagem 
821,a pintura 821, a ontolo- 
gia selvagem 822, 814, 888, 
1010 

Mersenne, Marin: (1) 243. 267, 
268, 271 

Messalina: (1) 10] 

metafísica: (II) 494; (HT) 632. 
635. 751; (IV) 826. 
866, 899,919,1039 

metempsicose: (T) 8 

metodo: (II) 319, 416 

método das ciências sociais: 
(UT) 728 

método cientifico: ([) 258 

método compreensivo: (TIT) 728 


racional: (LI) 


método fenomenológico: (IV) 
900 

método das hipóteses: (IV) 792 

método indutivo: (II) 680 

metodologia: (TII) 368 

metodologia da sociologia: (III) 
661 

Michelet, Jules: (II) 391 

Michelet, Karl Ludwig: (LI) 
602 

Mileto: (1) XIILE, 6 

Mill, James: (II1) 670, 674 

Mill, John Stuart: (III) dados 
biográficos 675 artigos e li- 
vros 675, obras principais 
675, os escritos da última 
fase 678, o empirismo 678, 
os fatos psíquicos e suas leis 
678, associacionismo 678, a 
crença 679, saber e expe- 
riência 679, a indução 680, o 
sistema da lógica 680, osmé- 
todos indutivos 680, a lógica 
das ciências humanas 680, as 
leis sociais 683, o libera- 
lismo 683; (II) 443; (III) 
557, 558, 646, 648, 655, 
670: (Iv) 829, 842 

mimesis: (1) 10, 60 

Minotauro: (T) 30 

Mirandola, Pico della: (1) 186, 
188, 200, 233 

Misselden: (HI) 547 

mitologia, filosofia da: (IT) 522 

mito das idades: (D) XVI 

Mocenigo, João: (1) 229, 230 

modelos: (IV) 996 

modos: (IT) 338. 354 

moeda: (III) 557 

Moisés: (1) 117, 122, 178 (11) 
283, 334, 446 

Moliére, Jean-Baptiste Poque- 
lin, dito: (IN) 467 

mônada: (11) 379, 380 

monarquia: (1) 157; (1) 420 

Montaigne, Michel de: (1) dados 
biográficos 206, a família e a 
educação 207, os Ensaios 
208, a época de Montaigne 
212, o ceticismo 213, o 
homen e a natureza 216, os 
limites do conhecimento 218, 
o relativismo moral 219, o 
estoicismo 219, o indivíduo e 
a religião 219, idéias politi- 
cas 220, 186. 227: (II) 288, 
289, 292, 293, 296, 322, 
450 


Montesquieu, Charles Louis de 
Secondat, dito: (TI) a filosofia 
do século XVII 407, a ciência 
407, o século das luzes 408, 
o otimismo 408, raciona- 
lismo do século XVIII 409, 
dados biográficos 411, obras 
412, a ciência dos fatos hu- 
manos 416, o método 416, a 
lei, 418, o Estado 418, clas- 
sificação dos Estados 420, a 
república 420, a monarquia 
420, o governo despótico 
421, os três poderes 423, 
364, 456, 458, 482; (NI) 
526 

Moore, George Edward: (IV) a 
tradição filosófica inglesa 
842, obras 842, a linguagem 
corrente 842, o método anali- 
tico, a ética 842, 826, 909, 
910, 922. 1026 

moral: (I[) 302, 442 

moral, genealogia da: (LIT) 636 

Mordente, Fabricio: (1) 228 

More, Henry: (II) 370 

More, Thomas: (I) dados bio- 
gráficos 200, o humanismo 
cristão 201, o humanismo 
renascentista 201, a Utopia 
201, platonismo e estoicismo 
202, a organização política 
da Utopia 203, 175, 188, 
192 a 195, 220, 227, 243 

Morgan, Lewis Henry: (IV) 846 

morte: (IV) 902 

morte, instintos de: (HI) 773, 
qu74 

Morton, John: (1) 200, 201 

Mounin: (1V) 975 

Mountjoy. William Bount 
barão: ([) 192 

movimento: (1) 14, 80 

Mun, Thomas: (LI) 547 

Muret, M. A. de: (1) 208 

Mussolini, Benito: (1) 182 

Myrdal, Gunnar: (IV) 928, 933 


N ada: (IV) 891 

não-eu: (1) 5101 
Napoleão HI: (III) 588, 698 
Nassau, Maurício de: (LI) 293 
naturais, ciências: (II) 398 


natureza: (II) 461, 472, 474, 
518 

Nausifanes: (|) 88 

Navarra. Henrique de: (1) 211, 
212 

Nebrídio: (1) 110 

Neikos: (1) 19 

Nemours, Du Pont de: (III) 536 

Nero: ([) 101 

Nettesheim, Agrippa von: ([) 
227; (11) 288 

Neurath, Otto: (IV) 866, 868, 
872,874,876 

neurofisiologia: (III) 770 

Newton, Isaac: (II) dados bio- 
gráficos 366, obras 366, a fi- 
sica moderna 368, as leis da 
mecânica 368, a metodologia 
368, o espaço e o tempo 
absolutos 370; (1) 228: (II) 
307, 348, 375, 410, 426, 
427, 430, 448, 450, 476, 
486: (111) 532,534 

Nicole, Pierre: (II) 312 

Nicômano: (1) 67, 68 

Nietzsche, Friedrich Wilhelm: 
(IT) dados biográficos 626, 0 
apolíneo e o dionisiaco 627, 
obras 628, revisão dos gre- 
gos, 632, a tragédia 633, 
combate à metafísica e ao 
cristianismo 635, a genealo- 
gia da moral 636, a vontade 
de potência 639, o eterno 
retorno 640, o super homem 
641, deformação do pensa- 
mento nietzscheano 641, a 
loucura 642, 603. 608. 758: 
(1) 38 

Nizan, Paul: (IV) 818 

Noé: (1) 122 

noema: (IV) 808 

nóesis: (1) 62; (IV) 808 

nominalismo: (TI) 273 

noumenon: (II) 494, 498; (II) 
609 

Nous: (1) 20,21 

número: (LID 720:(1N) 834 


bjetivismo: (IV) 818 
Ockham, William de: (1) 
dados biográficos 161, 164 
ontologia: (IV) 810. 822 
opinião: ([) 12. 62 


1059 


oráculo: (1) 38 

Orfeu: (1) 8 

orfismo: (1) 8 

Orígenes: (1) 112 

Orléans. Philippe. Duque de:(TT) 
447 

Orsim, Marieta: (|) 174 

Osber: (1.127.128 

Ostwald, Wilhelm: (IV) 909 

otimismo: (TI) 408 

Ousiannikov: (ID) 780 

Ovídio: (TT) 330 

Owen, John: (11) 346 

Oxenford, J.: (TI) 609 

Oxford. Grupo de: (IN) 1026 


P acto social: (11) 278. 361, 

362 

Pagano. Mario: ([1) 388 

Paine, Thomas: (II) a ação so- 
cial 366, os governos repres- 
sivos 566, liberalismo 566, o 
senso comum 568, o falso 
liberalismo 568, 0 destino da 
América 568, os federalistas 
569 

Palissy, Bernard: (1) 248 

Palmier. Matteo: (1) 187 

Panécio: (1) 97 

Pandora: (1) XV 

Pânfilo: (1) 88 

panteismo: (1) 232 

Paracelso: (!) 227 

paradigmático. eixo: (IV) 969 

paradoxo: (IH) 623 

Parker. Theodore: (IV) 786 

Parmênides: (1) 11, 12, 14.18, 
54,80, 117:(IV) 898 

Pascal, Blaise: (IT) dados bio- 
gráficos 306, a experiência 
no vácuo 307, primeiras 
obras 307, Port-Royal 308,0 
jansenismo 309, panorama 
político 310, os Pensamentos 
312, 0 racionalismo do sécu- 
lo XVII 312, o problema do 
método 312, regra e ordem 
314, a mathesis universalis 
315, a consciência trágica 
316, os métodos 319, 0 Deus 
escondido 322: (1) 223; (II) 
450 

Pascal, Jacqueline: (II) 308, 
312 


1060 


Patrística: (D) 112 

Paulet. Amyas: (1) 248 

Paulo IV: (1) 181 

Paulo de Tarso (São Paulo): (1) 
106. 109, 110. 113.115. 
138: (11) 316 

Pausânias: (1) 18 

Pavlov, Ivan Petrovich: (IH) 
dados biográficos 780, refle- 
xos condicionados 781, a 
unidade funcional do córtex 
cerebral 782,a fisiopatologia 
782 63 

Peano, Giuseppe: (HIT) 
714: (IV) 827 

pecado: (1) 120 

pedagogia: (111) 533 

Pedro, o Grande (ezar): (II) 
376 

Peirce, Benjamin: (TU) 706 

Peirce, Charles Sanders: (HI) 
dados biográficos 706, obras 
708. o pragmatismo 708, 
teoria dos signos 709, feno- 
menologia e evolucionismo 
710;(1V) 791, 797. 1042 

Peixoto. Luis Pereira: (LIT) 656 

Pelágio: (1) 120. 122 

Penelope: (1) X 

pensamento concreto: (IV) 1004 

pensamento e extensão: (11) 338 

pensamento infantil: (IV) 1010 

péras:(D) 

percepção: (II) 380, 429 

Péricles: (1) 20, 32,35 

Péricles, século de: (1) 35 

Perictione: (1) 49 

Perrier. Gilbert: (11) 306. 308, 
312 

pessimismo: (TH) 612 

Petrônio: (ID) 330 

Petty. Wilham: (II) 548 

phulia (amor): (1) 19 

physis: (1) 7.8. 11,23,41,213 

Piaget, Jean: (IV) da filosofia à 
psicologia 1006, dados bio- 
gráficos 1008, obras 1010, 0 
pensamento infantil 1010, o 
egocentrismo 1010, inteli- 
gência e adaptação 1011, o 
esquema de ação 1011, assi- 
milação e a acomodação 
1012, os estágios da forma- 
ção intelectual 1012, o está- 
gio sensório-motor 1012, es- 
paço-tempo-causalidade 
1014, as séries temporais 
1014, séries representativas 


1016, as funções simbólicas 
1016, as operações lógicas 
1016 

Pinsent, David: (IV) 906. 909 

Pirilampo: (1) 49 

Pirro: (1) 87.96, 214 

pistis: (1) 62 

Pitágoras: (1) 8. 1, 
60 

Pitias: (1) 68 

Planck. Max: (IV) 866 

Platão: (1) a polis democrática 
46,a isegoria 47,0s oradores 
47, dados biográficos 49, Só- 
crates e os socráticos 50, as 
viagens 51, Siracusa 51, os 
diálogos 51. a Academia 52, 
retórica ou ciência 52, volta à 
Siracusa 52, projeto político 
33. diálogos da maturidade 
54, últimos diálogos 55, dou- 
trina das idéias 55, a remi- 
niscência 58, A imitação 60, 
a cosmogonia do Timeu 60, a 
República 61, o problema do 
conhecimento 61, a linha di- 
vidida 61, opinião e ciência 
62,0 bem 62, a alegoria da 
caverna 62,0 Banquete 63. 
ascese erótica 63, |. XII 11, 
21, 22. 28,29,32 a 35. 37, 
38. 41, 66. 70. 72. 75. 76. 
80. 86. 87. 115 a I1B. 146. 
175, 201. 202. 212, 220. 
243. 252, 256, 261: (11) 352, 
374. 387, 388; (HI) 625, 
674: (IV) 884 

platonismo: (1) 202 

Plauto: (II) 330 

Plinio: (11) 330 

Plotino: (1) 108,114,115.117 

Plutarco: (1) 210, 219: (11) 267 

pnreuma ápeiron: (1) 8. 10 

Poincaré. Henri: (IV) 866 

Políbio: (III) 573 

polimatia: (1) 15 

polis: (1) 6, 11. 20. 27, 46.47; 
(TH) 593 

política: (1) 83. 175. 203; (Ut) 
592: (IV) 818 

Pollock. F.: (1V) 947 

Pompadour. madame: (IH) 448 

Pompeu: (1) 96 

Pope. Alexander: (TI) 414. 430, 
434. 448,452 

Popper, Karl: (IV) dados bio- 
gráficos 880, as leis cient- 
ficas 880, a refutabilidade 


15, 18, 


empírica 880. crítica ao prin- 
cípio da verificabilidade 882, 
conhecimento científico e 
dogmático 882, certeza e ver- 
dade 882, crítica ao histori- 
cismo 884 

Porfirio: (1) 108. 141 

Posídio. São: (1) 112 

positivismo no Brasil: (IH) 655 

positivismo. crítica ao: (IV) 
260. 962 

positivismo terapêutico: (IV) 
1026 

Possidônio: (1) 97 

potência. vontade de: (LIT) 639 
a64l 

Prado. Juan del: (II) 328 

pragmatismo: (HI) 708: (IV) 
791 

praxis: (1V) 958, 960 a 962 

prazer: (1) 92: (111) 668 

preços: (111) 55% 

predestinação: (1) 120 

Pré-socráticos: (D) 5 a 24: (1H) 
632 

primeiro motor: (1) 83 

Próclo: (1) 138 

Pródicos: (1) 37 

programado, ensino: (IV) 10:12 

prolepsis: (1) 90 

Prometeu: (1) XV 

proposicional. função: (IV) 833 

proposições: (IV) 912. 1032 

proposições, análise lógica das: 
(IV) 827 

proposições elementares: (IV) 
833 

Protágoras: (1) 23. 33. 35. 36. 
37,54.213 

protestantismo: (HIT) 734 

protocolares. enunciados: (IV) 
873 

Proudhon. Pierre Joseph: (UID 
693 

Proust. Marcel: ([V) 950 

psicanálise: (LI) 766 

psicologismo. combate ao: (IV) 
806 

psique: (1) 42, 43: (UN) GT%A 

psíquico: (IN) 806 

psíquicos. fatos: (LH) 678 

Ptolomeu: (1) 146. 214. 230. 
238 

Puffendorf. Samuel: (IH) 390. 
470 


O ualidades primárias e se- 

cundárias: (IN) 354 

Quesnay. François: (IT) 456, 
458: (II) 536 

Quine, Willard Van Orman: (IV) 
dados biográficos 1040, filo- 
sofia da lógica 1040, sinté- 
tico e analítico 1042, tipos de 
sentenças 1042 

Quinto: (1) 93 


R acine, Jean-Baptiste: (TD 
447 


racionalismo: (Il) 268, 312, 
316, 378,409 

racionalismo absoluto: (TI) 333 

racionalismo aplicado: (II) 
762 

racionalismo setorial: ([11)760 

Radcliffe-Brown, Alfred Regi- 
nald: (IV) 850, 861 

Rameau: (IT) 470 

Ramsey. Frank: (1V) 909, 1037 

Rank. Otto: (III) 776 

Rashdall. Hastings: (IV) 842 

Rawley. William: (1) 248. 250, 
261 

Raymond, Frocimond: (F) 208 

razão: (1) 113. 142, 146: (ID 
521: (LH) 600 

razão, antinomias da: (11) 496 

razão instrumental: (IV) 962 

razão polêmica: (IV) 962 

razão prática: (11) 498 

reforço. esquemas de: (IV) 1021 

reforço negativo: (IV) 1022 

reforço positivo: (IV) 1022 

Reichenbach. Hans: (IV) 872 

Reinhold. Karl: (11) 512 

relativismo moral: (1) 219 

religião civil: (HIT) 482 

religião da humanidade: (1H) 
648 

religião. sociologia da: (II) 
734 

reminiscência: (1) 58 

Renascimento: (|) 166. 226 

renda e consumo: (IV) 932 

renda da terra: (UI) 552 

representação, mundo como: 
(HI) 610 

representações coletivas: (III) 
662 

representativas, séries: (IV) 


1016 

reprodução. tecnica de: (IV) 
952 

república: (LH) 420 

responsabilidade: (IV) 892 

retórica: (1) 52 

Rey, André: (D) 14 (IN) TOTO 

Ricardo, David: (III) dados bio- 
gráficos 556, a moeda 557, 
os preços 557, teoria da 
repartição 557, interesses 
burgueses 558. atividades 
políticas 558, a lei do valor 
559, o valor trabalho 559, 
crescimento populacional 
560, o livre cambismo 562, 
547. 552, 676. 693. 697; 
(IV) 940 

Ricci, Giuseppe: (TI) 387 

Richards, Audrey: ([V) 86] 

Richelieu, (Armand Jean du 
Plessis). dito cardeal: (I) 
243: (11) 292,310.311 

Rickert. Heinrich: (ID) 726: 
(IV) 898 

Rienwertz., Johannes: (ED) 331. 
332 

Ritschl: (III) 626 

Rivers. William Halse Rivers: 
(IV) 849 

Robespierre. Maximilien de: 
(11) 482: (IN) 588 

Robertson, Willham: (II) 646 

Robinson. E. A. G.: (1) 929 

Robinson, Joan: (IV) 938, uma 
teoria da história 940, obras 
940, à produção de mercado- 
rias 940, a mercadoria- 
padrão 942, o valor trabalho 
942 

Rogeim. Géza: (ID 776 

Romagnosi, Gian Domenico: 
(11) 388 

romanismo: (|) 107 

romantismo: (11) 516 

Rômulo: (1) 178, 180 

Roscelino: ([) 136. 140 

Roth: (DI 

Rousseau, Jean-Jacques: (11) 
dados biográficos 466, pri- 
meiras obras 470, natureza e 
civilização 473, o homem 
primitivo 473, o retorno à 
natureza 474, o sentimento 
475, a educação progressiva 
477, a liberdade 478,0 con- 
trato social 480, o individuo 
e o Estado 480,0 direito poli- 


1061 


tico 481,a lei 481, a religião 
civil 482, a herança de Rous- 
seau 482; (1) 182: (II) 280, 
388, 437, 438, 449, 456 a 
458, 484: (ID 526, 529, 
534: (IV) 1008 

Roy, Edouard Le: (II) 747 

Royce, Josiah: (IE) 604, 706 

Ruge, Arnold: (III) 602, 689 

Ryle;Gilbert: (IV) dados biográ- 
ficos 1026, a gramática lópgi- 
ca 1029, a filosofia do espi- 
rito 1029, critica ao 
dualismo 1029 

Rusconi, Gian Eurico: (IV) 946 

Russell, Bertrand: (IV) episte- 
mologia e metafísica 826, a 
oposição ao idealismo 826, 
análise lógica das proposi- 
ções 827, o realismo radical 
827, o significado em con- 
texto 828, expressões deno- 
tativas 828, os simbolos in- 
completos 828, a construção 
lógica 830, matemática e ló- 
gica 832, a função proposi- 
cional 833, proposições ele- 
mentares 833, o simbolismo 
lógico 834, números e classes 
834, o paradoxo das classes 
836, a hierarquia dos tipos 
838, o empirismo 838, ato- 
mismo lógico 839; (II) 268, 
374, 376; (IH) 714, 715, 
720: (IV) 796, 842, 872, 
873, 906, 909 


S abedoria: (1) 91 
saber: (HI) 679 

saber imediato: (HI) 598 

Sacchi. Bartolomeo: ([) 187 

Salomé, Lou Andreas: (IT) 628 

Saint-Claire: (LI) 435 

Saint-Simon: (III) 646, 647, 
649,674,693 

Salústio: (TT) 330 

Salutatt, Coluccio: (1) 186 

Sá, Manuel Joaquim Pereira: 
(LIT) 656 

Sánchez, Francisco: (1) 186; 
(IN) 288 

Santayana, George: (1) 156 

Santos. Lúcio Alberto Pinheiro: 
(111) 757 

Sartre, Jean-Paul: (IV) dados 
biográficos 886, obras 887, 


1062 


idéias filosóficas 889, a onto- 
logia fenomenológica 889, o 
ser-em-si 890, o absurdo 
891, o nada 891, o tempo, 
891, a consciência 892, o 
corpo 892,a liberdade 892,a 
existência 892, a responsabi- 
lidade 892, obras literárias 
892, humanismo existencia- 
lista 894, o marxismo 895; 
(HI) 616, 618, 622, 763; 
(IV) 818 

Saujon, Hypolite de: (TI) 438 

Saussurre, Ferdinand: (IV) a 
linguistica 966, obras 966, o 
conceito de estrutura 967, a 
lingua enquanto sistema 967, 
linguagem, lingua e fala 967, 
sincronia e diacronia 968, 
significante e significado 
968, o eixo paradigmático 
969, o eixo sintagmático 
969, 920, 986 

Savonarola, Girolamo: (1) 171 

Say, Jean-Baptiste: (ID) 557, 
646 

Sayão, Joaquim Pedro Manso: 
(LD) 656 

Scheller, Mase: (IV) 887 

Schelling, Friedrich Wilhelm: 
(I1) o Romantismo 516, sim- 
bolo e arquétipo 516, dados 
biográficos 516, obras 518,a 
natureza 518, a obra de arte 
520, a razão 521,0 absoluto 
521, últimas obras 522, a 
filosofia da mitologia 522: 
(IT) 586 a 588: (1V) 951 

Schiller, Friedrich von: (II) 
626 

Schlegel, August: (IT) 506. 513. 
517 


Schlegel, Fritz: (III) 617 

Schleiermacher, Friedrich: (UI) 
606, 726 

Schlick, Moritz: (IV) dados bio- 
gráficos 866, o conhecimento 
866, metafísica e linguagem 
866, o estatuto da filosofia 
868, a reflexão critica 868, 0 
circulo de Viena 868, empi- 
rismo lógico 868, o princípio 
da verificabilhdade 871 

Schmidt, Alfred: (IV) 946 

Schneider, Herbert W.: (IV) 
786 

Scholem. Gerschom: (IV) 948 

Schopenhauer, Arthur: (III) 
dados biográficos 606, obras 


606. o mundo como represen- 
tação 610, a vontade 611, a 
experiência interna 611, o 
irracional 611, o sofrimento 
612, o pessimismo 612, a 
arte 612. aética 613, 626 

Schubert, Franz: (IV) 906 

Schuhl, Pierre-Maxime: (1) 
246 

Sechehaya, Albert: (IV) 966 

século das luzes: (II) 408 

Seligman, Charles Gabriel: (IV) 
849, 850 

Sêneca, Annaeus: (1) dadas bio- 
gráficos 100, obras 102, 
210,219; (11) 330 

sensações: (II) 530 

sensório-motor. estágio: (IV) 
1012 

sentenças-objeto: (IV) 879 

sentenças sintáticas: (IV) 879 

sentenças, tipos de: (IV) 1042 

sentido: (HI) 722: (IV) 812 

sentidos: (TLD) 537 

sentimento: (IT) 475 

ser: (1) 12, 80: (IV) 890, 899 

Serres. Michel: (ID 516 

Sexto Empirico: (1) 214 

Shakespeare, William: (1) 224; 
(LIT) 655 

Shelburne, William Petty, dito 
lorde: (III) 666 

Shiller, F.C. S.: (IV) 842 

Sidegwick, Henry: (IV) 842 

significado: (HT) 722: (IV) 828 

significante: (TV) 968 

signos: (TI) 540, 709 

silogismo: (1) 76 

silloi: (1) 12 

simbólica, função: (IV) 1016 

símbolo: (11)516, (IV) 828 

sincronia: (IV) 968 

sintagmático, eixo: (IV) 969 

síntese: (TI) 298 

Sintheim, Johannes: (1) 190 

sintético: (IV) 1042 

Sirven, Pierre Paul: (LI) 449 

Skinner, Burrhus Frederic: (IV) 
a.- psicologia experimental 
1020, o condicionamento 
operante 1020, esquemas de 
reforço 1021, obras 1022, 
reforço positivo e negativo 
1022, o ensino programado 
1022. reforço e a vida social 
1022.981 

Smart, J. J. C.: (11) 370 

Smith, Adam: (III) dados bio- 
gráficos 546, surgimento da 


ciência econômica 546, o 
mercantilismo 547, os valo- 
res de uso 550, valor traba- 
lho 550, a divisão do traba- 
lho 550,0 liberalismo 551,a 
mão invisível 551, a renda da 
terra 551: (11) 435. 438; (EI) 
558, 560, 562, 646, 655, 
667, 693: (1V) 940 

Smith, G. Elhot: (IV) 858 

sociais, fatos: (TIN) 662 

social, ação: (T[1), 566, 732 

social, contrato: (II) 480 

social, normalidade: (TIT) 662 

social, patologia: (III) 662 

social, reforço: (IV) 1022 

social, solidariedade: (III) 662 

social, vida: (IV) 1022 

sociedade: (TIT) 670 

Sociedade Positivista do Brasil: 
(IT) 656 

sociedade, reorganização da: 
(HT) 654 

sociologia: (TH) 653 

Sócrates: (1) a democracia ate- 
niense 27, o Julgamento 27, 
depoimentos sobre Sócrates 
32, Aristófanes - Platão - 
Xenofonte 32, Aristóteles - 
Diógenes Laércio 33, dados 
biográficos 35, os sofistas 
36,0 oráculo 38,0 diálogo 
38, a ironia, 40, o demônio 
40, a maiêutica 40, a virtude 
42,a alma 42,202 23,50 a 
52,54 a 58, 63, 77, 79.92, 
140; (11) 475: (TI) 626. 627, 
632. 633,635 

socráticos menores: (1) 35 

Soderini. Francesco: (1) 172 

Soderini, Piero: (1) 172 

sofistas: (1) 36 

Sófocles: (1) 36,37 

sofrimento: (II) 612 

Sólon: (1) 49 

Sombart, Werner: (III) 734 

sonhos: (III) 774 

Sorley, Willham Richtie: (III) 
666 

Spalatinus: (1) 195 

Spencer, Gerbert: (III) 660; 
(Iv) 802, 849 

Spinden. H.S.: (IV) 858 

Sraffa, Piero: (IV) Sraffa e sua 
obra 940, a produção de mer- 
cadoria 940, a mercadoria- 
padrão 942, o valor trabalho 
942 

stalinismo: (IV) 928 


status: (NI) 742 

Steele, Richard: (LI) 430 

Stekel, Wilhelm: (HIT) 776 

Sterling. John: (HI) 674 

Sitner, Max: (HI) 602, 689 

Strauss, David Friedrich: (II) 
518: (II) 602, 689 

Strawson, Peter Frederick: (IV) 
1037, linguagem e realidade 
1037, a verdade 1037, a 
metafísica descritiva 1039, 
corpo-mente 1039 

Stuart, James: (1) 346 

subjetivismo: (IV) 818 

sublimação: (HI) 774, 776 

substância: (1) 80: (II) 332. 
354 

Sully, Maximilien de Béthune. 
dito duque de: (IT) 448 

superego: (III) 770, 774 

surracionalismo: (III) 760 

Swift, Jonathan: (D) 263; (ID) 
414, 426. 430, 434, 436 

Sydenham, Thomas: (IE) 347 

Szeminska, A.: (IV) 1010 


T ábuas de investigação: (1) 

258 

Tácito: (11) 330 

Tales: (1) 46,57 

Tannery. Paul: (1) 7 

Tarski, Alfred: (IV) 876 

tautologia: (IV) 914 

Taylor, A. E.: (1) 31 

Taylor, Harriet Hardy: (IT) 
676 

tecnicismo, critica ao: (IV) 962 

tecnocracia: (IV) 804 

Telesio. Bernardino: ([) 242; 
(TD) 386 

tempo: (IV) 891. 1014 

temporais, séries: (IV) 1014 

temporalidade: (IV) 902 

Tencin, Claudine A. Guérinde: 
(11) 415 

Teodoro: (1) 51 

teoria do conceito: (TIT) 716 

teoria dos conjuntos: (TID) 719 

teoria critica: (IV) 958 

teoria econômica: (IV) 802 

Terêncio: (II) 330 

Terra: (D) XV 

Tertuliano: (1) 113 

Teseu: (1) 30. 178 

Thoreau. Henri David: (III) 786 


Tieck, Ludwig: (11) 51% 

tipos, hierarquia dos: (IV) 838 

tipos ideais (Weber): (IT) 730 

Tito Caio: (1) 93 

Tito Lívio: (11) 330: (III) 674 

Tocqueville, Alexis Charles 
Henri de: ([1) dados biográ- 
ficos 582, a democracia 582, 
obras 583 

Toland, John: (II) 46] 

Tomás de Aquino, Santo: (1) 
dados biográficos 1146, obras 
146, fé e razão 146, difusão 
do aristotelismo 148, essên- 
cia e existência 1148, Deus e 
seus atributos 148, provas da 
existência de Deus 148, as 
criaturas: anjos e homens 
150, combate às heresias 
152, idéias políticas 152, 
143. 156. 160.175: (11) 300, 
452 

tomismo: (1) 156 

Torricelh, Evangelista (II) 306 

trabalho: (LI) 550. 694. 70] 

Tracy. Destutt de: (III) 526. 
539, 540, 542,646 

tradutibilidade: (TV) 996 

tragédia: (1H) 633 

transcendência: (IV) 812 

transcendental. dedução: (IE) 
491 

transcendental, esquematismo: 
(11) 492 

transcendental. cu: (IV) 813 

transcendental. unaginação: 
(Iv) 812 

transferência: (II 775 

transponibilidade: (TV) 996 

Traversari, Ambrogio: (1) 201 

Troeltsch, Ernst: (TIN) 734 

Tronchim, J. B.: (1) 472 

Trotsky. Leon: (IV) 796, 816 

Troubetzkoi, Nicolas Serguei- 
vitch: (IV) 970, 1000 

Tucidides: (11) 266 

Turgot. Anne Robert Jacques: 
(11) 437, 456 

Tyndale, Willham: (1) 203 

Tzars. Tristan: (HT) 760 


Ida. H.J.: (1V) 975 
Ulisses (Odisseu): (1) VIL. 
X.XIH 
universais, questão dos: (1) 140 


1063 


Urbano IE: (1) 132 

Urmson: (IV) 1030 

utilitarismo: (|) 255: (11) 442: 
(1H) 668.670 


À 7 alério: (D LO 
Valéry. Paul: (11) 516 


Valla, Lorenzo: (1) 186. 188. 
207, 

valor, lei do: (HIT) 559 

valor-trabalho: (TIL) 550, 559 

valores: (ID 341; (IV) 918 

valor de uso: (HI) 550 

Vaugelas, Claude Favre Péro- 
ges. dito: (IV) 986 

Vaux, Clotilde de: (HI) 648 

vazio: (1) 22 

Veblen, Thorstein Bunde: (IV) 
dados biográficos 802, obras 
802, teoria econômica 802, a 
tecnocracia 804 

verdade: (1) 12: (11) 334, 357: 
(UN) 639: (IV) 791. 882, 
876.912,1037 

verificabilidade: (IV) 793. 871. 
882, 897 

Vico, Giambattista: (1!) am- 
hiente cultural 386, dados 
biográficos 386, obras 387, 
influências 388, oposição 20 
cartesianismo 391, o veros- 
simil 391, o verdadeiro e o 
feito 393, 0 valor da história 
397. ciências naturais e ciên- 
cias históricas 398, a lingua- 
gem 398, linguagem mítica e 
linguagem silogistica 400, as 
idades da evolução humana 
402, a providência divina 
402,44 

vida, instintos de: (HI) 773 

Viena, círculo de: (IV) 866 a 
B68B.871a 873 

Vinci, Leonardo da: (1) 1%: 
227; (111) 776 

Virgílio: (TD) 330. 374.0 434, 
470 

vertes (0) 177. 180: (11) 34]: 
(UT 640 

virtude (areté): (O) NT NNE, 
42,43 

Vitelh. Paolo: (D) 171 

Vitória J: (UI) 554 

Volland. Sophie: (TT) 458, 1460 

Voltaire, François Marie 


” 


1061 


Aroquet, dito: (IT) dados bio- 
gráficos 446, obras 446, evo- 
lução intelectual 450, o em- 
pirismo 450, o ceticismo 
450, o deismo 452, a ética 
452, justiça e liberdade 452; 
(D) 182: (11) 408. 156 à 158. 
470:(111)526,529 

voluntarismo: (1) 120 

vontade: (HD) 611:(14)917% 


W agner. Richard: (II) 

626 a 628. 630 

Wahl. Jean: (TI) 617. 622 

Waismann, Friedrich: (IV) 868 

Waldegrave. Lorde: (1) 414 

Walpole, Horace: (TT) 414, 448. 
472 

Ward, James: (IV) 842 

Warens. Louise Eléonore. Se- 
nhora: (IT) 469, 470 

Warnock: (1V) 1030 

Washington, George: (IT) 570. 
576.578 

Watson. John B.: (HT) 674: (IV) 
1020 

Weber. Ernst Heinrich: (UI) 
TAB: (IV) BL6, 1020 

Weber, Max: (III) antecedentes 
culturais 726, o estatuto das 
ciências humanas 726, expli- 
cação e compreensão 726, 
dados biográficos 726, o mé- 
todo das ciências sociais 728, 
o método compreensivo 728. 
os tipos ideais 730, a con- 
irastação conceitual 722. as 
hipóteses 732,0 racionale o 
irracional 732, tipos de ação 
social 733, a correta inter- 
pretação causal 734, a socio- 
logia da religião 734, capi- 
talismo e protestantismo 
734, o fator ético 734, a 
vocação 738, teorias politi- 
cas 741, tipos de autoridade 
42 

Werner. Jaeger: (1) 72 

Whewell. Willham: (HI) 675 

Whitehead. Alfred North: (IV) 
1040 

Wigel, Ehrard: (ID 274 

Windelband, Wilhelm: (1) 246: 
(1) 266, 375. 526: 41H) 726 

Wisdom. John: (IV) a filosofia 


analítica 1026, 0 positivismo 
terapêutico 1026. o grupo de 
Oxford 1026 

Witt, Cornelius: (ID) 331 

Wittfogel: (IV) 947 

Wittgenstein, Ludwig Josef Jo- 
hann: (IV) dados biográficos. 
906, obras 909, as proposi- 
ções do Tractatus 911, a lin- 
guagem como figuração 911, 
o nome 912, as proposições 
912, as funções de verdade 
912, tautologia e contradição 
914, o mundo e a vontade 
917, os valores 918, a ética 
918, a metafísica 919, o “se- 
gundo” Wittgenstein 920, o 
feitiço da linguagem 920, os 
Jogos de linguagem 920. na- 
tureza e papel da filosofia 
922, 0 legado de Wiugen- 
stem 922. Wittgenstem e o 
Positivismo Lógico 922, 839. 
842, 868. 871, 877. 1026. 
1032 

Witt. Johannes de: (1) 330 

Wolff, Christian: (ID) 486 (IT) 
594 

Wolsey. Thomas: (D) 201 

Wordsworth. Willham: (11D 671 

Wreschner: (TV) 1008 

Wright. Chauncey: (TV) 791 

Wundt. Wilhelm: (II) 660: 
(IV) 846. 1020 


X7 antipa:(D3] 

Z 4 Xenócrates: (1) 68 

Xenófanes: (D) 11. 12, 15. 16. 
213 

Xenofonte: (1) 32, 34, 37. 38. 
51: (II) 674 


Y oung. Edward: (1) 448 


Z afiropulo: (|) 14 

4d Leller: (| 

Zenão: de Eléia (D) 11. 12. 14. 
17. 22, 95, 98. 101. 102. 
219 

Zeus: (DX. XV.98 


PLANO DA OBRA 


Os Pensadores é uma coleção composta por cinquenta e dois livros, acompa- 
nhados por fascículos e publicados quinzenalmente. Os fascículos apresentam a vida 
e as idéias dos maiores pensadores de todos os tempos, desde a Grécia antiga até os 
nossos dias. Os livros contêm as principais obras escritas por esses construtores das 
grandes correntes do pensamento filosófico e científico do Ocidente. 

Encadernados, os fascículos constituirão quatro volumes de uma História das 
Grandes Idéias do Mundo Ocidental, abrangendo a Antiguidade greco-romana, a 
Idade Média, a Renascença, a Idade Moderna e a Contemporânea. Cada fascículo 
tem vinte páginas e todas elas deverão ser encadernadas, seguindo-se a ordem dos 
números de capítulos. As capas duras para encadernação dos fascículos serão acom- 
panhadas de um fascículo grátis, que servirá de introdução aos diferentes periodos 
históricos. Desse modo, cada volume da História das Grandes Idéias do Mundo Oci- 
dental será formado por grupos de treze fascículos, mais um fascículo introdutório. 
O índice geral sairá juntamente com a capa dura do quarto volume. 

Ao final da série, portanto, o leitor terá uma coleção de cingienta e seis volumes, 
cinquenta e dois contendo obras dos grandes pensadores e mais os quatro volumes 
compostos pelos fascículos encadernados. 


ORIENTAÇÃO PARA ENCADERNAÇÃO DOS FASCÍCULOS 


A sequência correta para encadernação dos fascículos de OS PENSADO- 
RES é determinada pelos númgros dos capítulos e, consequentemente, pelos 
números das páginas. Alguns fascículos contêm mais de um capítulo. Isso con- 
fere ao primeiro volume — formado por 13 fascículos, mais a Introdução — a 
seguinte constituição: 


Introdução 
Capítulo 1 
Capítulo 2 
Capitulo 3 
Capítulo 4 
Capítulo 5 
Capítulo 6 
Capítulo 7 
Capítulo 8 
Capítulo 9 


Capítulo 10 
Capitulo 11 
Capitulo 12 
Capitulo 13 
Capítulo 14 
Capítulo 15 
Capitulo 16 
Capítulo 17 
Capitulo 18 
Capítulo 19 
Capitulo 20 


DO MITO À FILOSOFIA 
PRÊÉ-SOCRÁTICOS 
SOCRATES 
PLATÃO 
ARISTÓTELES 
EPICURO 
CÍCERO, SÉNECA, MARCO AURÉLIO 


Cesesecesesesoso. 


da pág. Ia XVIII 

da pág. 9 à 24 
ERR ágio —« da pág. 25 344 
da pág. 45 à 64 
da pág. 65 a 84 
da pág. 85 à 94 
da pág. 95 à 104 


STO. AGOSTINHO . nn ccreceemceemseemeeceneeneoa da pág. 105 à 124 
SPO ANSELMO asa co cae sda atacrscadaça da pág. 1254 134 
ABELARDO comcecenceneccencerce da pág. 135 à 144 
STO. TOMÁS DE AQUINO da pág. 145 a 154 
DANTE da pág. 155 a 158 
DUNS SCOT E OCKHAM da pág. 159 a 164 
MAQUIAVEL pda da pág. 165 à 184 
ERASMO da pág. 185 à 198 
THOMAS MORE da pág. 199 à 204 
MONTAIGNE ca eneramnça da pág. 205 à 224 
BRUNO da pág. 225 à 234 
GALILEU da pág. 235 à 240 
CAMPANELLA «da pág. 241 à 244 
BACON aid si acaso rara ecoa canoa «da pág. 245 à 264 


.. 


Goi 


em ato mm 14 


ORIENTAÇÃO PARA ENCADERNAÇÃO DOS FASCÍCULOS 


A sequência correta para encadernação dos fascículos de Os Pensadores é 
determinada pelos números dos capítulos e, consequentemente, pelos núme- 
ros das páginas. Alguns fascículos contêm mais de um capítulo. Isso confere 
ao quarto volume — formado por 13 fascículos — a seguinte constituição: 


Capítulo 59 WILLIAM JAMES ..........ccccc.. da pág. 785 à 794 
Capítulo 60 DEWEY ......ccciciiiciii da pág. 795 à 800 
Capitúlo-6l VEBLEN Sera E an da pág. 801 à 804 
Caprulo-62. HUSSERL, sra sa AE O ER REG da pág. 805 à 814 
Capitulo 63 MERLEAU-PONTY ........c.cc. da pág. 815 à 824 
Capítulo 64 RUSSELL umas oracao ra da pág. 825 à 840 
Capitulo-65 MOORE essas Dc opisri ori son ge ad da pág. 841 à 844 
Capítulo 66 MALINOWSKI ........ccos ss. da pág. 845 à 864 
Capítulo 67 SCHLICK, CARNAP, POPPER ......... da pág. 865 à 884 
Capitulo 69:SANIHE sa ssa ami cal sida End E da pág. 885 à 896 
Capítulo 69 HEIDEGGER ............cccc. da pág. 897 à 904 
Capítulo 70 WITTGENSTEIN .......ccccccc. da pág. 905 à 924 
Capítulo 71 KEYNES, KALECKI, SRAFFA, ROBIN- 

SONS Ee idade RR Re o ANNA nte RR REED - da pág. 925 à 944 
Capítulo 72 BENJAMIN, HORKHEIMER, ADORNO, 

HABERMAS. sussa RT AS - da pág. 945 à 961 
Capítulo 73 SAUSSURE, JAKOBSON, HJELMSLEV, 

CHOMSKY DER RE code RE Ro SR PAD RD - da pág. 965 à 984 
Capítulo 74 LEVI-STRAUSS ........cccc.c... da pág. 985 à 1004 
Capitulo 75 PIAGET. ssa ada a na a da pág. 1005 à 1018 
Capítulo 76 SKINNER 2 canas tuas eua as da pág. 1019 à 1024 


Capítulo 77 QUINE, STRAWSON, RYLE, AUSTIN .. da pág. 1025 à 1044 
INDICE GERA Ds tos dica ca ERR L E Ce da pág. 1047 à 1064 


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